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quarta-feira, 20 de abril de 2022

São Paulo, São Paulo.

 Bença, Véa.

Sou eu, o Marcus. 


Manda dizer que o neto da retirante tá morando no centro, perto das igrêjas que a Véa gosta, e que aqui nem faz tão frio. Venta, mas nem esfria de verdade. Só venta. De madrugada é lindo, e o Sol nasce tímido e de repente toma conta de tudo deixando dourado e contrastando no insulfilm das janelas dos prédios; um barato.

Sei, Véa, que Deus sabe de tudo, mas tenho que dizer que algumas vezes não entendo os planos e porquês, e mesmo quando eles se explicam com o tempo, ainda sim fico com nós na cabeça - creio eu que deva apenas deixar pra lá, né?

E foi um difícil começo, Dona Antônia, viste daí, e a senhora puxando o cordiço de Santo Antônio me deu fôrça, ânimo e me ajudou a seguir. Agora, estando melhor e batalhando pra melhorar ainda mais; ainda faltam mais algumas coisas, mas com fé em Deus e na Imaculada logo tudo se ajeita, e espero que daí a señora aplauda com orgulho o tanto que estou saindo com glória desse desterro. 

Já tem um pseudo-armário, já tem um tamburete, um tapete e uma cama-de-paiol. Tem quadro de Santo Antônio e uma cruz que cuida e protege reinante tudo pra aqui somente estar e viver com Deus. Acho que a señora ia gôstar daqui, eu acordo tôdo dia com os sinos do Largo, e tenho umas árvores bem defronte a minha janela - mas sem passarinhos pra cantar, infelizmente...

A cercania é bôa, já fiz conhecidos e já até mesmo benzeram a minha casinha. Coloco sempre um som (aquelas cantiga bêsta como a señora dizia), e faço o que tenho que fazer. Aqui é perto de tudo, principalmente do meu coração. E numa madrugada, já vi pessoas andando na rua; e sim, é mui seguro, nem precisa se preocupar! De vera!

Obrigado, Véa, por tua dôce reza e me ensinar com os dois ditos populares que é sempre têmpo de vêncer e ir adiante. 

Sua benção, Rainha Assunta. 

Do teu, em amôr e saudade;

Marco Venicio.


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Os Argonautas.

Mãe prêta, deita a moringa no teu colo, e serve a água do tibum-gadum do copo arêado no açude. Côa nosso café e dá um pouco pro têu hômem. Põe teu xale e tira a carne do dessalgue, vê o Sol subindo da barra e estende as roupas no bateio. Água meus olhos em ver-te, monumento vivo da história viva, mãe da guerra e felicidade - de punhal aberto na mão, e afago ligæiro na outra, me cariña e corta meus cabêlos, Dalila moderna. Corta-me e me devolve a fôrça ee maneiras singulares.
Evoco as allegôrias, mí(s)ticas, e delas me envolvo e velo, zêlo. Dá-me, nêgra, o seu licôr embôjoado na tua moringa, dá-me, nêgra, teu amôr.
Extenso o camiño, forte a estrada, doloroso o penar, e seguimos. Meditamos na medida e zeramos a reza, e os joelhos se aprendem a rezar, e as bôcas deixam de beijar: se tornou a convivência. Doeu.
No fundo eu sou um belo de um panaca.
Ai, que quêm me diz que o amôr morreu, me explica porque das 24 horas dêste dia, concentro as 30 na tua pessôa, e porque quando me calo para me fazer presente, sinto-me a trair no que creio, nos meus ideaes e cousas que rondam meu coração. Ai de mim, Guaratinguæta, por estar feliz e triste, e não entender mais de tudo. Apenas manter a forma, mas o conciso e concentrado ser vazio - atenuo aqui a minha forma de dizer e pensar, e logo elogio os olhos que tangem das linhas. Encontro-me perdido mesmo estando a me encontrar, estou sentado na mêsa, com cerveja aberta, sôm, cômida e esperando minha pessôa chegar, descer do Rossio e vir têr commigo.
De fato, o Frade Eterno tinha co'ele as razões.
De fato, havia em si mil razões e mil motivos.
De fato, e minhas justificativas?
Eu queria, ao menos, ser fêliz.
E ser fêliz por completo, não utópicamente, tampouco pela história, mas daqueles que olham a mulher nua, deitada na cama, e sabe que dela lhe têm o amôr. Ó estrada sinuosa e maldita, da qual meu coração se estreita e passa o passo. Entrego a mim uma tristeza, pois é o que no momento sei dizer e fazer. Meu coração começa a terminar de desaguar água e viño, e seca. Uma lágrima cae de meu ôlho.
Não sou eixo ou ponto, não possuo pôrto-seguro em meus braços, e dado o visto e o momento, não sei fazêr bem a ninguém. Sou filho de qualquer revolta e táciturníco na luta, luta essa que aprendi a amar, e não fui de voluntário. O meu pastôr sabe que eu sei que Êle sabe das armas que carrego, e cabe a Êle decidir se sou água ou se sou viño. De mim, sei tanto que deixo aos outros acharem.
Me cabe o silêncio, para que ao menos ilusóriamente, eu ainda ache que serei notado em algum momento.

sábado, 16 de novembro de 2019

Lucky Seven.

memento mori
Ah, vai dizer que você não sabia que a morte é o princípio da vida, e que nada se começa sem se terminar? Vai me dizer que você acha que simplesmente tudo está aqui, suspenso no universo e nada aconteceu antes e nem depois? No escuro da noite, o norte do que vacila é uma oração - e o quanto mais se questiona mais sabe. No fim das contas, zerando a reza, o que sobra do homem é apenas a carne exposta e um coração que sangra: Ecce Homo! gritaram da platéia, e o palhaço, de íris-esmeraldina mete os pés pelas mãos e o mar verde é submarino, o cordão que aperta o pescoço é seda, e o que é velado, também sabe velar; Não dizem nada das arquibancadas, mas quando se desce para ouvir o universo, todos tem um palpite, uma coordenada, um conselho, e no fim do juízo, quem aconselha o conselhereiro? Afinal, de certo deve saber que a sapiência é dom dado e multiplicado quando dividido, mas, quando empirizado e descartado como vantagem, a burrice é o pé da soleira.
Até agora, os anjos continuam a voar pelo Céu e se distânciando de aviões e ônibus espaciais, então nossas bençãos estão garantidas; Os olhos ainda lacrimeijam de raiva e de lágrima, e não se ouve, não se sente, não se vê, no côvado de um banheiro, toda uma raiva se externa com as santas águas bentas do chuveiro - onde os touros de basã sentem mêdo, ali não me acharão, e vou mais além; Profeta de mim, sabia muito bem e antes de minha sina, e marcado por meu vaticínio sabia do que aconteceria, e parafraseando a velha senhora: Deus dá e Deus tira. As coisas, o tempo de convivência, tudo, é apenas um tempo de aprendizagem, mas Deus dá e Deus tira. As pessoas dão, e as pessoas tiram. E se o significado não difere, então é Pessoa.
Abaixo do Céu, a nivelação vem para todos, e a morte não nos faz irmãos. Pois sim, a vida. E enquanto a vida não vem, habitam verbos na boca, e se os verbos se conjugarem errados, corações se quebrou, se caminha pela estrada certa, sede seus passos firmes e bólicos, e deixa que o tempo mostra. Quem não tem tempo pro tempo, tem medo e raiva. Quem não tem tempo pro tempo, tem medo do êrro. Ainda existem coisas boas na terra, e por mais que andemos, ainda tem-se um cajado para seguir.
MAS em flôr, já cantava o Profeta, elogiando em sua trova uma Fôrça soberana tudo o que acontece, e vendo do passado, louvou os que seguem por agora, sabendo que a porta estreita ainda dará louros de glórias e lavras para quem quer a messe em ordem. No final das contas, as contas foram pagas com preço alto, e ao firmar os passos na estrada, esquecemos que o passado é passado, mas ao olhar a marca de nossos pés, vemos o quanto mudamos, e o quanto temos que melhorar: Louvamos um Amor, e machucamos quem amamos com aspereza e superficialidade, damos o Céu mas sem esquecer de firmar a terra sobre nossos pés - da adversidade nasce a razão, e da falta de pensar e da crítica nasce a ignorância e a adaga, que carregas atada em suas mãos, para cada vez que me vês, com teus abraços e mão-a-mão, penetra em mim. E no dobrar dos sinos, na raiva do metal que tina sem mêdo, minha alma grita em desespero, e na surdez do tinar eu sou ouvido enquanto as mãos limpas, tem sujeira demais, e as mãos sujas são as que merecem o bornal com a farta cornucópia.
memento mori