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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Hand In Glove.

Mais um pesadelo, mais uma cama encharcada de suor, mais um dia. menos um dia. Mais um cansaço e mais um amargor para o coração já pesado.
E eram mãos que não se tocam mesmo em contato, beijos que se trespassam violentamente mais aprazerados do que afetivos, e sentidos que sentem outras coisas em vez daquilo que ousa sentir - ao canto, um corpo jazia, com sangue escorrendo do lençol. Esvanece e transfigura diante de mim aquilo que meu coração novamente se ousa derramar. Dizem os especialistas que é normal perder o coração... mas perder a alma e o anseio, do vívido estar e do viver e do falar, é totalmente perigoso e nocivo.
É sobre a demora, sobre o atraso, o caos, e jogar a bomba e sair correndo. É sobre ver o lance feito e sair andando e não pensar em um segundo em assumir a situação - demolir todas as crenças e todas as perspectivas e ainda achar que não se há problema, abrir fôgo "sem querer" e  não cogitar ao menos se deve socorrer. 
A omissão, é mãe de males inconvenientes gerados por uma ridicularização do ser.
Dói, transluze e passa, eles dizem. Mas eu não sei, eu não concordo. E pela enésima vez me paro distante, e vejo os cacos no chão, me preparando para pacientemente os resgatar e os pôr em ordem, mesmo que ninguém me pergunte, mesmo que ninguém me entenda, mesmo que ninguém me ponha em dedicação, mesmo que ninguém suporte, mesmo que de novo, entre os mares de gente seja apenas eu.
Outro dia vi um cara chorando na rua. Suas lágrimas pareciam lâmpeijos de cristais que desciam contra sua vontade. Havia um papel em sua mão - foto, letra, e algo mais que não pude ler. Mesmo de fone, pude ver que ele dizia algo, sua bôca denunciava algumas palavras que se misturavam com os cândidos cristais que jorravam de sua face. Hoje, ao caminho do correio, disse o fiscal do terminal que ele foi três vezes no mesmo ônibus, e apenas olhava a paisagem, como se aquilo o acalmasse de alguma forma.
Não ouvi os sinos, e vi cada pessoa estendida no chão. Olhei cada face opaca e me vi em cada um. Pensei em cada pensar e não encontrei nenhuma solução a não ser daquela que minha cabeça ecoa há anos. E no silêncio da vida, os passos começam a ser duvidosos, incertos, impacientes, e vacilantes - não que seja lá  coisa boa ou ruim, mas apenas coisa comum ou qualquer, de uma verdade que tange como um ferro quente e atordoa, e você percebe que aos outros sim, e a você não; e dada qual a censura da vida, a indagação gera um buraco que toma a alma e a consterna e a fazer gemer. Torce. Cidade ambígua. Desilusão. Os solos de guitarra no ouvido apenas lhe farão sentir anestesiados por minutos. O sorriso de receptividade parece mais vazio que nunca.
As memórias, os ditos, e os sangues que marcam a parede trazem histórias de durante e agora, mas não significam nada - e isso me atordoa. Assusta-me veemente (como sempre me assustou) que de uma certa maneira nada signifique e nada tenha um porque de ser, ter e viver. Poderia até dizer que sigo bem como sempre segui e vivo como sempre vivi, mas sei que seria uma grã mentira contra mim e contra a verdade em que me encerro; pois deixei um tanto de mim em quem encontrei, e levei uma parte dos que conheci - e entre as cicatrizes, não vivo. Existo.
Então me diga como eu devo "bater de frente" diante do colpaso, ver a vida com olhos cegos e entender que tudo de repente não passa de um eterno teatro de fingimentos - ah, a bôa-vida que quer se ter de alguma forma, e outrora repousavam em olhos de uma mulher chamosa que conhece as regras muito bem. Não existe fórmula, lhe adianto, mas há caminhos; e que nesses caminhos resultam em cheganças e partidas. E isso mantém-se imutável.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Just A Song Before I Go.

Antes que eu vá, digo que eu esperei por você.
Esperei pelos seus abraços de sêm-fim, e seus beijos amenos - ora na minha testa, ora na minha bochecha, mas quase sempre na bôca. Esperei idem pelos seus carinhos macios nas minhas costas, como por quantas vezes escrevi deles, assim como agora escrevo me despedindo de vós. Esperei pelo seu sorriso de chegada e por sua têz entristecida de partida, das faxinas, limpezas, arrumações, cariños e filmes regados a viños e pipoca com ajinomoto - das pizzas, churrascadas, e cuidança. Nas festas de amigos, ficaríamos orbitando no universo deles a beber, a rir, a cantar, a se abraçar e fazendo piadas, pois teríamos o tino do humor nêgro, da baixaria, mas ainda sim arriscaríamos tudo em uma tentativa de arrancar o riso um do outro...
Dos dias frios, cobertas no sofá, de você fazer um cachimbo para mim - afinal, conheceria a medida do tabaco e como gosto -, tanto como de que quando me mantenho só, olhando para o universo para encontrar ou a mim, ou a Deus, que você se atentando ao meu lado não dissesse nada. E apenas colocando sua mão em volta de meu braço, ou me abraçando, tampouco na mais ríducula das hipóteses, como naquele Céu estrelado que uma vêz vi na Serra de Santa Helena, e seria lá tu que deitaria um mantel sobre mim. De passar no mercado e perguntar o que você quer, o que você precisa, o que falta, o que quer comer. Dos dias de calôr, teria a praia, o clube, o veraneio, te ver dourar a pele, beber uma cerveja contigo, e sentir que o Sol nos aquece, e ao deitar contigo, seu calôr não me incomodar, e sentir alegria em queimar-me em ti.
Do seu carinho em minha cabeça, dos olhares, das piadas infames de casal, de ter a minha parceira a bandeirar pela cidade comigo, de não me preocupar se me fedo a fumo ou suor, porque estaria lá seu abraço como pôrto-seguro de tôdas as agruras que fêz esse mundo em mim. Seria lá, teu olhar e ter teu coração cousa mais bela e própria do que ter e obter Deus em si. Seria, por mais franca verdade retilínea um trabalho de vida. Ter-te num arrebato de abraço, para enfim descansar de forma concreta, precisa, e assim poder dormir finalmente em teu colo, ou em teu busto, ouvindo teu pulsante coração descansando perto do meu.
Seria, afinal, o que dizem êles em ser feliz.
E as noites sem final de violões, bandolins, e cantorias, para mais uma vez ouvir seu canto de rouxinol clarear a noite toda...
Esperei cuidar de você. De te dar cafunés, contar as coisas que sei, falar de dias de batalhas e glórias passadas; e de planos futuros que ninguém nunca há de saber, e de quando ir trabalhar, sentir sua mão tão macia me segurar pedindo um beijo de despedida, e que seus olhos acastanhados, translúcidos com um brilho tão incógnito fôssem então para mim motivo para que eu pudesse continuar adiantar, e lhe trouxesse a alegria e o cansaço de um labor, enquanto abriríamos uma garrafa e descansaríamos de toda a vida que morreria fora de nossa casa. Te encontrar no metrô seria como ir numa fila ao tomar a eucaristhia, de importância, reverência, temência, amôr e respêito. Te celebraria como o gôl de desempate, e do primeiro gole de Antarctica gelada. Seria lá tu a fôrça de minha fraqueza, e eu seria o teu baluarte para que passasses incólume.
A verdade é: cuidaria de você melhor do que eu algum dia pensei cuidar de mim.
O lado de dentro da calçada, o braço na cintura, o beijo inesperado, o vento que invade sua saia, as ondas violentas, o emboque do mar, as alegrias vindouras, a alegria de sermos mais de dois... esperei ansiosamente por isso, e Deus sabe como. 
Te encontrar, em qualquer lugar, em qualquer circunstâncea, de qualquer maneira, seria pra mim a cousa mais bela que existe. E só de sorrir para mim, saberia afinal o que seria isso que êles chamam de "ser amado". E eu saberia - de alguma maneira muito inóqua, muito estranha, muito bizarra, muito bela, muito chamativa, muito desesperada, muito involuntária, muito emocional, muito devota, muito minha, saberia que você também me amaria.
...e antes que eu vá agora, apenas saiba que te amei. E eles não vão te amar como eu amo você. Eu te amei pelo conjunto da obra e solidificação, eles te amam pelo que tens. E isso me difere em grã situação deles. 

E isso me diferencia de uma maneira que você nunca vai saber, porque talvez você nem saiba de mim. Sou só um escriba.

sábado, 8 de maio de 2021

Snowdance.

 Será que você pensa em mim, talvez como eu penso em você? Que eu entre os marronzinhos penso num carmelo, e de lá do lado do morrete do carmo, você pensa num marronzinho? 

Em algum dado momento dessa história, seu coração vai desaguar tudo isso, e largando de lado essas coisas tão banais, separatistas e desnecessárias, e será que ao abnegar disso tudo você vai se render nos meus braços? Será que no meu cativeiro, seria você que me desataria a cadeia e diria: Toma a capa, veste e vêm? É você por quem eu esperei há tanto, há muito, há dentro, ou devo ainda deixar meu coração preso no baú dentro do mar férreo? Diz-me que é a mulher que anda pela rua sem mêdo, bebe da fonte, e deságua na foz de minha bôca.
Jorra-se água e vinho. E é a vida.
Não sei não fazer planos, e não sei me apaixonar sem desaguar em mim tôdas as alegrias de ter alguém, tanto como dentro de meu lado oculto sei de minhas inseguranças, de meu mêdo, e de tôda a mágoa que cabe naquele grito dos 15 últimos segundos da canção grafada. Eu, sabendo de mim, sei de tudo ao meu redor, e eu me conhecendo, sei das texturas, gestos, côres, e das coisas que os profetas, anjos, primeiros e menores falaram. E antes deles, sei de mim. Me ponho como um na multidão, esperando que você me note, mas pelo visto há de demorar, ou talvez seja apenas um paliativo enquanto o seu homem não vem.
E não tem nada não, está tudo bem assim mesmo, apenas deixe a regra do jôgo clara, e eu me declino do que me pede. Me vale a paz do que esse entôjo, me vale o amôr do que essa amargura, e me vale o êxtase do que esse destêrro. Lágrima jorra, coração sabe porque, mente arquiteta pensar, e o carrasco de si mesmo o acusa com régua, para que a régua o meça. Não há nada de decente ou justo, é só a vida ocorrendo, e é normal, talvez até comum.
"Você se lembra daquele dia, no Rossio, tomando as mãos de gesso na tua, aquêle pedido? Você pediu, e talvez não tenha pedido direito. Nem tudo que nos transborda faz bem, alguns transbordes são para nos afogar - matar, sabe? Distingua a água do vinho e não tenha mêdo: Tôdos morremos e tôdos sabemos de si. Mas Deus, nessa hora se faz o Juiz, testifica e setencia quem é diferente."
Faz frio, um cachorro ronca, e os instrumentos se calam. Gostasse eu que minha mente se calasse, que meus pensamentos não me traísse, e que meu coração fôsse ao meu favôr. Gostasse eu que não fôsse meu primeiro juíz e carrasco, e que o pêso da história (constatação do fato) não penasse contra mim.
O têmpo, implacável perfeição advinda de Deus, sabe de mim, de meu coração imperfeito, e dá a razão e a lágrima. Andando contra o vento, sozinho, o vento não fala - carinha, o vento não corta - abraça, e o vento não desarruma - conta um segrêdo-de-pé-de-ouvido. A lágrima cai, e independente do que se há, é de lágrima, e nada mais, é apenas o desabrochar do mêdo. Saber de mim e saber de minha ferida e imperfeição: Vêde êles; tão lindos, belos, beberrões, saudáveis, com suas posses e empregados, e presentes...
...E eu esguio, de pés cansados, feio, desarranjado, sem posses, sem empregados e ausente.
In vera veritas; Não sei falar de amôr mais, perdi a mão dos versos, mas ainda deságuo minha dôr e mêdo por linhas como ninguém, e sei de mim e minha condição, aceito-a, e considero-a. De fato, as vezes também me sento com os da tribuna e rio de mim mesmo co'eles, afinal, é engraçado: Não há quem me ame, ampare, ou console, e tampouco sei que não sou aprazível para mulher alguma, tampouco sei que sou de boa companhia e trato, que tenho muitos defeitos (físicos também) que não são os que mais podem me ajudar neste quesito.
Eu lembro da vida, de quem amo e estimo, e choro.
Não há quem se arrume pra mim, tampouco há quem se adorne pra mim, e está tudo bem. Há quem se adorne pros outros, e infelizmente está tudo bem. E infelizmente, meu coração mais uma vez pena, geme, chora e tange.

E não há nada, absolutamente nada nessa vida, que eu não quisesse mais do que a morte.