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terça-feira, 2 de junho de 2026

Miss Sueter

...Ou um texto para quem tentou se matar.

Me lembro de seu cabelo longo e escuro, e teus olhos negros como uma maldição taciturna que não deixava ninguém dormir. Conhecemo-nos novos, por isso nunca pude vê-la como os outros viram, meu approach com você sempre foi diferente. Podíamos ser o que viesse em nossas turvas mentes, porque no fim, (em primeiro plano) um triumvirato, e depois, uma dupla.

Hoje, te trabalhas de alguma coisa num apotecário, ou algo assim. Se perdeu no tempo traiçoeiro das falsas suposições, e acha que está certa no silêncio e desagravo de levar a vida a tons chagados e murmurantes, trilhando a espiral de se imolar por vã questão e estreito espaço de dor que lhe cabe o peito. Esquece de quêm fôste, e ao que na vida lhe benfez, tange nada a lugar algum - o silêncio, que ecoa nas atitudes e ideias vazias, é agora teu dono e mestre. Esquece os que lhe dobraram o braço em nó como companhia; e o pouco do bem-viver que estima vida ‘inda entre tuas mãos, escorre como a água que ao esvanecer, mau lavas teu rosto porque estás a perder por egoísmo e cinismo cego e delator. Perdeu-se, e finge-se irreconhecível para não encarar a vida, cousa que outrora, em nossa juventude, com problemas mui menores - a nível de verdade - lidávamos, vivíamos, e amávamos. Se éramos reis, tu seria a assunta. Éramos amigos, e tu a amorosa, a Dora que faltava em nosso trapiche.

Quiçá você nem se lembre mais de Natalie quando morreu nos nossos braços depois daquela facada quando brigamos com aquele povo no centro, ou quando Bep foi para a Holanda tentar uma vida melhor do jeito errado, ou Rodrigo quando descobriu o câncer que o levou embora; tampouco, há de recordar os estúdios e ensaios, os olhos cruzados na mesa de bar, e as loucuras do centro, sair carregada do bar fingindo desmaio para não pagar a conta e as cervejas dentro de seu carro regadas de conversas cheias de match, ou quando a noite virou dia e as músicas da alpha fm faziam sentido, quando nossos pais morreram, e quando você não acreditou que era verdade tudo aquilo. E por bem da história - modéstia a parte, vos sou crônista, ditoso têmpo, conclamo que proste seus ouvidos aqui - eu lembro. E talvez, só talvez, escrever, além de gravar na eternidade, seja uma forma de denunciar; um grito feito para ninguém ouvir.

O tempo, enfim, foi suspenso no ar; pois no agora, assim eu o quis. Era 2012 ou 2013. Lembra quando encontramos os meninos na frente da estação, dizendo que iam lá protestar não só por vinte centavos, mas por um lugar melhor? Eu ‘inda acho que termos gasto nosso tempo nas cervejas do Xaréu foi mais útil. E no seu carro prata, entre as curvas da estrada, levava-me pelas curvas para irmos na divisa, e ali olhavamos o Céu, e corríamos da segurança, sempre felizes, nunca alegres. Éramos, na forma mais poética, prudentes no erro. E te fiz saber ainda, por último, que aquela garôta do norte não me passou de um pesadelo, quiçá um sonho amargo com gôsto de leucemia.

Marcvs de MMXII: Jogatina, álcool, estádios e serestas.

Menina, quase-indíca-quase-indigena, de kaftan e salto. Meu melhor musk derramado ao pescoço e na jaqueta jeans, e seu floratta que tinha cheiro de desejo e amôr selvagem. Sorriso ameno. Cara de maconheira. Coração maior que os seios, voz aveludada e pele banhada a monange, e um gosto musical que parou nos anos 80. A gente nunca foi naquele baile de samba-rock, não é mesmo? Pena, que agora faz-se tarde. Entre tanta coisa que ainda parece ser tão tardia, tão a se perder…

Volta, se der tempo, e olha as fotos que tiramos, e os sorrisos de quem lhe estima. E se permitir, levanta os olhos, e vê o Sol, deixa a chuva molhar e o vento circundar. Esquece. Pode não parecer, mas após sacudir levemente o saco de memórias do tempo, espero que veja que isso tudo é uma fase, que como tudo passa. De forma bela e precisa nada mudou, apenas envelhecemos e nos tornamos mais propensos a suportar mais. Isso tudo você há de tirar de letra.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Vida Me Assusta(?)

 Após lêr o têxto da Poesia Viva e Morta, a sua pergunta me fez meditar muito; e ao conseguir por as partes nos pontos e depois por completo, me lembrei porque fiz de minha casa um eremitério, e minha jaqueta a minha concha: o mêdo.

Assim como na música do Sá & Guarabyra (Por que que eu me guardo do mundo assim escondido? É coisa que só pode explicar quem vive o que eu vivo), o texto de Doña Jordana me tangeu num nível preocupante: Me alembrou de que eu ainda estou vivo, e afora as preocupações quotidianas eu ainda hesito, e ao olhar o estreito vão que separa a causa do efeito, lembrei dos mêdos desde quando era garôto e o porque da vida me assustar.

A vida me assusta quando olho para os lados e percebo que tenho poucos amigos, e desses poucos são raros os quais compartilhos os mesmos gostos e mesmas sentenças - motivo que até expliquei n’outro texto ido. O futuro me assusta não envelhecer ou pôr mêdo da morte, mas por anseio em perceber que me encontro em estreito caminho da solidão, pois daquilo aonde os caminhos não se cruzam e bôcas não conversam; a escrita posta em letra alivia - momentaneamente.

Ademais, o Sol tão quente que cozinha os miolos; cerveja choca; gente que não sabe ser educada; domingo as nove da noite; fumaça de pastel recém-frito; churrasco bem passado; meu time quando perde; e emprestar um livro e não devolver - tudo, tudo, tudo isso, invariavelmente me causa um medo não por estar envelhecendo ou ser (mais) introvertido (que já sou), apenas por sentir o rumo das situações, e ver a vida como se desdobra e não pôder mudar as atitudes, têmpos, e questões que nos tangem enquanto pessoas. A incapacidade de mudar diante do que acontece ao meu ecossistema.

Se por alguma vez me tendro a não dizer nada, peço perdão - talvez eu não me sinta afã para falar alguma pois meu cérebro fervilha. E se ele trabalha, a bôca se cala e o peito gême de forma inexorável; abrindo-se no vão da alma um corte que tange e não sangra, fere mas não mata. Agoniza. Quando escrevo por maneiras e metodologias, discorro de mim em letras cursivas e retilíneas, e lembro muitas coisas - principalmente das quais gostaria de esconder no recôncavo mais denso de minh'alma. Escrevo mais um tanto, e lembro de um passado da vida, as questões que esbarram no presente, e o anseio do futuro. Eu estou apenas processando fatos, como um microcomputador; e por isso, me pego a transpor para o papel o que minha bôca nunca diria, talvez apenas para os amigos mais amigos de tôdos os amigos, mas não cousa alguma que se diz a Pai e Mãe - cousa que até esses dias até pensei em dizer para minha mãe: não critique a distância que você causou; mas me lembrei que quase nunca ela me ouve, e tampouco entende o que eu gostaria de dizer com isso - passaria eu apenas a dizer tudo do peito, e ela arguiria com um vazio que lhe é tradicional. E por isso, a isolação se fêz presente e danosa. E com isso, entendo mais de mim.

Percebo então, que quando escrevo, tenho tôda a coragem que a vida tentou me roubar em suas atitudes. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Waterfall.

Ele me disse que um bom pastor, pastoreia suas ovelhas em um silêncio. Se você quiser ser um pastor aos moldes de Hermas - me disse, olhando para o vazio - apenas faça da mesma maneira que vem fazendo. O não-reconhecimento é a maior riqueza e glorificação; e de fato concordei; Suas palavras me atingiram com a tenaz em brasa de Isaías e sem titubear entendi que ali havia mais do que o que sempre conversamos e prontamente me recolhi ao silêncio: subitamente entendi que a vida aconteceu ali, e finalmente fui contemplado com o milagre diário da simplicidade, da qual poucos de nós temos a parca capacidade de entender.
Porque quando me vejo assim - perdido diante da movimentação descompassada de meu coração - sinto-me perdido e confuso sobre minhas atitudes e pensares que me magoam ao exigir o melhor de mim para eles; mas nunca para mim, e neste momento é que gostaria de me enroscar no seu cabelo de cheiro de uva como parreiras frescas que descem sem saber porque - mas mantidas em um verticalismo que inerte, provém toda a força; quando atrelados e contar meus medos, delírios, raivas, segredos e sacras no sopé do seu ouvido (mesmo sem o merecer). E morrer nos seus braços olhando seu rosto e ouvindo sua voz me pareceria a melhor maneira de conhecer as Excelsas Nuvens. Me esconder na barra da sua saia como uma criança que tem medo da ira da natureza como o trovão rugindo lá fora, e sentindo o perfume dócil de sua voz, poderia me esquecer de mim para que você m'o cuidasse, com correia, candeia, auxílio, luz e socorro. Ter sua presença por inteiro, e de inteiro a inteiro, por mais um dia com você para menos um dia sem você.
Diz São Paulo o Apóstolo que "quando se é um menino, fala-se como menino; sente-se como menino; e vive-se como menino". Ora, mas no Getsêmani das palavras, aonde inequívocamente elas não pedem licença para nascer, e brotam das têmporas e das velas içadas das mentes que padecem, logo (ei-lo), desemboca da bôca um gôsto amargo dado a profundidade do que se sente no âmago da alma e não se promulga a dar como dôr-de-pêito: o parto do vômito de tôdo um desaguar da vida jogada como caxangá, e lágrimas tão quentes que eiam a queimar e ruborizar a pele, cujas mãos preteridas ao cargo não secam, apenas queimam-se juntas, dissonando naquilo que enfim não tarda a chegar e tampouco a acontecer. É sim, de fato, a violenta força da alma silenciada, abnegada, e furtivamente isolada, filha do ocaso guardada no seu jardim secreto, tendo dentro de si o tudo - o nada. Apenas esperando a ser veramente querida e veramente amada; e deixando de ser a nascente, receber-se enfim, como foz.
Logo, enquão escrevo essas linhas eu me pego pensando no meu passado, e disso pouco me orgulho, e menos ainda me honrando irei a ficar; pois parafraseando o dito Santo "não fiz tôdo o bêm que gostaria, mas o mal que não quis ocasionar, êste o fiz com demasia." Logo, entendo do muito de meus erros, e o pouco de meus acertos no enfim desejo que sempre tive, o dito "viver". 
Entre becos, vielas, estradas, vilas, conventos, casas, ocupações, apartamentos, casernas, moradas, grutas, planíces e desertos, eu fui - e antes que digam de mim, eu sei de mim e das coisas de meu coração (por mais que não as compreenda por completo); e dos lugares que fui, deixei-me num tanto, e levei outros como fiança, e assim, aprendi da vida, e aprendi de mim. Amei os outros, cuidei dos que pude, perdoei como deveria, e peço ainda hoje perdão pela pilha titânica e magna de erros que deixei no caminho.
Se fui quem acho que fui, é longe de mim uma graça Divina ou consôlo pois muitos foram os meus dolos contra mim e os meus. Mas se me atinge a graça Divina e o consôlo da Dôce Virgem Mãe das Candeias, nunca haveria de ser por merecimento meu, mas sim por misericórdia d'Ele; e assim eu me permaneço. Pois tudo o que tenho, tive e terei, todas as coisas nunca haveriam de ser minhas, mas sim tudo foi, é e há de Ser d'Ele. E o que escrevo nisto deixa cair por terra quaisquer outras dúvidas, está completo.
Posto em uma encruzilhada, olho aos pontos cardeais e nada acho, a não ser possibilidades, sem mensageiros que possam me apitar em qual dos cardeais seguir, e se sigo, mantenho-me sobre a tutela de Padre Deus, e espero de mim o mínimo para viver: não ser um babaca.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Ой, мороз, мороз.

Sinto que vens de algum lugar. Percebo que tomas a sua forma antiga - porém cada vez mais atual - e não tarde a vir; logo, espero você e me lembro de tudo o que aconteceu antes de você chegar. Lembro-me sistematicamente do versículo que dizia: Eis que vem, cavalgando como um general em batalha... e não sei até hoje precisar de onde vens ou como vens, mas sinto. Teus sons, formas e côres não me enganam, e eu sei que eles, enfim, me seduzem de certa forma e me inteiram para ser completo, logo quando me encontro num total estado de destruição, destituição, ou desilusão. 
És forte, e mais forte és do que todas as outras.
Se vens então, venha logo. E inunda lá tu a casa, toma a carreira como que de um cometa e invade a cozinha, passa pela área de serviço, a bica, bacia, banheira, e deságua violentamente. Como uma água corrente, vadia, que desaba dos montes apenas para poder ser em êxtase e maestria, fazer ser aquilo que ninguém mais faz, ou é. Aquilo que se cabe. 
Tenho pressa de abraços, de cafunés, e do licor contido no braço. Tenho uma ligeira e corriqueira vontade de ver e viver a vida, entendendo e saboreando os bons gostos que me permeiam e me fazem (ainda) bendizer aquilo que me cabe. O vento frio que bate no rosto e bagunça o cabelo e arma a barba, e que ainda trás dentro do seu bojo um refresco de vida aos pulmões outrora rasgados, mas voltimeia tão vivos, tão safos, tão ansiosos pelo porvir...
E não esquece de mim como esquece o tempo de seus percalços, tampouco das coisas que ficam pra depois, e num bolsão de espaço se guardam. Tenta - ao máximo, vão e vil contexto daquilo que cabe lá na mente humana - lembrar de mim com uma singeleza, o beijo no rosto que se dá antes de sair pra vida, cair no mundo, e ver o  Céu mudar de côr. Recorda-se assim, de mim como cousa alguma que se esforça, se estreita, comprime e benfaz, mas ainda sim não se comprime a ponto de se deitar em uma resma digital de escrever. 
Se me caibo numa linha, me acabo em um texto, e tampouco morro num catraco, mas renasço num cansaço que nunca morre.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Phone Call

 Sinceramente, gostaria de não exisitr.
Tampouco, de pisar meus pés na casa do Senhor.
E mais além: de ter conhecido as pessoas e vivido a vida - sinto, em mim, a vida pesar como um jugo que cada vez mais oprime e chagueia tudo aquilo que tenho. Como diz Paul Rodgers em Heavy Load: "estou trilhando um longo caminho do qual não aguento mais".
Queria ir ver o mar da Villa da Conceição de Itanhaém. Sentar num quiosque com a Mari, falar merda e ouvir pela enésima vez como ela sentia medo da introdução de "Judas" do Raul Seixas. Queria ver de novo o Sol nascer no alto da torre do Seminário de Guaratinguetá. Mais ainda: Queria me sentir vivo quando como bebi homericamente no Coloniafest, ou quando durante uma tempestade de trovões, desci até a água do mar com meu pai, e entre os trovões e o mar ressacado estávamos nós bebendo rum oro para se esquentar e cantando Pink Floyd no talo. Gostaria irremediavelmente daquele frio na barriga do primeiro dia de trabalho em Barueri, enquanto o meu leal The Who ecoava nos tímpanos, e da primeira vez que entrei no Largo e senti (e veramente senti) Deus falar comigo. Falaria mais e mais com Adriano, e ouviria mais vaporwave com ele. Daria os meus santos dons para ver Dona Antônia mais uma vez, ou rezando seu impecável "Ofício da Imaculada Conceição", rezado com o têmpo nas mãos, ou passando roupa cantando a Consagração a Nossa Senhora.
Não voltar ao tempo por questão de saudosismo, mas pelos momentos-chave que me deram - e dão - a alegria de ser quem sou e estar onde estou. De finalmente, após tantas batalhas, doenças, peste, erro e morte finalmente me sentir ainda vivo; de utilidade perene, sem ser o quem paga a conta, ou quem deve um sexo, tampouco quem tem que ser o espiritualmente forte, ou quem tem que ter uma piada vergonhosa na manga da bata. Ser apenas o Marcus. 
Não tenho sonhos, e nem pretensões - e nunca pretendi as ter. Deixo que Deus me leve como Ele quer, e que faça em mim o plano d'Ele, mas sei que mesmo que não tenha mais com o quê e para quê brilhar, de alguma forma muito teimosa, continuo - não por mim, mas pelos pouquíssimos meus que ainda dizem ousada e debochadamente que sou boa pessoa e que tenho boa índole. E como pode lá eu ter boa índole? Conforme noticiado algumas vezes neste bRog, as pessoas de Itaqvera não tem nada disso, e por isso eu as amo: de felicidade e tenacidade ferrenhas, e delas eu também sou um. Apenas, por um leve momento, gostaria eu de descansar; longe de todos os problemas, dores, aflicções, medos, raivas, cansaços, inteligências, seduções e dizeres. Queria talvez pela inédita e ridícula vez aquele amigo que me liga desesperado para saber se preciso de algo como eu inúmeras vezes cansei de fazer com todos os meus amados (antigos e novos); pois no Getsemâni em que me encontro, não me há anjo consolador, só solucionador que no fim não sabe solucionar porra nenhuma porque ainda não entendeu qual forma de vida e sôb qual pena carrego em meus ombros.
Transcrevo essas linhas entre lágrimas, pois esse sou eu: Eis, ó malditos! Não me escondo, e minha lira rasga suas carnes e minha forma turva vossas mentes! Se vivo pela regra de Francisco, é porque assim denuncio e escandalizo cada um de vocês; e rio feito criança de vocês, Grãs Doutos, que dizem tanto e sabem tanto, mas no fim são mais vazios do que o coração do insensato. Se vocês não se metem a viver a vida como se deve, viverão eternamente na condição de erro, e eu, por mais que alerte por via de exemplo ou deboche, não consigo ir mais além que isso - não me dóe vossas palavras contra mim, mas o que mais machuca, enfim, é vocês sempre acharem que estão certos.
E a minha sorte, é que pus meu coração no thesouro certo. E de alguma forma ele ainda me vale mais que tudo.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Красно солнышко.

Espero pelo meu bem. 
Estou d'outra margem do rio que repentinamente cruzou.
Será que a água corrente, de fato atormenta, ou seria a turvação das barcas que lhe afligem? Será de viração o vento que afasta, ou será Ordem Celeste, que os braços não se abraçam? Deve de ser morte, frio, peste ou mágoa. 
Que não tenha demora, mas que venha. Que tenha pressa, mas venha a safo.
Fiz um tendal, apôsto três chamuscas: uma para a comida, uma para o luzeiro, e n'outra, para esquentar seus pés na entrada. Peguei suas comidas favoritas, trouxe seus mantéis favôritos, e guardei meu melhor cheiro para desaguar no seu abraço. E a mais devota Ave Maria rezei a cada dia, cada vez mais forte e nociva, para que a Mãe se compadecesse. Desci até as estrêlas, e subi até os mares, e afogando meu corpo no gélido corrediço, fiz as pedras me solavancarem, e fiz meu corpo âncorar. Peixes dançam ao meu redor, e lavo-me como se não tivesse pressa.
Vêde, ó rio, que por teu comprimento, em quatro pedaços te cruzava, mesmo sem força, mesmo gélido, mesmo sem barca, mesmo sem ter com o quê. Mas como mal posso comigo, inflijo as dôres contra ti. És imóvel e corre com depressa fôrça e raiva, e enquão lavo as roupas, desescamo peixes, lavo as pratarias e águo o ginete, és de vileza. Vêde, que separas o amor em quatro pedaços, mas se tal fôsse minha força (não só), lhe dobrava pela fôrça que ergo, e da cólera que padeço.
Há uma fumaça, tal qual a minha, na nôite que se escureia. Ela é fumegaz e se nota na outra barragem do rio. Pode ser de salteadores, de heróes, da comitiva, ou de pregadores; será que hão de ver que aqui também fiz três chamuscas? Sê bendito, Deus, que após tantos mantéis para coibir o frio, amanhã veja o amor me repousar em seus braços; e ouve-me, Mãe, trouxe até a lã de novilho para ser travesseiro para seus cabelos negros e sua cabeça agitada. 
Mas um dia, que agora começa garoando. E que com rapidez apaga as chamuscas. E que com determinação faz um vento que derruba meu tendal. Com o vento, os mantéis se dispersam pelos ares... o cavalo, assustado com os relâmpejos, apenas foge para a barragem acima, e eu, sem ter mais lágrimas para chorar, deito sobre mim a lã de novilho. 
Não demoro, meu amôr, logo chego.
Sê bendito, Deus Eterno, pois é só a água até os pés, pois o corpo tôdo já me encharcou por tua chuva. Chego-me a tal ponto que se misturam gôtas d'água celeste com minhas lacrimosas orações, enquão a água deita-se em meus jôelhos. A lã, em minhas costas agora toca o rio que estranhamente cessa a corrente, parecendo estio ou hora de cheia. Olho e pareço chegar mais perto da outra margem, enquão a lã chega pela sua metade molhada e dobrando o pêso. Respiro e não choro, pois meus olhos estão no nível da água. Faço-me âncora para te esperar, amôr, quando voltar. Te fiz três chamuscas, e morrendo de saudades me enrolei na tua lã de novilho para te abraçar uma última vez e te ter em lembrança. Agora, sou âncora posta submergida de vontade própria. Sou irmã das pedras cheias de lôdo e dos peixes que serei repartida como refeição, e com minha saudade e tua ausência, faço daqui minha morada. 
Não tarde a voltar. Posso não estar aqui, mas estou aqui.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Disco Eterno.

Achei uma foto tua na minha carteira. 
Enquanto eu olhava os documentos geraes, achei uma 3x4 tua. Vi seus olhos, sua boca, e seu cabelo. Foi inevitável sentir um tipo de arrepio pela espinha, e mais ainda foi difícil sentir algo que fugia a realidade terrena de um momento. Um momento incrível, clichê do clichê.
Que que se há de fazer, afinal? Apenas suspirei e ri por um momento, e me amarguei. Lembrei do Bôm Tempo. 
Assusto-me (de fato) com a distância e paradoxalmente a presença, e estando tão longe me encontro aqui, agindo então entre o silêncio e o oculto da mão, abro os dedos então para tocar um canto novo nas cordas de meu violão; e os pássaros, pousando no beiral da minha janela, cantam comigo um solfejo e brincam com as migalhinhas que deixei para eles se fartarem; faço então o mirar pela janela enquanto dedilho uma nota menor, e dou uma risada enquanto o bemol das cordas me seduz. A vida, enfim, se faz presente em cada recôncavo; e olhando para mim, ainda eu com o oldre vazio - e com uma pequena dor - deixo o meridiano para depois para enfim (fingir) sorrir. Entre nossas vidas, cruzam-se linhas, algumas se acertam, e outras se delimitam. Umas se tangem, outras são paralelas. 
A vida torna se oca, vazia, ainda com tonturas, ainda com tristeza, mas ainda sim é a vida. Sigo, mas não sigo por mim. Sigo pelos meus, e aos que amo e estimo como se fossem meus; ainda que por pouco tempo. Por mim, não seguiria e ouso no tanger não querer mais, e de fato, mantenho-me pelos peixes, pelos olhos, mãos, Cecília, flores, incenso e azuis. E qualquer coisa além do que eu digito aqui é mentira; assim como a saudade que sinto aqui expressada é a pura verdade. O prazer que tenho em viver é vão e inútil, pois quando perde-se uma parte grã e vital do querer, não se pode ser reposto ou transposto em outro qualquer. E quando se perde a esperança, desmorona-se. E por isso decidi parar de me tratar ou cuidar. Quero deixar de ver o Sol nascer, pois apesar dos motivos de ir, me cabem mais os motivos de ficar.
Quero aquela velha praia nublada, a chuva, os trovões, e os gritos no saveiros ornados com porres homéricos de coca-cola com rum montilla. Quero a lira, a pena, a glosa e o pendão. Quero, finalmente, deixar as lindas garôtas ouvirem, e deixar os Céus turvarem. Espero a vida depois da vida como quem aguarda com esperança a batida de maracujá antes da feijoada dos heróis. 
Dada a mão aberta contra a brisa suave do tempo, no estio das passagens do ar corrente entre os dedos, seguro o tempo e a razão, e o peito, não - deságuo como herói, já sei ser verdadeiro como o que Habita em meu peito ensinou - e não troco ou denuncio aquilo que meu peito guarda em Glória e Excelsa verdade, pois antes de mim O era, e antes de O ser, Se fez. E aos que se dizem reis, a estes cabem a terra temporã, pois quem carrega um Verdadeiro tesouro, divide; e estes, tão donos da verdade e de razões, se perdem. Graças a Deus, eu vou morrer, e eles, infelizmente vão morrer. 
Se realizo minha sorte, faço de mim casa e estrela. E estando em mim, permaneço de copo e cruz. Abro os braços em riste, enquão funde-se em mim as chagas e os bálsamos e a vida. Abro os braços em forma de rendição e deixo o Sol queimar a pele alva que me faz casca, e quando vejo os primeiros goteijos da chuva, me sinto vivo, ou talvez safo - principalmente esguio. Lírios na mão, estrêlas no Céu, e descalço, vejo a imensidão de uma cidade que desce e sobe aos olhos pela sua imensidão.
E chove pela madrugada. A dor não me deixa dormir.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Entrevista ao zine ¡Ahi Gabriel!.

 (N. do E.: Texto traduzido da entrevista ocorrida na segunda passada para Vicente Garranzón para seu zine de leitura underground argentino ¡Ahi Gabriel!, que sairá em veiculação na última semana de Julho).

Perfil: Marcus Queiroz, 30, Brasileiro, mas acha Garrincha melhor que Pelé. Escritor de mão cheia, mantendo há 15 anos um blog de crônicas de sua vida pessoal, poemas e textos de virtude e sentimentos bem precisos. Em setembro, lança seu primeiro livro: "Entre as Cidades", de trama gostosa e envolvente, de estilo eclético e bem trabalhada com palavras de acesso direto ao corpo da história, que gira em torno de cinco amigos, tomamos a frente e o entrevistamos com a exclusividade clandestina de sempre falando de seu panorama geral, perspectivas, forma de texto e amenidades, confira:

Legenda: AG (¡Ahi Gabriel!)
MQ (Marcus Queiroz)

AG: Marcus, obrigado pela disposição em falar conosco! Em primeiro lugar, gostaria de dizer que você continua sendo um dos melhores escritores underground do Brasil, e como você mesmo escreve, da Piratininga!

MQ: Obrigado, Vicente. E fico feliz em ter acompanhado este zine ter nascido lá em 2015 e tanto tempo depois estar sendo entrevistado por ele. É uma boa alegria!

AG: Diga para nós Marcus, como se deu o processo de "Entre as Cidades"? Ele se encaixa em alguma corrente literária?

MQ: Bem, é um livro de pequeno teor, creio que ele não esteja em algum tempo literário. Mescla um pouco da vida, com alguns valores alegóricos, mas nada puxado para algo absurdo ou que não possa ser sentido por qualquer um - a ideia é justamente dar ao leitor a sensação de história fácil, que pode ocorrer na vida de cada um. Eu literalmente tive um estalo e pensei "ok, vou escrever um livro". E assim nasceu num raio de seis meses.

AG: Eu admito que quando li a parte um achei muito interessante, mas na segunda parte eu perdi o chão. Você considera esse seu magnum opus? Porque para uma obra sem ambição nascida em seis meses, ela tem uma carga muito forte.

MQ: Na verdade, não Vicente. Para mim, "XXVII" ainda é meu magnum opus. Foi uma das poucas coisas autorais que consegui trazer do seminário ainda em tempo quando saí. Para mim aquele foi meu melhor trabalho. E ainda continua o sendo.

AG: E eu sei que é um assunto que você evita falar, até mesmo com o saudoso Ali do Cosmos, mas, e os outros dois livros anteriores? Você realmente não os tem? Não seria interessante podermos lermos também?

MQ: Grande Ali! Deus o tenha entre os justos! Bem, os dois livros foram um fiasco! (Risos), eu perdi muito da esperança de escritor neles, e o 1° livro ainda tem uma ligeira parte solta no blog - fragmentos para ser exato. E o 2° livro que tinha o nome de "O Segredo do Sol", para uma surpresa minha, eu achei completo numa arrumação, e fiquei até feliz de ter visto, mas não penso em publicar ele, creio que vai contra muita coisa que hoje acredito, e talvez a opinião pública também não gostaria.

AG: Tudo bem, mas depois me deixe conferir!

MQ: Claro, lhe envio! (Risos)

AG: E sabemos que infelizmente você está doente, mandamos daqui de Argentina nossos sentimentos de cura e melhoras. Pelo visto, você também deixa transparecer um pouco em seus últimos textos sobre seus sentimentos nesse quesito de sua vida pessoal. A sua escola literária também transparece muito no que você escreve. Isso é intencional?

MQ: Olha, intencionalmente nunca foi, mas não deixo de ser influenciado pelas minhas leituras. Isso é para qualquer escritor que se enquadra também num foco de leitor. Atualmente tenho lido muito sobre teologia, e depois disso me inseri num contexto de back-to-roots, aonde eu poderia transitar entre meus tempos literários.

AG: Devo admitir que as suas últimas postagens, no caso as cartas, estão de pro-forma impecável, e de uma realidade translúcida, porém desesperançosa.

MQ: Não podemos ser fantasiosos o tempo todo. Por isso aboli alguns termos do meu glossário pessoal - a Feira da Renascença, por exemplo. Era uma figura de linguagem que amava, mas abandonei.

AG: Eu adorava a temática de contraste entre a Feira e o Crepúsculo...

MQ: Idem, mas partir do momento que um texto deve ser acessível, devemos ter palavras mais cabíveis ao entendimento, tal qual as expressões e figuras.

AG: E os planos para o blog, Marcus? Quais seriam as metas para o futuro? Você conseguiria manter ele num processo de curto prazo enquanto trabalharia num próximo livro, por exemplo?

MQ: Creio que sim, sabe? Eu não estou afim de escrever mais um livro, e creio que "Entre as Cidades" não teria uma continuação ou ramificação - ao menos se Teresa (personagem do livro) fosse uma raíz que interligasse os dois. E enquão isso, eu preciso até de certa forma do blog para ir escrevendo coisas aleatórias para ir aliviando a cabeça ou praticando outras escritas; o meu gênero de escrita favorito ainda é a Crônica de Ordem Social.

AG: Marcus, não duvido que você seja capaz de fazer e manter isso. E me alegro muito em ver o blog em definitivo e em aberto. Para um leitor de primeira viagem, sua escrita é totalmente fechada, mas no seu livro pelo que percebi você usa uma linguagem acessível e dinâmica. Tem algum motivo?

MQ: Bem, na verdade o blog é mais um alfarrábio meu. Caso eu esteja com Alzheimer no futuro, ali é um lugar que eu posso entrar e sair, transitar tranquilamente sem ter como todos perceberem entre as minhas memórias. A minha sorte foi ter escrito de forma reclusa, com palavras arcaicas e expressões tão minhas que até quem acha que sabe do que digo, se engana! (Risos) E quanto ao livro, bem, livros tem que ser acessíveis, não?

AG: Com certeza.

MQ: Então é por isso que escrevo dessas duas formas.

AG: Marcus, quais os planos para o segundo semestre deste ano?

MQ: Bem, divulgar o livro, escrever o máximo que puder, e aguentar firme até a festa da Transfiguração. E agora podendo tomar uma cerveja


AG: Marcus, uma pessoa singular de humor sarcástico e de grande verdade, leitores! Uma honra ter você nessa edição de ¡Ahí Gabriel! E esperamos poder fazer uma resenha longeva de seus escritos.

MQ: Vicente, mais uma vez agradeço pela chance de falar um pouco de minha trilha literária, e espero que você possa gostar de meu livro. Assim que eu terminar as prensas, lhe envio uma cópia física.

AG: Eu agradeço, amigo. Uma última observação?

MQ: Apenas agradecer pelo carinho e o convite! ¡Paz y Bién!

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Feira Moderna.

 Hoje estou em vigília, enquanto velo o sono de meu terceiro pai. 

Seu sono ressona em toda sua casa assim como o som oriundo das ruas, e como parafraseio a banda: "enquanto os gritos dizem, os acordes tocam, estão dançando nas ruas"; e eu, por um leve momento pensei ouvir Yes tocar. 

E as pombas, se aninham em conjuntos nos parapeitos das janelas, e eu as vejo daqui. Elas me fitam esperando um sonoro alguma coisa de mim, e eu, apenas as fito em união, espiando-as num ninho improvisado de concreto e união, enquão a mãe pomba adula seus filhotes embaixo das asas e os pombos maiores cercam os filhotinhos de rato voador.

A noite cai na cidade velha, e agora são poucos carros que tocam a passar nos viadutos e ruas - estradas nuas aonde se pode ver no sossego do crepúsculo o asfalto e dar-lhe um descanso. Eu rezo um terço, e olho a janela, que brilha e incandeia uma cidade que incandeia o meu peito e que me dá a esperança de dias melhores e nunca me decepcionou; fundada pela conversão de São Paulo, a Vila da Piratininga sempre se mostrou em constante progresso, conversão, mudança e acompanhamento. 

E a janela, de meu coração, está com as luzes apagadas e entreaberta para a luz invadir o quarto e matar os ácaros. Luzes acendem, apagam, e transmutam, como lâmpadosas verticais e estrêlas postas em vértice na terra - mas ainda sim a luz não se ousa extinguir, ou se por embaixo de um alqueire.

Vejo os livros da estante - teologias maçantes, pesadas, dignas, edificantes e sérias, vejo as estrelas do Céu, e vejo vivendo a mesma situação em novo cenário, perspectiva e prisma. Fico sentado na cama e vejo a noite envolver tudo e todos, e notando as voltas do ponteiro, meu pensamento se desloca em mil lugares, pessoas, coisas, e temporãs; troco a resposta pelo silêncio, e repouso. 

Abre teus braços, amor, que eu 'inda tenho um pedaço de Deus (eu adoro essa citação d'O Terço!), e guardado em teus braços, olho para dentro de mim e vejo tanta coisa, que silencio no eleio dos teus abraços, aguardando de teus carinhos de teus dedos finos que acariciam minha pele, e de teus olhos que me tangem, e de seu canto que me refrigera. E foram mulher, tantas batalhas, tantas lutas, tantas horas da solidão, e tanto desarranjo, que quando vejo minhas obras, as cousas que edifiquei, os mortos que sepultei e os caminhos que tomei, me sinto forte e magno, de fato até mui sábio. Tristes e difíceis começos sempre terminam em finais gloriosos, como dizia-me a Velha sibila sábia enquanto engomava a calça. 

E foi um difícil começo. Agora, espero - assim como o fim dessa noite - o fim glorioso. 

Pax et in terræ. Amen.

domingo, 1 de maio de 2022

Poema.

 Acordei agora pela madrugada. São quase quinze pras duas.

Sonhei com você, que usava com uma máscara assim como nos teatros gregos, que na forma sorria, mas abaixo da máscara você chorava e tangia a tristeza.
Meu coração contraiu, e eu me lembrei do bom tempo.
E agora, na madrugada que cai pela cidade, me pergunto: será que você também lembra de mim, e seu coração também se contrai?
Será, de fato, que você vão vê e não sente o amor que emana de teu peito? Que antes de tudo, o amor é a tríade da doação, da caridade, e do cuidado? Não sentes que você precisa ouvir a voz do coração e deixar a razão de lado, porque está faltando algo? E, que de tudo e de todos, o seu amor por mais que tente o silenciar, ainda está aí? E que esconder esse amor ou silenciá-lo também está a me machucar?
Tenho passado dias difíceis, mas Deus tem me aliviado o peso com seus anjos e santos. Você pode não estar passando por dias difíceis, mas sei no teu coração que eu ainda estou volta e meia circundo teu pensar. E está tudo bem, também está no meu. E, por favor, vêm-me-vêr. Ando precisando de você mais do que imagina e numa proporção drástica; tenho tanto a te contar daqui do cativeiro que você não imagina das coisas que ocorreram - as boas e as ruins.
Nós nos cuidamos, nos protegemos e batalhamos um pelo outro desde sempre, se você me lê, te peço que venha ter comigo com certa pressa, não só para eu ter um bom dia, mas para aliviar um pouco e extenuar o peso da vida. E se você quiser, ainda tenho guardados (e acumulados) todos os chameguitos para você, desde massagens até cafuné na cabeça.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Aqui.

 Quando vêm essa noite tão densa,

que me trás vozes e falsos-peixes,
minha carne vibra e meu olho incelensa.
Sinto-me triste, fustigado, cansado e desiludido,
e dá-me o prazer de não-ser e não-existir,
para ter (e dar a) paz (a todos a quem feri).
Quando olho a janela me suspiro pelas maravilhas da Destra criadora,
mas me sinto usurpando o local de outra alma,
vivendo algo que não é meu,
atrapalhando algo na vida de cada um que me circundeia.
E o gôsto férreo da morte me parece mais belo e valioso,
pelo simples fato de só saber ferir/magoar/machucar/tanger,
E sentir (saber?) que não se é suficiente/digno/justo/bôm.
E minha alma se cala enquão as carnes tremem.
Sinto que meu desserviço aos meus e a mim mesmo só aumenta.
Tento me aprazer mas esta densidão teima em me arrodear.
E por ter escolhido a água e o viño me apego mesmo que haja absência.
E me sentindo só, inútil, triste, e incompetente, sigo.
Talvez,
quando você estiver lendo esse trovejo,
eu estarei não querendo viver mais.
E te peço desculpa, de coração, peito aberto.
Não me sou assim porquê quero.
Talvez a vida - as chagas ou as pessoas - me imputaram a isso.
Me perdoe por favor por estragar o cenário.
Sou da lira e da pena,
por isso denuncio tudo o que sinto em lêtras;
mas,
se puderdes e quiserdes fazer algo por minha pessoa
(cousa da qual duvido muito)
vos rogo que me abrace forte, incandeiamente.
Diz-me das cousas bôas que obrei,
dos sorrisos que arranquei,
do amôr que cativei,
da lágrima que estanquei
(se é que o fiz algo assim)
e segura-me firme e não me deixe morrer de minhas mãos.
Olha meus olhos e vêde minh'alma suspirante,
que entre o sufrágio e o mítigo, fel e têz nêgra,
mantém-se sem saber porque se mantém.
E se tiverdes essa paciência e virtude por minha pessôa,
vos rogo que,
por mais um momento,
me manterei,
aqui.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Mambembe.

Boi não voa, my baby, é proibido por lei.

Disseram-me dessa negativa nesta bandeira passada, enquanto eu descia os montes e circundava as serras, mais sinuosas que o corpo da nêgra deusa de cabêlos nêgros, que era inviável: Boi voador não podia. Desci mais um tanto, e vi as pessoas me olhando de tôrto e direito, e vi que meu canto ainda estava só. Minha escrita, ad ibdem.
Mas, se boi voador não podia, porque então o canto não era livre? E tudo o que era contrário ao livre, era associado ao Boi Voador?
Que nos dizem, pois, os profetas então sobre isso?
Acaso pois, os profetas, também não estavam a sós e viviam sós? Aguardando a hora da morte, ou da santidade, e quando se perdiam em explicar ou expiar as situações, não levavam chumbo da ávida multidão, e não eram ouvidos, tampouco lidos?
Que nos diz, pois, o mundo?
Nada de novo contra o Sol, de fato. Ainda tento numa vã motivação por em letras o vaticínio de escrever, mas não me importa, pois letra dada não é letra lida, e os que dizem estar ao lado não sabem – disse-me êntre os brônquios, em segrêdo, que só é lido quão môrto, heróe ou dado de insensatêz. De fato, o estava certo. Talvez, no post-mortem meus dados textos, crônicas de ordem social, admoestações e garrafas-ao-além-mar façam sentido.
O santo, o profeta, o homem, só se torna depois de môrto. Devia de ter notado antes que a desventura da torrente de lêtras pegasse-me pelas ventas e deitasse-me no colo da mãe preta de côxas grossas, seios fartos e orbitantes, e olhos suntuosos que emanam prazer e raiva, como se necessitasse de minhas carnes para agora, adjunto meu suor, penar, e reter.
Ai de mim, Piratininga, só sou teu príncipe.
Deus vos Salve, Kali Durga, deusa selvagem de seios que pesam em minha fronte, enquão faço de tuas coxas meu travesseiro, e o teu cheiro de cinamomo sexual me confunde entre o sim e o não, mas não me permite o talvez. Deus vos Salve, deusa da morte e do sexo, que no confronto entre o conforto, me rouba o arfar e o gozo, e estando eu no sopé da morte, urjo vida, e quando me sinto vivo, me enfeitiça com a campa funda. Kali Durga, se me lancina com a morte, que eu vos pegue como uma cadelinha pela última vez, pois se for de morte, ao menos te carregarei comigo num último segrêdo – que todos sabem. Mandei escrêver no mural, mulher.
Carrego minha bolsa e meus pensamentos na mesma forma e maneira, mas não entrego a ninguém aquilo que coube a mim. O pendão que hasteio, faço de maestria que ninguém haveria de ter ou ver igual; admito entre o riso de orgulho e triste que sou único, mas sei dentro de meu pequeno e pobre coração que sou altamente passível de substituição – e os que me amam, podem amar outros, e os que me confiam, podem confiar em outros, e os que me olham, podem olhar para outros lados.
Sei, que sou inútil em termos eternos, e Kali me lembra disso a cada beijo, sussurro, beijo na nuca, olho no olho, ou quando move seu quadril para frente enquão empurro com força; tua cara rejante me mostra a dor e o prazer, e na morte se faz foz da vida, não é mesmo, deflorada senhorinha? Sei que quando esse enlace acabar, não há o que me segure ou prenda, e por mais que eu tenha posto muitas âncoras e raízes, elas são içadas e arrancadas.
Sei, que no fundo no fundo, como todo bôm coração ruim, não faço diferente/diferença para nada e ninguém. E talvez – com a benção do Bôm Senhor – depois de morto, alguém lembre que eu tentei ser alguém.
Um carinha. Maneirinho.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Muchacha (Ojos de Papel).

 Ela acordou, deitou ao lado, tirou a coberta e pôs os pés no chão, talvêz tateou pra achar os chinelos, ou algo assim. Deitou o jarro e pôs água. Olhou o horizonte e viu o tudo e o nada, se arrependeu e seguiu em frente, cumpriu o básico e se perdeu no espêlho da ilusão: amou sem amar.

Tenho visto que 21 é o anno de minha vida, e é também o anno em que deuses voltam a andar sôb a terra, e injustos morrem antes de ter a alma silênciada: As coisas estão têndo têmpo e eixo, e meu coração se alegra: É têmpo de esperança, e pôde ver do alto do átrio que êles também se alegram. Santo que intercede também comemora a graça alcançada. 

Preciso de uma cerveja. Preciso ir pros campos, ou ver o Sol nascer, preciso de um disco nôvo, e ouvir aquele síncopado, preciso ouvir aquela corvina cantar, e preciso urgentemente que ela sente no meu colo me dando minha cerveja, e se entrelaçando em meu pescoço, me dê um abraço e diga aquilo que preciso ouvir. Ouvir o que uma mulher que ama ao seu homem diz. As verdades.
Meu Deus, que saudades daquela bunda.
Era uma bunda bem estruturada, como a cintura era, e o rôsto bem ornado, de sorriso bonito e de olhos que escaneavam minha alma. Ela me toma de assalto quando (nas raras vêzes) olha nos meus olhos. Eu só queria, realmente, que ela me notasse.
Eu só não queria ser eu mesmo por um dia. Deitar e não acordar. Go out for an eternal lunch. E eu anatemizo a mim mêsmo, pois eu quebro as cadêias do degrêdo enquão digo coisas sem sentido, significado, razão ou porquê - luto quixotescamente contra coisas que bem sei que não acontecem aos que se ocupam moendo o trigo.
Ele quebrou a lira e denunciou os algozes de seu têmpo, guardaram em si tôdas as côisas, e minaram dele a virtude, amôr, caridade e fé. Sobrou a carne, e traiu ele a própria carne com o espírito. Da traição, fez a fidelidade como mãe. E ele ousou, fazendo da morte o seu pendão - e o quão sortudo quem faz e vive dessa sorte. Quatro homens trasladaram seu côrpo, e o morto ria.
Desaguou de seu pêito água e viño, e quem sentiu o cheiro de alecrim no vento não entendeu, e as mulheres que ouviram, choraram, os homens que confiaram manearam a cabêça, fizeram da morte ponto de glória - sendo que devia sê-lo honrado em vida. Fizeram tudo errado, e ainda hasteando o requiém, colocaram a culpa no imóvel. 

...E seu coração, sem água e sem viño, secou e endureceu, assim cômo ele o pedia nas suas orações mais sinceras.

sábado, 8 de maio de 2021

Snowdance.

 Será que você pensa em mim, talvez como eu penso em você? Que eu entre os marronzinhos penso num carmelo, e de lá do lado do morrete do carmo, você pensa num marronzinho? 

Em algum dado momento dessa história, seu coração vai desaguar tudo isso, e largando de lado essas coisas tão banais, separatistas e desnecessárias, e será que ao abnegar disso tudo você vai se render nos meus braços? Será que no meu cativeiro, seria você que me desataria a cadeia e diria: Toma a capa, veste e vêm? É você por quem eu esperei há tanto, há muito, há dentro, ou devo ainda deixar meu coração preso no baú dentro do mar férreo? Diz-me que é a mulher que anda pela rua sem mêdo, bebe da fonte, e deságua na foz de minha bôca.
Jorra-se água e vinho. E é a vida.
Não sei não fazer planos, e não sei me apaixonar sem desaguar em mim tôdas as alegrias de ter alguém, tanto como dentro de meu lado oculto sei de minhas inseguranças, de meu mêdo, e de tôda a mágoa que cabe naquele grito dos 15 últimos segundos da canção grafada. Eu, sabendo de mim, sei de tudo ao meu redor, e eu me conhecendo, sei das texturas, gestos, côres, e das coisas que os profetas, anjos, primeiros e menores falaram. E antes deles, sei de mim. Me ponho como um na multidão, esperando que você me note, mas pelo visto há de demorar, ou talvez seja apenas um paliativo enquanto o seu homem não vem.
E não tem nada não, está tudo bem assim mesmo, apenas deixe a regra do jôgo clara, e eu me declino do que me pede. Me vale a paz do que esse entôjo, me vale o amôr do que essa amargura, e me vale o êxtase do que esse destêrro. Lágrima jorra, coração sabe porque, mente arquiteta pensar, e o carrasco de si mesmo o acusa com régua, para que a régua o meça. Não há nada de decente ou justo, é só a vida ocorrendo, e é normal, talvez até comum.
"Você se lembra daquele dia, no Rossio, tomando as mãos de gesso na tua, aquêle pedido? Você pediu, e talvez não tenha pedido direito. Nem tudo que nos transborda faz bem, alguns transbordes são para nos afogar - matar, sabe? Distingua a água do vinho e não tenha mêdo: Tôdos morremos e tôdos sabemos de si. Mas Deus, nessa hora se faz o Juiz, testifica e setencia quem é diferente."
Faz frio, um cachorro ronca, e os instrumentos se calam. Gostasse eu que minha mente se calasse, que meus pensamentos não me traísse, e que meu coração fôsse ao meu favôr. Gostasse eu que não fôsse meu primeiro juíz e carrasco, e que o pêso da história (constatação do fato) não penasse contra mim.
O têmpo, implacável perfeição advinda de Deus, sabe de mim, de meu coração imperfeito, e dá a razão e a lágrima. Andando contra o vento, sozinho, o vento não fala - carinha, o vento não corta - abraça, e o vento não desarruma - conta um segrêdo-de-pé-de-ouvido. A lágrima cai, e independente do que se há, é de lágrima, e nada mais, é apenas o desabrochar do mêdo. Saber de mim e saber de minha ferida e imperfeição: Vêde êles; tão lindos, belos, beberrões, saudáveis, com suas posses e empregados, e presentes...
...E eu esguio, de pés cansados, feio, desarranjado, sem posses, sem empregados e ausente.
In vera veritas; Não sei falar de amôr mais, perdi a mão dos versos, mas ainda deságuo minha dôr e mêdo por linhas como ninguém, e sei de mim e minha condição, aceito-a, e considero-a. De fato, as vezes também me sento com os da tribuna e rio de mim mesmo co'eles, afinal, é engraçado: Não há quem me ame, ampare, ou console, e tampouco sei que não sou aprazível para mulher alguma, tampouco sei que sou de boa companhia e trato, que tenho muitos defeitos (físicos também) que não são os que mais podem me ajudar neste quesito.
Eu lembro da vida, de quem amo e estimo, e choro.
Não há quem se arrume pra mim, tampouco há quem se adorne pra mim, e está tudo bem. Há quem se adorne pros outros, e infelizmente está tudo bem. E infelizmente, meu coração mais uma vez pena, geme, chora e tange.

E não há nada, absolutamente nada nessa vida, que eu não quisesse mais do que a morte.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

El Derecho de Vivir en Paz.

Quando eu morrer, desejo uma chuva torrencial, daquelas que tanto eu senti em meu corpo, e que tanto me acobertou e há tanto me lavou, e sozinho na estrada, caminhou o caminhar, e manteve cegamente o foco na Intangível Luz. Desceu-o até a mina d'água, e lavou os pés, colheu frutos para mais dois dias, e murmurou qualquer palavra.
Sozinho ficou, sozinho manteve.
Cegamente, pus uma Fôrça Maior acima de todas e tantas coisas na minha vida, e logo vi que a Cruz sempre pesa, sempre dói e sempre se mantém inerente, e na nossa caminhada, são poucos os que nos compartilham o peso e o carinho para com quem carrega o madeiro. Ao pôr todos os meus problemas ao pé da Santa Cruz, senti a minha cruz pessoal pesar, e meu coração, desaguou água, vinho, e pus. E ninguém realmente quer nada, nem amizade, nem amor, nem carinho, nem união. Um só quer mandar no outro, e só quer tomar espaço, e se sentir importante, e diminuir. E ninguém se importa em manter a vida em paz, quer poder apenas deixar a vida de outra pessoa esmiuçada e a ponto de pó para assim subjulgar o outro. Assim como eu, no rés da vida, cansado, destituído e no rés da morte, me encontro em face com o que não me assusta nem me amedronta. Se este é o que enfrento, ecce vitae.
Cada dia mais, a corda se arrebenta e eu, ansiosamente espero pelo desterro, pois, se nasci para o fim, a fôme, peste, erro, morte e maldição, eis o filho amado do degrêdo em sua mais completa tradução, pois, se a carne ainda vale mais que o espírito, eis aqui o filho amado do degrêdo, pois se a merda da sua opinião vale mais que o silêncio e a sua opinião pacífica, eis aqui o filho amado do degrêdo, pois se o seu julgamento só beneficia a você e os seus, eis aqui o filho amado do degrêdo, pois se me tomam tudo o que tenho, e aquilo que nunca me tomarão me ameaçam, eis aqui o filho amado do degrêdo. Arrombaram meu peito, e não me deram conforto ou cânfora, deixaram me no sopé da porta, e eu, sentindo minhas veias quentes, soltei o último grito, e com os dedos ensanguentados, escrevi meu Credo In Devm. Se os cães farejam mêdo, não hão de me encontrar.
Deixei, ticoliro, uma canção no vento, hás de ouvir quando sentir ele carinhar teu cabelo, e quando ele estiver te cortando em frio, será meu abraço deformado e desajustado - se eu não posso te ter, deixo nas coisas que amo, cápsulas do meu amor para você, e quando sentir, não teme, sou eu.
Deito na cova funda, e deixo a carne, e dijunto ao que chama meu nome estarei, longe de tôda essa sujeira, desses nomes cristãos, dessa falsa verdade, e desse falso argumento, se o peixe morre pela bôca, pelas espinhas morrem quem come quem fala; Doravante, morre mais ainda quem não sente com tôdas as máculas do peito; Doravante, morre mais ainda quem não vive com tôdas as máculas do peito; Doravante, morre mais ainda quem se rende a idiotice quem não se faz íntegro com tôdas as máculas do peito; Mais além, morre mais quem usurpa da vida do outro e não se regenera com outrém com toôdas as máculas do peito.
Faz o baixo ressonar, Ada. Toca ele forte, e bate a 4ª contra as três, a harmonia nada mais é do que um acorde tocado tôdo, só que dedilhado entre a 3ª e 2ª corda. Acorda, menina, geme, chora e grita! Bem-vinda a vida, a vida que te entrego e dou, e não lhe tomo, tampouco associo a minha, a vida que direi que é tua, só tua, e de mais ninguém, a vida que te será válida e digna, que nunca te passe por onde e o que passei, e que se te houver em cruz, que Deus me ajude a ter prudência para ajudar a segurar os pesos contigo. Sê bem-vinda, Ó Cruz querida.
Interpelando o Apóstolo menos querido, mas ainda sim pertinente: Cá vós, malditos porcos hipócritas, vocês também morrem, sangram, cagam, e têm medo. E de vocês eu rio, pois tomam de mim tudo o que tenho e possuo, roubam-me de mim mesmo, mas, de mim nunca roubarão a melhor parte de mim, que vocês fingem conhecer em orações e congregações. Vocês vão morrer, e sentirão o peso de suas faltas. Vocês vão morrer e vão sentir a libra se medir, vocês vão morrer e eu vou ver vocês, vossas máscaras cairão, e seu sono eterno não será velado, e eu mostrarei a vocês que tôda a minha Cruz, hoje é meu ariete.

...E, ainda na epístola galácia: ACASO EU ME TORNO UM INIMIGO DE VÓS PORQUÊ EU VOS DIGO A VERDADE?

domingo, 7 de abril de 2019

Rock, Baby, Rock.

A garôta não existe mais.
"É invenção do vento", disseram-me êles, assentados sobre os tamboretes, apesar de poucas vozes ouvirem e muitos ouvidos falarem. E ninguém quer saber se muito ou se pouco, apenas quer saber e ir atrás do que convém. E eu, fiquei para escanteio, fiquei para depois, deixei para outro dia, empacotei e quis saber se dá pra entregar ao remetente.
Ah, coração traiçoeiro, que bate e bate e não chega em compasso sincopado. Te orienta!
Talvez até estivessem certo, eles. Afinal, nem eu botei fé, e com os ombros cansados contra a maré, hoje me deixei ser um da correnteza, e ao parar de reter, não sinto mais a vontade de entender, de fazer saber, tampouco de fazer a vontade prevalecer. Quero agora é ganhar no grito, quero é bater na cara, e gritar mais, quero e tudo de cerveja, de skol. Quero é ver a geral piar e apoiar na arquibancada meu alvinegro, e voltar para os pontos riscados no chão de Seo Fábio, e lembrar o nome de tôdos os boiadeiros, para me valer daquela antiga reza para quem me acompanha. Quero é ver meu nome no Céu, e não aceito menos que isso. Quero tudo o que reneguei, porque isso não mais me valeu, o Céu sobre minha cabeça não tem mais heróis. Apenas pessoas iguais a mim, que quanto mais as chamo, mais parecem longe, distantes, inóquas ao que digo - e mesmo eu falando latim, elas inda sim não me entendem.
Sorria, enxuga as lágrimas, recusa a porta e estreita e vai viver, guarda a pérola e vae viver, que a vida é boa, e os deuses sorriem ao teu favôr.
Quero emagrecer para entrar na calça de baile, quero a bota engraxada e a camisa engomada, tirar a barba e cortar o cabelo em três pôntas. Quero os anos de Start de volta, e as coca-com-montilla, as meninas de saiota e fred perry, botinha e riso maldoso, quero as andadas atrás do boteco mais barato, e o riso aberto, imortal, isecular, que nunca vai morrer, e vai se gravar na coxa das moças e no fígado dos amigos, quero tudo que me cabe por direito, e mais além: Quero que calem-se as bocas, e que se entendam os sonhos. Quero a vida por vida, a minha vida por direito - que ninguém nunca toma, rouba, fere ou mata. Quero o gemido louco e desenfreado de gozo, quero tudo aquilo que me foi prometido e mais do que foi, e dessa vez não me dou o direito de dividir, quero para mim, e para minha tumba, pois se muitos juraram sobre ela, nela habitarei e nela tudo o que for meu por excelsa garantia, lá estará - pegará quem quer, sobreviverá quem eu deixar. Eu sou o vento.
Deixo minha humildade a quem se inteirar da verdade, e meu matulo a quem quiser carregar pedras, meu paladar para quem quiser comer sal, e minha alma para quem quiser contemplar Deus. Deixo minha vida para quem quiser bater de frente com o inefã, e deixo meu segredo ao Prometido, pois só Ele tem direito disso, como acordado na Ceia Mística, e as garôtas deixo minha motriz sexual, para que quando alguém as tocar, seja eu o primeiro, intermediário e último pensamento. E de menos, deixo meu afago a tôdos os caninos da rua, e quem quiser me sentir, vai me achar no Centro Velho, ali na São João e Barão, nos botecos, nas lojas de discos, nos sorrisos, e tudo mais que de bom e infinito que houver.
Eu quero o aboio de meus avôs nordestinos, tão amados, estimados, queridos e amados como todo o povo da Correntina! A benção, Vô Francisco, A benção, Rainha Dona Antônia!

Eu quero o que é meu por direito, só que dessa vez eu vou mandar buscar.

sábado, 23 de março de 2019

Apenas Um Rapaz Latino-Americano.

...E foi embora junto com a blusa, foi embora junto com o sorriso, e com a vontade de mais uma vez ir ver as flôres daquele jardim, e foi embora como muitas vezes foi embora. Foi de mim que saiu a virtude de continuar a viver. Pensando bem, saiu de mim o início para sair dali o fim.
Em cada altar do meu coração em que ergui um altar para você, eu vou o demolir, e para cada oração que fiz por nós dois, abrirei meus braços pedindo a verdade aos Céus, e para cada sorriso inocente, deixo uma Luz que incandeia na estrada, e para cada dôr, aprenderei a lidar, como sempre tive que lidar, e deixar mais um rastro de conhecimento para ninguém, mais uma gama de planos jogados ao vento, casa que foi planejada na areia fofa, e sonho que nao vou sonhar mesmo.
O sôm dos sinos é aonde guarda a minha verdade. É onde nunca deixei de ser meu.
Dona Antônia, que falta me faz. Seus 89 anos batidos nos meus (quase) 27 iriam ter a regula certa do que fazer neste momento. Sua mão, tão sôfrega e torta na minha, durante o Ofício, me diria algo que me faria pensar melhor, meditar, considerar, ou ao menos olhar ao meu redor e me desafogar daqui. Véa, a vida anda sendo pesada e dificultosa, não venho me mantendo, e sinto cada vez mais das dôres que lhe dizia. Ouvir sua voz agora seria mais que bálsamo, mas o melhor presente de aniversário. E por mais que eu saiba dos "ricos que pisam nos pobres", e os "bem-aventurados os humilhados", e "fazer seu melhor e esperar, pois tudo tem seu tempo e sua vez", mas, franciscanismos a parte, minha Véa, quando vai chegar a minha vez? Quando minha chaga irá fechar?
Percebo, mais uma, mil, vinte mil vezes, que ainda me entrego, e não me reservo, ainda sou temporão em tudo que faço, e mantenho meu melhor. Percebo mais ainda, que as pessoas nos olham como peso de prumo, e nunca como pessoas que sentem, olham, falam, e por isso nos tratam com objetificação, daí, consigo somente pautar a tristeza dessas linhas assim. Talvez Dona Jorgina estivesse certa em algunas aspectos. Alguns.
Eu só queria dizer nesta crônica de desabafo que meu peito dói, mas, que não vou seguir sorrindo. Minha fé ainda me ajuda a seguir, como a todos acontece, mas, hoje em diante me reservarei mais, voltando a ser aquela isolada, vulcão inativo, perdido no oceânico, que quase ninguém sabe que existe. E que a meta pra esse ano, não é mais chorar (lágrima última que foi derramada hoje), e sim rezar, pensar, e entender os planos de Deus para hoje - e sempre; Afinal, fui eu mesmo que pedi na oração de sempre: "E Que eu só leve alegria a tôdos os corações", não é mesmo? Então, que assim seja.
De resto, que o têmpo flua. - Que as lindas garôtas ouvirem, e que o Céus turvem ao meu favôr.

Kyrie, Eleison.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Runaway.

Ela acorda, revira na cama com as mantas apregoadas ao côrpo, o cheiro de dormida e o Sol quarando seu côrpo. Alguém abriu a janela antes que ela despertasse: Está na hora. É mais um dia aonde tudo que não poderia, pode, e o que pode, há de ser mais ainda.
Ela levanta, toma banho, o velho novo cheiro de dormida dá lugar ao cheiro de sabonete, e a avenca que depois perfuma o restante. Escolhe qualquer roupa, e sai para o primeiro ponto. Senta-se, lê, predica, e vê, labora - os sorrisos denunciam as ações, e mesmo que ela não queira, corações grandes machucam grandemente. Não, não quebre um oldre de barro, menina. Não o jogue fora. Sorrisos carregados de olhares vagam pela cátedra onde o púrpuro rosa reina. A voz que acalma e atiça, é a que peçonha; Um bocadiho não faz mal, mas mais mal faz do que mal pouco. Ninguém sabe, ninguém vê - a Deus tudo vê. Por quanto tempo rondaras a essas noites vazias? Até onde a estrada vai dar para você (não) ser do jeito que é?
Ele deitado, tenta-se levantar, lê, olha, ora. Respostas demoradas, descompassadas, anos inteiros jogados no lixo dos dias. Ossos que doem. Imagens que fitam, testemunhas do que se passam na carne e alma, no pescoço um voto, no coração uma certeza, na cabeça um falso brilhante. Uma música gira na cabeça, e os olhos turvam. Do outro lado da cidade, a segunda parte da libra pesa de uma forma inacreditável, aqui, apenas se levanta para acender uma vela. Eia a candeia.
De um lado a oração, do outro a ação.
O silêncio que permeia é o veneno dos pensamentos, e o silêncio que permeia é a ausência. Pode estar fazendo como não está, o cheiro da avenca está se disseminando no ar, no riso, no cheiro, no beijo, no caxangá, e a falta do ar o corrompe, eles falam de amôr e Tarrasca Guidón, Marian.
É tudo o som das guitarradas no ar, ela brinca de amôr enquanto o escapamento solta fumaça no ar, e enquanto a garôa cai, há um beijo sem um casal, e um abraço incompleto - nada é (tão) real. A ausência da resposta evidência algo na mente, e mesmo que não se entenda, lá no fundo se sabe, a respiração afundada embaixo da água quente. E que evangelho é esse que a própria igreja não leva aos que necessitam, e que Deus sabe da verdade, e que beijos são esse que matam a cada íngua boca-a-boca, e que dôr é essa que não dói em mal algum? E que pôvo é esse que por carregar o dinheiro acha que a tudo pode, a tudo faz, e tão impune faz? Que síndrome de Oséias é essa ao povo, e que chaga é essa que nunca fecha, só aumenta e corrói? Que me faz isso que me corrói? Que me corrói.
Eles falam de um amôr impossível, e pregam uma realidade falsa, e rezam sem rezar, dizendo que estão certos, mas quando deitam a cabeça no travesseiro sabem que não estão, nunca estiveram, e mesmo quando estimarem saber algo sobre o que "pregam" nunca saberão, a avenca some do alvo corpo, já com cheiro de alguém, e um sorriso vazio no corpo esmaecido de outro cheiro - agora marinho, e nada é real, ELES FALAM DE AMÔR QUE MORREU, e das coisas do Céu, mulher. Descem pelo Rossio em canções lindas que só cortam um coração pesoroso. Isso de dizer em exaltação já cansou, e ele olha pela janela imaginando como era ser marrom. Ela olha pela janela, e pensa se amanhã de manhã será o mesmo ou outra coisa nova, uma nova atração, um novo a descobrir, e as estrêlas somem sem dizer se é a chua que arma, ou se no brumeio da tarde cai o Céu.
Você pode me dizer, Abba, se as coisas que predico são tão reais quanto as vejo, ou se tudo aquilo que finca em minha mente deveria morrer comigo, e eu deveria adentrar nessa caravana aonde não me reconheço, nem me pertenço, mas vejo cada vez mais que tenta me englobar - eu não vou deixar de ser meu, mas peço a Deus que a ávida multidão não me veja com essas armas de malícia. Que essa multidão, ao me tocar, não me macule como eu não tirarei deles o direito de se pertencerem. Que eu passe invisível e intocável a tudo o que não for Luz próximo de mim.

...E que eu só leve alegria a todos os corações, Amén.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Caravan.

(I)
Alguém está me chamando por diante de minha caravana
Não consigo ver seu rôsto, mas seu sorriso me acalma
Quero lhe encontrar
Preciso lhe falar...
Os flashs da rua movimentada,
irá pretender me separar?
Um perfume esvanece no vento
você já passou aqui então? Antes ou depois de mim?
O vento bate forte contra o meu amôr
Trovões se apregoaram - chove lá fora, bem sei.
A multidão deve passar por mim
Devo eu debandar dessa caravana?
Minha amada está além de mim
(as questões me passam solfejando)
Devo eu ficar nesta caravana?

(II)
Levaram-me embora - tomaram minhas mãos
Chorei sorrindo alegrias, frias como a campa larga
Sobrou-me apenas o Céu, penou-me a terra míngua
Aonde você dorme, acorda, e a incógnita permanece
Onde você se esconde nesse mar de gêntes
Por quê não te encontro?
Nada parece tão certo quanto sua existência
Nada parece tão errado quando não te conhecer
Todas as ruas sabem você
Todos os ventos te abraçam
E eu te espero; Padeço; Despeço; Esqueço; Desapareço.
E é bem provável que você não me veja
Ou esvaneça - não interessa nada
São todos erros meus,
são todos grilos meus
são todos pesos meus.
É tudo culpa minha, e eu não estou afã
Apenas pensativo; Álias, êste problema é seu.
Se cuide e boa noite - sinto sua falta
Corre pros meus braços, é tudo culpa minha
Deita-te do meu lado, e não diz nada, palavra alguma.
Coisa alguma.
Tudo se transformou, tudo se refez.

(III)
Qual terrível sina no peito da dor,
faz-se criança pra fugir da dor
Corre para seu leito na clausura do têmpo
Se isola do mundo pois o amôr dói nos ossos
Ninguém pode sentir
Os Céus (não) irão turvar
Os anjos irão chorar
Acorda para trabalhar diante de toda essa dôr
Sorri para o resto da vida
Dói, mas vai passar(?)
Segue a nau de gêntes, sorri mais um pouco
Bebe que isso passa, logo vai mudar
O cheiro vai perseguir os têmpos de sua alma
O AGNI PARTHENE!
Tem pêna de mim
Se a Cruz pesada fôr, me ajude a prosseguir
Cuide de tudo o que tenho, ajude-me a sentir
O que carrego no peito: Tenho, fui e sou.
E de tôdas as dôres, forma-me a ser quem sou
Quebra-me no meio, e restaura meu valôr
Pelos azuis mares, navios caem e morrem
Deus Vos Salve muher, cujo beijo é ignóbil
Se tens que me deixar, que sejas bem feliz
Aquela que nunca conheci a fio-de-espada
Nesta vida eu ainda vou te amei.

domingo, 3 de março de 2019

To Zion.

Vêde, que as coisas ao meu redor desmoronam, e como Jan Palach continuo a rir frenéticamente de tudo, pois assim me faz bem, me é melhor, e me ajuda a passar pelas trovas de dôr e dor e dôr e dor e dôr e dor. De repente, noto que as flôres daquele jardim morreram há meses, e só me importava o cheiro, hoje apenas as cultivo por qualquer motivo de menor afanismo. Algo irá acontecer, me rasgará como o Véu do Santo, e eu nem ligo. Só quero não estar aqui.
Não me importo com os dias. E sinceramente, não posso evitar de não me importar com a vida e com as coisas ao meu redor, apenas, mais uma vez, dessa vez, eu deixo os Céus caírem sem me ver, e sem me perceber, burro e bobo trafego na rua, e como o deferido Carneiro môrto no madeiro, me deixo sangrar, sem que ninguém perceba, pois no silêncio eu aprendi a viver. Aprendi tanto de tantos que esqueci de mim, e ao me esquecer, deixo-me morrer a cada esquina, a cada copo, a cada beijo, a cada sorriso distribuído, a cada Kyrie, a cada benção sôbre a terra, e pior: A cada rastro que deixo, sinto esvanecer um pouco de mim, ficando nada por nada, e deixando as lindas garôtas não mais cantando, e não mais a sentir o Céu turvar.
Sinto-me próximo do encontro do meu amado, do que me amôu primeiro, e irei de encontro a Êle sem me preoucupar com ninguém, nem nada, nem se deveria ou não, o vento bate forte contra o amôr, e eu irei deixar esta caravana. Caio do degredo na areia fofa dos têmpos, deixando-me saber quem sou. Sou dono de mim, e faço o que quiser.
Entendo da glória dos Céus, mas não entendo a glória dos homens, e sinto Deus cada vez mais perto de mim, mas não sinto o vento das fôlhas ou o lancete do inimigo, e nem a mão lançada da amada, mais uma vez, dessa vez, pela milésima vez, me apresento ao Deserto de Cemal, aonde vago ser ter quê ou por quê(m). Devo eu deixar essa caravana. Eu não quero nenhum Cadillac.
Você lembra do dia em que andamos pelo Rossio, e o frio tocou minhas mãos cortadas, e atrelado no cabelo, segui a fôlha que caiu do Céu? Lembra-te do dia na praia, com o velho genitor e a cerveja gelada? Lembra do show, aonde sozinho foi  mais que a multidão? Lembra-ti, da vida antes da vida, e do tempo montado no tempo, e de tantas coisas? Lembra de quando você tocou para todas aquelas pessoas? Ou do 1º abraço de Bep? Lembra-te de alguma glória cativa? Lembra apenas que você é homem, e como homem deve permanecer.
Pelo sôm, te dói no peito, e a cabeça quer dormir, por isso você escoa em lágrimas poucas - porém pesadas, e assim você se faz o último de Terceiros. Você sabe que o peso da sociedade lhe faz sentir coisas que você adoraria, mas, manter o mundo sendo mundo, é mais doloroso do que manter sua cabeça em ordem. E na Ordem, nem tudo está em ordem.