Ao entrar no carro, as palavras caem como mísseis em minha mão.
Mas, as evito. Olho a paisagem noturna apenas para passar o tempo, e esperar a virada da estação.
Algo ocorre dentro de mim, algo morre, a ser mais exato; e no fundo sei muito bem o que é, assim como você; mas cansei de fazer movimentos ou bandeiras acerca disso, apenas me mantenho em silêncio eliminando o parco fulgor que ainda provém de mim. Talvez amadurecer seja sempre isso, a eterna morte do ser.
Vale mais o seu sorriso que a minha lágrima, crianças dançam descalças a avenida, e alguns homens bebem nas mesas postas na calçadas; um cachorro tenta alcançar o que está no prato sendo petiscado. O semáforo abre. Garôa.
A música - Cecília de minha vida, musa primeira a qual devo amôr e respeito primeiro, única impassível de ida ou volta - me atraca ao pôrto de entender.
Mas o peito, este, não.
Apenas deixe ir, garôto - ela me sussurra.
Essa noite poderia ser uma nôite de amôr, mas não é; então boa noite e se cuide.
E com isso, começo a remoçar e remoer todos os sentimentos vívidos e translúcidos em mim, trazendo a tona tudo o que meu peito releva e a condição transpassa. Não sou ruim, e sei bem que não sou. Talvez eu nunca soubesse ao longo de minha vida o quão bôm sou, e que esta culpa franciscana me arrasta ao sopé do chão. Tento em vão buscar palavras que apenas em minha cabeça ecoam, e somente a mim fariam sentido.
Sentindo aonde me encontro, e aonde gostaria de estar, me pego mentalmente falando contigo de tudo aquilo que minha cabeça pesa e meu peito dói, mas que a bôca insiste em calar. E por um breve sentido da vida ser intríseca, nossa telepatia não funciona. Conversamos com o olhar muito bem, mas as vezes você perde o que o opaco de minhas íris esmeraldinas têm teimado tanto a lhe dizer e eu mesmo me censuro em verdade.
Então boa noite, e se cuide.
A água quente do banho não se compara a seu abraço, e a cama tão macia não me esmaece quanto ao seu eleio; e no alto da noite, não há duas cervejas; e a fumaça de um cachimbo não se equivale ao nosso defumado; olho os livros, os odeio. Quero rasgá-los tôdos - mas o anjo-de-guarda segura me veladamente, e as imagens não se quebram, apenas meu peito deságua por essas linhas por você não ver.
Dizia meu pae, que quem é fiel aos seus princípios, é fiel a si mesmo. Penso em quantas vezes me compensou ser fiel aos meus, e quantas vezes me foi perfídio e vão os princípios dos outros, e mais além - quntas vezes não foe por mim. Aquela lágrima virou um desgôsto - engôdo preso na bôca que nem o tabaco desamarra e tampouco a cerveja ajuda a descer pro ventre - e minha mente vagueia pelos recôncavos que me estreito em raiva se lhe contasse. Nessa noite se encontra o amôr, e eu, só, apenas observo o que se passa. As ruas passam depressa, as luzes viram feixe, e o vento não acarinha meus cabelos, apenas jorra um ar gélido como quem refrigerasse algo em mim. Talvez fôsse melhor achar alguém quem se importa. Talvez fôsse útil fechar os olhos. Boa noite e se cuide.
Deita-se a cidade, e os olhos ficam enegreados. Amanhã acordo, mas eu sei que amanhã tudo mudou; e se você não percebeu, é que para você não faz a mínima diferença. Boa noite e se cuide.
Epitáfio do Marcus Queiroz. Apoia esse blog, faz um pix pra nózes: marcusvini15@hotmail.com
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
A Night Of Love.
quinta-feira, 10 de abril de 2025
Padaria.
Se sinto falta de algo, é de teu pouco tamanho, e de teu cabelo escuro, que por horas me enforcava, e por horas me incensava e me deixava dormir como um rei. Do cheiro in natura de sua pele, e da naftalina que emanava que você nunca sente porque nunca entenderia...
E de verdade, se calo o estreito que comprime meu peito, não de mal é; pois, apenas ainda me excluo como sempre me excluo de todo o tudo, pois sei que não pertenço, e qual a receber o prêmio de consolação, aguardo ansiosamente. E digo isso não por maldade - pois a palavra não dita, mulher, é lâmina que tange, e não me extenso em explicar, porque estou cansado; e a cada cansaço meu, estará vós o dôbro - mas entendo a condição e ainda sim a aceito.
E de ti? Silêncio.
O vago silêncio monstruoso do Leviatã que ronda até hoje na beira da minha cama, ou onde quer lá que eu durmo, com sua bocarra satânica a me espreitar; e eu, anti-argonauta, Caronte por natureza navego não por ter mêdo, mas por necessidade tênue que me extingue, e se me foge a dita palavra, peço que gentilmente olhe minhas atitudes, pois ali provavelmente resida mais do que qualquer peixe que saia de minha bôca. E minha bôca, em qualquer situação resulta em chamar seu nôme, tanto como mulher, como mãe, para que me escondendo embaixo da sua saia, eu possa me refugiar do mundo em suas coxas e suas mãos. E que na fumaça dos tabacos e incensos, eu cada vez me esconda e morra dentro de você, para que antes que eu diga ou profira mentalmente a sentença, seja você a juíza que ostentando em punha a vista espada, execute. Não por ser me submissa, mas ó mulher, pelo fato de ser minha, pelo fato de segurar-me em teus braços, e natimorto, desfalecendo, e perdendo as ribeiras de minha carne, você possa, enfim, ver a luta até aqui e suturar minhas feridas, e lutar por mim como ostensóriamente* eu tendro a lutar por vós.
Eu devoto minha vida ao seu legado, mas você não vê.
Por mais que saiba de meu desejo de ir embora, permita então que antes que eu vá que o seguro entre nós seja o trato feito e bem calculado - dito isso, ao menos encanta-se em mim mais uma vez e decanta essa alegria e salva-me deste mundo quaresmal de dôr aonde Superman e suas ideias tão loucas parecem tão necessárias. E digo vos, não por necessidade, mas por um apêlo, aonde meu coração tão pequeno estreita em suas mãos, e o esmaga sem perceber ao ignorar ou descasear situações tão pequenas a vós, mas tão grandes e significativas para mim.
Estende, logo, seus braços e me esconde, e assim como nus, deitados n'quela cama, no pôr-do-Sol, com a luz se pondo e doirando seu côrpo, e os ônibus fazendo uma sinfonia de buzinas e freios, me guarda no seu sacrário e ouve o que não consigo dizer, aquilo que me faltam tôdas as palavras, mas apenas meu gesto diz tão tenaz, e você, única sibila dotada de mim, sabe dizer em precisa forma e textura, e dando-me a chancela, guarda-me.
...porque mesmo longe, e você nunca percebendo, mulher, volto para você. Pois é tudo por você.
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* = Referência a Santa Clara de Assis; o Barra-Vento do Senhor.
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
The Sweetest Taboo.
Eu sei que não deveria, mas fiz o que foi melhor; mesmo que me arrependa. Não me rendi aquilo que a cabeça pensa e ao coração padece, mas sim fui contra o encontro de um sentido, e sim, é possível.
Desci a rua e olhando de lado, esvaneci a fuligem do tabaco moído com a dos lixos na rua; por mais um tanto andei, e ao ver as garôas diferentes, voltei a ser o garôto que trabalhando, se escondia da chuva na marquise dos prédios.
Vi as elegantes damas deslizando com seus saltos, e homens polidos parecerem cachorros molhados; quanto a mim apenas desci a grã avenida com meu matulo cheio de pesos, e na minha cabeça cacofoniavam as idéias que sempre fui deixando para depois - planos, pensamentos, quereres, e tantos sentimentos que foram calados para manter o "bem-estar comum"; esquecem os sábios de nos dizer que quando nós tomamos o jugo da vida, não podemos titubear na dúvida, e tampouco entender ou contestar preço algum; pois, fazer renascer o tal ímpeto famoso guerreiro pelejador de contendas é renegar todo o castelo que se constrói meticulosamente e cuidadosamente. Nos é permitido viver em paz, mas nos foi dado também a opção de viver em guerra pela parte da verdade; e dado a saber o caminho que escolhemos, logo vemos aonde dá o fim de nossa estrada: ou o esgotamento, ou a morte.
Se da Dulcinéa não toco e não sonho e tampouco cogito, não foi por motivos de ter matados as bôrbolêtas dos aires e campas que tangiam-me, mas sim porque não sei mais caminhar passos alternados e ser fidalgo de pesos díspares. Quero o igual para dois numa medida posta em justo.
De verdade, não tenho tempo em dedicar legislações a falsos tipos de sons, e tampouco a ver o reflexo que só eu enxergo; não se há tempo para super-heróis e trampolins fantásticos de mundos felizes de tardes de iôga com incensos e azuis, e erros que se perdoam com um xamã asteca certificado por um monge nepalês que mora na Rua da Glória e se chama Jaime - muito pelo contrário; prezo pela homogeneização, desde que coerente e sincera, que pela sua vivacidade, ela se faz entender; ou como diria Tio Fungo (de dôce memória): "Calma, ela não é japonesa, a mãe dela que morava no Ceará".
Quando, exposto ao painel de facas e lancetes, olho cada lâmina e sua textura e afiação, e sabendo de seus tângeres, nada ouso em dizer ou pensar, pois, apenas sorrio e me atiro contra a que me lancina menos pois assim sei que aguento a próxima escara no dia seguinte; e deixo, a derradeira, para o último embate - seja por motivo de glória, ou por fim-de-fêira.
Mantenho - ainda sim - os sonhos e sons em mim, pois deles ninguém me tira ou supressa. E se me ostenta a mão vazia, é porque os guardei em meu peito, de forma que o inimigo, ojerizado pelo meu silêncio, mantém-se altivo e jocôzo, mas sabe lá ele que seu fim é iminente, e eu, como assim o faço, apenas mantenho-me descendo a rua em movimento, e colocando mais fôgo em meu cachimbo, incenso tudo aquilo que dispersa-se de mim. Porque hoje abro mão de tudo o que se emana e orbita no espaço de três braços, menos de mim; a chuva não para, e dessa vez eu não paro porque eu não ouvi a resposta...
terça-feira, 21 de maio de 2024
Festa.
Se me encontro só, por fatalidade ou coisa do destino, cabe a mim lembrar de teus cabelos negros, tuas mãos e olhar lânguido. Assim, talvez, ameniza em mim aquilo que grita e arde no peito com tenaz de sangue, que afoba meus passos mediante o quão caminho, e que qual estando só me confunde, mas ao passar na rua da qual andamos, ou no sorriso e piadas que confidenciamos, retorna a mim com um carinho e sorte de ser novamente confortante.
E, eu ainda uso botas. E sigo até hoje sem chulé; incrivelmente.
Passei outro dia na frente daquele bar que te levei uma vez na São Bento; nos fins dos dias, aquela mesa aonde sentávamos para beber e poder sorrir diante de uma vida tão pesada ainda está lá, e largava sua bolsa ao canto, e seus cabelos negros seriam então arrumados olhando pelo reflexo do espelho do banheiro sempre fedido a urina e cocaína. Será então dito em gestos o que não se diz em palavras e nem tampouco em textos pífios como esse. É algo que não tem censura, credo ou classe - transcende, excede e esconde. Andaríamos e cruzaríamos as ruas, faríamos o triângulo e veríamos o Rei do Matte; e se te interessa saber, aquela rua ainda está lá. Aquela mesma.
Há um riso tímido em sua face, da qual nunca me esqueço que também me arranca um riso tímido tôda vez que lembro ou sequer fiz questão de esquecer. Lembro de dias a fio, com pensamentos a fio, enquanto discorro um diálogo com os fios de nylon de meu violão. E é inútil resistir, e dado a essa resistência tão fútil, apenas me pego esgarçando a madeira e elevando acordes que nem sei mais o nome para guardar parte de mim no momento. Incenso o passado, perdôo o presente, e anseio o futuro na festa do lugar. Lembro de você de vestido. E de irmos a Liberdade.
Ao ver a paisagem que gostávamos - da qual onde hoje moro - do ônibus que pegava para ir para casa (cujo ponto mudou, aliás), dos sebos e caminhos que lhe mostrei, apenas nada digo. Mantenho em mim uma velha chama crepitante que usa-se de esperança que em algum lugar tudo isso ainda existe, se mantém forte e vívido. Aquela boina minha, a Cookie mordeu, e os meus discos ainda existem. O Walter ainda toca nas festas e o Pery ainda é DJ de mão cheia. Minha barba cresceu, e de repente todo mundo cresceu, mudou, evoluiu.
Ainda ando falando com pessoas que não sabem o meu nome, e se quer saber aquela esperança teimosa minha ainda nasce e morre todo dia, como se fôsse uma febre incurável de otimismo que soterro tôdo santo dia por camadas de humor negro e questões duvidosas. Hoje me vejo homem, com insônia e cansaço. Mas que ainda escreve de forma trincada para apenas (me) lembrar de coisas que a ninguém diz respeito; mais uma vez te pondo no meu rincão de memórias, sem saber se vez ou outra ainda faço parte do seu conjunto de lembranças...
A vida, maravilhosamente, continua.
quarta-feira, 17 de abril de 2024
Pelas Ruas do Mundo.
Ao passo de dez (ou onze?) anos atrás, lhes escrevi uma máxima aqui neste bRog, da qual ainda uso em temporãs: "Mundo Maravilhoso, Lindas Pessoas - essa é a vida", de qual era trecho de uma música minha.
Bem, é só pra dizer que essa máxima ainda vale. Vale muito.
Ainda é atual destacar e acreditar em cada parte boa de cada ser, e ainda sim fomentar a quem não instiga em si a parte boa e misericordiosa fazê-la render e fermentar. Sabemos lá que o mundo vem-se-ter em pé de crueldade e desigualdade, minguando em tristêza e desânimo. Mas, se colocamos o nosso arado amarrado a uma estrêla, temos como acreditar. Crer, sim - não há palavra mais própria para o contexto - no melhor. Seja lá pela vida, pela esperança, pelo amôr, pela fé, pelo amanhecer... em algo reside a bondade e nela toda fôrça que ousa ir contra se disspia e se transforma; como disse Paulinho da Viola: Tudo se transformou.
Pois, se lhes escrevo de esperança, é porque justamente a minha morreu e se refez em algo nôvo. E digo isso com a minha fé e humanidade exposta tal qual (não só) como um escriba, mas tanto como um ser humano normal e comum, que ao ver o Sol nascer e a Noite cair, entende que há coisas maiores e mais grãs que regem e imperam. Antes, haveria de ser mais um dia e menos um dia, e agora, faz-se o mesmo, mas com outro significado, trazendo em si a esperança de melhoria, e a fé que se aflora, desbota e germina em solo para que outros possam também crer - ora, pois se este bRog é de viés escribário, e conta de visão imparcial com exceção para Deus e Sua Igreja, nada além disso deveria de ser. Aprendo, pois, a mesma lição que nunca aprendi: Tudo tem sua hora, seu tempo e sua vez.
Enquanto discorro essas letras, jorram de meu peito a preocupação, o mêdo, a aflicção, e o cansaço do passo mantido (como vos digo, 'inda sou o mesmo), mas ainda sim me dá a nova e certeira direção da crença em algo maior e melhor do que o presente nebuloso; como rezamos na missa latina spero in Deo para que as bonanças cheguem, e assim me volte o sorriso em definitivo ao rosto, e estando em paz comigo e com os meus, verei novamente os Céus turvarem e as lindas garôtas sorrirem. Logo, ao chegar nesta fase, sei que os dias tristes foram a minguar, e as coisas belas, simples virão a mim de alguma forma, de alguma maneira, e eu, serei o mesmo, só que com sorte, mais vivo, vívido e feliz.
E qualquer coisa além disso, será superfulo. E qualquer coisa além disso sera desrespeitoso, e que seja sempre a felicidade por felicidade, e não por ter preço ou tábula marcadora de preço, tampouco algo que nos impeça por valôr e alíquota. Veremos, eu e os meus (e você também, se quiser) as alegrias de sábado, a cerveja no copo, o cheiro de rango, e as pessoas sorrindo como a festa da vida sempre nos presenteia quando nos cerceamos de coisas belas, interessantes, densas e profundas de sentimento e verdade.
E eu, estando lá, espero te ver. Como um pôr do Sol no alto da serra, e uma alegria sem fim.
quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024
Operator.
O amôr, em suas três divisões, por ora pode ser demasiadamente lindo. Mas pode ser lancinante e cruel. Lembro quando olho para trás todos os sonhos que constitui e construí - alguns com rapidez, outros com cautela, e outros de qualquer jeito. E a sensação amarga do recomeço sempre me incomodou.
O amôr as vezes pode ser muito explicado, mas, quando torna-se frugal, torna-se melhor. E quando torna-se belo, deve-se ter cautela.
Sei, também, que o amôr costuma ser vivaz com quem o sente, e que não se baseia apenas nas pernas grossas e olhos acastanhados das moças, mas no vento sagaz, na beleza das luzes do centro, dos cafunés nos Santos Cães da Rua, na feijoada na cumbuca de barro, o litrão na mesa de plástico e uma alegria de fim de festa...
Uma fumaça do cachimbo voando solitária pela noite, que por vezes no fornilho faz as vezes de lampião.
Talvez, há uma grande chance do amôr nunca ser nada do que se quer, mas sim do que se precisa, mas, até no precisar deve existir um querer - seja de ordem de grandeza, ou da grandeza. Se ela usa salto ou all-star, se sorri ou franze a testa, se grita ou geme, se fala ou sente; que mal faz? É amôr, dentro do sacrário do peito d'ela reside parte de mim, e parte d'ela carrego atado a mim. E ao porto, digo não. Acosto, acocho e me atraco a marina de seu porto, fazendo-me saber de dela, e que ela se saiba de mim.
Haverão dias escuros e noites claras. Medos e incertezas, raivas abruptas e carinhos sem fim. Sei disso, é o mesmo esquema de maneiras diferentes em cenários iguais, mas, não compete a mim fazer toda a vez ser a última vez? Disse um velho senhor que conheci no passado que o "verdadeiro amôr, é o último amôr" (sic). Eu não discordo em parte, mas sei que não é apenas isso. Só o que excede, transgressa, urge e faz ser visto é notável e deliberadamente tangível no alto do ser.
E do resto? Que lá sei.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024
Silence Is Easy.
Dizia para mim um velho senhor, de hábito preto e olhos fechados enquanto esfregava suas mãos para esquentá-las: "Se te arrancam um pedaço, menino - segue."
Ah, a sabedoria dos mais velhos, quão fulgurosa é!
Por mais que doa, por mais que aflige... por mais que pareça que não há o que ter depois do não-ter. Há quem busca, e há quem o tem. Vida é troca, e nem todas são de fato justas ou iguais - porquanto, sei que há muitas mãos que nunca deveríamos soltar e tampouco sei das mãos futuras que tocarão a minha quando a cingir no Aqueronte da vida.
Só sei de mim, dos meus versos, de minha viola, e do sorriso daquela mulher que com a fumaça que sai da boca, me faz sentir melhor - mais vivo, mais inteiro. No demais, sei das desaprovações, dos erros, da peste, da morte, e daquilo que se oculta a cada passo; da infindável e formosa verdade, nunca pude a ter, apenas ouvi falar, e dizem-me os sábios que ela é boa. Que ela é linda. Que é a matrona de todas as bonanças. Sei também que as ruas estão mais policiadas e de alguma maneira não há mais tantos irmãos de rua aonde moro - parece estranho, mas é a pura verdade.
Pelo visto, ao contrário de tantos sábios e heróis, percebo que até a verdade tem lá seus níveis e formas; coisas que predestinam ou prenunciam guerras, ou apenas um sim ou não. E em um silêncio abrupto ao me dar conta disso, olho a janela, vejo o vento, penso em mim. Só sei de mim. Só sei dessa cidade que come e destroça sonhos e esperanças. E das mãos que toco - as seguro firmemente contra a minha - e não as quero soltar. Só sei de mim.
Não quero fumar. Agora não. Deixo-me esvanecer com o momento tão íntimo e particular.
Ai de mim, se achasse que em algum tempo antes do tempo as coisas pudessem melhorar ou ter-se-lá alguma esperança, e se ouvissem como me presto a dignar os ouvidos a cada ouvir. Ai de mim, se vejo a vida como é, e não crio tanto caso; apenas tento fazer o que cabe dentro de mim como ser humano. Mas sei lá eu, que até a bondade tem preço, e que as represas se quebram. E lá eu, mantenho, aquilo que nem as paredes confesso, e em um espaço estreito de um navio, confio somente a mim; pois lá no fundo só (eu) sei de mim, e sei que algumas coisas não se competem a dividir, mesmo que pareçam terem ser feitas para tal situação.
Algumas vezes, o mais fácil a ser feito; é justamente a parte mais difícil de toda uma vida.
sábado, 30 de dezembro de 2023
Still Waters Run Deep.
A cidade desce, e no acinzentado padrão do mar-de-côres que o horizonte entrega, em cada ninho vertical que há na cidade, reside eu, tu, e tantas outras pessôas... acendo um cachimbo, e enquanto esfumaceio o meu cômodo, lembro de teu sorriso, e de alguma forma isso me trás uma nostalgia benéfica, de forma que só de lembrar seus olhos e seu sorriso, seu charme e seus trejeitos, me encabulo sem estar aqui.
Escrevo sem escrever, mais em tom de desabafo, estando a casas de distâncias, ruas talvez, até. Tudo é questão de logística pelo visto.
Enquanto o vento desce, encho minha taça para mais um tanto, e vejo os poucos carros na avenida movimentada. Assim, logo percebo como a vida, tão agitada também é - e pede - calma; assim como implicitamente pedi (e agora por telepatia) peço seus beijos; e antes que diga algo, você sabe que é para você esse pensamento, e mesmo não entendendo, sei que você compreende de alguma forma o meu jeito reservado, quieto, sereno, pensativo, teólogo-amadorístico, quixotesco, beberrão e principalmente travado em relação de você.
Você acreditaria nas coisas que tenho a dizer? Em todas as que enchem minha alma e pesam em meu coração? Ouviria o resto de minhas histórias para desvendar e ver quem eu sou dentro desta carapaça? Você acreditaria no que falaria das coisas que sei, ou tentaria interrogar para que visse algo que nem a minha face se mostra? Se, no calor de hipoteticamente vos dizer algo já me escuso; sem que você saiba já me declaro e me deito ao vosso pé. E assim sou - imediatista, romântico, dos versos, dos sentimentos, das flôres e das liras. E esse sou e serei ao visto da minha vida; e no fundo nem acho de tanto ruim. Até gosto, a ser franco.
A chuva cai. Mui provavelmente dormes, ou assistes algo, ou preparas algo para beber. A têz da noite começa a abraçar o Céu cinza dando seus prenúncios, e você nem diz nada, tampouco me aborda para falar do que é, ou não é. E o oculto de meu peito, apenas espera a Dulcinéia. A vida, por mais incrível que seja também espera - ao atingirmos um patamar descobrimos que ela espera, e nesse sábio esperar para ter com quê, vemos finalmente a vida acontecer e ser real. E que é então a vida? Habita em seu sorriso, cabelos, olhos apertados, coxas grossas e voz macia e toque-de-mão. E qualquer coisa além disso, definitivamente Deus guardou para Ele.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
California.
A vida é tão bonita que parece o arquejo dos seus pés quando eles se contraem para você se espreguiçar, e a janela entreaberta faz um degradê em sua pele que marca cada pedaço de paraíso e pecado, e na alfândega, o sorriso teu é a chancela e teus cabelos negros, o pedágio. Eu estou voltando pra casa.
Minha avó sorria sem dentes, tampando gentilmente a bôca, e depois se curvando, elevando as mãos ao Céu, como se a alegria fôsse - como o é - dom de Deus. E tem muita gente por aí que sorri sem ser humilde e não eleva os dons para Deus. E eu, quando me lembro de minhas raízes, volto para onde nunca saí - para a seiva da gênese; eis-me aqui...
...eterno garôto encreiqueiro, trigueiro príncipe do degrêdo, filho ordinário de Itaquera, de sôco inglêz na mão e terço na outra, pude ser tudo o que a vida me deu e me fez caber ser - amei e odiei na mesma proporção, turbulento com a mãe e desastroso em achar o amôr; e nas ruas cheias de estranhos, me disfarçava como mais um; por mais que eu não possa mais, ainda dobro o triângulo, e desço tôda a Brigadeiro Luís Antônio tomando um latão ouvindo The Who. Eu me tomo como sou, e me aceito na medida que me faço, sendo sob-medida para mim, sem ser algo que não sou, e tampouco ser pouco para o raso. Transbordo quando devo, e irrito os que não entendem ainda. Sou eterno transgressor, como tôdo degredado é.
Aquela árvore, apesar de podada ainda está lá. E firme, e forte, sem vermes ou doença. Suas folhas ainda caem na calçada e fazem um farfalhar agradável durante o vendaval, e quando chove, estranha e misticamente a sua copa consegue nos proteger; descendo um tanto a rua tem a banca de pastel do Birebadim, a tenda de ervas do seu Sinval, e o cara que arrumava panelas - e minha avó sempre comprava a borracha de panela de pressão nele. O barbeiro que cortava meu cabelo morreu, mas seu filho tomou conta do lugar, e assim o negócio da família continua em boas mãos. Meus amigos ainda estão espalhados - talvez cada vez mais - em todos os recôncavos. E ali na rampa, Toninho não está mais. E Tio Fungo, infelizmente falecido de morte trágica não pode ver como o Sol descia vermelho do lado dos novos prédios que subiram no lado esquerdo da praça aonde eu e os meninos bebíamos vinho quando cabulávamos aula.
Os trens ainda fazem o mesmo som quando batem a curva férrea, e a cidade ainda tem o mesmo cheiro de cinza, fumaça, urina e café. Os olhos descompromissados de edifícios clássicos com igrejas barrocas se transfiguram quando passas com seu vestido e all-star. Ao te ver, o tempo se reduz para ver qual livro escolhe da estante; põe um óculos escuro, tá é Sol lá fora.
Ah, o Sol quando desce e faz sombras, é tão lindo. E a cerveja posta na mesa de madeira na calçada, o cachimbo aceso e a conversa a rodar sem fim, a miséria e a alegria com os livros postos num cantinho pra não esquecer enquanto ainda se decide o que comer... ainda tem tempo, e se não tiver tempo na rua ainda tem muitos bares, e chegando em casa ainda dá pra fazer mais alguma coisa. Tem um cara pedindo grana na esquina da minha rua, mas ele não usa pra comida - e se bobear ele come mais e melhor que eu com todas as marmitas que ele recebe, tanto que outro dia deram um pau n'ele por ele ter feito um "esquema" de vendas de marmitas doadas para quem não conseguia comer as doadas outrém. Disseram até que ele deslocou o joelho, mas eu o vi normalmente em pé e em ordem.
Nenhuma correspondência na cadeña, e nenhum recado no mural, e após três lances de escadas avanço ao meu refúgio - não há dulcinéia que me espera, mas meus livros gritam de saudade e meus instrumentos urgem por um afago, e enquanto enoitece na cidade, vagueio em cordas e letras para falar que sinto saudades daquele Céu estrelado que hoje fulgura em meu coração.
Após um banho, é acordar melhor amanhã.
segunda-feira, 18 de setembro de 2023
De Uma Lontra Para Um Cigano.
"Quem sabe, sabe; quem não sabe sobra" (VALENÇA; Alceu, 1976)
Ao ditoso amigo cigano que a tudo vê e sente, mas como a rocha, inerente como uma justiça perene se mantém cego como a musa de libra em mãos:
Eu fumo e tusso fumaça de gasolina, e cá aqui no centro mantenho-me vivo a cada respiro de fumaça cinza, e a cada transeunte de passo apressado, vejo meu patrício - primo direto oriundo de (São) João Ramalho e (Santa) Bartira. A São Pavlo da Piratininga, de amôr e ódio, é a mãe que nos obriga a cômer dos vegetaes tão intragáveis, mas que no calar da noite nos beija a fronte e nos cobre com seu mantel - e o mundo só presta assim, é um bom e um ruim - na hora derradeira. Se tratamos bem nossa terra, sustentamos pois o fôgo, qu'essa victoria é nossa!
De tua casa, fiz a minha; de teus conselhos, fiz meus caminhos; De tua sapiência, fiz a minha; De tua irmandade, fiz meu irmão mais velho; De sua forma campesina, encontrei meus parentes distantes; De seus rebentos, fiz meus sobrinhos; De nossos segredos, selei nossa parceria diante do Imóvel e Onipresente sacrário de Padre Deus - a vida.
Se amizade vale um tesouro, sei bem aonde pus meu coração; e vejo que o encontro no local certo.
Quando me ostento na luta a qual derradeiramente amo, então sei de mim, e sei dos meus; Pois, quando me chamas a caminhar contigo o passo mantido e lutar a luta que amas ao seu lado, sei que não passo além de mim, pois lá tu que conhece a limitação e o entrave tal qual um pai ajuda, ensina e admoesta - de rispidez mas com o amôr embutido como fôlhas recém-cortadas de presunto num papel térmico.
Há uma estrêla a nascer meu mano, que sobe e fulgura o Céo de maneira ilimitada e que rege os acontecimentos de agora e futuros: Tal como o Cruzeiro do Sul que guia os tanoeiros e as naus ao seu lugar-temente, que sua estrêla brilhe ferozmente, como na fronte de Domingos de Gusmão, para que em sua mente estejam espelhados os translúcidos brilhos cristais d'aquém te faz viver mais prudentemente. E se pega em armas pela questão de ordem, abençoo-vos, mas se pegas e ostenta a horda do insustentável sentimento de ser e estar com o ferro quente que seguras pelo ego estar afã a vós, rezo em contrito; pois de tua natureza não sinto ou vejo maldade, e se assim o faz, foi por quem te fez ver a vida assim que ojerizo, pois: "o homem nasce bôm, mas o metal o corrompe". E sabes que não quero lhe magoar, pois tenho-te em alta conta e entre os santos de minha igreja, assim como chamo outros dois de nós. Mas é vergonhoso - não só a ti, mas a minha lontrice também - ver o quanto precisamos dar tombos e rasteiras até chegarmos na melhoria e na perfeita alegria. Estamos bem. Mas ainda temos tanto muito e tanto mais.
E pelo seu esforço desse item, e de tôdas as composições de teu ser; é tu aquele que entende a vida melhor que eu, e recupera em mim o brilho perdido de após cansado de pelejar, encontro novamente a minha rosa-dos-ventos, e acho nôvo rumo, nova vida, novo momento. Que Deus, o Bôm Santo Antônio e a Dôce Virgem Mãe das Candeias o abençoe - ontem, hoje e sempre. A benção se estende aos seus.
Aikão lhe manda amplexos e abraços.
Do seu irmão mais nôvo;
A Lontra Franciscana.
"And in the end; everything's alright." (ROOT; Ginger, 2023)
quarta-feira, 16 de agosto de 2023
Wild Blue.
Enquanto escrevo, eternizo
Enquanto escrevo, deixa de existir.
E enquanto deixo as letras gravadas, atesto.
Talvez você ainda venha ler e reler para achar um senso, mas não o dou, não o entrego, tampouco vou te dar o oculto de mão beijada. Não, te avanças se abaixar, e se ao renegar a prata você olhar o Céu. O verdadeiro Brilho é Aquele que cobre nossas cabeças. Eu deixo gravado aqui o brilho de seus olhos, o brilho das luminosas de teu cabelo e do branco de seus dentes.
E mais ainda: Deixo também atestado que não quero dizer nada, apenas que quero sair, viajar, dar um rolê, ver o Sol, passar um final de semana no campo, e depois descer a serrania e ver meus pés cansados descansarem na areia comendo um camarão na praia ouvindo Evinha - êste guerreiro (se é que assim chama os que pelejam de côrpo a côrpo com a vida) - precisa de repouso urgente, de uma benção, e respirar um pouco sem os quilos da vida lhe darem os tinos de vivaz na alma. Digo urgentemente que procuro quem vá comigo pra Aparecida, ou quem leia livros como eu, quem toque sons, ouça sons, faça sons e sinta o som; espero ansiosamente, ó Juíz, pela(s) pessoa(s) que sentem também a terra girar e que saibam que a vida em si não é grande cousa ou negócio, e que no desprêzo de si encontre o mais belo thesouro, pois ali também estará o coração.
Vejo o lado, abro a mão, mas a bôca (o porto), não.
Trago a fumaça, mas respiro. E sinto que o tabaco não me roubou o folêgo de tantos anos de respiração profunda antes de sentir, de enfrentar ou até mesmo de ir lá ver eu. Sinto em mim tôdos os sentidos do mundo, e atrelado a isso, nada de nôvo tenho a acrescentar ou dizer - apenas que a vida, essa sim, quando vivida aos poucos, mansamente, cadenciadamente, e com humildade e bondade pode fazer o mundo ser melhor, apesar de tudo...
Mas, afinal, de que falo? Sou apenas uma lontra (outrora piraña) franciscana. Guardei em meu bolso, perto de meu terço e isqueiro um tanto de alegrias emergenciais; cousas tão minhas que se compartilhadas as alegrias minhas, quem não sente a terra girar não entenderia. Aqui, baby, é made in degrêdo, filho de Eva, e que a Itaquera nunca saia de mim, porque eu nunca me apartarei de quem me ligou a entender as pessoas, amá-las com suas imperfeicções e cuidar de tudo para que tenha seu fluxo de vida ininterrupto. Sou o garôto (agora homem) de barba expessa, olhos verdes e esmeraldinos, que reservo meu silêncio para a grã maioria, mas me revelo aos meus, pois dos que me deste, dêstes eu não perdi nenhum. Sou o do Largo, dos sinos, dos sons ensurdecedores, da Antarctica gelada, do cachimbo, e dos dias sem-fim. Sou amigo de São Brayan, São Albertino, São Robson e sobrinho do amável Tio Fungo, que hoje repousa entre os justos. Neto da Dôce Dona Antônia. E pela junção de tudo isso (e mais um tanto), sou hoje a junção de tudo num tôdo. Assim como você é.
A benção, Véa. Tamos aí, e vamos adiante!
sexta-feira, 16 de junho de 2023
Woohoo.
Bateu cinco graus no centro. Eu vi, eu estava lá.
E foram cinco graus bem pesados, bem medidos e bem acirrados. E a precisão da sensação térmica deu os mesmos cinco graus. Era frio, mas o viño que me desceu aos nervos me aqueceu mediante a falta de teus afagos e teu dínamo vivo que chamas de corpo.
Avisa a tomboy que hoje não tem café. Só chá.
Sou suspeito para falar, né? Gosto do frio e seus nuances - sinto-me verdadeiramente vivo, ou útil de alguma forma quando essas correntes de ar me circundeiam; sinto ecos do passado e de alguma forma mui estranha também sinto os meus antepassados em presença dijunto a mim. Sinto mais prazer nas bebidas quentes, e posso simplesmente andar nas ruas sentindo o mundo a minha maneira; não que isso seja algo especial, mas sinto que nesta forma eu absorvo mais do meu infinito, e com isso me sinto mais disposto a entender, refletir, agir e cuidar.
Hoje de manhã se deu em 10 graus. E foi ótimo.
Apesar das roupas não secarem decentemente, ainda sim é um bom tempo. É quando as pessoas se recolhem. É quando tem São João. É quando a vida se torna mais íntima e menos de exposições públicas, sem vermos todo o mundo vibrando em unissono na rua, havendo mil ecossistemas a cada esquina, se degladiando por um lugar ao Sol. É quando tudo estranhamente se permanece absorto, meticulosamente quieto. Estático. Dentro de sua concha.
Vi uma criancinha no Terminal Pq. Dom Pedro dizer pra mãe: olha, sai fumacinha da bôca! enquanto a mulher em seu exercício materno olhava cariñosamente e ao mesmo tempo procurava o ônibus para entrar, e por um momento lembrei de minha mãe quando me levava ao Cândido Fontoura ou ao Darcy Vargas. Lembrei de muitas mães que como sublimes leoas se dividiram em formas irrecuperáveis para ser (em sua conduta e forma) o firmamento para seus filhos e filhas. Lembrei de Dona Antônia (entre os justos), e timidamente soltei fumacinha pela bôca mesmo sem têr um cachimbo de usufruto para disfarçar. E esse era eu. Aos 31 anos de idade, atingido invariavelmente por uma criança, ressuscitei uma parte morta dêntro de mim em um terminal de ônibus que também foi palco de minha infância. E ao entrar no ônibus, apenas ri.
Após goles de café, relatórios e testes, cá estou eu. Aqui na Mooca faz os mesmos 10 graus (em sensação), e de fronte para o meu quintal - amada Piratininga - sorrio, e lembro de um bôm têmpo. Faço mais um café, e com a corrente de vênto na janela, vejo a cidade fria se transfigurar para um formigueiro silêncioso.
...na verdade, agora fazem 13 graus.
Que dia delicioso.
domingo, 28 de maio de 2023
Mandolin Wind.
Chove lá fora.
Acende cachimbo.
Enche a caneca.
Solenidade de Pentecostes.
Apesar da chuva, ainda há a massa humana que se dedica a ver os shows que estão acontecendo pelo Centro afora, e isso acho de fato mui interessante. Ainda há gente, há movimentos, e só ficam nos apartamentos, apuleirados como pássaros, os que tomam chá e vêem a chuva cair, os que olham o universo, e principalmente os que entendem a vida em sua infinitude.
E afinal, o que é a vida?
Deixa pra lá, hoje é domingo, deixa a existência pra depois...
Põe um disco, acende aquele fumo aromatizado, e olha o universo que habita diante dos seus olhos afora daquela janela. É um universo que colide contra o universo do seu ser; que não maltrata, agride, faz mal ou te ojeriza - na verdade, de forma mui natural lhe acolhe. E bem sabes, que esse texto fala de você.
As músicas, as janelas, os discos, o frio que gostamos... Não há razão de ser se não for razão em ser verdadeiro.
E ser verdadeiro é um peso que desgasta. Custa uma vida inteira, mas nos dá a maior alegria de todas: nos pertencermos veramente, sem ter quê ou porquê.
E o vento, traiçoeiro e eterno moleque bagunça seu cabelo. E te dá aquele golpe de vida que o âmago da sua vida sente e pede - soterrado dentro de ti você sabe que ainda tem mêdo de viver um tiquinho. E por isso se cerca, se fecha, se corrompe, desgasta, e se perde num papel mais bem feito que Chaplin em O Grande Ditador. Infelizmente, está chegando o tempo em que você vai (terminar) de (se) quebrar. Deus vai te cortar com uma faca - te retalhar. E isso só para te fazer dar boa fruta. O cariño, a paz, a fôrça que ergues, e aprender a (re)começar não deveriam e nem poderiam ser difíceis...
Ouvi um trovão. Talvez hoje o Glicério alague, com fé em Deus.
Escrevo mais um tanto, aqui e ali. E seguimos.
Para onde?
Para onde Deus me mandar, pois ali é onde estou esperando meu dia de brigar contra o Rei.
segunda-feira, 8 de maio de 2023
Céu De Brasília.
Quero andar um pouco.
Me divertir, sentir vivo talvez. Quero ver o começo da semana a noite. Os semblantes cansados nos comboios públicos, as dôces mulheres que tirando seus saltos de horário comercial, agora se desprendem de ancas em chinelos de dedo, as môças que se saindo da academia, parecem uma tartaruga-ninja com o casco de alça pôsto nas costas... Os fortes homens de alma frágil dependurados nos balcões do bar, tomando uma cerveja ou uma pinga com limão para aguentar o tranco, ou dormir sem jantar...
Tem um irmão-de-rua que passa, cativo e alheio ao universo. Seu saco de coisas encosta nos transeuntes, e atenciosamente, pede perdão a cada um. O passêio público parece algo tão largo e estreito; na quadra seguinte se reúnem os jovens para poder entrar em uma faculdade, e alguns adolescentes se encontram e sentindo o mal da imortalidade bebem, dançam, cantam e brincam com o amanhã; como se de forma bela isso fosse imortalizado em sua aura.
Uma estrela brilha demasiadamente, mais que a Lua - já não mais cheia. E ai dos olhos que as vêem, pois se o alteia para vêr, pode correr risco de perder a carteira, celular, e ganhar hematomas furtivos. Um vento suave como que de verão entrecorta os corpos cansados, que já mais do que nunca anseiam por sexta-feira. Tem um olho no alto da torre. Mão aberta, cajado pôsto em defêsa, e rôsto de fronte inquisidora. Olhos que olham, tangem, secam... aliviaram.
Ah, musa, deverias deixar eu me ocupando pelo brilho dos olhos foscos que vejo, do colorido cinza que têm nos prédios e marquises, das tôrres, bares, perfumes e cheiros fétidos; dos aviões que transpassam o ar sem ter nem com quê ou porquê, e nas rotas mais calmas, se tive sorte, ouvi uma árvore farfalhando ou alguém pedindo um dinheiro para pagar um corote.
E eu, tão pequeno diante da magna essência desse lugar, sou ao mesmo tempo dono de um universo tão complexo e confuso dentro do meu sorte. Os faróis são de estrada, faróis de milha como diria meu pai, e os semáforos hoje, logo hoje decidiram trabalhar. As bancas de jornaleiros começam a bater seu cartão e fechar. Um garoto de talvez 14 anos compra um cigarro solto. O vejo. É cabeludo, como fui. Sua mão parece frágil ao acender o isqueiro para fumar. Na primeira tragada ele engasga. Desvio o olhar para não intimidá-lo, e lembro-me de quem já fui - parcela de mim que não eliminei e ainda rola no meu recôncavo, alcunha de nome Ox; velho conhecido desse blog...
Ao sair do espaço, mantenho-me perto de alguma certeza, algo que ainda tente me mantenha firme. Faz muito tempo que não sinto meus pés tão pesados e meus olhos tão fracos. E ver essa cidade, mesmo que do lado de fora, por um pouco espaço de tempo, me acalma. Me dá a sobrevida que preciso, e afasta de mim aquilo que nem as paredes confesso; apesar de já dito. Me esqueço da sorte, da solidão, da contraforça e da raiva, e guardo em mim a sorte ou benção de ter sido filho do furacão - dos amigos mortos, heróis tardios, mártires irreconhecíveis, gloriosos desconhecidos e do pae tardio.
Dobro a rua de casa num arremate preciso para não ver mais estudantes arrogantes de direito, desço-a, tal qual os ônibus desordenados, e me mantenho apenas por existir ou por fôrça de pesar os pés contra o chão. Abro a porta, e vejo o saguão, tímido e de tapete suntuoso. E ninguém me espera, toma pela mão ou segue meu ser; como me disse o cantor: Quem me levará sou eu.
Se hoje saio para ver esse coração maquinado trabalhar, é porque o meu já não bate, tampouco palpita, e só a ouvir a sinfonia que essa cidade proporciona, sinto-me de alguma forma, imortal. E nenhum outro que não seja filho da Piratininga pode entender.
Ao meu chão, entrego meu corpo primeiro. Ao porto, não.
quinta-feira, 20 de abril de 2023
Lost In The Supermaket.
Um ano depois é muita coisa.
Ainda não sei dizer, se estou vivo ou morto. Sei que meu livro sai agora em maio após umas séries de desventuras e de fazer-saber e fazer-conhecer. Sei que não durmo mais no chão e tenho paz de espírito - ainda sonho e penso na morte de forma afã, mas tenho ainda o tino de mexer bem com a lâmina que trago oculta em minha mão.
Eu não sou herói, sou escriba. Dos que escrevem eximiamente sobre tudo, e no fim não te deixam entender nada. E já queimei o notebook com o cachimbo. E já mandei rezar uma missa. E já falei de menos. E olhei demais.
A água de beber é diferente da água de candinhar. E na anágua que ela veste, na têz da noite com os corpos no escuro, eu quero me esconder. E aninhado, aos olhos acastanhados que vermélidos, me dão alento, navego suspeitosamente em seus cabelos negros e penso em mim como escriba, daqueles que fala dela sem que ela perceba que eu cito-a. Diz Ednardo na música: "Pra menina meio distraída, repetir a minha voz...", e assim, quero permanecer. Como alguém alheio, mas não presente. Como rei sem trono, casa sem arrimo e olhos que hordam a cegueira.
Uma vez eu conheci um cara que foi um herói. Ele me disse que era dos boêres, e que lutou na Índia. Eu nem acreditei e nem desacreditei; Na verdade apenas ri - eu só pude rir. Conheci também uma moça que chorava lágrimas de prata, e que suas mãos eram mais quentes que água em ebulição... ela tinha nôme de pedra, talvez jade, talvez esmeralda, ou turmalina. Tanto quanta outra vez conheci um irmão de rua que falava latim, aramaico, grego koinè e hebraico-velho; me confidenciou que era grã historiador teológico, mas que a tudo largou para viver o que realmente desejava (as coisas de seu coração), e por isso perdeu tudo. Conheci uma mulher que se prostituía por medo da solidão, uma boliviana que pagou 50 mil em um anel, e trocou por uma casa na Bela Vista, e depois por dó (sic) ela se casou com o dono do ap golpeado e foi a melhor coisa que fez. Vi filhos de amigos nascerem, vi pessoas amadas morrerem, vi a tristeza e dor em cada coração e celebrei e fui rei com quem celebrou cada alegria de forma ferrenha. E isso me manteve vivo - por mais que ainda esteja dançando um tango errante com a morte; parando apenas para ir no banheiro e comer um pastel.
E em um ano depois, é muita coisa, nem dá pra contar tudo nesse texto, apesar de já o ter dito o suficiente...
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023
Dedicada a Ela.
E modéstia a parte; eu sou do Largo. E eu gosto de escrever. E eu só escrevo coisas que me pesam a pena.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
MMXXII
Mas gente do Céu, que aninho treta...
Este ano de fato foi o ano onde mais a porca franciscana torceu o rabo. Ao meu parecer, vi que esse ano não foi revelador, mas sim temerário, de grã vileza e de fôrça rude. Esse ano mostrou tanta coisa que, vemos face a face.
(DISCLAIMER: Não venha até aqui com seus olhos positivistas tentar ler o que escrevo com alguma "aura" linkediniana. Aqui é mato - raw franciscan way of life, and such a well respected workin' class mate - e pretendo continuar assim por mais um tanto. Me vale a alegria de ser o que vivo e professo do quê viver uma ilusão ou flertar com estilo de vida incompatível, ou também como dizemos no populesco: "arrotamos caviar comendo mortadela.")
A vida nos ensina a ser francos, ter noção de justiça, re-considerarmos, e termos o entendimento que nem toda teoria é certa, e todo livro também possui seu inutilismo. Tenho receio daqueles que se escondem atrás de livros, alpendres, pórticos e arietes, e no alto de sua douta vida e grã sabedoria não descem para a arena para viver com gosto e agarrando sua própria alma com fôrça e altivez. Ah, que pena. Pena que seus livros te ensinem tanto sobre amor, e não ame; te doutrinam sobre misericórdia, e não faça; te fale sobre ter sensatez, e você tem falácias descontinuadas.
É mais fácil ser superior, né? Mas mais difícil é 'guentar o tranco da vida com todas as suas porradas e imperfeições e ter a cabeça tranquila no travesseiro que fez tudo o que podia, sem hesitar, sem pensar, sem murmurar e sem se conter por quaisquer barreiras que te façam humano e vivo/atento a todos os sinais de vida que o Criador te imputa ao redor de tua carne - fez com desespero e alegria aquilo que se prega em um evangelho vivo e imutável.
Seus diplomas serão papéis amarelados, sua ciência pode e será refutada, e seus momentos de "bom-vivant" serão mal-ditos pela suas costas. Te restará apenas o (parco) bem que você faz de coração aberto; você tão em pressa de viver esqueceu principalmente de viver. Que bandeira...
Esse ano foi o ano que escrevi meu livro e o publiquei. Se der certo, a primeira meta do ano que vem é fazer uma tarde de autógrafos num lugar que gosto muito. Oro a Padre Deus que dê certo. Espero os rostos e as auras que tanto me fizeram bem esse ano para celebrar no ano que vem este momento tão belo em minha vida.
Ah! E me mudei. Agora o garôto da zona leste tá no Centro da Cidade!
Tenho medo da riqueza material e o que ela faz com a cabeça das pessôas; e dos que vi, meu coração até hoje dói por eles terem tão fascínoramente "virado a cabeça", tenho ojeriza das famílias de "comercial de margarina", tenho surtos coléricos ao ver pessôas tão felizes que batem palma pro Sol - a alegria de viver reina e se estabelece em meu pêito, e se a engrandeço de maneira exacerbada, me torno inimigo daquilo que carrego em meu ser; Deus que se manifesta no silêncio e vem em meu auxílio nas horas mais tristes aonde ninguém segurou minha lágrima ou me fez ombro amigo.
Houveram dias que houve silêncio. E quando apertava, rezava. E quando a reza não dava, chorava. E quando a lágrima secava, recorria como um desesperado aos pés da Cruz. E inexplicavelmente tudo dava um pouquinho certo - certo o suficiente para que eu ainda sentisse vida em mim, e no meu coração.
Este ano perdi amigos, referências musicais, perdi família, perdi o amor, quase me perdi, trabalhei em lugares e profissões que nunca achei que faria, e mesmo longe eu estive perto - fui agraciado e reconhecido pelos trampos que fiz e pela força que exerci. E aonde fui, levei meu velho crucifixo de bolso com um Santo Antônio, e repetindo a fórmula que minha avó rezava, dizia ao me sentar na mesa: "Alto! O Sagrado Coração está comigo!". E quiçá por Deus, ou pelo meu merecimento, hoje estou num cargo bom, numa empresa boa, num lugar bom, com uma vida que ainda bagunçada, mas bem.
Esse ano foi um porre. E a garantia é não saber o que vem no ano que vem. A garantia é mais trabalho, mais cervejas, mais exames, mais leituras, mais sons, e mais silêncio; se retirar e aprender a morrer é uma questão de ordem.
Feliz ano nôvo, tilápios. Paz e Bem!
segunda-feira, 14 de novembro de 2022
Time To Hide.
"E aí, Pedro, seu glad bird?"
Quando olhei assustado com essa saudação, vi a épica Irmã Eunice descer das escadas do Carmo Velho com algumas freirinhas. Eunice é uma das pessoas que mais senti falta quando saí da minha vida no convento. Ela tinha olhos tímidos, cálidos e cantava como um rouxinol; mas hoje parece ter mais vida e seus olhos pratejavam como se pegasse fogo. Ao subir a Martiniano de Carvalho, passando pela Casa do Carmo Velho indo ao festejo dos amigos, a encontrei saindo dos beiras da Casa Santa - a qual me interpelou com a frase e nome antigo. Ainda com o mesmo hábito de sempre, o véu puído tampando seus cabelos, e pelo visto trocou o violão por uma flauta que dava pra ver guardado em seu bornal. Conversamos brevemente, e subi para o folguedo, prometendo nos ver tão muito e tão logo. E ao sair da Igreja, lembrei de uma mulher que me falou do lado Carmelitano da força.
Chegado eu pois no edifício, senti de fato um frio em minha espinha e dores nos músculos e nos brônquios, como que de fato me houvesse saído de mim. Respirei. Vi rostos conhecidos, estimados, mas no dado ponto a dor me valeu tanto que não pude ver nada ou sentir nada além da lata de cerveja na minha mão. Respira, inspira. Deixe entrar, deixe sair. Respira. Essas dores me seguem desde quarta passada.
(Penso pois muito nas obras feitas das mãos, e num valor que se dá quando dedicamos o tempo, espaço e energia a cada uma dessas coisas - e se a intenção da qual ofertamos a quem damos é realmente intencionada. Apesar de hesitante, ainda sou o labrador humano que tem o coração ardente por um evangelho à moda franciscana, com pitadas de patrística; tiro de mim para os outros, dou o que é meu para quem amo, e reparto do pouco que tenho porque sei que na hora devida Deus me dará o que é por direito de meu aceitar e viver. Se, pois, to escrevo cartas, te dou a melhor parte de mim, pois é a dita letra. Se, então, to entalho ou trabalho por vós na madeira, é para ter algo que demonstre meu afeto e apego por você, e se, logo, dou-te algo meu, é porque te dou minha vida e te significo na minha vida.)
Após tonturas e leves enjôos, respirei e segui, como sempre. E após um leve bem-estar, vi teu rosto aparecer pela porta. Me emudeceu a voz depois de tanto tempo olhar para você, e além do emudecer, me turvou a vista e disparou o coração, me deixou sem graça. Ainda mexe. Vi o sorriso sem-jeito, os brincos, e as unhas claras, e a joaninha na perna. Leve disparo no coração; ansiosidade, paixão, passando mal ou princípio de infarto? Talvez tudo.
Fuma um cachimbo, ri, faz besteira, fala da vida, faz piada e vê as coisas acontecendo e sendo como são - vida se transformando, família, risos, festas, incenso e azul. Olha o Céu, vê que Céu lindo Deus pintou pros meus amigos, foi esse o dia que o Senhor preparou, e apesar das dores, alegrei e me exultei n'Ele.
Quão desprevenido, na hora de tomar uma água, veio quem me dispara o peito até mim. Uma conversa rápida. Um diálogo civilizado. Seu perfume me faz lembrar tanta coisa, fecho os olhos e evito contato visual. A água no copo acaba. Sua voz ainda me soa como um Angelvs.
Dói um pouco mais, respira. Dói um pouco mais, respira um pouco mais. Só tomo dois remédios se estiver em casa. A noite desponta, sinto as carnes vibrarem, melhor ir pra casa.
Deito, descanso. A janela aberta mostra uma noite épica, e consigo notar as estrelas fazendo cena no mesmo Céu ainda. Um vento gostoso entra ventilando na casa, e carinhando minhas costas, na vitrola tocando Asinhas Over America, e lembrei de tudo até aqui. E a dor me consumiu de tal forma, que de cansaço ou exaurido, dormi.
E algo em mim continua igual. Imutável como Deus.
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
Disco Eterno.
Achei uma foto tua na minha carteira.
Enquanto eu olhava os documentos geraes, achei uma 3x4 tua. Vi seus olhos, sua boca, e seu cabelo. Foi inevitável sentir um tipo de arrepio pela espinha, e mais ainda foi difícil sentir algo que fugia a realidade terrena de um momento. Um momento incrível, clichê do clichê.
Que que se há de fazer, afinal? Apenas suspirei e ri por um momento, e me amarguei. Lembrei do Bôm Tempo.
Assusto-me (de fato) com a distância e paradoxalmente a presença, e estando tão longe me encontro aqui, agindo então entre o silêncio e o oculto da mão, abro os dedos então para tocar um canto novo nas cordas de meu violão; e os pássaros, pousando no beiral da minha janela, cantam comigo um solfejo e brincam com as migalhinhas que deixei para eles se fartarem; faço então o mirar pela janela enquanto dedilho uma nota menor, e dou uma risada enquanto o bemol das cordas me seduz. A vida, enfim, se faz presente em cada recôncavo; e olhando para mim, ainda eu com o oldre vazio - e com uma pequena dor - deixo o meridiano para depois para enfim (fingir) sorrir. Entre nossas vidas, cruzam-se linhas, algumas se acertam, e outras se delimitam. Umas se tangem, outras são paralelas.
A vida torna se oca, vazia, ainda com tonturas, ainda com tristeza, mas ainda sim é a vida. Sigo, mas não sigo por mim. Sigo pelos meus, e aos que amo e estimo como se fossem meus; ainda que por pouco tempo. Por mim, não seguiria e ouso no tanger não querer mais, e de fato, mantenho-me pelos peixes, pelos olhos, mãos, Cecília, flores, incenso e azuis. E qualquer coisa além do que eu digito aqui é mentira; assim como a saudade que sinto aqui expressada é a pura verdade. O prazer que tenho em viver é vão e inútil, pois quando perde-se uma parte grã e vital do querer, não se pode ser reposto ou transposto em outro qualquer. E quando se perde a esperança, desmorona-se. E por isso decidi parar de me tratar ou cuidar. Quero deixar de ver o Sol nascer, pois apesar dos motivos de ir, me cabem mais os motivos de ficar.
Quero aquela velha praia nublada, a chuva, os trovões, e os gritos no saveiros ornados com porres homéricos de coca-cola com rum montilla. Quero a lira, a pena, a glosa e o pendão. Quero, finalmente, deixar as lindas garôtas ouvirem, e deixar os Céus turvarem. Espero a vida depois da vida como quem aguarda com esperança a batida de maracujá antes da feijoada dos heróis.
Dada a mão aberta contra a brisa suave do tempo, no estio das passagens do ar corrente entre os dedos, seguro o tempo e a razão, e o peito, não - deságuo como herói, já sei ser verdadeiro como o que Habita em meu peito ensinou - e não troco ou denuncio aquilo que meu peito guarda em Glória e Excelsa verdade, pois antes de mim O era, e antes de O ser, Se fez. E aos que se dizem reis, a estes cabem a terra temporã, pois quem carrega um Verdadeiro tesouro, divide; e estes, tão donos da verdade e de razões, se perdem. Graças a Deus, eu vou morrer, e eles, infelizmente vão morrer.
Se realizo minha sorte, faço de mim casa e estrela. E estando em mim, permaneço de copo e cruz. Abro os braços em riste, enquão funde-se em mim as chagas e os bálsamos e a vida. Abro os braços em forma de rendição e deixo o Sol queimar a pele alva que me faz casca, e quando vejo os primeiros goteijos da chuva, me sinto vivo, ou talvez safo - principalmente esguio. Lírios na mão, estrêlas no Céu, e descalço, vejo a imensidão de uma cidade que desce e sobe aos olhos pela sua imensidão.
E chove pela madrugada. A dor não me deixa dormir.
quinta-feira, 20 de outubro de 2022
Summer.
Bem, raramente eu tive desses contatos, mas, todas as pessoas que tive esse presente foram mui categóricas pois eram pessoas de tenacidade ímpar, daquelas que são decisivas e fazem-se valer por ser quem são, e de uma força incrível. As pessoas que conversam com os olhos verdadeiramente estão em um outro nível, patamar, e gostar...
E é sobre isso, disse-me ela. E irrompeu na mesa com um riso verdadeiro, daqueles que não se vê há tempos; abriu-se e brindou a nós na mesa com um riso verdadeiro, sincero, ornado com os lábios e ornando a silhueta de seu rosto de tal forma que não o via há tempos, sendo-se verdade, e trazendo-nos genuína alegria de um riso apesar das abobrinhas demasiadas infames que dizíamos na mesa - de fato nós da mesa sentimos um tipo de êxtase, mas guardamos um pouco para mais tarde pois atualmente está raro termos momentos assim, aonde podemos ser felizes sem um peso da existência.
A noite, extensa e tão curta, denuncia a troca de olhar. Conversa-se pelo olhar. É lindo, belo, lírico, cínico e as tenazes sobrancelhas que arquejam com fechar-e-abrir de pálpebras, desfloram num riso; gargalhada, telepatia prevista - comunhão de pensamento, alinhamento cósmico, ou qualquer bobagem dessa forma. E quando ostento de mim o riso em comum com a alegria mantida de um gol, denuncio veemente com o olhar a vulgaridade que senta conosco a mesa - e iremos rir mentalmente e fazer um comentário ligeiro com os olhos; a essa altura, já íntimos e cumplices de comentários e formas de pensar.
E é afã com o cuidado e com o zêlo, tal qual ditosa mulher ou como no cristianismo primitivo, aonde as pias moças eram zelosas sem ter porquê, com o quê, como quê - permaneciam de fé em fé e de caridade em verdade para apenas existir, fazer-se ser e ter aquilo que não se Nomina; Excelsa alegria, ditoso É. É sobre um riso ligeiro entre risos, brindes e copos de água, sobre conversas e fofocas, gritos estrondosos que arruídam o ouvido em lembrar: a emoção de um pênalti, a perca de um título, a briga no fim da noite, a sabedoria em ser humilde e se resignar de uma possível contenda, o valor de ser quem é, ou até mesmo uma conversa que poderia durar por horas e horas e horas e horas...
Ou, que pode até mesmo durar mais essa noite, se o vento e a direção das estrêlas forem-nos favoráveis.