segunda-feira, 20 de maio de 2019

Após o Amanhecer.

Enquanto ela dorme, acordo para fitar o milagre miraculoso do amôr, e a mulher que repousa em meu peito, e sinto sua respiração suave, e seu sono me segura num aceso de preguiça, pedindo um pouco mais de nós dois na cama do que a luz do Sol lá fora.
A maneira dela quando fala só é boa quando fala comigo, e o sorriso dela só brilha quando o Sol reitera-se na glória, e todos as potências celestes se inclinam para ouvir uma oratória tão forte de uma mulher tão pequena, disse Basílio de Cesaréia para Lourenço de Brindisi: "Mas quem é essa moça que dizendo pouco e desconexo, diz com a mesma força dos Hierarcas?". Dizem que o amôr é a forma mais linda de oração, e quando um amôr se sente com tôdas as máculas do côrpo, até os Santos param para ver a dedicação de um casal. De seus olhos descem lágrimas, de meu peito jorra água e vinho, de nossas bocas, nossos nomes.
Seu corpo é uma escultura, que nunca se corrompe ou suja, e seus olhos mudam de côr quando acometidos de sentimentos: Seus beijos são desencontrados, mas sincopados, e seu amôr é desenfreado, mas meu.
E isso não é comigo, ela tem todo o débito da situação, pois bem sabe ela que a doçura do mundo reside nela, e em sua loucura, por mais que se sobreponham os sentimentos, ainda sim ela fala desordenada e sem ordem do que se passa em seu coração - e mesmo que sejam três palavras, ela se basta nisso, como se aprendesse que o básico, a nível de simples e de silêncio fôsse apenas o necessário, se vale de dizer pouco ou nada para externar do mundo que se diz no coração, na mente, na alma - solta o brilho agudo musical.
O corpo nu na cama, os braços atados ao travesseiro, o busto colado ao meu, as ancas se realçando pelo contraste do Sol e o rosto sereno, de quem dorme com toda a paz do universo. Aqui dorme uma rainha. O sôm nenhum que se propaga no quarto trás a experiência da contemplação, e dado o sentido de acordar, ao se estirar na cama, o milagre da vida toma cena: Os braços que se arqueijam, os olhos que se abrem, os pés que tocam o chão, a janela que se abre, e a São Paulo nebulosa e fria.
As marcas de beijo e mordida, as lembranças boas, os segredos, a vida, os dias e as noites, os carinhos e tudo o mais que há, tudo isso, sem exceção, cabe na glória de nos sermos, nos termos, e nos vivermos. E qualquer coisa além disso soaria total loucura e diáspora se não fôsse, houvesse, ou tivesse como ser.
E de uma janela semi-secular, de um apartamento no ponto mais estimado da Nova Cidade Velha, o amôr inflamou o chão de taco de uma casa. A janta vira café da manhã, e os amantes se isolam do mundo no eleio de um abraço.