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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Lontra Franciscana Introvertida.

 Nos diz o Apóstolo São Paulo na parte que ninguém lembra da Primeira Carta aos Coríntios, Capítulo XIII: Quando era menino, falava como menino, pensava como menino, e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei as cousas de menino para trás. Amadurecer, no ponto em que proponho, é saber perder, e saber ganhar. Olhar para trás, e saber que acabou e tudo é uma memória a ser tratada como lhe aprovém.

Nêste ano, eu me prometi aumentar as amizades, e reforçar alguns laços que se tangiam em pouco ou nada. No último ano, senti-me imensamente vazio e sozinho, d'onde muitas vezes corri os dedos entre fôlhas de livros, ou solfejando qualquer acorde aberto no bandolim. Quando eu, introspectivo por natureza, percebo que me restam poucos amigos - e posso sobrecarregá-los com meus devaneios e imensa lista de derrotas - e que as memórias não tratadas se tornam meus demônios noturnos, me apercebo que a meta da qual me prometi faz bastante justiça e me trata com afã, pois assim, posso enfim sair da concha pra ver a vida.
Mas a nível de justiça: apenas quero as amizades que agregam e fazem-nos sentir importantes, pessoas úteis ou necessárias - das que nos ensinam e deixam-nos ensinar um pouco do que há em nossa babagem. Nada daquele papo loucura, chiclete e sôm do Roberto Carlos de um milhão de amigos. Deus me defenda.
Sou, por natureza, tímido, acanhado, restrito, débil, e pensante; digo-lhe pois: tudo o que fiz por mim, foi totalmente só, sem mãe ou pai que apoiasse, mulher que torcesse e abracasse, amigos que festejassem, ou reconhecimento - e não digo isso para que soe como quem necessitasse de algo assim, mas quando olho para esses mesmos demônios noturnos e vejo o quanto me doei e estive lá pelos outros, não deixo de refletir. Certa feita, quando comecei a aprender outros idiomas, uma dama me perguntou qual seria o motivo. Apenas para aprender, eu disse. Dias depois terminamos pois ela achava que eu queria rodar o mundo num mochilão, mesmo sabendo que tenho medo de altura e sempre desmaio quando ando de avião.
Talvez, sair da concha, bater o pé e fazer um pouco dos meus gostos não seja de todo ruim. Talvez seja uma remissão de tanto tempo a fazer pelos outros, ou a crise da meia idade, ou até mesmo mêdo da morte, sei lá... apenas sinto que não tenho mais tanto tempo para tudo que quero, então desejo o mínimo que ainda cabe e resta.
Ah! E se você que me leu até aqui essa pequena garrafa boiante no oceano do subistéqui, entende, pensa ou acha prudente; me mande uma mensagem - sair da concha é fácil, mas ajuda com incentivos.





sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A Night Of Love.

Ao entrar no carro, as palavras caem como mísseis em minha mão. 
Mas, as evito. Olho a paisagem noturna apenas para passar o tempo, e esperar a virada da estação.
Algo ocorre dentro de mim, algo morre, a ser mais exato; e no fundo sei muito bem o que é, assim como você; mas cansei de fazer movimentos ou bandeiras acerca disso, apenas me mantenho em silêncio eliminando o parco fulgor que ainda provém de mim. Talvez amadurecer seja sempre isso, a eterna morte do ser.
Vale mais o seu sorriso que a minha lágrima, crianças dançam descalças a avenida, e alguns homens bebem nas mesas postas na calçadas; um cachorro tenta alcançar o que está no prato sendo petiscado. O semáforo abre. Garôa.
A música - Cecília de minha vida, musa primeira a qual devo amôr e respeito primeiro, única impassível de ida ou volta - me atraca ao pôrto de entender.
Mas o peito, este, não.
Apenas deixe ir, garôto - ela me sussurra.
Essa noite poderia ser uma nôite de amôr, mas não é; então boa noite e se cuide.
E com isso, começo a remoçar e remoer todos os sentimentos vívidos e translúcidos em mim, trazendo a tona tudo o que meu peito releva e a condição transpassa. Não sou ruim, e sei bem que não sou. Talvez eu nunca soubesse ao longo de minha vida o quão bôm sou, e que esta culpa franciscana me arrasta ao sopé do chão. Tento em vão buscar palavras que apenas em minha cabeça ecoam, e somente a mim fariam sentido.
Sentindo aonde me encontro, e aonde gostaria de estar, me pego mentalmente falando contigo de tudo aquilo que minha cabeça pesa e meu peito dói, mas que a bôca insiste em calar. E por um breve sentido da vida ser intríseca, nossa telepatia não funciona. Conversamos com o olhar muito bem, mas as vezes você perde o que o opaco de minhas íris esmeraldinas têm teimado tanto a lhe dizer e eu mesmo me censuro em verdade.
Então boa noite, e se cuide.
A água quente do banho não se compara a seu abraço, e a cama tão macia não me esmaece quanto ao seu eleio; e no alto da noite, não há duas cervejas; e a fumaça de um cachimbo não se equivale ao nosso defumado; olho os livros, os odeio. Quero rasgá-los tôdos - mas o anjo-de-guarda segura me veladamente, e as imagens não se quebram, apenas meu peito deságua por essas linhas por você não ver.
Dizia meu pae, que quem é fiel aos seus princípios, é fiel a si mesmo. Penso em quantas vezes me compensou ser fiel aos meus, e quantas vezes me foi perfídio e vão os princípios dos outros, e mais além - quntas vezes não foe por mim. Aquela lágrima virou um desgôsto - engôdo preso na bôca que nem o tabaco desamarra e tampouco a cerveja ajuda a descer pro ventre - e minha mente vagueia pelos recôncavos que me estreito em raiva se lhe contasse. Nessa noite se encontra o amôr, e eu, só, apenas observo o que se passa. As ruas passam depressa, as luzes viram feixe, e o vento não acarinha meus cabelos, apenas jorra um ar gélido como quem refrigerasse algo em mim. Talvez fôsse melhor achar alguém quem se importa. Talvez fôsse útil fechar os olhos. Boa noite e se cuide.
Deita-se a cidade, e os olhos ficam enegreados. Amanhã acordo, mas eu sei que amanhã tudo mudou; e se você não percebeu, é que para você não faz a mínima diferença. Boa noite e se cuide.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

If I Can Dream.

 É notável o quão triste nos tornamos ao longo do caminho, e nossas lágrimas, assim misturadas com a poeira, a barba, fundem-se no espaço tempo: torna-se então o tudo e o nada; e deste âmago - agridoce veneno amêndoado que destoa de nossas entranhas - por ora tiramos a esperança.
...mas, esperança de quê? A ser franco, também não sei.
Meu côrpo, tão místicamente fundido a sujeira da estrada e ao mau-trato da bagagem, nada anseia do que o descanso, e além do descanso, o desejo. Nada me apetece o palato, tange a bôca, brilha os olhos, e exulta minh'alma do que pôder têr, enfim, o atracar do pôrto - e meu côrpo, agora saveiro, desgastado e cansado da viagem, parar.
Dos momentos tristes, de chegadas e partidas, dos idos, das acinzentadas coisas, dos talvezes, e dos esquecimentos, revelias em que fui pôsto e dos sopé-de-morte, eu escrevia, como o faço agora, mas antes do escriba, havia o que via, e era quem mirava. Eu era um mirante antes do tempo da pena e letra. E por vezes olhar me salvou da destruição, antes que eu aprendesse a escrever.
E das passagens, paragens, pradarias, ruetas, bosques, brônquios, e pontas-de-praias, guardo lindas vistas, das quaes sei de onde são e para cada lugar as pertence. Mas eu, transeunte transitório, levei em meu peito um pouco de tudo, e espichei um tiquinho de mim em todas estas quadras pintadas por Deus, e nelas, permaneço. 
Da mágoa, retorço, faço fundição e olho o universo como antes, e finalmente, cansado, me ponho a não pelejar, mas apenas levantar e seguir, deixando o silêncio como crônica ou testamento que faço agora denunciando o descaso, ocaso, e despeito, mas principalmente, o quão fascínora são as pessoas que habitam nesse mundo.
Quando me falta a atenção, o abraço, a mão estendida, o beijo, e quem me ouve; dedico-me piamente a encontrar dentro de mim a vista daquelas pedras na praia, ou aquele cheiro de mato molhado depois da chuva na chácara, tanto como as fôlhas que caiam na floresta anseiando por um nôvo renascer. Quando me falta algo, transmuto, elevo, torno a ser, e esqueço do que dói e me ponho em outro local, outra estrada, outro som, outro minuto - e desde lá, meus tempos tão pequenos, onde nem me era explícito a dimensão e profundidade de ser, eu sempre me refugiei nas paragens e cercanias, para que assim eu pudesse ser. E antes de ser escriba, eu era espectador. Eu via. E no que via, por poucas vezes me fundia ao quadro. E pela janela do quarto, pela janela do carro, pela janela do claustro, pela janela do carmo, pela janela do alto, eu via. E via muito. Longe. Longe de tudo isso, e por vezes (ainda pequeno e inocente) rezava para Deus que queria ser um pássaro para sair dali fugindo rápido e ligeiro, como que brincando no ar, e deslizando entre vôos e giros, estar livre e ganhar, enfim, a paisagem que me libertava a vista e a alma retorcida. 
E ali, e agora aqui, me mantenho. Cada vez mais longe de você.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Waterfall.

Ele me disse que um bom pastor, pastoreia suas ovelhas em um silêncio. Se você quiser ser um pastor aos moldes de Hermas - me disse, olhando para o vazio - apenas faça da mesma maneira que vem fazendo. O não-reconhecimento é a maior riqueza e glorificação; e de fato concordei; Suas palavras me atingiram com a tenaz em brasa de Isaías e sem titubear entendi que ali havia mais do que o que sempre conversamos e prontamente me recolhi ao silêncio: subitamente entendi que a vida aconteceu ali, e finalmente fui contemplado com o milagre diário da simplicidade, da qual poucos de nós temos a parca capacidade de entender.
Porque quando me vejo assim - perdido diante da movimentação descompassada de meu coração - sinto-me perdido e confuso sobre minhas atitudes e pensares que me magoam ao exigir o melhor de mim para eles; mas nunca para mim, e neste momento é que gostaria de me enroscar no seu cabelo de cheiro de uva como parreiras frescas que descem sem saber porque - mas mantidas em um verticalismo que inerte, provém toda a força; quando atrelados e contar meus medos, delírios, raivas, segredos e sacras no sopé do seu ouvido (mesmo sem o merecer). E morrer nos seus braços olhando seu rosto e ouvindo sua voz me pareceria a melhor maneira de conhecer as Excelsas Nuvens. Me esconder na barra da sua saia como uma criança que tem medo da ira da natureza como o trovão rugindo lá fora, e sentindo o perfume dócil de sua voz, poderia me esquecer de mim para que você m'o cuidasse, com correia, candeia, auxílio, luz e socorro. Ter sua presença por inteiro, e de inteiro a inteiro, por mais um dia com você para menos um dia sem você.
Diz São Paulo o Apóstolo que "quando se é um menino, fala-se como menino; sente-se como menino; e vive-se como menino". Ora, mas no Getsêmani das palavras, aonde inequívocamente elas não pedem licença para nascer, e brotam das têmporas e das velas içadas das mentes que padecem, logo (ei-lo), desemboca da bôca um gôsto amargo dado a profundidade do que se sente no âmago da alma e não se promulga a dar como dôr-de-pêito: o parto do vômito de tôdo um desaguar da vida jogada como caxangá, e lágrimas tão quentes que eiam a queimar e ruborizar a pele, cujas mãos preteridas ao cargo não secam, apenas queimam-se juntas, dissonando naquilo que enfim não tarda a chegar e tampouco a acontecer. É sim, de fato, a violenta força da alma silenciada, abnegada, e furtivamente isolada, filha do ocaso guardada no seu jardim secreto, tendo dentro de si o tudo - o nada. Apenas esperando a ser veramente querida e veramente amada; e deixando de ser a nascente, receber-se enfim, como foz.
Logo, enquão escrevo essas linhas eu me pego pensando no meu passado, e disso pouco me orgulho, e menos ainda me honrando irei a ficar; pois parafraseando o dito Santo "não fiz tôdo o bêm que gostaria, mas o mal que não quis ocasionar, êste o fiz com demasia." Logo, entendo do muito de meus erros, e o pouco de meus acertos no enfim desejo que sempre tive, o dito "viver". 
Entre becos, vielas, estradas, vilas, conventos, casas, ocupações, apartamentos, casernas, moradas, grutas, planíces e desertos, eu fui - e antes que digam de mim, eu sei de mim e das coisas de meu coração (por mais que não as compreenda por completo); e dos lugares que fui, deixei-me num tanto, e levei outros como fiança, e assim, aprendi da vida, e aprendi de mim. Amei os outros, cuidei dos que pude, perdoei como deveria, e peço ainda hoje perdão pela pilha titânica e magna de erros que deixei no caminho.
Se fui quem acho que fui, é longe de mim uma graça Divina ou consôlo pois muitos foram os meus dolos contra mim e os meus. Mas se me atinge a graça Divina e o consôlo da Dôce Virgem Mãe das Candeias, nunca haveria de ser por merecimento meu, mas sim por misericórdia d'Ele; e assim eu me permaneço. Pois tudo o que tenho, tive e terei, todas as coisas nunca haveriam de ser minhas, mas sim tudo foi, é e há de Ser d'Ele. E o que escrevo nisto deixa cair por terra quaisquer outras dúvidas, está completo.
Posto em uma encruzilhada, olho aos pontos cardeais e nada acho, a não ser possibilidades, sem mensageiros que possam me apitar em qual dos cardeais seguir, e se sigo, mantenho-me sobre a tutela de Padre Deus, e espero de mim o mínimo para viver: não ser um babaca.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Just A Song Before I Go.

Antes que eu vá, digo que eu esperei por você.
Esperei pelos seus abraços de sêm-fim, e seus beijos amenos - ora na minha testa, ora na minha bochecha, mas quase sempre na bôca. Esperei idem pelos seus carinhos macios nas minhas costas, como por quantas vezes escrevi deles, assim como agora escrevo me despedindo de vós. Esperei pelo seu sorriso de chegada e por sua têz entristecida de partida, das faxinas, limpezas, arrumações, cariños e filmes regados a viños e pipoca com ajinomoto - das pizzas, churrascadas, e cuidança. Nas festas de amigos, ficaríamos orbitando no universo deles a beber, a rir, a cantar, a se abraçar e fazendo piadas, pois teríamos o tino do humor nêgro, da baixaria, mas ainda sim arriscaríamos tudo em uma tentativa de arrancar o riso um do outro...
Dos dias frios, cobertas no sofá, de você fazer um cachimbo para mim - afinal, conheceria a medida do tabaco e como gosto -, tanto como de que quando me mantenho só, olhando para o universo para encontrar ou a mim, ou a Deus, que você se atentando ao meu lado não dissesse nada. E apenas colocando sua mão em volta de meu braço, ou me abraçando, tampouco na mais ríducula das hipóteses, como naquele Céu estrelado que uma vêz vi na Serra de Santa Helena, e seria lá tu que deitaria um mantel sobre mim. De passar no mercado e perguntar o que você quer, o que você precisa, o que falta, o que quer comer. Dos dias de calôr, teria a praia, o clube, o veraneio, te ver dourar a pele, beber uma cerveja contigo, e sentir que o Sol nos aquece, e ao deitar contigo, seu calôr não me incomodar, e sentir alegria em queimar-me em ti.
Do seu carinho em minha cabeça, dos olhares, das piadas infames de casal, de ter a minha parceira a bandeirar pela cidade comigo, de não me preocupar se me fedo a fumo ou suor, porque estaria lá seu abraço como pôrto-seguro de tôdas as agruras que fêz esse mundo em mim. Seria lá, teu olhar e ter teu coração cousa mais bela e própria do que ter e obter Deus em si. Seria, por mais franca verdade retilínea um trabalho de vida. Ter-te num arrebato de abraço, para enfim descansar de forma concreta, precisa, e assim poder dormir finalmente em teu colo, ou em teu busto, ouvindo teu pulsante coração descansando perto do meu.
Seria, afinal, o que dizem êles em ser feliz.
E as noites sem final de violões, bandolins, e cantorias, para mais uma vez ouvir seu canto de rouxinol clarear a noite toda...
Esperei cuidar de você. De te dar cafunés, contar as coisas que sei, falar de dias de batalhas e glórias passadas; e de planos futuros que ninguém nunca há de saber, e de quando ir trabalhar, sentir sua mão tão macia me segurar pedindo um beijo de despedida, e que seus olhos acastanhados, translúcidos com um brilho tão incógnito fôssem então para mim motivo para que eu pudesse continuar adiantar, e lhe trouxesse a alegria e o cansaço de um labor, enquanto abriríamos uma garrafa e descansaríamos de toda a vida que morreria fora de nossa casa. Te encontrar no metrô seria como ir numa fila ao tomar a eucaristhia, de importância, reverência, temência, amôr e respêito. Te celebraria como o gôl de desempate, e do primeiro gole de Antarctica gelada. Seria lá tu a fôrça de minha fraqueza, e eu seria o teu baluarte para que passasses incólume.
A verdade é: cuidaria de você melhor do que eu algum dia pensei cuidar de mim.
O lado de dentro da calçada, o braço na cintura, o beijo inesperado, o vento que invade sua saia, as ondas violentas, o emboque do mar, as alegrias vindouras, a alegria de sermos mais de dois... esperei ansiosamente por isso, e Deus sabe como. 
Te encontrar, em qualquer lugar, em qualquer circunstâncea, de qualquer maneira, seria pra mim a cousa mais bela que existe. E só de sorrir para mim, saberia afinal o que seria isso que êles chamam de "ser amado". E eu saberia - de alguma maneira muito inóqua, muito estranha, muito bizarra, muito bela, muito chamativa, muito desesperada, muito involuntária, muito emocional, muito devota, muito minha, saberia que você também me amaria.
...e antes que eu vá agora, apenas saiba que te amei. E eles não vão te amar como eu amo você. Eu te amei pelo conjunto da obra e solidificação, eles te amam pelo que tens. E isso me difere em grã situação deles. 

E isso me diferencia de uma maneira que você nunca vai saber, porque talvez você nem saiba de mim. Sou só um escriba.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Красно солнышко.

Espero pelo meu bem. 
Estou d'outra margem do rio que repentinamente cruzou.
Será que a água corrente, de fato atormenta, ou seria a turvação das barcas que lhe afligem? Será de viração o vento que afasta, ou será Ordem Celeste, que os braços não se abraçam? Deve de ser morte, frio, peste ou mágoa. 
Que não tenha demora, mas que venha. Que tenha pressa, mas venha a safo.
Fiz um tendal, apôsto três chamuscas: uma para a comida, uma para o luzeiro, e n'outra, para esquentar seus pés na entrada. Peguei suas comidas favoritas, trouxe seus mantéis favôritos, e guardei meu melhor cheiro para desaguar no seu abraço. E a mais devota Ave Maria rezei a cada dia, cada vez mais forte e nociva, para que a Mãe se compadecesse. Desci até as estrêlas, e subi até os mares, e afogando meu corpo no gélido corrediço, fiz as pedras me solavancarem, e fiz meu corpo âncorar. Peixes dançam ao meu redor, e lavo-me como se não tivesse pressa.
Vêde, ó rio, que por teu comprimento, em quatro pedaços te cruzava, mesmo sem força, mesmo gélido, mesmo sem barca, mesmo sem ter com o quê. Mas como mal posso comigo, inflijo as dôres contra ti. És imóvel e corre com depressa fôrça e raiva, e enquão lavo as roupas, desescamo peixes, lavo as pratarias e águo o ginete, és de vileza. Vêde, que separas o amor em quatro pedaços, mas se tal fôsse minha força (não só), lhe dobrava pela fôrça que ergo, e da cólera que padeço.
Há uma fumaça, tal qual a minha, na nôite que se escureia. Ela é fumegaz e se nota na outra barragem do rio. Pode ser de salteadores, de heróes, da comitiva, ou de pregadores; será que hão de ver que aqui também fiz três chamuscas? Sê bendito, Deus, que após tantos mantéis para coibir o frio, amanhã veja o amor me repousar em seus braços; e ouve-me, Mãe, trouxe até a lã de novilho para ser travesseiro para seus cabelos negros e sua cabeça agitada. 
Mas um dia, que agora começa garoando. E que com rapidez apaga as chamuscas. E que com determinação faz um vento que derruba meu tendal. Com o vento, os mantéis se dispersam pelos ares... o cavalo, assustado com os relâmpejos, apenas foge para a barragem acima, e eu, sem ter mais lágrimas para chorar, deito sobre mim a lã de novilho. 
Não demoro, meu amôr, logo chego.
Sê bendito, Deus Eterno, pois é só a água até os pés, pois o corpo tôdo já me encharcou por tua chuva. Chego-me a tal ponto que se misturam gôtas d'água celeste com minhas lacrimosas orações, enquão a água deita-se em meus jôelhos. A lã, em minhas costas agora toca o rio que estranhamente cessa a corrente, parecendo estio ou hora de cheia. Olho e pareço chegar mais perto da outra margem, enquão a lã chega pela sua metade molhada e dobrando o pêso. Respiro e não choro, pois meus olhos estão no nível da água. Faço-me âncora para te esperar, amôr, quando voltar. Te fiz três chamuscas, e morrendo de saudades me enrolei na tua lã de novilho para te abraçar uma última vez e te ter em lembrança. Agora, sou âncora posta submergida de vontade própria. Sou irmã das pedras cheias de lôdo e dos peixes que serei repartida como refeição, e com minha saudade e tua ausência, faço daqui minha morada. 
Não tarde a voltar. Posso não estar aqui, mas estou aqui.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Sem Título #59.

Algumas vezes,
me pego pensando,
no oculto de meu coração,
sobre minha ferida oculta;
Translúcida e perene,
jorra sem pedir licença.

No solitário andar,
cabe a mim apenas sentir,
e guardar num baú meu,
todas as belas coisas do mundo;
Do teu sorriso e teus olhos,
sentir talvez um tanto de alegria.

E os olhos meus que tangem,
não encontram vista alguma,
tampouco perspectiva,
ou alguma satisfação relevante;
Remo em alguma maneira,
de vã filosofia de manter o movimento dos barcos.

Outro dia numa rua dessas,
após uma garrafa de vinho infiel,
olhei a Lua e as estrelas,
lembrei de um bom tempo;
Um sorriso e um abraço com mãos dadas,
que descompassou até a batida de meu coração.

Dentro de mim,
tenho os sinos e ressonos,
guardado a voz altiva,
resto a mente em oração;
Ademais tendo a fé,
sorrio e guardo em mim uma esperança.

Fraca. Claudicante. A nível de morte. Passível de um atentado terrorista.

E de esperança,
crio a vida,
invento ânimo,
ressignifico a alegria;
Transmuto tudo o que há de triste,
para (te) escrever (em) coisas belas.

Assim, ao menos, amenizo a tua falta.


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

II Carta a André.

 1 - Prefácio e Saudação;
Marcvs, escriba para André. Filhinho, que toda sorte recaia sobre você, e ao ler os textos de crônicas de um passado, saiba de um bom tempo que houve. Como gosto de parafrasear Tio Fungo: "Havia um tempo antes do tempo." Cabe a nós abrirmos e fecharmos a porta, o canto, a lágrima, e aceitarmos o fim iminente.

2 - Considerações gerais;
Considera a maldade. A solidão. Os corações endurecidos. O orgulho. De todos esses, moí como bagaço de cana e bebi o sumo. Fiz de dor alegria, fui príncipe, rei, amigo, irmão, consorte, pretor e altivo. Desci até uma mina d'água e lavei os pés e joguei uma concha-forma-mão de água em meu rosto, e pude seguir a estrada. Mas, trago-vos o perguntar: E a estrada? Que forma tem e aonde dá? Quando não sabemos, e não temos mais o ímpeto juvenil da coragem e da sapiência, não queremos mais aventuras, queremos apenas descanso. E isso, filho meu, é o que mais anseio. Aposento a lança e deixo-vos a pena e a lira. 

3 - Preparação para a morte;
Não tenho medo. Fui desde cedo posto em pé de igualdade com a morte e coube a minha parte o entendimento, então sei de mim. Choro apenas pelas lágrimas que irão derramar por mim, por latência, de forma retardante e demorada. Vazio estando o ninho, mantenho-me de olhos fixos ao Céu, e pelo Deus que rege o firmamento, pago o preço do fim que irei acometer: O frio, o chão, a dor, a solidão, a fome, o cansaço, a claudicância e o não querer viver mais.

4 - Das crenças;
Creio em Deus, e isso me bastou em trinta anos. Deve me bastar mais uma eternidade. Deve me valer uma eternidade. De fato, o que se consiste senão ter a força de Deus para caminhar, olhar, ver, viver, ter e sentir? Deus me sustentou até aqui, e agora, no ponto mais calamitoso, me sinto só. Sei que por mais que não O veja ou O sinta, Ele ainda está, mas, atordoado em demasia com o silêncio que ricocheteia em minha mente, não consigo dizer e tampouco fazer muito. Minha crença diminui - e analogamente - aumenta em minhas veias, tal qual aquilo que mina minhas forças e esperanças. A morte pode me ter, mas, ao menos uma vez há de ser em minha maneira.

5 - Da tristeza;
Acolhe o triste, e lida com a lamúria dele com paciência e amor. Sê amigo, pois um dia hão de enxugar teu pranto, pois quem é da lira e da pena tem um coração grande, daqueles que chora, ama, vive e sente. Então, vê lá tu e segue em harmonia, pedindo sempre a Deus pelo melhor jeito de consolar o povo que sofre, perece e padece. E todo bem que fizer ao sofredor, é bem que volve a ti por mérito, ordem de Deus, ou da vida.

6 - Das tradições;
Devemos sempre manter costumes e tradições, de tal forma que quando estivermos sempre a ponto de entender, ver, viver e sentir, sintamo-nos também perto de um costume e tradição. Olhemos também para dentro de nós, e dado a alegria da vida, consigamos nos entender, se fazer entender e dar a vida aquilo que não se enumera, que não se sente, não se vê ou tampouco se tange. Que pelos costumes de uma corrente de pessoas, sejamos nós brindados pela alegria de viver, 'inda que tardia. E que pela tradição, façamos e sejamos lembrança. 

7 - Do oculto;
Existem segredos, dentro de cada recôncavo e rincão de uma alma que nos tomam de forma imperfeita e imprecisa. Não temos acesso a acessa parte - aqui ficamos. Mas, quando alguém nos der por dieito um acesso ao nosso oculto, ou até mesmo ao nosso Jardim Secreto, aonde compartilhamos o nascer e gerir de nossas esperanças e fomentos, devemos sempre honrar o compromisso do oculto, respeitando-o, e dando seu tempo para que se abra: tal qual a flor, que em loucura de primavera se abre, faz-se faceira e manda a vida subir até vós.

8 - Da raiva;
E nos rincões, da raiva que nos trará, exortaremos ao Bom Deus que a elimine, pois somos de lira e pena, e só usaremos a raiva quando profanarem a nós e os nossos - na condição de pretores, seremos a guarda de quem amamos, e na condição de escribas, usaremos a raiva para exortar o que é desnivelado ante ao universo. E, dentro de nós, usaremos nossa raiva e ódio apenas contra uma pessoa: Nós mesmos. E isso nos elevará em magistério pelo desvelo da vida, cuja perdemos, e logo a Encontramos.

9 - Da morte;
E no silêncio, oculto, de fim-de-feira e fim de bandeira, aonde o frade eterno repousa, estaremos pois, nós. E na morte, após lágrima sincera, e não copiosa, entregaremo-nos, a parte certa e devida da vida que foi vivida: Bem pesado e bem medido, seremos condecorados com o que nos aprouve, e após isso, apenas Deus bastará.

10 - Benção e despedida;
Abençoo-te diante dos Santos, e peço a Padre Deus que te dê boa vida, e bons frutos. Que você seja frutífero, solícito e amigo de todos os momentos que a vida lhe ofertar. Viva, e siga sempre o Sol, pois tudo foi feito pelo Sol. E tudo que você pensar, será.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Carta a Lilian.

 1 - Prefácio e Saudação;
Marcvs, escriba, para Lilian. Que Deus te acolha, ouça teus rogos e salve-te de ti mesma. Que nesta carta que discorro a vós possa eu mostrar por exposição histórica e teológica os motivos prudentes e perenes para mudar sua mente antes que você se arrependa dos atos que hão de se seguir. Tua carta me tomou três dias pelas idas ao hospital a noite, e por achar palavras precisas em te demover. Espero que leias com o coração aberto:

2 - Considerações geraes;
Devo admitir que mo encheram os olhos de cólera o que li de vós, e o caminho que te tomas. E o sorriso que nutria de ti, ó amiga, caiu e esvaneceu como areia em ampulheta. O engôdo que tenho do sangue sujo, junto com tuas novas formas de querer viver libertinosamente, e me dão mais nôjo e raiva. Aparta-te de mim, e do meu rincão se te for melhor tomar esse caminho que adiantas o passo agora. E abstenho-me de rir, mas sim me ponho na risca de levantar meu calcanhar contra vós, pois me lembro das antes de ti - das quaes alguma tu conheceste pois era também amigas de teu irmão: Rachæl, Luíza, Conceição, Ana, Mariana, Bep, e as justas que se perderam no caminho. Te rogo, enquão não te maculas: aparta-te de mim. É o demônio que te aconselhas, messalina! 

3  -  Preparação para a morte;
Tenho meus pecados, tristezas, e todo o restante. Mas, sei bem que eu na batalha para cuidar de meu fim, adianto-o. Gostaria que você também pensasse assim, ao menos não tomaria tanta rota errada como acerto e se arrependeria futuramente. Espero a morte como quem esperava a coragem da boa briga, ou de dobrar o sino no linguote. Espero a morte como quem espera a pena capital, e vivo enquão posso, e peço a Padre Deus que minha ida não afete o ecossistema que me arrodeia, mas, que se faça em expiação de meus pecados e pela piedade dos meus. Que seja eu sopé da porta para que Meu Bom Senhor passe. Se sofro, e Deus o permite, foi porque eu mesmo pedi que minha vida fosse uma forma de evangælho aonde pudesse perseverar na fé e que por minha luta, pudesse levar pessoas novas para conhecer Meu Senhor. E se a tudo passo em necessidade, aflição, dor e solidão, tenho Meu Bom Senhor a meu lado, e Ele me provém e restaura tudo em Seu tempo e de acordo com minha necessidade. 

4  - Perca de fé;
A Fé se faz necessária, mas a perca dela é fator comum. Nós, de gênero humano somos fadados pelas tentações demôníacas (tal qual as de seus futuros atos) a termos um afastamento de Deus. Mas devemos a todo instante e momento volvermos nossa carne e nossa cabeça a Padre Deus, e dando-nos este tratamento, logo estaremos propícios a estar com e em Deus - seja por costume ou por aprofundamento da fé. Comece com uma breve prece. Depois reze uma oração, e após isso volte a rotina. Ao menos, tente; talvez isso faça você voltar ao seu eixo de prumo. E talvez no orago, você possa ter assim ter finalmente consolação e sair dessa vida vazia e não cair no poço errôneo que d'agora queres a água amarga. LEMBRA-TE DE RACHÆL!

5 - Loucura da Santidade;
Todo santo ou propenso a santidade é louco, degenerado e renegado - e isso nos mostra a história e o tempo hagiográfico. A inquietação, o amor irracional pelas cousas do Céu, e principalmente a vontade de melhorar o mundo. De vera, ainda qu'o defenda o laicismo do estado, me vejo a crer que a melhor infraestrutura para uma sociedade é a pauta cristã; e não porque nós somos melhores, mas porque agimos de perdão, amor, justiça e misericórdia. E quando fazemos esses quatro feitos de verdade, abrimos nossa alma verdadeiramente, e O Justo Pai das Luzes, vai nos guiar e nos dar enfim, a paz que só Ele tem e é capaz de nos dar. 

6 - Medo de sofrer;
To me dizes do medo de sofrer. E vens dizer isso a mim, que jorrei lágrimas de dor fronte a musa? Vens dizer a mim que durmo no chão frio enquão minhas carnes vibram de dor e por vezes derramo sangue de meus ouvidos? Vens dizer a mim, que acordo todo dia a vomitar? Vens dizer isso a mim que me encontro só em gênero de carne? Vens dizer isso a mim que perdi o pouco valor financeiro que tinha guardado? Vens dizer isso a mim que passei duas noites no hospital após a dose da radio ter dobrado? Vens dizer isso a mim que estou sem força de batear roupa na mão? Eu sei o que é sofrer, e carrego no oculto de meu coração e elevo esse meu sofrer ao Bom Senhor que mais sofreu por mim. E não digo metade do meu sofrer, pois estamos em época temporã de criar mártires e fazer teatro do afã alheio. Você não sabe o que é sofrer, Lila. Louva cada pedaço, recôncavo, cama, fogão, geladeira, tv, dinheiro, roupas e amigos que tem. A vida ainda não te deu o vero sofrer, então roga a Padre Deus nessa piedade.

7 - Consolação;
Se eu puder me glorificar, que me glorifique no Senhor, e se for para exaltar, que sejam as virtudes dos meus, tão melhores a mim. O sorriso me consola, o abraço me alivia o fardo, a eucaristia me cura, e o terço me faz sentir forte. A minha consolação baseia-se n'Um Deus Misericordioso que desce até mim através de um afago, uma hospitalidade, um beijo, um almoço, um lavar de roupas, uma carona, uma ajuda, e nos milagres tão inexplicáveis que fogem de minha língua explicar. Minha consolação se baseia na minha fé e na minha crença, e agindo-as com mutua respeito, formam-se numa coisa só. E ter a consolação verdadeira, é saber que Deus dá, Deus tira, Deus restitui, Manda buscar, conserva e melhora. 

8 - Considerações finaes;
Deixo-te com Deus e o Bom Santo Antônio. Peço a Eles que mude tua cabeça e tão muito e tão logo você possa mudar sua vida e mudar seu jeito de ser, começando por sua nova escolha de vida. Ouve. Para. Pensa. Muda. E para melhor. Minhas preces e bençãos se extensam até seu filho, e rogo a Virgem Maria por vocês. 

quarta-feira, 23 de março de 2022

Elegia.

POR FAVOR, não ponha carga maior em meus ombros. Tampouco olhe em meus olhos com piedade ou vã misericórdia - se não te pode deitar-me em teus braços, ouvir o que digo, ou tampouco prezar pelo pouco que tenho, não me sobrecarregue.
Se julga algo, ilustre, pela tua libra deve dar o peso justo ao que é certo. Se você infringe o peso ou exonera o erro, então você erra. Se você erra, então vai e repara o erro - é assim que eles ensinaram no meu entorno, reparar erros e constituir novo momento.
Ao menos entenda, e se não puder entender tente. E se não puder tentar se dedique, e se a dedicação não for suficiente, esforça e seja exímio, como fui.
De fato, eu, criança solta e doida pelo mundo não reconheço o que me cega, mas deixo minha reminiscência em cada pedaço que passo gravando meu existir no mundo. A cada lugar que passo deixo minha essência, riso, deboche e palavra; e aqueles que passaram após a mim deixaram enunciado que me viram, me sentiram e me viram em locais aonde me eternizei. E quando eu for embora, sei que deixarei cada local meu com minha marca impressa, e por mais que a boca não assuma, serei o tormento do pensamento, a lágrima solitária, e o nome preso na garganta. Serei o mais belo pendão hasteado em algum tendal.
Mas, sinto cada dia que passa que não deveria estar aqui. Que talvez eu deveria deixar de existir. Devesse eu, de fato, deixar essa caravana.
Quando eu me chamar saudade, deixarei pontos mais fechados do que abertos, pois não guardei para ontem. E quando os sinos tocarem, os pássaros aparecerem, o Sol nascer, e quando o vento derrubar, será a recordação: não será teste, nem coincidência, e nem a vida. Será aquilo que espreita, e finge não se dar conta, quando eu me chamar saudade, levarei na mão um terço, e muitos calos dos pesos e barras.
No fim, pelo visto não importa o quanto você é bom, mas o quanto você aguenta as tretas e ainda dizer que está tudo bem - mesmo não estando.
No fim, não importa o quão fazes de boas ações, ou aquilo que tem velado teu coração; vale o que te julgam e te cabem necessário.
No fim, não importa o que você pede ou considera: você é condicionado a aceitar o que subjugam, e dizer amén.
E assim, passar para depois parece tão fácil, de comum fazer e explicar. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Hurt.

 Não se importe se eu morrer hoje.
Celebre minha história, como sempre eu a celebrei.
Conte meus feitos, reúna meus amigos, e cada um, em paz e em vêz conte meu legado, que ouviu de minha bôca.
Sentado, do lado de fora, honrarei cada um de vós, sentado em minha amaldiçoada memória. Direi bôas palavras, juro. Serei vossas testemunhas diante do Santo Tribunal, os guardarei e os amarei.
E vós, após minha morte, me amem de verdade ao menos uma vez em diante.
E não me abraçando, valorizem o abraço, não me beijando, aprendam a amar, não me vendo, aprendam a urgência em vêr quem se estima, e não ouvindo minha voz, aprendam a ouvir. Quando eu me chamar saudade, aprendam a usar a memória como alma e arma.
Estou indo embora, e não se importe, mas estou deixando pegadas antes que vocês digam que fui sorrateiro.
E eu, do lado oposto, guardarei cada denário que me destes e cada cana que me batestes. Segurarei o entôjo e armarei o sorriso entredentes, desejando cada vez mais a morte após a morte e o descanso da alma que intensamente amou demais, viveu demais, sofreu demais, e morreu em desâmago.
Cá a mim, resta o gôsto de veneno na boca enquanto durmo, e a vontade de pedir perdão aos que amo, e meu grito mais sincero de ódio aos que renego. Me torno inimigo das sombras, das luzes, da noite e dia, e espero em mim a hora de morrer; habituado, pois, ao centro do universo, aonde tudo recebo e nada consigo inflingir, restrinjo minha existência a uma básica sentença de não ser mais, do deixar para depois...
...Afinal, qual cousa boa faria se ainda vivo?
Encomendo esse resto de sopro, pois, a Virgem das Candeias, e ao Bom São Cristóvão, e que nessa travessia, eu aprenda ao menos que não há com quem contar.
E que de resto, nada nessa vida importa. E peço perdão aos que aborreci, achando que eles se importavam, pois a estes amei mais.

E o resto é o sino do Largo.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Aqui.

 Quando vêm essa noite tão densa,

que me trás vozes e falsos-peixes,
minha carne vibra e meu olho incelensa.
Sinto-me triste, fustigado, cansado e desiludido,
e dá-me o prazer de não-ser e não-existir,
para ter (e dar a) paz (a todos a quem feri).
Quando olho a janela me suspiro pelas maravilhas da Destra criadora,
mas me sinto usurpando o local de outra alma,
vivendo algo que não é meu,
atrapalhando algo na vida de cada um que me circundeia.
E o gôsto férreo da morte me parece mais belo e valioso,
pelo simples fato de só saber ferir/magoar/machucar/tanger,
E sentir (saber?) que não se é suficiente/digno/justo/bôm.
E minha alma se cala enquão as carnes tremem.
Sinto que meu desserviço aos meus e a mim mesmo só aumenta.
Tento me aprazer mas esta densidão teima em me arrodear.
E por ter escolhido a água e o viño me apego mesmo que haja absência.
E me sentindo só, inútil, triste, e incompetente, sigo.
Talvez,
quando você estiver lendo esse trovejo,
eu estarei não querendo viver mais.
E te peço desculpa, de coração, peito aberto.
Não me sou assim porquê quero.
Talvez a vida - as chagas ou as pessoas - me imputaram a isso.
Me perdoe por favor por estragar o cenário.
Sou da lira e da pena,
por isso denuncio tudo o que sinto em lêtras;
mas,
se puderdes e quiserdes fazer algo por minha pessoa
(cousa da qual duvido muito)
vos rogo que me abrace forte, incandeiamente.
Diz-me das cousas bôas que obrei,
dos sorrisos que arranquei,
do amôr que cativei,
da lágrima que estanquei
(se é que o fiz algo assim)
e segura-me firme e não me deixe morrer de minhas mãos.
Olha meus olhos e vêde minh'alma suspirante,
que entre o sufrágio e o mítigo, fel e têz nêgra,
mantém-se sem saber porque se mantém.
E se tiverdes essa paciência e virtude por minha pessôa,
vos rogo que,
por mais um momento,
me manterei,
aqui.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Beautiful Stranger.

Não escuto mais o encarnado canto da sereia, e tampouco vejo as estrêlas-guias do Céu que há tanto e a muito me davam a paz para seguir mantendo leme e timão em sincronia. Logo, encontro-me neste exato momento vivificando um espírito natimorto e rezando pelo meu pior fel; e das dôres do mundo, na noite da solidão, me coube um lampejo (de ideia ou de ignorância), aonde guardo meus pensares neste baú letrado, de forma tão forte e precisa que quem o lê entende de letra errada, e se não o ter com o escriba para traduzir, não há de entender.

Pus pena e papel em pronto, e assim transpus para aliviar o desaguar:
Conheça meus amigos, são dotados de virtude de charitas e amôr-sem-fim; e tôdos êles, quando pôstos no prisma de nós, sempre se colocaram da emprêsa e deitaram escudos a nosso favôr.
Conheça meus irmãos, aqueles a quem dariam a vida por mim, e asseguradamente dariam o subsídio para a musa da lagoa para que assim como eu daria para a senhora do junco e mel, e a nêga da favela - eles, cada qual em sua colocação, fariam e farão o melhor por mim e pelos meus quando eu me chamar saudade (E quando eu me chamar saudade, sei que não passarei apenas de história, nuvem cinza de chuva veraneia, da qual saudade nenhuma saudade, e sim vaga lembrança), e de fato não vos sou, máquina reconvexa, vaga lembrança? Aperto teus botões, seguro teus eixões, empurro alavancas e analiso indicadores, mas ainda sim, por mais relevante que eu soe, não te pensa que sei que sou plausível de substituição? Pois bem sei, e cai sobre minhas carnes teu óleo, que não me unge, só me constrange e arrefecia.
Conheça meu pai, frade eterno que se cristaliza entre o som e o suor, e entre o punho armado da peleja e o ostente porvir do grito, existe. Habita, no coração impuro e maculado, e além de tudo, existe pela graça sublime de uma misericórida, que padre algum explica e nenhum douto sabe dizer; visita cada pedido, entrada, bandeira, emprêsa e consorte - e dada a graça, iluminado e isolado no ar, existe por milagre impecável da vida - cristalizado e mistificado.
Conheça o coração turvado e abra-o meticulosamente, como gente, como ser, e pagando tributo; oculto pois, em teu desvêlo, reconhece a efíge que esconde, e dado o silêncio prolongado, respira com ardor, e entrarás: verás a chaga e a glória, e coisas que o silêncio soube mais do quaisquer outro.
Após escrito, lembrei de dias aonde era o Sol gelado, e a garoa amiga - que logo não tardarão a chegar. Lembro também, que vi muitos se esgueirando e esquecendo daquilo que só eu lembro. E oculto, dentro de mim, só lembro daquilo que ficou; e não renego! Agradeço a lembrança, e sei que no espaço estreito de um navio, computado as coisas que ergui pelos meus e as sagras que os dei, fiz mais pelo bem do que pelo não. E só espero que as vidas se encontrem no final, que o ego ceda, e que dado a tangente da carne, volta-se e sai o Sol para brilhar, frio e com têmpo cinza.
E lembro-me do que mais me trouxe até aqui, daquilo que mais batalhei em pau-e-corda, e pelo visto, andei em circulo. E eu, estafado, gostaria apenas de deixar de ser, de ter, de

sexta-feira, 4 de março de 2022

Alô, Meu Deus

 Abba;

Se possível, me guarda esta noite nos teus átrios, e silencia minha voz por um instante. Dilacera e corta meus dedos - de lepra, tato ou corte; para que a função não seja mais ofertada. E o gosto de fel que tange a boca, se possível, elimina. Silencia minha cabeça, meus pensares, e ao abrir meu punho, dá-me a mão.
Deita-me na campa, e sentindo o cheiro da chuva fresca, anima-me a me pertencer; pois eu bem sei: eu tenho, eles não. Eu luto, eles não, Eu entrego, eles guardam.
Eu sou.
Dizem, Abba, tanta coisa que magoa as vezes. Te sabes, que eu e tu, no nosso jardim secreto, que nunca quis cousa artificial, difícil, ou que custasse mais do que a vida; de vera, eu só queria a felicidade: A casa, a mulher, os filhos, o carro, árvore e churrasqueira. Queria ter casa no campo, de vera - mas me bastaria ter o que me cabe nesta proporção. Queria ver o Sol nascer mais vezes, olhar a rua e rezar para cada irmão meu que passa por mim, e principalmente não me deixar abater por cousas tão tolas, tão pequenas - mas que tem tanto significado para mim.
Abba, me sinto só.
De fato, me consisto em solidão de carne, pois sei que de alguma forma Sua presença está aqui, em mim e por mim, mas não desmerecendo Tua presença, me sinto falta de gente igual a mim. Gente que ama, aceita, e me faz sentir importante de alguma forma. Sinto falta de sentir aquele momento que alterna entre o riso e a compreensão, e de vera, Abba, por hora me sinto cada vez mais só, e parece mais uma vez com a noite da solidão; aquela mesma noite aonde sentia os taciturnos medos de criança e sentia a travessia do ido.
Eu, estando no mar de gentes, quando me refugio, me guardo em Vós, mas quando eu, estando a sentir o que bem agora sinto em meu peito, tento me refugiar em Tua alçada, porém me parece que até Vós me repeles - sei bem de meu passado, e das lutas que travei para sepultar o homem velho, e no segredo que nos cabe, no nosso jardim secreto, sabes de meu coração, e daquilo que mais me dói (a dita adaga no peito pelos santos, poetas, profetas...), por isso, peço que não Se afaste de mim, nem tão pouco esconda Tua face de mim. E me lembra sempre do que aquele passarinho, empoleirado na janela do claustro, cantou indecorosamente, raivosamente, abençoadamente, e proféticamente; deixa, que meu grito vença, pois das bandeiras que fiz, levei a honra, e da devoção que carrego, emano fé.
Pois te peço, assim como tom de deboche e desafio o endurecimento da víscera, e do riso bobo, do carinho e da tez. Peço que me perca de mim como o profeta no deserto, até que o pastor venha.
Se eles são, seremos mais. Se eles cantam, a gente arregaça. Se eles dançam, a gente bota pra ferver. Se eles são autossuficientes, somos carentes porque somos humanos. Se eles são doutos, somos burros para que eles tenham a quem ensinar. Se eles não tem tempo, somos os que criam tempo no tempo para ser servil.
Lembra, Abba, da porta estreita.
Lembra, Abba, que o deboche no fim das contas foi só uma arma pra esconder as chagas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Mambembe.

Boi não voa, my baby, é proibido por lei.

Disseram-me dessa negativa nesta bandeira passada, enquanto eu descia os montes e circundava as serras, mais sinuosas que o corpo da nêgra deusa de cabêlos nêgros, que era inviável: Boi voador não podia. Desci mais um tanto, e vi as pessoas me olhando de tôrto e direito, e vi que meu canto ainda estava só. Minha escrita, ad ibdem.
Mas, se boi voador não podia, porque então o canto não era livre? E tudo o que era contrário ao livre, era associado ao Boi Voador?
Que nos dizem, pois, os profetas então sobre isso?
Acaso pois, os profetas, também não estavam a sós e viviam sós? Aguardando a hora da morte, ou da santidade, e quando se perdiam em explicar ou expiar as situações, não levavam chumbo da ávida multidão, e não eram ouvidos, tampouco lidos?
Que nos diz, pois, o mundo?
Nada de novo contra o Sol, de fato. Ainda tento numa vã motivação por em letras o vaticínio de escrever, mas não me importa, pois letra dada não é letra lida, e os que dizem estar ao lado não sabem – disse-me êntre os brônquios, em segrêdo, que só é lido quão môrto, heróe ou dado de insensatêz. De fato, o estava certo. Talvez, no post-mortem meus dados textos, crônicas de ordem social, admoestações e garrafas-ao-além-mar façam sentido.
O santo, o profeta, o homem, só se torna depois de môrto. Devia de ter notado antes que a desventura da torrente de lêtras pegasse-me pelas ventas e deitasse-me no colo da mãe preta de côxas grossas, seios fartos e orbitantes, e olhos suntuosos que emanam prazer e raiva, como se necessitasse de minhas carnes para agora, adjunto meu suor, penar, e reter.
Ai de mim, Piratininga, só sou teu príncipe.
Deus vos Salve, Kali Durga, deusa selvagem de seios que pesam em minha fronte, enquão faço de tuas coxas meu travesseiro, e o teu cheiro de cinamomo sexual me confunde entre o sim e o não, mas não me permite o talvez. Deus vos Salve, deusa da morte e do sexo, que no confronto entre o conforto, me rouba o arfar e o gozo, e estando eu no sopé da morte, urjo vida, e quando me sinto vivo, me enfeitiça com a campa funda. Kali Durga, se me lancina com a morte, que eu vos pegue como uma cadelinha pela última vez, pois se for de morte, ao menos te carregarei comigo num último segrêdo – que todos sabem. Mandei escrêver no mural, mulher.
Carrego minha bolsa e meus pensamentos na mesma forma e maneira, mas não entrego a ninguém aquilo que coube a mim. O pendão que hasteio, faço de maestria que ninguém haveria de ter ou ver igual; admito entre o riso de orgulho e triste que sou único, mas sei dentro de meu pequeno e pobre coração que sou altamente passível de substituição – e os que me amam, podem amar outros, e os que me confiam, podem confiar em outros, e os que me olham, podem olhar para outros lados.
Sei, que sou inútil em termos eternos, e Kali me lembra disso a cada beijo, sussurro, beijo na nuca, olho no olho, ou quando move seu quadril para frente enquão empurro com força; tua cara rejante me mostra a dor e o prazer, e na morte se faz foz da vida, não é mesmo, deflorada senhorinha? Sei que quando esse enlace acabar, não há o que me segure ou prenda, e por mais que eu tenha posto muitas âncoras e raízes, elas são içadas e arrancadas.
Sei, que no fundo no fundo, como todo bôm coração ruim, não faço diferente/diferença para nada e ninguém. E talvez – com a benção do Bôm Senhor – depois de morto, alguém lembre que eu tentei ser alguém.
Um carinha. Maneirinho.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Bajan.

Aonde seus passos vão, você vai querer que eu vá também?
Ou você apenas quer que eu sub-exista, e seja alguém legal, perpendicular e abstrato, conveniente e de trato aberto com você? E se eu fôsse um desses garôtos bonitos, de pele feita, olhos translúcidos, e financeiramente estável, eu seria alguém melhor e maior para você? E se eu fôsse o que não sou, de valôres negociáveis, você iria me querer?
Será que você realmente em algum momento levou isso tudo a sério como eu levo, e em algum momento me quis com você? Ou pior, será que você me ama? Perguntas que descem de minha cabeça - o que sou, quem sou, como estou, para onde vou, parece que nada importa, e todas as promessas feitas caem pela arêia, e tôdos aqueles sonhos que tínhamos vão se deformando e perdendo o sentido. 

E eu, vou deixando de ser, me apagando para você brilhar, e sentindo um vazio. 

Eu segurei suas lágrimas, e você não me rende em um colo, um sorriso, um beijo, n'uma posse. Estou ferido e sem ter com quem me socorra. Me encontro precisando urgentemente de tua ventura, mas teus olhos me evitam, me dão um corte atravessado, e me deixam atordoado, pois tudo aquilo parece que deixou de ser.

As vezes, penso que a vida era tão mais fácil quando você não estava aqui, pois era eu contra o mundo, e agora, parece que quando tenho você sou eu contra o mundo.
E isso jorra lágrimas de meu ôlho.
E só me faz pensar se você não me ama, ou eu amo sozinho nesse relacionamento.
Diz-me, ao menos uma vez, que me ama, e isso me (nos) basta.
Vêm comigo, sêm mêdo, sem tristêza, nasce e comigo a cada dia, me dá tua mão e segue, sem mêdo ou descrença - cremos no mesmo Deus, e Ele me deu tudo, e Ele há de nos dar tudo; confia e segue, olha e vêm.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Muchacha (Ojos de Papel).

 Ela acordou, deitou ao lado, tirou a coberta e pôs os pés no chão, talvêz tateou pra achar os chinelos, ou algo assim. Deitou o jarro e pôs água. Olhou o horizonte e viu o tudo e o nada, se arrependeu e seguiu em frente, cumpriu o básico e se perdeu no espêlho da ilusão: amou sem amar.

Tenho visto que 21 é o anno de minha vida, e é também o anno em que deuses voltam a andar sôb a terra, e injustos morrem antes de ter a alma silênciada: As coisas estão têndo têmpo e eixo, e meu coração se alegra: É têmpo de esperança, e pôde ver do alto do átrio que êles também se alegram. Santo que intercede também comemora a graça alcançada. 

Preciso de uma cerveja. Preciso ir pros campos, ou ver o Sol nascer, preciso de um disco nôvo, e ouvir aquele síncopado, preciso ouvir aquela corvina cantar, e preciso urgentemente que ela sente no meu colo me dando minha cerveja, e se entrelaçando em meu pescoço, me dê um abraço e diga aquilo que preciso ouvir. Ouvir o que uma mulher que ama ao seu homem diz. As verdades.
Meu Deus, que saudades daquela bunda.
Era uma bunda bem estruturada, como a cintura era, e o rôsto bem ornado, de sorriso bonito e de olhos que escaneavam minha alma. Ela me toma de assalto quando (nas raras vêzes) olha nos meus olhos. Eu só queria, realmente, que ela me notasse.
Eu só não queria ser eu mesmo por um dia. Deitar e não acordar. Go out for an eternal lunch. E eu anatemizo a mim mêsmo, pois eu quebro as cadêias do degrêdo enquão digo coisas sem sentido, significado, razão ou porquê - luto quixotescamente contra coisas que bem sei que não acontecem aos que se ocupam moendo o trigo.
Ele quebrou a lira e denunciou os algozes de seu têmpo, guardaram em si tôdas as côisas, e minaram dele a virtude, amôr, caridade e fé. Sobrou a carne, e traiu ele a própria carne com o espírito. Da traição, fez a fidelidade como mãe. E ele ousou, fazendo da morte o seu pendão - e o quão sortudo quem faz e vive dessa sorte. Quatro homens trasladaram seu côrpo, e o morto ria.
Desaguou de seu pêito água e viño, e quem sentiu o cheiro de alecrim no vento não entendeu, e as mulheres que ouviram, choraram, os homens que confiaram manearam a cabêça, fizeram da morte ponto de glória - sendo que devia sê-lo honrado em vida. Fizeram tudo errado, e ainda hasteando o requiém, colocaram a culpa no imóvel. 

...E seu coração, sem água e sem viño, secou e endureceu, assim cômo ele o pedia nas suas orações mais sinceras.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Carta aos Dispersos.

São Paulo, ano do Senhor de 2020, ao 29º dia do Mês de Maio.

I - Prefácio, e saudação.

Marcus, o Queiroz; Filho de Fábio, de Márcia, amado por Antônia, de coração Franciscano, mente Dominicana e bôca Beneditina, aos dispersos pela pandêmia: Paz e Bem! Glória imortal ao Sangue vertido da Cruz, pois Ele é a melhor forma de viver.
A filha, no ventre da amada, ao Sol que ainda aquece no frio, ao Marçal, Bezerra, Leão, Cunha, Leme, Arcanjo, Miriani e aos que me circundam: Graça e Paz! Fartura para os que dividem, e misericórdia aos que acumulam.
Em tempos de crise, ticoliro (lhe chamo assim desde que soubemos de vossa alegre e bem-vinda  chegança), nós andamos dispersos, mas o fundamento, côrpo e essência para se manter são é você. Então, o tôm, contracrônica e palavra dessa epístola é para você. Os acima citados são meus, e me tem carinho como os tive, logo, se são pessoas de meu viver, pode os considerar teus amigos e próximos.
28 anos, sem a amada, com a barba extensa, e a todo dia orando por você, e desejando ardentemente segurar-te em meus braços ao menos uma vez e te amar gloriosamente - filha, és de fato a concretização de um sonho, e a alegria que fulgura em meu peito, faz-me bem e dá-me ânimo e esperança. Não há um dia que eu não imagine sua mãe, e não pense nela, tampouco cá vós, e oro para que o dia da festa esteja pronto e digno para sua entrada. Em ti vejo a calma que tanto busquei, e o motivo de continuar a terra. Em paz e ainda em paz, desejo ser para ti o pai que nunca tive, e ser presente como o meu nunca foi, amar-te e apoiar-te e dar-te o que conheço, tenho e sei. Te ensinar o amôr, a verdade, e o que realmente é o mundo. Não te quero santa, mas não te desejo comungando com falso moralismo, quero-te livre, verdadeira, e fiel a seus princípios - e mesmo que os teus princípios possam me magoar, serei fiel a teu amôr, pois é por você que dobro meus joelhos a cada dia desde que soube que seria o melhor presente que tua (incrível) mãe poderia me dar.

II - Passar dos dias, admoestação, cuidar e conhecer:

E aqui eu fico, isolado, longe, arrumando a casa para sua chegada, e imaginando você; Desejo que não seja nem igual a mim, tampouco a sua mãe, mas que tenha seu brilho próprio e que ache seu lugar ao mundo, que eu e ela possamos lhe dar com o tempo e com a experiência, você é a primogênita, e cheia de amôr. Permita Deus que nós sejamos exímios em sua criação e possamos lhe passar o que julgamos ser a verdade. Filha, agora me acho aparte de vocês, mas nunca em momento algum deixei de amar ou sequer pensar em vocês, digo com a certeza dos Patrísticos que estou vivendo um sonho acordado, mas o maior sonho de minha vida, não estou vendo. Apenas sentindo. Deus é bom, justo e maravilhoso, e a tôdo momento cabe a Êle render glórias, pois em respostas de minha oração, Êle me entregou sua mãe como mulher, mãe, amiga, namorada, amante, rainha, consorte, e esposa. Ter sua mãe não foi apenas amar uma mulher, mas ela fez mais por mim como qualquer outra. Sua mãe encontra-se num patamar igualado e nivelado de sua Avó Márcia, e de sua antecessora, Dona Antônia - A Véa.
Porquanto você estiver com ela, diga que a ame, cuide e ampare dela, faça-a bem, respeite e ouça as decisões e conselhos dela com sabedoria. Abrace-a forte, e beije o rôsto mais macio que há. Tenho mais certeza ainda que não poderia haver mãe melhor para você do que ela. Afora sua mãe na terra, há Maria, a Virgem Sempre Bem-Aventurada, que ouve minhas preces e há de sempre lhe acompanhar por onde for, porque a amada Rainha Celeste, mãe nossa, me disse que cuidaria dos teus passos e te daria a alegria. A Mãe, minha filha, sempre quer nosso bem. Sempre.
Ame seus avós, e não esqueça de sua avó Márcia, que muitas vezes lhe ora e pede sua vinda com saúde, e ânimo. Cookie, a cachorra mais desordeira do mundo te espera ansiosa para lamber sua cara e roubar sua comida. Todos nós, deste lado da história estamos muito ansiosos por você e fazemos votos de lhe amar muito, e em paz, e contemplar você.

III - Consolação, virtudes, apoio:

Não há culpa, não há magoa, não há dôr. Há um vazio que vocês duas deixaram, e que nunca se preenche. Nos primeiros dias, pedi tanto a Deus pela morte, e ele nunca me respondeu. Talvez eu deva lhe segurar nos braços para entender o que é a perfeição, para depois partir. Filha, dou-te como lição ser sempre leve, aceitar tudo o que Deus lhe manda, e amar as pessoas com cada tino e certeza de seu coração, confie em tua intuição, e acredite sempre em seu potêncial - se hoje sou pai, e estou vivo, é porque ao longo do caminho sempre tive o sonho de um dia poder constituir minha família, e mais além: Sabia de que minha vida seria perfeita com tua chegada. Não houve um dia que não esperei por hoje, e digo que você desde que revelada já foi muito amada, tôdas as minhas alegrias hoje são você.
Se eu não estiver por perto, saiba que lhe amo, e lhe tenho confiança em tudo o que fizer, e mais além: Tudo o que desejar, que for sincero e puro, de teu merecimento, Deus lhe dará e te recompensará pelo que dividir com teus irmãos. Ama a vida, e despreza o gôsto de ocre na bôca, renega a casa, flôrete e jardim, e ama a perfeição, entende que tudo que vive é irmão, e que há uma Fôrça soberana que rege, guarda e ilumina teus passos nessa terra. Sê feliz, pois quem tem sorriso na boca não tem tempo para chorar; Entrega-te só para quem te merecer, pois tem seu pêso posto em ouro, vale muito e é estimada, preciosa e querida. Ame apenas quem for digno de seu amôr, sê caridosa com todos e louva a Deus por tudo, pois em Tudo Êle estará contigo e te livrará do mal por onde você for, carregas o sangue franciscano, sê humilde, grata e em paz.

domingo, 7 de abril de 2019

Rock, Baby, Rock.

A garôta não existe mais.
"É invenção do vento", disseram-me êles, assentados sobre os tamboretes, apesar de poucas vozes ouvirem e muitos ouvidos falarem. E ninguém quer saber se muito ou se pouco, apenas quer saber e ir atrás do que convém. E eu, fiquei para escanteio, fiquei para depois, deixei para outro dia, empacotei e quis saber se dá pra entregar ao remetente.
Ah, coração traiçoeiro, que bate e bate e não chega em compasso sincopado. Te orienta!
Talvez até estivessem certo, eles. Afinal, nem eu botei fé, e com os ombros cansados contra a maré, hoje me deixei ser um da correnteza, e ao parar de reter, não sinto mais a vontade de entender, de fazer saber, tampouco de fazer a vontade prevalecer. Quero agora é ganhar no grito, quero é bater na cara, e gritar mais, quero e tudo de cerveja, de skol. Quero é ver a geral piar e apoiar na arquibancada meu alvinegro, e voltar para os pontos riscados no chão de Seo Fábio, e lembrar o nome de tôdos os boiadeiros, para me valer daquela antiga reza para quem me acompanha. Quero é ver meu nome no Céu, e não aceito menos que isso. Quero tudo o que reneguei, porque isso não mais me valeu, o Céu sobre minha cabeça não tem mais heróis. Apenas pessoas iguais a mim, que quanto mais as chamo, mais parecem longe, distantes, inóquas ao que digo - e mesmo eu falando latim, elas inda sim não me entendem.
Sorria, enxuga as lágrimas, recusa a porta e estreita e vai viver, guarda a pérola e vae viver, que a vida é boa, e os deuses sorriem ao teu favôr.
Quero emagrecer para entrar na calça de baile, quero a bota engraxada e a camisa engomada, tirar a barba e cortar o cabelo em três pôntas. Quero os anos de Start de volta, e as coca-com-montilla, as meninas de saiota e fred perry, botinha e riso maldoso, quero as andadas atrás do boteco mais barato, e o riso aberto, imortal, isecular, que nunca vai morrer, e vai se gravar na coxa das moças e no fígado dos amigos, quero tudo que me cabe por direito, e mais além: Quero que calem-se as bocas, e que se entendam os sonhos. Quero a vida por vida, a minha vida por direito - que ninguém nunca toma, rouba, fere ou mata. Quero o gemido louco e desenfreado de gozo, quero tudo aquilo que me foi prometido e mais do que foi, e dessa vez não me dou o direito de dividir, quero para mim, e para minha tumba, pois se muitos juraram sobre ela, nela habitarei e nela tudo o que for meu por excelsa garantia, lá estará - pegará quem quer, sobreviverá quem eu deixar. Eu sou o vento.
Deixo minha humildade a quem se inteirar da verdade, e meu matulo a quem quiser carregar pedras, meu paladar para quem quiser comer sal, e minha alma para quem quiser contemplar Deus. Deixo minha vida para quem quiser bater de frente com o inefã, e deixo meu segredo ao Prometido, pois só Ele tem direito disso, como acordado na Ceia Mística, e as garôtas deixo minha motriz sexual, para que quando alguém as tocar, seja eu o primeiro, intermediário e último pensamento. E de menos, deixo meu afago a tôdos os caninos da rua, e quem quiser me sentir, vai me achar no Centro Velho, ali na São João e Barão, nos botecos, nas lojas de discos, nos sorrisos, e tudo mais que de bom e infinito que houver.
Eu quero o aboio de meus avôs nordestinos, tão amados, estimados, queridos e amados como todo o povo da Correntina! A benção, Vô Francisco, A benção, Rainha Dona Antônia!

Eu quero o que é meu por direito, só que dessa vez eu vou mandar buscar.

domingo, 24 de março de 2019

Waiting In Vain.

Ela tinha um cheiro incrível, Deus sabe mais que eu. Descia-se de sua cabeça fios enrolados, de mística e vera sorte que podiam ser chamados de cabelo - juba de um leão suntuoso, e apregoavam de suas orelhas um par de brincos, que realçavam das sardas em seu rôsto, boca pequena, riso riste, número dela. Era de tôdo pequena, cintura fina, e gestos módicos, mas como um cais, parecia grande para que houvesse em si sentimento. Tinha gestos de quem vivia só, mas que se soltava a conversar se você estivesse disposto.
Talvez fôsse ela a maior definição de estar só no mar de gente, e talvez fôsse por isso que tudo aconteceu; Foi ali que os Céus tôdos caíram: Ao sentir o cheiro da pele, um leve aroma de infância, e quando dijunto a pele, não pude raciocinar muito e efetuei o disparo contido na boca que procurou a sua - definitivamente estava lá (eu) de coração e chaga aberta; E de fato, como nunca pude ser meio, fui tôdo para ela, e deixei as demais coisas suspensas no ar.
Sinceramente, não me importei da Quaresma, nem do carnaval, nem da chuva, nem de nada, era apenas necessário ter você nos meus braços, e sentir seu corpo contra o meu, e era mais do que importante você ter percebido todas as coisas que foram incluídas em silêncio no pacote, que só sabe quem ama: Dos sacrifícios, cabe apenas quem faz e quem sente, senão, não tem porquê. De tudo, quero guardar apenas o sôm dos sinos, o turvar feliz, o gôsto bôm na bôca, e de sorrisos, apenas. De todo o resto me esvaneço e caio de novo na ávida multidão, e no primeiro eu paro, no segundo eu fico, e no terceiro eu caio. Não penso mais no que há de acontecer, só penso que no final isso tem que valer muito a pena. No final, só quero levar alegria a todos os corações - de tiro, riso ou morte.
Kyrie, Elesion.
Não devo dizer que estou bem, os meus pilares já estão sabendo, e os amigos próximos estão me dando um Hovercraft(TM) maravilhoso, mas, o rebento do meu peito ainda é maior, e por hora, não me sinto afã em olhar a janela, e nem ver o Sol no frio. Zécão está aí, fazendo seu papel, e a vida vai se encaminhando, mas, não consigo deixar algumas coisas passarem tão rápido; A peneira mental me força lembrar a cada cinco minutos do que mais queria esquecer agora: Cada sorriso, abraço, beijo, turvor, suspiro, mordida, palavra, segredo, mão-a-mão, afago, cada cena dessas vem a minha mente agora, contrastado com o que não faz sentido, e me deixa atordoado, tentando entender o que não entendo, e estando a dizer o que não consigo conjugar, e a esperar uma resposta que possívelmente não terei. Hoje não teve música para dormir porque nem dormir se dormiu.
Kyrie, Eleison.
Eu espero que o vento não se importe se eu disseminar umas palavras tortas aqui, que se doam os ouvidos, mas que lavam a alma, mas eu só sei dizer que tôda tristeza padece de um momento, e tôdo momento dura uma parte, e depois não há de doer mais, fica apenas a cicatriz, apenas um sorriso disseminado no ar, trastejado com a lágrima que eu não quis te dar o prazer de ver, e quanto as flôres do jardim que eu queria que você visse, irei arrancar uma-por-uma, pois nenhuma delas se equiparou a sua beleza -  mais além - as flôres crescem e se desenvolvem, a terra se realoca, e fica o sentimento, e a mim na ventania. E nada realmente importa, não é mesmo? As coisas já estão arrumadas, e meu coração pesa. Meu sorriso não tange a aparecer, porque realmente rir agora seria desrespeitoso e inútil: A minha definição de alegria se atristejou, e agora está indo embora por aquela porta...
Kyrie, Eleison.
Quanto a mim, não se cabe em dias, ou medida de têmpo, cabe apenas orar, meditar, e esperar, fazer as coisas como sempre fiz, e com o têmpo esperar o plano de Deus se acertar, ver as coisas se encaminhar, e fazer o bêm, olhar para os meus, e esperar por aquilo que desconheço. Cabe a mim, apenas lembrar sem tristeza, mas com o amôr natimorto, amôr esse que foi todo guardado para você. E estará.
Deixo os meus discos falarem por mim, e as músicas sonarem por mim, as pessoas próximas agirem, nos Céus deixo o meu sentimento, e para os que cingirem meu rosto, não verão minhas lágrimas, e nem meu riso, me verão como sempre viram. Minha alma ainda aboia em momentos do dia, e meus olhos transporão para as minhas mãos os sentidos de ver a alma de cada um, e quando eu deitar minha cabeça na campa fria, sentirei em mim todos os sentidos do mundo, sem medo de saber o que há por vir, ter, ou fazer. Quando a vida estiver pronta, arrumarei minhas malas e pegarei o primeiro trem para as terras da Correntina, e lá, haverá um aboio para fazer, uma maia pra deitar, um gai pra acender. Em algum lugar, o seu sorriso ainda será o meu maior prazer, mas em algum lugar, sentirei sua falta mais do que agora.