Se sinto falta de algo, é de teu pouco tamanho, e de teu cabelo escuro, que por horas me enforcava, e por horas me incensava e me deixava dormir como um rei. Do cheiro in natura de sua pele, e da naftalina que emanava que você nunca sente porque nunca entenderia...
E de verdade, se calo o estreito que comprime meu peito, não de mal é; pois, apenas ainda me excluo como sempre me excluo de todo o tudo, pois sei que não pertenço, e qual a receber o prêmio de consolação, aguardo ansiosamente. E digo isso não por maldade - pois a palavra não dita, mulher, é lâmina que tange, e não me extenso em explicar, porque estou cansado; e a cada cansaço meu, estará vós o dôbro - mas entendo a condição e ainda sim a aceito.
E de ti? Silêncio.
O vago silêncio monstruoso do Leviatã que ronda até hoje na beira da minha cama, ou onde quer lá que eu durmo, com sua bocarra satânica a me espreitar; e eu, anti-argonauta, Caronte por natureza navego não por ter mêdo, mas por necessidade tênue que me extingue, e se me foge a dita palavra, peço que gentilmente olhe minhas atitudes, pois ali provavelmente resida mais do que qualquer peixe que saia de minha bôca. E minha bôca, em qualquer situação resulta em chamar seu nôme, tanto como mulher, como mãe, para que me escondendo embaixo da sua saia, eu possa me refugiar do mundo em suas coxas e suas mãos. E que na fumaça dos tabacos e incensos, eu cada vez me esconda e morra dentro de você, para que antes que eu diga ou profira mentalmente a sentença, seja você a juíza que ostentando em punha a vista espada, execute. Não por ser me submissa, mas ó mulher, pelo fato de ser minha, pelo fato de segurar-me em teus braços, e natimorto, desfalecendo, e perdendo as ribeiras de minha carne, você possa, enfim, ver a luta até aqui e suturar minhas feridas, e lutar por mim como ostensóriamente* eu tendro a lutar por vós.
Eu devoto minha vida ao seu legado, mas você não vê.
Por mais que saiba de meu desejo de ir embora, permita então que antes que eu vá que o seguro entre nós seja o trato feito e bem calculado - dito isso, ao menos encanta-se em mim mais uma vez e decanta essa alegria e salva-me deste mundo quaresmal de dôr aonde Superman e suas ideias tão loucas parecem tão necessárias. E digo vos, não por necessidade, mas por um apêlo, aonde meu coração tão pequeno estreita em suas mãos, e o esmaga sem perceber ao ignorar ou descasear situações tão pequenas a vós, mas tão grandes e significativas para mim.
Estende, logo, seus braços e me esconde, e assim como nus, deitados n'quela cama, no pôr-do-Sol, com a luz se pondo e doirando seu côrpo, e os ônibus fazendo uma sinfonia de buzinas e freios, me guarda no seu sacrário e ouve o que não consigo dizer, aquilo que me faltam tôdas as palavras, mas apenas meu gesto diz tão tenaz, e você, única sibila dotada de mim, sabe dizer em precisa forma e textura, e dando-me a chancela, guarda-me.
...porque mesmo longe, e você nunca percebendo, mulher, volto para você. Pois é tudo por você.
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* = Referência a Santa Clara de Assis; o Barra-Vento do Senhor.
Epitáfio do Marcus Queiroz. Apoia esse blog, faz um pix pra nózes: marcusvini15@hotmail.com
quinta-feira, 10 de abril de 2025
Padaria.
domingo, 10 de novembro de 2024
I Don't Owe You Anything.
Sinceramente, ao ver seu corpo lânguido e frio, quando deitado, tentei de alguma forma aquecê-lo, mas suas mãos estavam ocupadas em pegar o último cigarro para fazê-lo virar fumaça... Haviam umas garrafas na pia, outras no quarto, e roupas espalhadas pelo chão.
Os olhos se desencontraram, dando-se um desarranjo, como se algo fosse prenunciado. Uma voz rompia a noite com gritos trovejosos, como se não se importassem com a noite que fazia ou de lá, quem a perto se dormia. Houve dedos, houve lágrimas, e palavras que quero acreditar que foram ditas por conta de um torpor de álcool, e por motivos que não fazem sentido algum. E no calor do palavrão, mandou embora; e foi. Na corrida pra casa, viu o Sol nascer, e no trajeto, olhou para o azul que corria o Céu moldurado pelos prédios acinzentados, e tão triste, deixou uma lágrima teimosa cair.
Ainda sem reconhecer a casa, deitou-se e deixou o corpo apenas fazer todos os processos de descanso, fermentação, relaxamento e preparou-se para o dia seguinte. Deitou uma água no filtro, organizou os livros e olhou o Céu.
Estranhamente, o Céu estava ensolarado, como se fôsse lá um domingo para tomar sorvete, ou estender as roupas que se acaminham da máquina de lavar; e riscando o Céu com os olhos, riu. Sabe se lá de um amanhã maior e melhor, mas ainda com tanta dôr no canto do peito, jorrou lá um riso, como se fôsse o único a dar de ofertório para agradecer a vida, a casa, os amigos, as coisas, as casas, as ladeiras, as memórias, e ela.
Se arrumou e saiu, não porque queria algo, mas para lavar a alma - a velha missa, os amigos do claustro, as cervejas baratas nos botecos, e a música que ainda impera nos ouvidos... e ai de mim por pensar nisso mais que uma vez. Parou, olhou para seu reflexo no espelho e viu um homem que rudemente conhece e ama, mas que ainda admira por ser quem é, e como se pudesse, na ausência de quem o acolhesse, tomou a si nos braços e o fez descansar.
E deixou guardado as palavras, não por nada, mas por saber que o alcool quando faz a bôca abrir, faz também um coração sangrar.
terça-feira, 21 de maio de 2024
Festa.
Se me encontro só, por fatalidade ou coisa do destino, cabe a mim lembrar de teus cabelos negros, tuas mãos e olhar lânguido. Assim, talvez, ameniza em mim aquilo que grita e arde no peito com tenaz de sangue, que afoba meus passos mediante o quão caminho, e que qual estando só me confunde, mas ao passar na rua da qual andamos, ou no sorriso e piadas que confidenciamos, retorna a mim com um carinho e sorte de ser novamente confortante.
E, eu ainda uso botas. E sigo até hoje sem chulé; incrivelmente.
Passei outro dia na frente daquele bar que te levei uma vez na São Bento; nos fins dos dias, aquela mesa aonde sentávamos para beber e poder sorrir diante de uma vida tão pesada ainda está lá, e largava sua bolsa ao canto, e seus cabelos negros seriam então arrumados olhando pelo reflexo do espelho do banheiro sempre fedido a urina e cocaína. Será então dito em gestos o que não se diz em palavras e nem tampouco em textos pífios como esse. É algo que não tem censura, credo ou classe - transcende, excede e esconde. Andaríamos e cruzaríamos as ruas, faríamos o triângulo e veríamos o Rei do Matte; e se te interessa saber, aquela rua ainda está lá. Aquela mesma.
Há um riso tímido em sua face, da qual nunca me esqueço que também me arranca um riso tímido tôda vez que lembro ou sequer fiz questão de esquecer. Lembro de dias a fio, com pensamentos a fio, enquanto discorro um diálogo com os fios de nylon de meu violão. E é inútil resistir, e dado a essa resistência tão fútil, apenas me pego esgarçando a madeira e elevando acordes que nem sei mais o nome para guardar parte de mim no momento. Incenso o passado, perdôo o presente, e anseio o futuro na festa do lugar. Lembro de você de vestido. E de irmos a Liberdade.
Ao ver a paisagem que gostávamos - da qual onde hoje moro - do ônibus que pegava para ir para casa (cujo ponto mudou, aliás), dos sebos e caminhos que lhe mostrei, apenas nada digo. Mantenho em mim uma velha chama crepitante que usa-se de esperança que em algum lugar tudo isso ainda existe, se mantém forte e vívido. Aquela boina minha, a Cookie mordeu, e os meus discos ainda existem. O Walter ainda toca nas festas e o Pery ainda é DJ de mão cheia. Minha barba cresceu, e de repente todo mundo cresceu, mudou, evoluiu.
Ainda ando falando com pessoas que não sabem o meu nome, e se quer saber aquela esperança teimosa minha ainda nasce e morre todo dia, como se fôsse uma febre incurável de otimismo que soterro tôdo santo dia por camadas de humor negro e questões duvidosas. Hoje me vejo homem, com insônia e cansaço. Mas que ainda escreve de forma trincada para apenas (me) lembrar de coisas que a ninguém diz respeito; mais uma vez te pondo no meu rincão de memórias, sem saber se vez ou outra ainda faço parte do seu conjunto de lembranças...
A vida, maravilhosamente, continua.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024
Silence Is Easy.
Dizia para mim um velho senhor, de hábito preto e olhos fechados enquanto esfregava suas mãos para esquentá-las: "Se te arrancam um pedaço, menino - segue."
Ah, a sabedoria dos mais velhos, quão fulgurosa é!
Por mais que doa, por mais que aflige... por mais que pareça que não há o que ter depois do não-ter. Há quem busca, e há quem o tem. Vida é troca, e nem todas são de fato justas ou iguais - porquanto, sei que há muitas mãos que nunca deveríamos soltar e tampouco sei das mãos futuras que tocarão a minha quando a cingir no Aqueronte da vida.
Só sei de mim, dos meus versos, de minha viola, e do sorriso daquela mulher que com a fumaça que sai da boca, me faz sentir melhor - mais vivo, mais inteiro. No demais, sei das desaprovações, dos erros, da peste, da morte, e daquilo que se oculta a cada passo; da infindável e formosa verdade, nunca pude a ter, apenas ouvi falar, e dizem-me os sábios que ela é boa. Que ela é linda. Que é a matrona de todas as bonanças. Sei também que as ruas estão mais policiadas e de alguma maneira não há mais tantos irmãos de rua aonde moro - parece estranho, mas é a pura verdade.
Pelo visto, ao contrário de tantos sábios e heróis, percebo que até a verdade tem lá seus níveis e formas; coisas que predestinam ou prenunciam guerras, ou apenas um sim ou não. E em um silêncio abrupto ao me dar conta disso, olho a janela, vejo o vento, penso em mim. Só sei de mim. Só sei dessa cidade que come e destroça sonhos e esperanças. E das mãos que toco - as seguro firmemente contra a minha - e não as quero soltar. Só sei de mim.
Não quero fumar. Agora não. Deixo-me esvanecer com o momento tão íntimo e particular.
Ai de mim, se achasse que em algum tempo antes do tempo as coisas pudessem melhorar ou ter-se-lá alguma esperança, e se ouvissem como me presto a dignar os ouvidos a cada ouvir. Ai de mim, se vejo a vida como é, e não crio tanto caso; apenas tento fazer o que cabe dentro de mim como ser humano. Mas sei lá eu, que até a bondade tem preço, e que as represas se quebram. E lá eu, mantenho, aquilo que nem as paredes confesso, e em um espaço estreito de um navio, confio somente a mim; pois lá no fundo só (eu) sei de mim, e sei que algumas coisas não se competem a dividir, mesmo que pareçam terem ser feitas para tal situação.
Algumas vezes, o mais fácil a ser feito; é justamente a parte mais difícil de toda uma vida.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
California.
A vida é tão bonita que parece o arquejo dos seus pés quando eles se contraem para você se espreguiçar, e a janela entreaberta faz um degradê em sua pele que marca cada pedaço de paraíso e pecado, e na alfândega, o sorriso teu é a chancela e teus cabelos negros, o pedágio. Eu estou voltando pra casa.
Minha avó sorria sem dentes, tampando gentilmente a bôca, e depois se curvando, elevando as mãos ao Céu, como se a alegria fôsse - como o é - dom de Deus. E tem muita gente por aí que sorri sem ser humilde e não eleva os dons para Deus. E eu, quando me lembro de minhas raízes, volto para onde nunca saí - para a seiva da gênese; eis-me aqui...
...eterno garôto encreiqueiro, trigueiro príncipe do degrêdo, filho ordinário de Itaquera, de sôco inglêz na mão e terço na outra, pude ser tudo o que a vida me deu e me fez caber ser - amei e odiei na mesma proporção, turbulento com a mãe e desastroso em achar o amôr; e nas ruas cheias de estranhos, me disfarçava como mais um; por mais que eu não possa mais, ainda dobro o triângulo, e desço tôda a Brigadeiro Luís Antônio tomando um latão ouvindo The Who. Eu me tomo como sou, e me aceito na medida que me faço, sendo sob-medida para mim, sem ser algo que não sou, e tampouco ser pouco para o raso. Transbordo quando devo, e irrito os que não entendem ainda. Sou eterno transgressor, como tôdo degredado é.
Aquela árvore, apesar de podada ainda está lá. E firme, e forte, sem vermes ou doença. Suas folhas ainda caem na calçada e fazem um farfalhar agradável durante o vendaval, e quando chove, estranha e misticamente a sua copa consegue nos proteger; descendo um tanto a rua tem a banca de pastel do Birebadim, a tenda de ervas do seu Sinval, e o cara que arrumava panelas - e minha avó sempre comprava a borracha de panela de pressão nele. O barbeiro que cortava meu cabelo morreu, mas seu filho tomou conta do lugar, e assim o negócio da família continua em boas mãos. Meus amigos ainda estão espalhados - talvez cada vez mais - em todos os recôncavos. E ali na rampa, Toninho não está mais. E Tio Fungo, infelizmente falecido de morte trágica não pode ver como o Sol descia vermelho do lado dos novos prédios que subiram no lado esquerdo da praça aonde eu e os meninos bebíamos vinho quando cabulávamos aula.
Os trens ainda fazem o mesmo som quando batem a curva férrea, e a cidade ainda tem o mesmo cheiro de cinza, fumaça, urina e café. Os olhos descompromissados de edifícios clássicos com igrejas barrocas se transfiguram quando passas com seu vestido e all-star. Ao te ver, o tempo se reduz para ver qual livro escolhe da estante; põe um óculos escuro, tá é Sol lá fora.
Ah, o Sol quando desce e faz sombras, é tão lindo. E a cerveja posta na mesa de madeira na calçada, o cachimbo aceso e a conversa a rodar sem fim, a miséria e a alegria com os livros postos num cantinho pra não esquecer enquanto ainda se decide o que comer... ainda tem tempo, e se não tiver tempo na rua ainda tem muitos bares, e chegando em casa ainda dá pra fazer mais alguma coisa. Tem um cara pedindo grana na esquina da minha rua, mas ele não usa pra comida - e se bobear ele come mais e melhor que eu com todas as marmitas que ele recebe, tanto que outro dia deram um pau n'ele por ele ter feito um "esquema" de vendas de marmitas doadas para quem não conseguia comer as doadas outrém. Disseram até que ele deslocou o joelho, mas eu o vi normalmente em pé e em ordem.
Nenhuma correspondência na cadeña, e nenhum recado no mural, e após três lances de escadas avanço ao meu refúgio - não há dulcinéia que me espera, mas meus livros gritam de saudade e meus instrumentos urgem por um afago, e enquanto enoitece na cidade, vagueio em cordas e letras para falar que sinto saudades daquele Céu estrelado que hoje fulgura em meu coração.
Após um banho, é acordar melhor amanhã.