terça-feira, 2 de junho de 2026

Miss Sueter

...Ou um texto para quem tentou se matar.

Me lembro de seu cabelo longo e escuro, e teus olhos negros como uma maldição taciturna que não deixava ninguém dormir. Conhecemo-nos novos, por isso nunca pude vê-la como os outros viram, meu approach com você sempre foi diferente. Podíamos ser o que viesse em nossas turvas mentes, porque no fim, (em primeiro plano) um triumvirato, e depois, uma dupla.

Hoje, te trabalhas de alguma coisa num apotecário, ou algo assim. Se perdeu no tempo traiçoeiro das falsas suposições, e acha que está certa no silêncio e desagravo de levar a vida a tons chagados e murmurantes, trilhando a espiral de se imolar por vã questão e estreito espaço de dor que lhe cabe o peito. Esquece de quêm fôste, e ao que na vida lhe benfez, tange nada a lugar algum - o silêncio, que ecoa nas atitudes e ideias vazias, é agora teu dono e mestre. Esquece os que lhe dobraram o braço em nó como companhia; e o pouco do bem-viver que estima vida ‘inda entre tuas mãos, escorre como a água que ao esvanecer, mau lavas teu rosto porque estás a perder por egoísmo e cinismo cego e delator. Perdeu-se, e finge-se irreconhecível para não encarar a vida, cousa que outrora, em nossa juventude, com problemas mui menores - a nível de verdade - lidávamos, vivíamos, e amávamos. Se éramos reis, tu seria a assunta. Éramos amigos, e tu a amorosa, a Dora que faltava em nosso trapiche.

Quiçá você nem se lembre mais de Natalie quando morreu nos nossos braços depois daquela facada quando brigamos com aquele povo no centro, ou quando Bep foi para a Holanda tentar uma vida melhor do jeito errado, ou Rodrigo quando descobriu o câncer que o levou embora; tampouco, há de recordar os estúdios e ensaios, os olhos cruzados na mesa de bar, e as loucuras do centro, sair carregada do bar fingindo desmaio para não pagar a conta e as cervejas dentro de seu carro regadas de conversas cheias de match, ou quando a noite virou dia e as músicas da alpha fm faziam sentido, quando nossos pais morreram, e quando você não acreditou que era verdade tudo aquilo. E por bem da história - modéstia a parte, vos sou crônista, ditoso têmpo, conclamo que proste seus ouvidos aqui - eu lembro. E talvez, só talvez, escrever, além de gravar na eternidade, seja uma forma de denunciar; um grito feito para ninguém ouvir.

O tempo, enfim, foi suspenso no ar; pois no agora, assim eu o quis. Era 2012 ou 2013. Lembra quando encontramos os meninos na frente da estação, dizendo que iam lá protestar não só por vinte centavos, mas por um lugar melhor? Eu ‘inda acho que termos gasto nosso tempo nas cervejas do Xaréu foi mais útil. E no seu carro prata, entre as curvas da estrada, levava-me pelas curvas para irmos na divisa, e ali olhavamos o Céu, e corríamos da segurança, sempre felizes, nunca alegres. Éramos, na forma mais poética, prudentes no erro. E te fiz saber ainda, por último, que aquela garôta do norte não me passou de um pesadelo, quiçá um sonho amargo com gôsto de leucemia.

Marcvs de MMXII: Jogatina, álcool, estádios e serestas.

Menina, quase-indíca-quase-indigena, de kaftan e salto. Meu melhor musk derramado ao pescoço e na jaqueta jeans, e seu floratta que tinha cheiro de desejo e amôr selvagem. Sorriso ameno. Cara de maconheira. Coração maior que os seios, voz aveludada e pele banhada a monange, e um gosto musical que parou nos anos 80. A gente nunca foi naquele baile de samba-rock, não é mesmo? Pena, que agora faz-se tarde. Entre tanta coisa que ainda parece ser tão tardia, tão a se perder…

Volta, se der tempo, e olha as fotos que tiramos, e os sorrisos de quem lhe estima. E se permitir, levanta os olhos, e vê o Sol, deixa a chuva molhar e o vento circundar. Esquece. Pode não parecer, mas após sacudir levemente o saco de memórias do tempo, espero que veja que isso tudo é uma fase, que como tudo passa. De forma bela e precisa nada mudou, apenas envelhecemos e nos tornamos mais propensos a suportar mais. Isso tudo você há de tirar de letra.

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