Mais um pesadelo, mais uma cama encharcada de suor, mais um dia. menos um dia. Mais um cansaço e mais um amargor para o coração já pesado.
E eram mãos que não se tocam mesmo em contato, beijos que se trespassam violentamente mais aprazerados do que afetivos, e sentidos que sentem outras coisas em vez daquilo que ousa sentir - ao canto, um corpo jazia, com sangue escorrendo do lençol. Esvanece e transfigura diante de mim aquilo que meu coração novamente se ousa derramar. Dizem os especialistas que é normal perder o coração... mas perder a alma e o anseio, do vívido estar e do viver e do falar, é totalmente perigoso e nocivo.
É sobre a demora, sobre o atraso, o caos, e jogar a bomba e sair correndo. É sobre ver o lance feito e sair andando e não pensar em um segundo em assumir a situação - demolir todas as crenças e todas as perspectivas e ainda achar que não se há problema, abrir fôgo "sem querer" e não cogitar ao menos se deve socorrer.
A omissão, é mãe de males inconvenientes gerados por uma ridicularização do ser.
Dói, transluze e passa, eles dizem. Mas eu não sei, eu não concordo. E pela enésima vez me paro distante, e vejo os cacos no chão, me preparando para pacientemente os resgatar e os pôr em ordem, mesmo que ninguém me pergunte, mesmo que ninguém me entenda, mesmo que ninguém me ponha em dedicação, mesmo que ninguém suporte, mesmo que de novo, entre os mares de gente seja apenas eu.
Outro dia vi um cara chorando na rua. Suas lágrimas pareciam lâmpeijos de cristais que desciam contra sua vontade. Havia um papel em sua mão - foto, letra, e algo mais que não pude ler. Mesmo de fone, pude ver que ele dizia algo, sua bôca denunciava algumas palavras que se misturavam com os cândidos cristais que jorravam de sua face. Hoje, ao caminho do correio, disse o fiscal do terminal que ele foi três vezes no mesmo ônibus, e apenas olhava a paisagem, como se aquilo o acalmasse de alguma forma.
Não ouvi os sinos, e vi cada pessoa estendida no chão. Olhei cada face opaca e me vi em cada um. Pensei em cada pensar e não encontrei nenhuma solução a não ser daquela que minha cabeça ecoa há anos. E no silêncio da vida, os passos começam a ser duvidosos, incertos, impacientes, e vacilantes - não que seja lá coisa boa ou ruim, mas apenas coisa comum ou qualquer, de uma verdade que tange como um ferro quente e atordoa, e você percebe que aos outros sim, e a você não; e dada qual a censura da vida, a indagação gera um buraco que toma a alma e a consterna e a fazer gemer. Torce. Cidade ambígua. Desilusão. Os solos de guitarra no ouvido apenas lhe farão sentir anestesiados por minutos. O sorriso de receptividade parece mais vazio que nunca.
As memórias, os ditos, e os sangues que marcam a parede trazem histórias de durante e agora, mas não significam nada - e isso me atordoa. Assusta-me veemente (como sempre me assustou) que de uma certa maneira nada signifique e nada tenha um porque de ser, ter e viver. Poderia até dizer que sigo bem como sempre segui e vivo como sempre vivi, mas sei que seria uma grã mentira contra mim e contra a verdade em que me encerro; pois deixei um tanto de mim em quem encontrei, e levei uma parte dos que conheci - e entre as cicatrizes, não vivo. Existo.
Então me diga como eu devo "bater de frente" diante do colpaso, ver a vida com olhos cegos e entender que tudo de repente não passa de um eterno teatro de fingimentos - ah, a bôa-vida que quer se ter de alguma forma, e outrora repousavam em olhos de uma mulher chamosa que conhece as regras muito bem. Não existe fórmula, lhe adianto, mas há caminhos; e que nesses caminhos resultam em cheganças e partidas. E isso mantém-se imutável.
Epitáfio do Marcus Queiroz. Apoia esse blog, faz um pix pra nózes: marcusvini15@hotmail.com
quinta-feira, 21 de dezembro de 2023
Hand In Glove.
domingo, 10 de dezembro de 2023
You Can Close Your Eyes.
Se tens pensamento e sensação de sono, descansa.
Põe então as tristezas, os cansaços, a raiva - tudo isso, em um cabide. Despido, dorme. Respira, e descansa, e sente cada vértebra, junta, pedaço, e músculo se meter em descanso na sua cama. Se quiser, fecha os olhos, e apenas dorme. O porre passou, e agora, cabe você em você.
Apenas sorri, e não pensa que amanhã começa tudo outra vez.
Apenas ouve o silêncio, e presta atenção na sinfônica que cabe nele.
Preste atenção no detalhe de cada respirar teu.
Por hoje já deu.
E agora, é apenas uma hora breve - porém longa - de descanso.
Amanhã a gente vê o que faz.
Amanhã a gente se vê.
Descansa.
domingo, 10 de julho de 2022
Carta a Adilson.
1 - Prefácio e saudação;
Marcvs, escriba, para Adilson. Que tão belos cujos teus feitos sejam os teus quereres sobre a terra, e que teus feitos reproduzam a verdade e a bondade.2 - Primeiras impressões da terra;
Diz-me coisas belas do teu labor, e coisas belas da vida, e mais belas ainda das que se passam em teu coração. Francamente, faço de tua alegria a minha alegria, e faço de teu amor o meu quando me falas de quando sentes a terra girar, ou tens percepção maior e melhor da vida que se amplia nos teus braços. Dizes também de teus paes, de teus irmãos e nossos amigos - cujos todos parecem estar bem e em paz. Agradeço os amplexos enviados até mim, e rogo que você os remeta em anexo de volta a essa carta, incluindo ao Toninho da Rampa e ao Tio Fungo! Aos meus, de Tiradentes, a quem estimo em saudade e espero ver em breve.
3 - Preparação para a morte;
Deixa-me ter a tutela do que me pertence. Esse é meu tempo, minha vida e minha morte. Não pertenço, pareço ou padeço a nada disso, e digo-vos em peito aberto que querer o fim não significa a falta de perspectiva, e sim o cansaço de um passo mantido. Pois, se tenho a sorte da boa vida, a vida não tem sentido, mas se tenho também o agouro de uma árdua vida de batalhas, que sorte teria? Não há. Das decisões que tomo, sei que essa pode não ser a mais sábia, mas é a que me deixa mais em paz - e se de fato Deus está no firmamento, que Padre Deus cuide de mim, livrando de mim o que não tenho em conta.
4 - Sobre entender o viver;
Senta-te ao meu lado, e não diz nada. Apenas ouve e não obterá som de minha voz, pois, se sentes a terra girar como eu senti alguma vez, ela há de te dizer tudo; se o vento te falar algo, ele vai te dizer tudo o que penso, assim como o que o mundo exprime; se teu coração pulsar forte e desesperadamente numa busca inquietante, logo entenderá tudo o que verás ao seu entorno. E isso, meu amigo, lhe digo sem sombra de dúvida que é a vida, e diferente do que o ancião nos diz, a vida não começa num ponto final. A vida começa de um princípio por ora gerado, que nos constitui. O fim é mentira. É mato.
5 - Sobre a maturidade/maioridade;
Quando você crescer, você vai ver que nada é tão preciso, e muitas vezes nós vamos e podemos perder o controle da situação - e isso não significa nada. Nossa maior luta (enquão amadurecer) não se baseia em controlar a situação, mas sim em como poder aguentar tudo com maestria, graça, deboche e glória - ou como me dizia teu irmão Jairo: "Eben-Ez-Er, Ox". O ato de se achar superior em relação a vida é um grã erro, e afasta-te disso; Sempre, quando puder, olha para dentro de ti e se ponha numa condição pequena, para que o lucro obtido seja de valôr próprio, e não estimado.
6 - Sobre o amôr;
Encontre uma mulher, e seja feliz com ela. Uma que te ouça no tanto que você a ouve. Uma que te ame no tanto que a ame. Uma que seja sua no tanto que seja dela - que não lhe importe se ela tem posse, profissão de fé ou se ela tem algo a declarar na tribuna, mas, que ela delegue a ti o seu coração, e você sem medo algum posaa deitar o seu coração com o dela para descansar de tantas e todas as coisas. E isso significa tudo, se não significar muito.
7 - Conselhos finaes;
Vejo em ti grande futuro, e alegria. Mantém a alegria, e não se renda a tristeza - entrega-te ao desejo da boa vida e faça tudo o que for prudente para recomeçar para sempre quanto preciso. Não tenha medo do inimigo, nem de suas leis; cria tu as tuas leis, e faz tu tua forma de viver. Seja um Jaguar XTR. Seja feliz.
domingo, 26 de junho de 2022
Carta a Ignácio.
1 - Prefácio e saudação;
Marcvs, escriba com dores para Ignácio, longo amigo de discussões e parlatórios regados a viño e lógica joanina. Que nunca te pese a mão do mau homem, e que você em sua vida encontre muito antes do fim o que busca.2 - Comentários geraes;
Diz-me que querias uma carta, como para Rafael e Ivan, e por isso me rogou ao longo de três dias; ei-la, toma e lê. Acerco de ti sobre a virtude, a vontade, a coragem e a ousadia. E faço dessa carta não por instrução, mas como memorial de nossa amizade. E espero que você seja maior e melhor do que os que te permeiam. Não use do hábito um meio para que você obtenha respeito ou sistema de ordem; a ordem é o caminho no qual escolhemos para seguir a voz de Deus, e o respeito nos é dado como forma, enquanto mostramos como somos, sem censura, sem trejeito, sem máscara ou véu; se acharmos dentro de nós o que somos, e assim mostrarmos a VERDADEIRA face de nós, assim garantiremos a estima que hão de gerar por nós.
3 - Preparação para a morte;
És, hipócrita. Se pedes que eu fique, que proveito teria? Não seria de fato para mim ser livre como os passarinhos e viver perto de mim e do Meu Senhor? Acaso não é o Pai de teu onomástico que diz "na hora de minha morte chama-me e manda-me que vá para Vós?"; acaso não é o próprio Bom Santo Antônio que queria a coroa do martírio? Existem até hoje formas de testemunhar a Deus, e testemunhei algumas, em mim e no que vi nos outros. Não peça que eu me cuide com afã, se dentro de meu coração já vi, vivi e constitui (quase) tudo o que queria. Agora, resta-me os dias de restinga, re-aprendendo a morrer com dignidade - cousa que todo cristão restringiu na frase de "memento mori". Não tenho o abraço que quero, tampouco o eleio que me envolvia, e eu, cansado de tanta coisa, apenas quero acordar e ver o Sol nascer, quero ver a geral piar, e quero pela última vez sentir o vento no cabelo. E quando eu me chamar saudade - se o fui - diz coisas de mim, de preferência que fui ruim, e fascínora. Diga o quão péssimo era, e não se digne a dizer nada benéfico, pois não sou. Ainda sou subêijo, resto de fim-de-feira.
4 - Aprender, ler, estudar;
Espero que tenhas aprendido a ler em latim, coisa que considero vital para que nós possamos debruçarmos nas regras geraes e entender o universo nosso. E que tenhas ganhado gosto e afeição na leitura. Que Deus possa ter te feito sapiente e te dado coragem para se livrar deste entojo que é não ler. Tenha sapiência pra que eles não te humilhem, mas te admoesto e te amaldiçoo ao fogo do Hades se você usar de sua sapiência para ser maior ou se sentir maior que alguém; seja sempre burro, viva sempre burro, ensine como quem talvez saiba, e ouça tudo o que todos tem a dizer: cada pessoa carrega um saco de verdade e um punhal de mentira; e com tua sapiência, edificada e consagrada a Deus Pai das Luzes, tu será digno de ler, entender, aconselhar e ter fé na vida mesmo que ela não seja boa.
5 - Vida sacerdotal;
To bem sabes que nunca fui afã de sacerdócio, porque não me considero digno de manipular e transpor Deus Trino no pão e viño, me soa como um dever exclusivo aos dignos, cousa da qual sempre me excuso - tenho muitos peixes e pássaros para lidar, e tu que viste e viveste comigo, deveria sim pensar sobre. Tens a oratória, tens o amor, tens a ousadia, e és dotado da boa vontade, e isso lhe considera bastante, e que tu, feito posteriormente pastor de algum rebanho, possa sim ser digno. E eu vos louvo desde já em qualquer coisa que escolher.
6 - Sobre a humilhação;
Digo, tenha humildade. Tenha amor. Tenha paciência, calma e fé. Ora. Demasiadamente. Ora em dobro pelos que te perseguem, e em triplo aos que te magoaram/feriram. E por ti, se jogue ao pé da Vera Cruz e pede perdão por ser quem é - o verdadeiro Tu, que está no oculto do teu coração. Ora a Deus pela vera conversão, e entrega o leme de tua vida a Deus, e deixa Ele te guiar, e respira. E se for de lágrima, chora. E se for de medo, grita: "Durma, medo meu! ALTO! POIS O SAGRADO CORAÇÃO ESTÁ COMIGO!". De fé em fé, busque em Deus e Nossa Senhora, ore pro seu anjo da guarda e sugiro que reze uma Salve Rainha na fórmula de Dona Antônia. E todos aqueles que pisaram em vós, serão atormentados pela culpa, pelo medo, pelo vazio, e você, tão ocupado em rezar, não terá tempo de sentir uma dor. E essa dor, logo fica pequena - irá doer, mas será suportável.
7 - Despedida e benção;
Espero lhe ver pessoalmente: "telegrâma-de-vêm-me-vêr". Espero que faça boas escolhas. Espero que Deus esteja contigo. Que Deus te livre de todo o mal, que Deus te abençoe e faça bom homem e boa pessoa. Que Deus te abençoe e te ponha entre os Santos, Únicos, Justos, Profetas, Primeiros, Virgens e Mártires. Que Deus, Virgem Mãe das Candeias e o Bom Santo Antônio estejam convosco sempre.
sexta-feira, 17 de junho de 2022
Carta a Rafael.
1 - Prefácio e saudação;
Marcvs, escriba e pai das cordas para Rafael e, versátil pregador-texugo e filho dos doutos.. A graça te baste e não te pese a mão da horda, que suas alegrias sejam eternas e infinitas.2 - Justificativas geraes;
Desculpe-me se desisto da última bandeira. Desculpe-me se sinto se já fiz muito e tanto, abro meu coração diante de vós e abro-os como cera, de par em par, e por isso, cansado de tanta luta, sem Dulcinéia e sem Sancho, entrego-me a vontade de Deus e da ida, e iço velas para o que haver de ser de mim. Morro lentamente, e dói cada íngua e dobra de meu corpo de jeito que levantar da cama há de ser uma batalha. E eu, abdicando de fé e esperança, me deixo ir, sabendo que os que deixão hão de ser benvistos e benquistos na terra dos homens e na morada do Senhor. Não quero usar bengala, tampouco me fazer em testemunho e martírio, mas se for para sofrer, que eu sofra para Meu Senhor que mais sofreu por mim no Santo Madeiro.
3 - Preparação para a morte;
Que Deus te preserve do choro, e te dê um riso bobo para minha hora quando vimos Jairo no caixão, e passados 9 dias, fomos o visitar e vimos pássaros e peixes em seu jazigo. Não ore por mim, mas te peço que ore pelos meus pelas continuidades de minhas promessas, e que eu, estando ausente, sê tu sustentáculo de fé para que tudo permaneça bem como está - que você ouça, veja e fale com peixes e pásaros, mas que nunca te seja obra de grandeza ou objeto de escândelo, e pedindo quanto crismas quiseres, atenda-te Deus. E de ti, quero a Salve Rainha no meu tom e corrida, e Angelvs na formula de Dona Antônia. E após posto meu esquife na terra fria, que te ponhas tua mão na terra, e sinta que me tornei parte do Cântico. E eu, sorrindo, estarei em uma esquina do Céu tomando cerveja com os nossos, e os Patriarcas, a quem tanto rogo, lhe darão alguém melhor para inspirar as novas, belas e boas palavras.
4 - Transmitir conhecimento;
Te ensinei as bandeiras, as tradições católico-pavlistas, os dias magnos, datas e rezas, te mostrei as igrejas que são históricas e os altares onde Deus habita. Te peguei pela mão e te mostrei todas as entradas e bandeiras de São Pavlo da Piratininga para que fôste ungido como diácono no rito antigo da vida antiga, não faça eu me sentir ridículo se não proliferar de vós a sapiência que jorrei em ti; com a ordem de magister sobre vós, lhe rogo: não deixe a verdadeira tradição morrer na mão dos iníquos. Lembra-te de como meu rosto transfigurava e que fôste o único que viste minha alva e elevação do chão - e ainda sim isso não me faz santo, só faz apenas um pequeno trouxa do caraio que em vós tem um filho. Sê prudente! E passe adiante todo conhecimento para apenas os dignos e justos de confiança.
5 - Minha última bandeira;
No domingo, farei minha última bandeira. Assistirei a missa em latim, subirei o morro dos inglæzes altivamente, passarei pela Pavlista, descerei a Consolação, renderei graças no túmulo do Frade Eterno, e após isso irei até a Consolação ver a Virgem dos Cônegos que tanto me valeu. Comerei algo, e após isso retornarei em casa para não mais sair, fazer bandeiras, ou andar vivamente, me sinto fraco e débil, e por essas semanas já caí na rua algumas vezes, então, peço que ore por mim para que um Bom Anjo de Luz, Paz e Guia me guarde e me dê força para ver minha Piratininga pela última vez a maneira que eu gosto - como disse na carta passada, Monge Ivan me trouxe livros, logo me dedicarei as leituras e pouco andarei e sairei de casa, apenas para esperar a hora derradeira no meu momento.
6 - Conselhos geraes para pastorêio;
Leia os cinco evangelhos. Seja caridoso. Ame os seus, odeie a falsidade e o levianismo. Mate a morte, e se guarde e banhe no Espírito Santo Paráclito. E quando puderdes, faça as bandeiras, me encontrarás lá em cada recôncavo e segundo. E eu, vos amando como filho, irei te guardar nos meus e diligenciarei minhas orações a vós, a cada segundo da eternidade - desde que seja fiel aos recomendos que te dou nesta carta.
7 - Benção final e despedida;
Que Deus, em sua infinita misericórdia te guarde e te proteja, livrando vossa mercê de todo o mal. Que a Mãe Rainha da Boa Morte te guarde e te conte entre os seus. Que São Maurício te capacite, e que São Leão o Magno te dê sorte de ter o espírito de pregação. Espero encontrar-vos na festa do lugar, e com o espírito incorruptível, e se possível, te rogo adiante e em paz por mim. Do teu pai que te ama muito e reza pelos teus estudos e teu futuro pastoreio, Marcvs.
terça-feira, 7 de junho de 2022
(O) Paraíso Agora.
E eis que me pego para mais uma batalha que oscila entre o sim e o não, entre a vida e a morte, o riso e a faca. E eu, sem saber se pronto estava, apenas me fui, e comecei uma jornada sem olhar para trás - e agora, enquão escrevo a vós, leitores, vos digo: Faço do Céu minha casa, da Terra meu scenário, e da saudade da Nêga, pendão de esperança e (um dos) motivo(s) para não deixar me levar pela atual situação.
Dica: Se você passa por uma barra, não basta ter fé, esperança é bom cimento e calcificador. Deixar a emoção tomar conta (algumas vezes) é melhor do que manter a razão e se flagelar, demonstrar seu coração é florir a vida e revestir a sua alma de alegria. A razão tem sim seu valor e peso, mas ter sempre os sentidos secos só ocasiona choques, e perde o tato na hora da vida pra valer. Vale o sorriso. Ainda mais de quem se estima.
E a esperança, quando posta na mistura, lhe ajuda a crer em dias melhores, que creia ou não, vem.
Fé, esperança, essas palavras tão belas que escrevo, são lema, são meta. E rezo. Rezo por cada um de vós no oculto de meu coração.
E rezo também pelo comum: O jogo, a loteca, a feijoada, o sorriso da boca canuda dela, e o perfume chanel que me abraça me acarinhando a barba.
Deus tudo vê e tudo fará.
E no fim da mês, se não sobrar grana, ou se não fizer frio, que que tem? Que me importa é se Daniela me beija a boca e ainda me ama, se Daniel ainda for meu pai, e se tiver fumo pro cachimbo, e se o Corinthians for campeão, é mais alegria ainda! Me importa se Leão ainda reza por mim. E se Dona Antônia pode interceder por mim de lá do lado de lá do lado de lá, sabe?
Talvez no fim do mês eu nem esteja vivo, nem pela moléstia de sangue-sujo, mas pelas ocasiões da vida que me oferta. Eu sou o anti-herói-místico-das-estrelas, que escolho ir de esperança em esperança e de verdade em verdade até conseguir o equilíbrio entre a casa e a casamata. Sou daquele que os Leões descem o rugido, e as sereias não cantam para manter meu caminho de volta a casa. Modéstia a parte, aonde chego e fico, as pessoas vêem quem sou: E meus dons sobrepõem meus defeitos. Além de quê: Essa minha barba é linda pra caralho!
Sou o Marcus, discípulo direto da Pedra, sou dos irônicos, sarcásticos, heróis, mártires e de coração bom, que se devota e entrega nada além do melhor - dentro de minhas possibilidades. Sou o que cuida, mas pelo visto agora necessito ser cuidado, e Deus sabe no oculto de meu coração por quem gostaria de enfrentar mais essa luta a(r)mada, e de quais mãos gostaria de um cumprimento, e de qual braço almejo um abraço. Eu, digno de todo sorriso, sigo a cantar, escrever, e postar - minha função e meu ofício de escriba agora me cobra que eu escreva e descarregue sobre vós, ávida multidão, todas as minhas agonias, esperanças, sonhos, projeções e visões; e não se preocupem, pois até embaixo da terra, eu canto - imortalizei a minha vida como um cristal cintilante, e daqueles que puderam ver seu brilho, sabem de mim. Nunca fui do degredo, antes me pertenci ao Eterno Pai das Luzes, que ao me designar o degredo, fiz inha casa e honrei minhas raízes, amei os meus, e guardei muitas coisas no meu bornal. Sou das cordas, das letras, das orações, da patrística, da Piratininga, e de tudo aquilo que meu olho vê e minha alma emana.
E você não poderia dizer logo que me ama? E por favor, me segure e não me deixe ir. Me guarde para mais uma música, mais um paieiro, mais uma festa de Santo Antônio, mais uma Teresa e um Antônio, e dizer com os lábios chamuscados de vinho: "Vem, te guardo em mim".
E agora, dado a luta posta, me cabe batalhar, e vós, leitores, agora verão cada vez mais textos sobre minha nova luta - e vos peço, orem por mim, e que Deus me conceda uma boa luta. E que eu vença pra poder bostejar aqui cada vez mais e ter a mulher que amo em meus braços para poder rir disso tudo co'ela e meus amigos na festa do lugar.
Dessa vez, eu peço a alegria de uma vida boa. De ver o Sol nascer na vista da Piratininga, tomar chá matte e ouvir um som maneiro - ou fazer eu mesmo o meu próprio som na viola. Quero ver a geral piar.
quarta-feira, 23 de março de 2022
Elegia.
De fato, eu, criança solta e doida pelo mundo não reconheço o que me cega, mas deixo minha reminiscência em cada pedaço que passo gravando meu existir no mundo. A cada lugar que passo deixo minha essência, riso, deboche e palavra; e aqueles que passaram após a mim deixaram enunciado que me viram, me sentiram e me viram em locais aonde me eternizei. E quando eu for embora, sei que deixarei cada local meu com minha marca impressa, e por mais que a boca não assuma, serei o tormento do pensamento, a lágrima solitária, e o nome preso na garganta. Serei o mais belo pendão hasteado em algum tendal.
Mas, sinto cada dia que passa que não deveria estar aqui. Que talvez eu deveria deixar de existir. Devesse eu, de fato, deixar essa caravana.
Quando eu me chamar saudade, deixarei pontos mais fechados do que abertos, pois não guardei para ontem. E quando os sinos tocarem, os pássaros aparecerem, o Sol nascer, e quando o vento derrubar, será a recordação: não será teste, nem coincidência, e nem a vida. Será aquilo que espreita, e finge não se dar conta, quando eu me chamar saudade, levarei na mão um terço, e muitos calos dos pesos e barras.
No fim, pelo visto não importa o quanto você é bom, mas o quanto você aguenta as tretas e ainda dizer que está tudo bem - mesmo não estando.
No fim, não importa o quão fazes de boas ações, ou aquilo que tem velado teu coração; vale o que te julgam e te cabem necessário.
No fim, não importa o que você pede ou considera: você é condicionado a aceitar o que subjugam, e dizer amén.
E assim, passar para depois parece tão fácil, de comum fazer e explicar.
quinta-feira, 10 de março de 2022
Beautiful Stranger.
Não escuto mais o encarnado canto da sereia, e tampouco vejo as estrêlas-guias do Céu que há tanto e a muito me davam a paz para seguir mantendo leme e timão em sincronia. Logo, encontro-me neste exato momento vivificando um espírito natimorto e rezando pelo meu pior fel; e das dôres do mundo, na noite da solidão, me coube um lampejo (de ideia ou de ignorância), aonde guardo meus pensares neste baú letrado, de forma tão forte e precisa que quem o lê entende de letra errada, e se não o ter com o escriba para traduzir, não há de entender.
Pus pena e papel em pronto, e assim transpus para aliviar o desaguar:Conheça meus amigos, são dotados de virtude de charitas e amôr-sem-fim; e tôdos êles, quando pôstos no prisma de nós, sempre se colocaram da emprêsa e deitaram escudos a nosso favôr.
Conheça meus irmãos, aqueles a quem dariam a vida por mim, e asseguradamente dariam o subsídio para a musa da lagoa para que assim como eu daria para a senhora do junco e mel, e a nêga da favela - eles, cada qual em sua colocação, fariam e farão o melhor por mim e pelos meus quando eu me chamar saudade (E quando eu me chamar saudade, sei que não passarei apenas de história, nuvem cinza de chuva veraneia, da qual saudade nenhuma saudade, e sim vaga lembrança), e de fato não vos sou, máquina reconvexa, vaga lembrança? Aperto teus botões, seguro teus eixões, empurro alavancas e analiso indicadores, mas ainda sim, por mais relevante que eu soe, não te pensa que sei que sou plausível de substituição? Pois bem sei, e cai sobre minhas carnes teu óleo, que não me unge, só me constrange e arrefecia.
Conheça meu pai, frade eterno que se cristaliza entre o som e o suor, e entre o punho armado da peleja e o ostente porvir do grito, existe. Habita, no coração impuro e maculado, e além de tudo, existe pela graça sublime de uma misericórida, que padre algum explica e nenhum douto sabe dizer; visita cada pedido, entrada, bandeira, emprêsa e consorte - e dada a graça, iluminado e isolado no ar, existe por milagre impecável da vida - cristalizado e mistificado.
Conheça o coração turvado e abra-o meticulosamente, como gente, como ser, e pagando tributo; oculto pois, em teu desvêlo, reconhece a efíge que esconde, e dado o silêncio prolongado, respira com ardor, e entrarás: verás a chaga e a glória, e coisas que o silêncio soube mais do quaisquer outro.
Após escrito, lembrei de dias aonde era o Sol gelado, e a garoa amiga - que logo não tardarão a chegar. Lembro também, que vi muitos se esgueirando e esquecendo daquilo que só eu lembro. E oculto, dentro de mim, só lembro daquilo que ficou; e não renego! Agradeço a lembrança, e sei que no espaço estreito de um navio, computado as coisas que ergui pelos meus e as sagras que os dei, fiz mais pelo bem do que pelo não. E só espero que as vidas se encontrem no final, que o ego ceda, e que dado a tangente da carne, volta-se e sai o Sol para brilhar, frio e com têmpo cinza.
E lembro-me do que mais me trouxe até aqui, daquilo que mais batalhei em pau-e-corda, e pelo visto, andei em circulo. E eu, estafado, gostaria apenas de deixar de ser, de ter, de
sexta-feira, 4 de março de 2022
Alô, Meu Deus
Abba;
Se possível, me guarda esta noite nos teus átrios, e silencia minha voz por um instante. Dilacera e corta meus dedos - de lepra, tato ou corte; para que a função não seja mais ofertada. E o gosto de fel que tange a boca, se possível, elimina. Silencia minha cabeça, meus pensares, e ao abrir meu punho, dá-me a mão.Deita-me na campa, e sentindo o cheiro da chuva fresca, anima-me a me pertencer; pois eu bem sei: eu tenho, eles não. Eu luto, eles não, Eu entrego, eles guardam.
Eu sou.
Dizem, Abba, tanta coisa que magoa as vezes. Te sabes, que eu e tu, no nosso jardim secreto, que nunca quis cousa artificial, difícil, ou que custasse mais do que a vida; de vera, eu só queria a felicidade: A casa, a mulher, os filhos, o carro, árvore e churrasqueira. Queria ter casa no campo, de vera - mas me bastaria ter o que me cabe nesta proporção. Queria ver o Sol nascer mais vezes, olhar a rua e rezar para cada irmão meu que passa por mim, e principalmente não me deixar abater por cousas tão tolas, tão pequenas - mas que tem tanto significado para mim.
Abba, me sinto só.
De fato, me consisto em solidão de carne, pois sei que de alguma forma Sua presença está aqui, em mim e por mim, mas não desmerecendo Tua presença, me sinto falta de gente igual a mim. Gente que ama, aceita, e me faz sentir importante de alguma forma. Sinto falta de sentir aquele momento que alterna entre o riso e a compreensão, e de vera, Abba, por hora me sinto cada vez mais só, e parece mais uma vez com a noite da solidão; aquela mesma noite aonde sentia os taciturnos medos de criança e sentia a travessia do ido.
Eu, estando no mar de gentes, quando me refugio, me guardo em Vós, mas quando eu, estando a sentir o que bem agora sinto em meu peito, tento me refugiar em Tua alçada, porém me parece que até Vós me repeles - sei bem de meu passado, e das lutas que travei para sepultar o homem velho, e no segredo que nos cabe, no nosso jardim secreto, sabes de meu coração, e daquilo que mais me dói (a dita adaga no peito pelos santos, poetas, profetas...), por isso, peço que não Se afaste de mim, nem tão pouco esconda Tua face de mim. E me lembra sempre do que aquele passarinho, empoleirado na janela do claustro, cantou indecorosamente, raivosamente, abençoadamente, e proféticamente; deixa, que meu grito vença, pois das bandeiras que fiz, levei a honra, e da devoção que carrego, emano fé.
Pois te peço, assim como tom de deboche e desafio o endurecimento da víscera, e do riso bobo, do carinho e da tez. Peço que me perca de mim como o profeta no deserto, até que o pastor venha.
Se eles são, seremos mais. Se eles cantam, a gente arregaça. Se eles dançam, a gente bota pra ferver. Se eles são autossuficientes, somos carentes porque somos humanos. Se eles são doutos, somos burros para que eles tenham a quem ensinar. Se eles não tem tempo, somos os que criam tempo no tempo para ser servil.
Lembra, Abba, da porta estreita.
Lembra, Abba, que o deboche no fim das contas foi só uma arma pra esconder as chagas.