sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Escritos e Quaresma.

 Neste têmpo quaresmal, têm-se por costume (a quem pratica algum exercício quaresmal ou professa a fé cristã), de retrair-se e tornar-se mais alheio as situações, mas não a si. Período este em que a fé orbita não no dito sadismo católico em venerar a bárbarie fêita contra um Deus-Homem (Filho). De fato, não cabe aqui esta apologética, não por enquanto. Cabe sim, em tom de resumo, lembrar que tôda aquela dôr que por vêzes tentou-se mensurar em pinturas, esculturas, e afrescos fôi por uma questão de amôr, cariño, entrega, sacrifício. Um Deus que de tanto amôr pula na frênte da bala para nos salvar do tiro - this is an analogy, btw.

MAS, se para você isso ‘inda não faz sentido, outrora lhe explico. Este não é o intuito do escrevinhamento de hôje. O que quero lhe perguntar é: você já pensou na morte?

E quando eu lhe pergunto isso, quero lhe provocar em maneira espiritual, deixando a partir de agora até sempre que nunca há de ser meu intuito evangelizar, ou lhe trazer para o meu lado. Apenas quero lhe fazer exercitar a mente - eu prometo.

Ter a noção de finitude de uma vida, e ainda sim contando com o fator de incerteza do fim, nos causa um frio na barriga, ou até mesmo desperta um mecanismo mental de defêsa que beira a loucura que nos pede e demanda que vivamos de excesso em excesso, ‘té que não se haja mais o excessivo e excedente - cousa que por si só já adianta o processo de finitude. Mas, ao invés disso, por qual motivo não se apegar em uma religião, ou até mesmo estudar veramente uma filosofia de vida para que lhe seja leve? O peso não deve esmagar, mas sim tornar-se costume, pois se acostumando com o fim, não se é pego de surprêsa, tampouco sente-se que nada fez de útil durante a caminhada terrestre - os traços úteis, tornar-se-ão esquadros para as pessôas ao redor, ou aquelas que nem saberemos um dia que se inspiraram em nós; parece mentira, mas acontece e com mais frequência do que imaginamos.

Nos dias de solidão, meditar. Nos dias com companhia, conversar. Nas noites de insônia, relembrar, e na pressa do dia, esquecer - há quanto têmpo temos devotado em nossa vida cousa tão certeira e importante que é lembrar nosso fim, e nossas percepções sobre isso? Meditar sobre a morte, é aprender que a parte fundamental e intransferível, que não há de ser burlada, acontecerá; e ao suceder, devemos estar prontos: ou de consciência tranquila sabendo que nunca se foi um cuzão, ou que estamos em paz e ainda em paz iremos até o Criador.

Num acidente de carro, engasgado com o rango, reagindo a um assalto, sendo empurrado pela massa até a linha do trem… de alguma forma, sendo ela bôa ou má, heróica ou trágica, certa ou errônea, acontecerá. Deve-se então, que nossas atitudes perdurem após nossa ida; preferencialmente as bôas ou (re)conciliatórias - preferível aquele que pede por paz e misericórdia, do que aquele que se esvai em desavença com os outros e com si mesmo.

Eu, tento achar a minh’alegria pessoal diariamente, para assim poder fazer parte de uma alegria coletiva e abrangente no futuro. Seria mentiroso se lhe dissesse que consigo isso - até vos assumo até que fracasso muitas vezes, mais do que gostaria - mas ao aproveitar cada oportunidade do dia (com prudência) para ter uma bôa vida, e com o máximo de coisas em ordem. Colocar a cabeça no travesseiro e dormir de acordo com nossas atitudes, também é uma forma de zelar pela vida - a daqui e da futura. Ao menos assim, de alguma forma consigo me preparar para o fim, e sabendo que os traços que deixei para trás foram poucos, mas com esfôrço de que seriam sinceros e humanos - ajudar os que se podem, amar os que carecem, volver aos que perecem, ir contra o que oprime, e nunca por mim. O Amôr que conheci, é um amor que me leva as lágrimas - um Amôr que se consome e esgota, de copo, cruz e pedra fria - e se ele, como eterna Fênix de meus dias, nasce e morre tôdo dia em meu pêito, ele pede que eu O siga da maneira que der (mas com esmero), para que um dia, na festa do lugar, reveja eu os amigos idos, a Véa, Tio Fungo, Toninho da Rampa, Fabião, e tantos outros que hoje, com Êle sejam um. Espero que eu tenha provocado qualquer coisa em você, se sim, êste têxto cumpriu sua função.

Pois para mim (e espero que para você também), a Êle precede, permanece e excede tôda a Glória do sêm-fim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Vida Me Assusta(?)

 Após lêr o têxto da Poesia Viva e Morta, a sua pergunta me fez meditar muito; e ao conseguir por as partes nos pontos e depois por completo, me lembrei porque fiz de minha casa um eremitério, e minha jaqueta a minha concha: o mêdo.

Assim como na música do Sá & Guarabyra (Por que que eu me guardo do mundo assim escondido? É coisa que só pode explicar quem vive o que eu vivo), o texto de Doña Jordana me tangeu num nível preocupante: Me alembrou de que eu ainda estou vivo, e afora as preocupações quotidianas eu ainda hesito, e ao olhar o estreito vão que separa a causa do efeito, lembrei dos mêdos desde quando era garôto e o porque da vida me assustar.

A vida me assusta quando olho para os lados e percebo que tenho poucos amigos, e desses poucos são raros os quais compartilhos os mesmos gostos e mesmas sentenças - motivo que até expliquei n’outro texto ido. O futuro me assusta não envelhecer ou pôr mêdo da morte, mas por anseio em perceber que me encontro em estreito caminho da solidão, pois daquilo aonde os caminhos não se cruzam e bôcas não conversam; a escrita posta em letra alivia - momentaneamente.

Ademais, o Sol tão quente que cozinha os miolos; cerveja choca; gente que não sabe ser educada; domingo as nove da noite; fumaça de pastel recém-frito; churrasco bem passado; meu time quando perde; e emprestar um livro e não devolver - tudo, tudo, tudo isso, invariavelmente me causa um medo não por estar envelhecendo ou ser (mais) introvertido (que já sou), apenas por sentir o rumo das situações, e ver a vida como se desdobra e não pôder mudar as atitudes, têmpos, e questões que nos tangem enquanto pessoas. A incapacidade de mudar diante do que acontece ao meu ecossistema.

Se por alguma vez me tendro a não dizer nada, peço perdão - talvez eu não me sinta afã para falar alguma pois meu cérebro fervilha. E se ele trabalha, a bôca se cala e o peito gême de forma inexorável; abrindo-se no vão da alma um corte que tange e não sangra, fere mas não mata. Agoniza. Quando escrevo por maneiras e metodologias, discorro de mim em letras cursivas e retilíneas, e lembro muitas coisas - principalmente das quais gostaria de esconder no recôncavo mais denso de minh'alma. Escrevo mais um tanto, e lembro de um passado da vida, as questões que esbarram no presente, e o anseio do futuro. Eu estou apenas processando fatos, como um microcomputador; e por isso, me pego a transpor para o papel o que minha bôca nunca diria, talvez apenas para os amigos mais amigos de tôdos os amigos, mas não cousa alguma que se diz a Pai e Mãe - cousa que até esses dias até pensei em dizer para minha mãe: não critique a distância que você causou; mas me lembrei que quase nunca ela me ouve, e tampouco entende o que eu gostaria de dizer com isso - passaria eu apenas a dizer tudo do peito, e ela arguiria com um vazio que lhe é tradicional. E por isso, a isolação se fêz presente e danosa. E com isso, entendo mais de mim.

Percebo então, que quando escrevo, tenho tôda a coragem que a vida tentou me roubar em suas atitudes. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Lontra Franciscana Introvertida.

 Nos diz o Apóstolo São Paulo na parte que ninguém lembra da Primeira Carta aos Coríntios, Capítulo XIII: Quando era menino, falava como menino, pensava como menino, e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei as cousas de menino para trás. Amadurecer, no ponto em que proponho, é saber perder, e saber ganhar. Olhar para trás, e saber que acabou e tudo é uma memória a ser tratada como lhe aprovém.

Nêste ano, eu me prometi aumentar as amizades, e reforçar alguns laços que se tangiam em pouco ou nada. No último ano, senti-me imensamente vazio e sozinho, d'onde muitas vezes corri os dedos entre fôlhas de livros, ou solfejando qualquer acorde aberto no bandolim. Quando eu, introspectivo por natureza, percebo que me restam poucos amigos - e posso sobrecarregá-los com meus devaneios e imensa lista de derrotas - e que as memórias não tratadas se tornam meus demônios noturnos, me apercebo que a meta da qual me prometi faz bastante justiça e me trata com afã, pois assim, posso enfim sair da concha pra ver a vida.
Mas a nível de justiça: apenas quero as amizades que agregam e fazem-nos sentir importantes, pessoas úteis ou necessárias - das que nos ensinam e deixam-nos ensinar um pouco do que há em nossa babagem. Nada daquele papo loucura, chiclete e sôm do Roberto Carlos de um milhão de amigos. Deus me defenda.
Sou, por natureza, tímido, acanhado, restrito, débil, e pensante; digo-lhe pois: tudo o que fiz por mim, foi totalmente só, sem mãe ou pai que apoiasse, mulher que torcesse e abracasse, amigos que festejassem, ou reconhecimento - e não digo isso para que soe como quem necessitasse de algo assim, mas quando olho para esses mesmos demônios noturnos e vejo o quanto me doei e estive lá pelos outros, não deixo de refletir. Certa feita, quando comecei a aprender outros idiomas, uma dama me perguntou qual seria o motivo. Apenas para aprender, eu disse. Dias depois terminamos pois ela achava que eu queria rodar o mundo num mochilão, mesmo sabendo que tenho medo de altura e sempre desmaio quando ando de avião.
Talvez, sair da concha, bater o pé e fazer um pouco dos meus gostos não seja de todo ruim. Talvez seja uma remissão de tanto tempo a fazer pelos outros, ou a crise da meia idade, ou até mesmo mêdo da morte, sei lá... apenas sinto que não tenho mais tanto tempo para tudo que quero, então desejo o mínimo que ainda cabe e resta.
Ah! E se você que me leu até aqui essa pequena garrafa boiante no oceano do subistéqui, entende, pensa ou acha prudente; me mande uma mensagem - sair da concha é fácil, mas ajuda com incentivos.





quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Poor Places.

 Estive pensando em você, e me deu uma saudade da vontade - cousa tão nossa que capaz de tu saber o que é; porque de alguma forma, eu sou você.
N'outro dia, no vagão do metrô tive a impressão de ver você; mas cabelo não era escuro, e tampouco fazia aquele olhar cínico por cima do óculos. E ali percebi que eu queria lhe ver essa noite. Para conversar, dizer do muito que trago no peito, e daquilo que minha alma anda desaguando de formas erradas e momentos incertos; ando a errar em muitas coisas buscando motivos certos no que é efêmero, e esquecendo do que tanto conversamos.
E devo dizer que vi outros lugares, flertei com novos mundos, amei outros amores; mas inexorável fui me atando a mim. Me permaneço aonde me encontraste, e aqui até hoje firmarei meus pés. Estou no mesmo lugar aonde me deixaste. 
(Lembro de meu pai, que no caixão, puseram um cachecol e duas madeiras em seu pescoço. E lembro do cachecol acinzentado que havia na volta de seu pescoço). Talvez tenha sido ali que me dei conta que minha côr favorita foi cinza, e onde me despedi dos excessos para aprender mais no silêncio e na calmaria - do hedonismo disse não, e da desregra abandonei - me isolei e reconstruí aquilo que só a mim é digno de orgulho - mas sei que de você arranco um riso bobo.
Hoje, a caminho de casa, o Sol se pôs alaranjando, ferindo uma têz royal no Céu. Risquei os dedos no ar em riste, como se de alguma forma esse carinho nos interligasse, e pensei novamente em você (espero que não se importa, mas até imaginei sua presença) e nos sons que ficaram suspensos; nos cachimbos que não fumamos, nas conversas de varar madrugada no alpendre, e em tanta coisa que de alguma forma você sabe, você sente, você - em qualquer forma que esteja - entenda.
Sinto, então, que ficou muito para caber, e por ora me contento que seja esse vazio - espaço estreito de um navio - que diga tudo de maneira mambembe, ridícula, debochada, e inerente; assim como no silêncio pus os dedos ao Céu para te encontrar, meu pensamento viaja com perguntas, dilemas e desabafos, e no divã de seu silêncio, desaguamos um no outro uma saudade não fictícia, mas de um futuro, um porém, a virgula consumatória do universo que nos ousa em separar no longo fôlego de curta vida que teimo em gastar. O Sol já se pôs, e a noite repousa em nossas mentes.
Eu não vou lá para fora.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A Night Of Love.

Ao entrar no carro, as palavras caem como mísseis em minha mão. 
Mas, as evito. Olho a paisagem noturna apenas para passar o tempo, e esperar a virada da estação.
Algo ocorre dentro de mim, algo morre, a ser mais exato; e no fundo sei muito bem o que é, assim como você; mas cansei de fazer movimentos ou bandeiras acerca disso, apenas me mantenho em silêncio eliminando o parco fulgor que ainda provém de mim. Talvez amadurecer seja sempre isso, a eterna morte do ser.
Vale mais o seu sorriso que a minha lágrima, crianças dançam descalças a avenida, e alguns homens bebem nas mesas postas na calçadas; um cachorro tenta alcançar o que está no prato sendo petiscado. O semáforo abre. Garôa.
A música - Cecília de minha vida, musa primeira a qual devo amôr e respeito primeiro, única impassível de ida ou volta - me atraca ao pôrto de entender.
Mas o peito, este, não.
Apenas deixe ir, garôto - ela me sussurra.
Essa noite poderia ser uma nôite de amôr, mas não é; então boa noite e se cuide.
E com isso, começo a remoçar e remoer todos os sentimentos vívidos e translúcidos em mim, trazendo a tona tudo o que meu peito releva e a condição transpassa. Não sou ruim, e sei bem que não sou. Talvez eu nunca soubesse ao longo de minha vida o quão bôm sou, e que esta culpa franciscana me arrasta ao sopé do chão. Tento em vão buscar palavras que apenas em minha cabeça ecoam, e somente a mim fariam sentido.
Sentindo aonde me encontro, e aonde gostaria de estar, me pego mentalmente falando contigo de tudo aquilo que minha cabeça pesa e meu peito dói, mas que a bôca insiste em calar. E por um breve sentido da vida ser intríseca, nossa telepatia não funciona. Conversamos com o olhar muito bem, mas as vezes você perde o que o opaco de minhas íris esmeraldinas têm teimado tanto a lhe dizer e eu mesmo me censuro em verdade.
Então boa noite, e se cuide.
A água quente do banho não se compara a seu abraço, e a cama tão macia não me esmaece quanto ao seu eleio; e no alto da noite, não há duas cervejas; e a fumaça de um cachimbo não se equivale ao nosso defumado; olho os livros, os odeio. Quero rasgá-los tôdos - mas o anjo-de-guarda segura me veladamente, e as imagens não se quebram, apenas meu peito deságua por essas linhas por você não ver.
Dizia meu pae, que quem é fiel aos seus princípios, é fiel a si mesmo. Penso em quantas vezes me compensou ser fiel aos meus, e quantas vezes me foi perfídio e vão os princípios dos outros, e mais além - quntas vezes não foe por mim. Aquela lágrima virou um desgôsto - engôdo preso na bôca que nem o tabaco desamarra e tampouco a cerveja ajuda a descer pro ventre - e minha mente vagueia pelos recôncavos que me estreito em raiva se lhe contasse. Nessa noite se encontra o amôr, e eu, só, apenas observo o que se passa. As ruas passam depressa, as luzes viram feixe, e o vento não acarinha meus cabelos, apenas jorra um ar gélido como quem refrigerasse algo em mim. Talvez fôsse melhor achar alguém quem se importa. Talvez fôsse útil fechar os olhos. Boa noite e se cuide.
Deita-se a cidade, e os olhos ficam enegreados. Amanhã acordo, mas eu sei que amanhã tudo mudou; e se você não percebeu, é que para você não faz a mínima diferença. Boa noite e se cuide.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Padaria.

Se sinto falta de algo, é de teu pouco tamanho, e de teu cabelo escuro, que por horas me enforcava, e por horas me incensava e me deixava dormir como um rei. Do cheiro in natura de sua pele, e da naftalina que emanava que você nunca sente porque nunca entenderia...
E de verdade, se calo o estreito que comprime meu peito, não de mal é; pois, apenas ainda me excluo como sempre me excluo de todo o tudo, pois sei que não pertenço, e qual a receber o prêmio de consolação, aguardo ansiosamente. E digo isso não por maldade - pois a palavra não dita, mulher, é lâmina que tange, e não me extenso em explicar, porque estou cansado; e a cada cansaço meu, estará vós o dôbro - mas entendo a condição e ainda sim a aceito. 
E de ti? Silêncio.
O vago silêncio monstruoso do Leviatã que ronda até hoje na beira da minha cama, ou onde quer lá que eu durmo, com sua bocarra satânica a me espreitar; e eu, anti-argonauta, Caronte por natureza navego não por ter mêdo, mas por necessidade tênue que me extingue, e se me foge a dita palavra, peço que gentilmente olhe minhas atitudes, pois ali provavelmente resida mais do que qualquer peixe que saia de minha bôca. E minha bôca, em qualquer situação resulta em chamar seu nôme, tanto como mulher, como mãe, para que me escondendo embaixo da sua saia, eu possa me refugiar do mundo em suas coxas e suas mãos. E que na fumaça dos tabacos e incensos, eu cada vez me esconda e morra dentro de você, para que antes que eu diga ou profira mentalmente a sentença, seja você a juíza que ostentando em punha a vista espada, execute. Não por ser me submissa, mas ó mulher, pelo fato de ser minha, pelo fato de segurar-me em teus braços, e natimorto, desfalecendo, e perdendo as ribeiras de minha carne, você possa, enfim, ver a luta até aqui e suturar minhas feridas, e lutar por mim como ostensóriamente* eu tendro a lutar por vós.
Eu devoto minha vida ao seu legado, mas você não vê.
Por mais que saiba de meu desejo de ir embora, permita então que antes que eu vá que o seguro entre nós seja o trato feito e bem calculado - dito isso, ao menos encanta-se em mim mais uma vez e decanta essa alegria e salva-me deste mundo quaresmal de dôr aonde Superman e suas ideias tão loucas parecem tão necessárias. E digo vos, não por necessidade, mas por um apêlo, aonde meu coração tão pequeno estreita em suas mãos, e o esmaga sem perceber ao ignorar ou descasear situações tão pequenas a vós, mas tão grandes e significativas para mim.
Estende, logo, seus braços e me esconde, e assim como nus, deitados n'quela cama, no pôr-do-Sol, com a luz se pondo e doirando seu côrpo, e os ônibus fazendo uma sinfonia de buzinas e freios, me guarda no seu sacrário e ouve o que não consigo dizer, aquilo que me faltam tôdas as palavras, mas apenas meu gesto diz tão tenaz, e você, única sibila dotada de mim, sabe dizer em precisa forma e textura, e dando-me a chancela, guarda-me.
...porque mesmo longe, e você nunca percebendo, mulher, volto para você. Pois é tudo por você.

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* = Referência a Santa Clara de Assis; o Barra-Vento do Senhor.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

If I Can Dream.

 É notável o quão triste nos tornamos ao longo do caminho, e nossas lágrimas, assim misturadas com a poeira, a barba, fundem-se no espaço tempo: torna-se então o tudo e o nada; e deste âmago - agridoce veneno amêndoado que destoa de nossas entranhas - por ora tiramos a esperança.
...mas, esperança de quê? A ser franco, também não sei.
Meu côrpo, tão místicamente fundido a sujeira da estrada e ao mau-trato da bagagem, nada anseia do que o descanso, e além do descanso, o desejo. Nada me apetece o palato, tange a bôca, brilha os olhos, e exulta minh'alma do que pôder têr, enfim, o atracar do pôrto - e meu côrpo, agora saveiro, desgastado e cansado da viagem, parar.
Dos momentos tristes, de chegadas e partidas, dos idos, das acinzentadas coisas, dos talvezes, e dos esquecimentos, revelias em que fui pôsto e dos sopé-de-morte, eu escrevia, como o faço agora, mas antes do escriba, havia o que via, e era quem mirava. Eu era um mirante antes do tempo da pena e letra. E por vezes olhar me salvou da destruição, antes que eu aprendesse a escrever.
E das passagens, paragens, pradarias, ruetas, bosques, brônquios, e pontas-de-praias, guardo lindas vistas, das quaes sei de onde são e para cada lugar as pertence. Mas eu, transeunte transitório, levei em meu peito um pouco de tudo, e espichei um tiquinho de mim em todas estas quadras pintadas por Deus, e nelas, permaneço. 
Da mágoa, retorço, faço fundição e olho o universo como antes, e finalmente, cansado, me ponho a não pelejar, mas apenas levantar e seguir, deixando o silêncio como crônica ou testamento que faço agora denunciando o descaso, ocaso, e despeito, mas principalmente, o quão fascínora são as pessoas que habitam nesse mundo.
Quando me falta a atenção, o abraço, a mão estendida, o beijo, e quem me ouve; dedico-me piamente a encontrar dentro de mim a vista daquelas pedras na praia, ou aquele cheiro de mato molhado depois da chuva na chácara, tanto como as fôlhas que caiam na floresta anseiando por um nôvo renascer. Quando me falta algo, transmuto, elevo, torno a ser, e esqueço do que dói e me ponho em outro local, outra estrada, outro som, outro minuto - e desde lá, meus tempos tão pequenos, onde nem me era explícito a dimensão e profundidade de ser, eu sempre me refugiei nas paragens e cercanias, para que assim eu pudesse ser. E antes de ser escriba, eu era espectador. Eu via. E no que via, por poucas vezes me fundia ao quadro. E pela janela do quarto, pela janela do carro, pela janela do claustro, pela janela do carmo, pela janela do alto, eu via. E via muito. Longe. Longe de tudo isso, e por vezes (ainda pequeno e inocente) rezava para Deus que queria ser um pássaro para sair dali fugindo rápido e ligeiro, como que brincando no ar, e deslizando entre vôos e giros, estar livre e ganhar, enfim, a paisagem que me libertava a vista e a alma retorcida. 
E ali, e agora aqui, me mantenho. Cada vez mais longe de você.

domingo, 10 de novembro de 2024

I Don't Owe You Anything.

 Sinceramente, ao ver seu corpo lânguido e frio, quando deitado, tentei de alguma forma aquecê-lo, mas suas mãos estavam ocupadas em pegar o último cigarro para fazê-lo virar fumaça... Haviam umas garrafas na pia, outras no quarto, e roupas espalhadas pelo chão. 
Os olhos se desencontraram, dando-se um desarranjo, como se algo fosse prenunciado. Uma voz rompia a noite com gritos trovejosos, como se não se importassem com a noite que fazia ou de lá, quem a perto se dormia. Houve dedos, houve lágrimas, e palavras que quero acreditar que foram ditas por conta de um torpor de álcool, e por motivos que não fazem sentido algum. E no calor do palavrão, mandou embora; e foi. Na corrida pra casa, viu o Sol nascer, e no trajeto, olhou para o azul que corria o Céu moldurado pelos prédios acinzentados, e tão triste, deixou uma lágrima teimosa cair.
Ainda sem reconhecer a casa, deitou-se e deixou o corpo apenas fazer todos os processos de descanso, fermentação, relaxamento e preparou-se para o dia seguinte. Deitou uma água no filtro, organizou os livros e olhou o Céu.
Estranhamente, o Céu estava ensolarado, como se fôsse lá um domingo para tomar sorvete, ou estender as roupas que se acaminham da máquina de lavar; e riscando o Céu com os olhos, riu. Sabe se lá de um amanhã maior e melhor, mas ainda com tanta dôr no canto do peito, jorrou lá um riso, como se fôsse o único a dar de ofertório para agradecer a vida, a casa, os amigos, as coisas, as casas, as ladeiras, as memórias, e ela.
Se arrumou e saiu, não porque queria algo, mas para lavar a alma - a velha missa, os amigos do claustro, as cervejas baratas nos botecos, e a música que ainda impera nos ouvidos... e ai de mim por pensar nisso mais que uma vez. Parou, olhou para seu reflexo no espelho e viu um homem que rudemente conhece e ama, mas que ainda admira por ser quem é, e como se pudesse, na ausência de quem o acolhesse, tomou a si nos braços e o fez descansar. 
E deixou guardado as palavras, não por nada, mas por saber que o alcool quando faz a bôca abrir, faz também um coração sangrar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Memorial de Tio Fungo.

 Hoje - exatamente as 22:15h - far-se-ão cinco annos da partida de Tio Fungo.
Tio Fungo não era ninguém, e por essa sorte tão magna, ele conseguiu ser tudo em uma omnipresença tão lancinante, que rasgava os soberbos, amansava os coléricos, guardava os amostrados, e alegrava os tristes. Tio Fungo, tio meu por parte paterna, era talvez o parente mais próximo (salvo meu avô) que me assemelhava e remetia meu pai: tinha fala mansa, mas sabia atrovejar a voz quando necessário; campesino, não saía de seu quintal da casa/chácara em Guayanazes, e quase sempre me convidava para tomar garapa de cana em seu engenho. Não tinha o olho esquerdo, após salvar a esposa de um incêndio, que me lhe custou esta quista visão - que há de se convir, era ainda mui atenta.
Tio Fungo, atento aos sinaes do têmpo, soube se atualizar e conversava sobre temas modernos sem ter medo de suas raízes tão conservadores. Era forte, mas manso. Suas mãos calejadas pelo manêjo de instrumentos pesados em seu quintal demonstrava isso; aos fins de semana, sempre se ajeitava para vender limão e especiarias na fêira. E era feliz, com o básico que veramente lhe pertencia e lhe guardava de todo o pensamento vão.
Êle também, muitas vezes queria aprender novas cousas, das quaes me orgulho de ter ensinado algumas, e com êle pude também aprender cousas na qual meu pai - livre de julgamento - não pôde fazer por mim. Fazer a barba, quebrar uma garrafa, olhar nos olhos e controlar a raiva, fazer valer sua palavra, e ter a verdade em tudo para não ser para-raio de mentira (sic). Os toques das galinhas, as plantações, colheitas e douração, tudo isso foi oriundo dele... e a ele devo meu tributo.
Era um dos maiores tocadores de viola, e sempre se orgulhava em dizer que já tocou com Tião Carreiro - mesmo que isso carecesse muito de fontes. E sorria, com seus poucos dentes, e ora mascava o fumo de corda que era visível no canto esquerdo da bochecha, ou estava com seu cachimbo caboclinho fazendo uma fumaça enquanto arrancava cachos de banana...  
Foi o primeiro a me ver com corte de cabelo moecano na juventude turbulenta, o último a me consolar na partida de meu pai e um dos primeiros a me apoiar quando entrei - e saí - da vida religiosa. Foi quem rodava peões de madeira comigo e me ensinou a afinar a viola em cebolão em Mi. Meu primeiro porre de pinga queimada foi com ele, e quando pensei no fim, foi quem me ajudou a olhar o começo. 
Em 2019, Tio Fungo no auge de seus 90 anos foi achado (profeticamente, cabe dizer) ido no seu amado quintal, quando seu coração, que de tão grande era, quis se acochar mais um pouco e crescer, deixando assim seu ar rarefeito e cálido. Nos dias seguintes, sua chácara foi vendida, e por não ter filhos, perdeu-se o rincão para seu irmão mais nôvo, que ao passo da modernidade, hôje possui cabêças-de-pôrco de aluguel. E a vida seguiu, mas alguma coisa naquele dia parou e se manteve com Tio...
...e por sua memória, seu legado, e sua vida - tão humilde, simples, pacata e grandiosa, lhe pago este tributo na condição de escriba dos tempos, inclusive os meus do qual tenho tanto amor e afã, Tio Fungo! - άξιος! 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

The Sweetest Taboo.

Eu sei que não deveria, mas fiz o que foi melhor; mesmo que me arrependa. Não me rendi aquilo que a cabeça pensa e ao coração padece, mas sim fui contra o encontro de um sentido, e sim, é possível. 
Desci a rua e olhando de lado, esvaneci a fuligem do tabaco moído com a dos lixos na rua; por mais um tanto andei, e ao ver as garôas diferentes, voltei a ser o garôto que trabalhando, se escondia da chuva na marquise dos prédios.
Vi as elegantes damas deslizando com seus saltos, e homens polidos parecerem cachorros molhados; quanto a mim apenas desci a grã avenida com meu matulo cheio de pesos, e na minha cabeça cacofoniavam as idéias que sempre fui deixando para depois - planos, pensamentos, quereres, e tantos sentimentos que foram calados para manter o "bem-estar comum"; esquecem os sábios de nos dizer que quando nós tomamos o jugo da vida, não podemos titubear na dúvida, e tampouco entender ou contestar preço algum; pois, fazer renascer o tal ímpeto famoso guerreiro pelejador de contendas é renegar todo o castelo que se constrói meticulosamente e cuidadosamente. Nos é permitido viver em paz, mas nos foi dado também a opção de viver em guerra pela parte da verdade; e dado a saber o caminho que escolhemos, logo vemos aonde dá o fim de nossa estrada: ou o esgotamento, ou a morte.
Se da Dulcinéa não toco e não sonho e tampouco cogito, não foi por motivos de ter matados as bôrbolêtas dos aires e campas que tangiam-me, mas sim porque não sei mais caminhar passos alternados e ser fidalgo de pesos díspares. Quero o igual para dois numa medida posta em justo. 
De verdade, não tenho tempo em dedicar legislações a falsos tipos de sons, e tampouco a ver o reflexo que só eu enxergo; não se há tempo para super-heróis e trampolins fantásticos de mundos felizes de tardes de iôga com incensos e azuis, e erros que se perdoam com um xamã asteca certificado por um monge nepalês que mora na Rua da Glória e se chama Jaime - muito pelo contrário; prezo pela homogeneização, desde que coerente e sincera, que pela sua vivacidade, ela se faz entender; ou como diria Tio Fungo (de dôce memória): "Calma, ela não é japonesa, a mãe dela que morava no Ceará".
Quando, exposto ao painel de facas e lancetes, olho cada lâmina e sua textura e afiação, e sabendo de seus tângeres, nada ouso em dizer ou pensar, pois, apenas sorrio e me atiro contra a que me lancina menos pois assim sei que aguento a próxima escara no dia seguinte; e deixo, a derradeira, para o último embate - seja por motivo de glória, ou por fim-de-fêira.
Mantenho - ainda sim - os sonhos e sons em mim, pois deles ninguém me tira ou supressa. E se me ostenta a mão vazia, é porque os guardei em meu peito, de forma que o inimigo, ojerizado pelo meu silêncio, mantém-se altivo e jocôzo, mas sabe lá ele que seu fim é iminente, e eu, como assim o faço, apenas mantenho-me descendo a rua em movimento, e colocando mais fôgo em meu cachimbo, incenso tudo aquilo que dispersa-se de mim. Porque hoje abro mão de tudo o que se emana e orbita no espaço de três braços, menos de mim; a chuva não para, e dessa vez eu não paro porque eu não ouvi a resposta...