domingo, 10 de novembro de 2024

I Don't Owe You Anything.

 Sinceramente, ao ver seu corpo lânguido e frio, quando deitado, tentei de alguma forma aquecê-lo, mas suas mãos estavam ocupadas em pegar o último cigarro para fazê-lo virar fumaça... Haviam umas garrafas na pia, outras no quarto, e roupas espalhadas pelo chão. 
Os olhos se desencontraram, dando-se um desarranjo, como se algo fosse prenunciado. Uma voz rompia a noite com gritos trovejosos, como se não se importassem com a noite que fazia ou de lá, quem a perto se dormia. Houve dedos, houve lágrimas, e palavras que quero acreditar que foram ditas por conta de um torpor de álcool, e por motivos que não fazem sentido algum. E no calor do palavrão, mandou embora; e foi. Na corrida pra casa, viu o Sol nascer, e no trajeto, olhou para o azul que corria o Céu moldurado pelos prédios acinzentados, e tão triste, deixou uma lágrima teimosa cair.
Ainda sem reconhecer a casa, deitou-se e deixou o corpo apenas fazer todos os processos de descanso, fermentação, relaxamento e preparou-se para o dia seguinte. Deitou uma água no filtro, organizou os livros e olhou o Céu.
Estranhamente, o Céu estava ensolarado, como se fôsse lá um domingo para tomar sorvete, ou estender as roupas que se acaminham da máquina de lavar; e riscando o Céu com os olhos, riu. Sabe se lá de um amanhã maior e melhor, mas ainda com tanta dôr no canto do peito, jorrou lá um riso, como se fôsse o único a dar de ofertório para agradecer a vida, a casa, os amigos, as coisas, as casas, as ladeiras, as memórias, e ela.
Se arrumou e saiu, não porque queria algo, mas para lavar a alma - a velha missa, os amigos do claustro, as cervejas baratas nos botecos, e a música que ainda impera nos ouvidos... e ai de mim por pensar nisso mais que uma vez. Parou, olhou para seu reflexo no espelho e viu um homem que rudemente conhece e ama, mas que ainda admira por ser quem é, e como se pudesse, na ausência de quem o acolhesse, tomou a si nos braços e o fez descansar. 
E deixou guardado as palavras, não por nada, mas por saber que o alcool quando faz a bôca abrir, faz também um coração sangrar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Memorial de Tio Fungo.

 Hoje - exatamente as 22:15h - far-se-ão cinco annos da partida de Tio Fungo.
Tio Fungo não era ninguém, e por essa sorte tão magna, ele conseguiu ser tudo em uma omnipresença tão lancinante, que rasgava os soberbos, amansava os coléricos, guardava os amostrados, e alegrava os tristes. Tio Fungo, tio meu por parte paterna, era talvez o parente mais próximo (salvo meu avô) que me assemelhava e remetia meu pai: tinha fala mansa, mas sabia atrovejar a voz quando necessário; campesino, não saía de seu quintal da casa/chácara em Guayanazes, e quase sempre me convidava para tomar garapa de cana em seu engenho. Não tinha o olho esquerdo, após salvar a esposa de um incêndio, que me lhe custou esta quista visão - que há de se convir, era ainda mui atenta.
Tio Fungo, atento aos sinaes do têmpo, soube se atualizar e conversava sobre temas modernos sem ter medo de suas raízes tão conservadores. Era forte, mas manso. Suas mãos calejadas pelo manêjo de instrumentos pesados em seu quintal demonstrava isso; aos fins de semana, sempre se ajeitava para vender limão e especiarias na fêira. E era feliz, com o básico que veramente lhe pertencia e lhe guardava de todo o pensamento vão.
Êle também, muitas vezes queria aprender novas cousas, das quaes me orgulho de ter ensinado algumas, e com êle pude também aprender cousas na qual meu pai - livre de julgamento - não pôde fazer por mim. Fazer a barba, quebrar uma garrafa, olhar nos olhos e controlar a raiva, fazer valer sua palavra, e ter a verdade em tudo para não ser para-raio de mentira (sic). Os toques das galinhas, as plantações, colheitas e douração, tudo isso foi oriundo dele... e a ele devo meu tributo.
Era um dos maiores tocadores de viola, e sempre se orgulhava em dizer que já tocou com Tião Carreiro - mesmo que isso carecesse muito de fontes. E sorria, com seus poucos dentes, e ora mascava o fumo de corda que era visível no canto esquerdo da bochecha, ou estava com seu cachimbo caboclinho fazendo uma fumaça enquanto arrancava cachos de banana...  
Foi o primeiro a me ver com corte de cabelo moecano na juventude turbulenta, o último a me consolar na partida de meu pai e um dos primeiros a me apoiar quando entrei - e saí - da vida religiosa. Foi quem rodava peões de madeira comigo e me ensinou a afinar a viola em cebolão em Mi. Meu primeiro porre de pinga queimada foi com ele, e quando pensei no fim, foi quem me ajudou a olhar o começo. 
Em 2019, Tio Fungo no auge de seus 90 anos foi achado (profeticamente, cabe dizer) ido no seu amado quintal, quando seu coração, que de tão grande era, quis se acochar mais um pouco e crescer, deixando assim seu ar rarefeito e cálido. Nos dias seguintes, sua chácara foi vendida, e por não ter filhos, perdeu-se o rincão para seu irmão mais nôvo, que ao passo da modernidade, hôje possui cabêças-de-pôrco de aluguel. E a vida seguiu, mas alguma coisa naquele dia parou e se manteve com Tio...
...e por sua memória, seu legado, e sua vida - tão humilde, simples, pacata e grandiosa, lhe pago este tributo na condição de escriba dos tempos, inclusive os meus do qual tenho tanto amor e afã, Tio Fungo! - άξιος! 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

The Sweetest Taboo.

Eu sei que não deveria, mas fiz o que foi melhor; mesmo que me arrependa. Não me rendi aquilo que a cabeça pensa e ao coração padece, mas sim fui contra o encontro de um sentido, e sim, é possível. 
Desci a rua e olhando de lado, esvaneci a fuligem do tabaco moído com a dos lixos na rua; por mais um tanto andei, e ao ver as garôas diferentes, voltei a ser o garôto que trabalhando, se escondia da chuva na marquise dos prédios.
Vi as elegantes damas deslizando com seus saltos, e homens polidos parecerem cachorros molhados; quanto a mim apenas desci a grã avenida com meu matulo cheio de pesos, e na minha cabeça cacofoniavam as idéias que sempre fui deixando para depois - planos, pensamentos, quereres, e tantos sentimentos que foram calados para manter o "bem-estar comum"; esquecem os sábios de nos dizer que quando nós tomamos o jugo da vida, não podemos titubear na dúvida, e tampouco entender ou contestar preço algum; pois, fazer renascer o tal ímpeto famoso guerreiro pelejador de contendas é renegar todo o castelo que se constrói meticulosamente e cuidadosamente. Nos é permitido viver em paz, mas nos foi dado também a opção de viver em guerra pela parte da verdade; e dado a saber o caminho que escolhemos, logo vemos aonde dá o fim de nossa estrada: ou o esgotamento, ou a morte.
Se da Dulcinéa não toco e não sonho e tampouco cogito, não foi por motivos de ter matados as bôrbolêtas dos aires e campas que tangiam-me, mas sim porque não sei mais caminhar passos alternados e ser fidalgo de pesos díspares. Quero o igual para dois numa medida posta em justo. 
De verdade, não tenho tempo em dedicar legislações a falsos tipos de sons, e tampouco a ver o reflexo que só eu enxergo; não se há tempo para super-heróis e trampolins fantásticos de mundos felizes de tardes de iôga com incensos e azuis, e erros que se perdoam com um xamã asteca certificado por um monge nepalês que mora na Rua da Glória e se chama Jaime - muito pelo contrário; prezo pela homogeneização, desde que coerente e sincera, que pela sua vivacidade, ela se faz entender; ou como diria Tio Fungo (de dôce memória): "Calma, ela não é japonesa, a mãe dela que morava no Ceará".
Quando, exposto ao painel de facas e lancetes, olho cada lâmina e sua textura e afiação, e sabendo de seus tângeres, nada ouso em dizer ou pensar, pois, apenas sorrio e me atiro contra a que me lancina menos pois assim sei que aguento a próxima escara no dia seguinte; e deixo, a derradeira, para o último embate - seja por motivo de glória, ou por fim-de-fêira.
Mantenho - ainda sim - os sonhos e sons em mim, pois deles ninguém me tira ou supressa. E se me ostenta a mão vazia, é porque os guardei em meu peito, de forma que o inimigo, ojerizado pelo meu silêncio, mantém-se altivo e jocôzo, mas sabe lá ele que seu fim é iminente, e eu, como assim o faço, apenas mantenho-me descendo a rua em movimento, e colocando mais fôgo em meu cachimbo, incenso tudo aquilo que dispersa-se de mim. Porque hoje abro mão de tudo o que se emana e orbita no espaço de três braços, menos de mim; a chuva não para, e dessa vez eu não paro porque eu não ouvi a resposta...

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Waterfall.

Ele me disse que um bom pastor, pastoreia suas ovelhas em um silêncio. Se você quiser ser um pastor aos moldes de Hermas - me disse, olhando para o vazio - apenas faça da mesma maneira que vem fazendo. O não-reconhecimento é a maior riqueza e glorificação; e de fato concordei; Suas palavras me atingiram com a tenaz em brasa de Isaías e sem titubear entendi que ali havia mais do que o que sempre conversamos e prontamente me recolhi ao silêncio: subitamente entendi que a vida aconteceu ali, e finalmente fui contemplado com o milagre diário da simplicidade, da qual poucos de nós temos a parca capacidade de entender.
Porque quando me vejo assim - perdido diante da movimentação descompassada de meu coração - sinto-me perdido e confuso sobre minhas atitudes e pensares que me magoam ao exigir o melhor de mim para eles; mas nunca para mim, e neste momento é que gostaria de me enroscar no seu cabelo de cheiro de uva como parreiras frescas que descem sem saber porque - mas mantidas em um verticalismo que inerte, provém toda a força; quando atrelados e contar meus medos, delírios, raivas, segredos e sacras no sopé do seu ouvido (mesmo sem o merecer). E morrer nos seus braços olhando seu rosto e ouvindo sua voz me pareceria a melhor maneira de conhecer as Excelsas Nuvens. Me esconder na barra da sua saia como uma criança que tem medo da ira da natureza como o trovão rugindo lá fora, e sentindo o perfume dócil de sua voz, poderia me esquecer de mim para que você m'o cuidasse, com correia, candeia, auxílio, luz e socorro. Ter sua presença por inteiro, e de inteiro a inteiro, por mais um dia com você para menos um dia sem você.
Diz São Paulo o Apóstolo que "quando se é um menino, fala-se como menino; sente-se como menino; e vive-se como menino". Ora, mas no Getsêmani das palavras, aonde inequívocamente elas não pedem licença para nascer, e brotam das têmporas e das velas içadas das mentes que padecem, logo (ei-lo), desemboca da bôca um gôsto amargo dado a profundidade do que se sente no âmago da alma e não se promulga a dar como dôr-de-pêito: o parto do vômito de tôdo um desaguar da vida jogada como caxangá, e lágrimas tão quentes que eiam a queimar e ruborizar a pele, cujas mãos preteridas ao cargo não secam, apenas queimam-se juntas, dissonando naquilo que enfim não tarda a chegar e tampouco a acontecer. É sim, de fato, a violenta força da alma silenciada, abnegada, e furtivamente isolada, filha do ocaso guardada no seu jardim secreto, tendo dentro de si o tudo - o nada. Apenas esperando a ser veramente querida e veramente amada; e deixando de ser a nascente, receber-se enfim, como foz.
Logo, enquão escrevo essas linhas eu me pego pensando no meu passado, e disso pouco me orgulho, e menos ainda me honrando irei a ficar; pois parafraseando o dito Santo "não fiz tôdo o bêm que gostaria, mas o mal que não quis ocasionar, êste o fiz com demasia." Logo, entendo do muito de meus erros, e o pouco de meus acertos no enfim desejo que sempre tive, o dito "viver". 
Entre becos, vielas, estradas, vilas, conventos, casas, ocupações, apartamentos, casernas, moradas, grutas, planíces e desertos, eu fui - e antes que digam de mim, eu sei de mim e das coisas de meu coração (por mais que não as compreenda por completo); e dos lugares que fui, deixei-me num tanto, e levei outros como fiança, e assim, aprendi da vida, e aprendi de mim. Amei os outros, cuidei dos que pude, perdoei como deveria, e peço ainda hoje perdão pela pilha titânica e magna de erros que deixei no caminho.
Se fui quem acho que fui, é longe de mim uma graça Divina ou consôlo pois muitos foram os meus dolos contra mim e os meus. Mas se me atinge a graça Divina e o consôlo da Dôce Virgem Mãe das Candeias, nunca haveria de ser por merecimento meu, mas sim por misericórdia d'Ele; e assim eu me permaneço. Pois tudo o que tenho, tive e terei, todas as coisas nunca haveriam de ser minhas, mas sim tudo foi, é e há de Ser d'Ele. E o que escrevo nisto deixa cair por terra quaisquer outras dúvidas, está completo.
Posto em uma encruzilhada, olho aos pontos cardeais e nada acho, a não ser possibilidades, sem mensageiros que possam me apitar em qual dos cardeais seguir, e se sigo, mantenho-me sobre a tutela de Padre Deus, e espero de mim o mínimo para viver: não ser um babaca.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Ой, мороз, мороз.

Sinto que vens de algum lugar. Percebo que tomas a sua forma antiga - porém cada vez mais atual - e não tarde a vir; logo, espero você e me lembro de tudo o que aconteceu antes de você chegar. Lembro-me sistematicamente do versículo que dizia: Eis que vem, cavalgando como um general em batalha... e não sei até hoje precisar de onde vens ou como vens, mas sinto. Teus sons, formas e côres não me enganam, e eu sei que eles, enfim, me seduzem de certa forma e me inteiram para ser completo, logo quando me encontro num total estado de destruição, destituição, ou desilusão. 
És forte, e mais forte és do que todas as outras.
Se vens então, venha logo. E inunda lá tu a casa, toma a carreira como que de um cometa e invade a cozinha, passa pela área de serviço, a bica, bacia, banheira, e deságua violentamente. Como uma água corrente, vadia, que desaba dos montes apenas para poder ser em êxtase e maestria, fazer ser aquilo que ninguém mais faz, ou é. Aquilo que se cabe. 
Tenho pressa de abraços, de cafunés, e do licor contido no braço. Tenho uma ligeira e corriqueira vontade de ver e viver a vida, entendendo e saboreando os bons gostos que me permeiam e me fazem (ainda) bendizer aquilo que me cabe. O vento frio que bate no rosto e bagunça o cabelo e arma a barba, e que ainda trás dentro do seu bojo um refresco de vida aos pulmões outrora rasgados, mas voltimeia tão vivos, tão safos, tão ansiosos pelo porvir...
E não esquece de mim como esquece o tempo de seus percalços, tampouco das coisas que ficam pra depois, e num bolsão de espaço se guardam. Tenta - ao máximo, vão e vil contexto daquilo que cabe lá na mente humana - lembrar de mim com uma singeleza, o beijo no rosto que se dá antes de sair pra vida, cair no mundo, e ver o  Céu mudar de côr. Recorda-se assim, de mim como cousa alguma que se esforça, se estreita, comprime e benfaz, mas ainda sim não se comprime a ponto de se deitar em uma resma digital de escrever. 
Se me caibo numa linha, me acabo em um texto, e tampouco morro num catraco, mas renasço num cansaço que nunca morre.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Festa.

 Se me encontro só, por fatalidade ou coisa do destino, cabe a mim lembrar de teus cabelos negros, tuas mãos e olhar lânguido. Assim, talvez, ameniza em mim aquilo que grita e arde no peito com tenaz de sangue, que afoba meus passos mediante o quão caminho, e que qual estando só me confunde, mas ao passar na rua da qual andamos, ou no sorriso e piadas que confidenciamos, retorna a mim com um carinho e sorte de ser novamente confortante.
E, eu ainda uso botas. E sigo até hoje sem chulé; incrivelmente.
Passei outro dia na frente daquele bar que te levei uma vez na São Bento; nos fins dos dias, aquela mesa aonde sentávamos para beber e poder sorrir diante de uma vida tão pesada ainda está lá, e largava sua bolsa ao canto, e seus cabelos negros seriam então arrumados olhando pelo reflexo do espelho do banheiro sempre fedido a urina e cocaína. Será então dito em gestos o que não se diz em palavras e nem tampouco em textos pífios como esse. É algo que não tem censura, credo ou classe - transcende, excede e esconde. Andaríamos e cruzaríamos as ruas, faríamos o triângulo e veríamos o Rei do Matte; e se te interessa saber, aquela rua ainda está lá. Aquela mesma.
Há um riso tímido em sua face, da qual nunca me esqueço que também me arranca um riso tímido tôda vez que lembro ou sequer fiz questão de esquecer. Lembro de dias a fio, com pensamentos a fio, enquanto discorro um diálogo com os fios de nylon de meu violão. E é inútil resistir, e dado a essa resistência tão fútil, apenas me pego esgarçando a madeira e elevando acordes que nem sei mais o nome para guardar parte de mim no momento. Incenso o passado, perdôo o presente, e anseio o futuro na festa do lugar. Lembro de você de vestido. E de irmos a Liberdade.
Ao ver a paisagem que gostávamos - da qual onde hoje moro - do ônibus que pegava para ir para casa (cujo ponto mudou, aliás), dos sebos e caminhos que lhe mostrei, apenas nada digo. Mantenho em mim uma velha chama crepitante que usa-se de esperança que em algum lugar tudo isso ainda existe, se mantém forte e vívido. Aquela boina minha, a Cookie mordeu, e os meus discos ainda existem. O Walter ainda toca nas festas e o Pery ainda é DJ de mão cheia. Minha barba cresceu, e de repente todo mundo cresceu, mudou, evoluiu.
Ainda ando falando com pessoas que não sabem o meu nome, e se quer saber aquela esperança teimosa minha ainda nasce e morre todo dia, como se fôsse uma febre incurável de otimismo que soterro tôdo santo dia por camadas de humor negro e questões duvidosas. Hoje me vejo homem, com insônia e cansaço. Mas que ainda escreve de forma trincada para apenas (me) lembrar de coisas que a ninguém diz respeito; mais uma vez te pondo no meu rincão de memórias, sem saber se vez ou outra ainda faço parte do seu conjunto de lembranças...
A vida, maravilhosamente, continua. 

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Pelas Ruas do Mundo.

 Ao passo de dez (ou onze?) anos atrás, lhes escrevi uma máxima aqui neste bRog, da qual ainda uso em temporãs: "Mundo Maravilhoso, Lindas Pessoas - essa é a vida", de qual era trecho de uma música minha.
Bem, é só pra dizer que essa máxima ainda vale. Vale muito. 
Ainda é atual destacar e acreditar em cada parte boa de cada ser, e ainda sim fomentar a quem não instiga em si a parte boa e misericordiosa fazê-la render e fermentar. Sabemos lá que o mundo vem-se-ter em pé de crueldade e desigualdade, minguando em tristêza e desânimo. Mas, se colocamos o nosso arado amarrado a uma estrêla, temos como acreditar. Crer, sim - não há palavra mais própria para o contexto - no melhor. Seja lá pela vida, pela esperança, pelo amôr, pela fé, pelo amanhecer... em algo reside a bondade e nela toda fôrça que ousa ir contra se disspia e se transforma; como disse Paulinho da Viola: Tudo se transformou.
Pois, se lhes escrevo de esperança, é porque justamente a minha morreu e se refez em algo nôvo. E digo isso com a minha fé e humanidade exposta tal qual (não só) como um escriba, mas tanto como um ser humano normal e comum, que ao ver o Sol nascer e a Noite cair, entende que há coisas maiores e mais grãs que regem e imperam. Antes, haveria de ser mais um dia e menos um dia, e agora, faz-se o mesmo, mas com outro significado, trazendo em si a esperança de melhoria, e a fé que se aflora, desbota e germina em solo para que outros possam também crer - ora, pois se este bRog é de viés escribário, e conta de visão imparcial com exceção para Deus e Sua Igreja, nada além disso deveria de ser. Aprendo, pois, a mesma lição que nunca aprendi: Tudo tem sua hora, seu tempo e sua vez.
Enquanto discorro essas letras, jorram de meu peito a preocupação, o mêdo, a aflicção, e o cansaço do passo mantido (como vos digo, 'inda sou o mesmo), mas ainda sim me dá a nova e certeira direção da crença em algo maior e melhor do que o presente nebuloso; como rezamos na missa latina spero in Deo para que as bonanças cheguem, e assim me volte o sorriso em definitivo ao rosto, e estando em paz comigo e com os meus, verei novamente os Céus turvarem e as lindas garôtas sorrirem. Logo, ao chegar nesta fase, sei que os dias tristes foram a minguar, e as coisas belas, simples virão a mim de alguma forma, de alguma maneira, e eu, serei o mesmo, só que com sorte, mais vivo, vívido e feliz.
E qualquer coisa além disso, será superfulo. E qualquer coisa além disso sera desrespeitoso, e que seja sempre a felicidade por felicidade, e não por ter preço ou tábula marcadora de preço, tampouco algo que nos impeça por valôr e alíquota. Veremos, eu e os meus (e você também, se quiser) as alegrias de sábado, a cerveja no copo, o cheiro de rango, e as pessoas sorrindo como a festa da vida sempre nos presenteia quando nos cerceamos de coisas belas, interessantes, densas e profundas de sentimento e verdade. 
E eu, estando lá, espero te ver. Como um pôr do Sol no alto da serra, e uma alegria sem fim.

quinta-feira, 14 de março de 2024

Ode a Seo Fabio.

Meu avô - aqui descrito como Seo Fabio, Fabivs Magnvs, ou Fabião - faleceu na segunda-feira (11/03). Descansou, após duras e tortuosas moléstias e tristezas. Finalmente pode enfim repousar e estar em paz consigo e com os seus. Encontrou com Jorge e Dona Lourdes e foi dar um beijo em Dona Maria, e com sorte foi também jogar bola com Fabinho. Fez a paz ser pacífica veramente, e debochou de todos os instantes sem nunca perder o senso de humor negro que habitava em sua alma. 
Em algum lugar do universo, está ouvindo Moreira da Silva tranquilamente e rindo de nós que ficamos aqui esperando algo...
Seo Fabio era maior porque soube ser menor e safo perante a vida e, apesar de ateu praticante tinha um São Jorge na sua oficina, e mantinha a sua vida pautada em valôres morais que nos ensinaram as avós antes das avós. Filho de pai militar que morreu cedo no Mato Grosso de tuberculose, criado pela mãe, desde cedo viu as casas com cercas de bambu, banhos de rio, igrejas ao domingo e a baguete filão embrulhada em papéis que depois usava para desenhar. Das bolas de meia com travessões de bambu. Da rua que cruzava a linha de trem.
Meu avô é atemporal, fora do tempo, do espaço, e das situações. Viveu os anos 70 nos anos 50, Viveu os anos 90 nos anos 00, viveu a vida com uma sabedoria que transitava no tempo e espaço - como fôsse lá desses sábios que apenas sabem viver, e que seu exemplo perpetua aos olhos, sonhos, sombras e formas. Em cada resquício, deixou um pouco de si nas músicas, nas ferramentas, nas cervejas, nos caminhos, nas bicicletas, e principalmente nas suas camisas do Corinthians e discos de vinil.
Da infância pobre, da luta efêmera pela liberdade, da doença da mãe, dos cigarros e cachaças, dos sorrisos e flertes com a patrícia aportuguêzada mais velha que trabalhava na GE, dos sorrisos, do casamento, das casas e mudanças, dos quatro filhos, e mais além sete bisnetos. Da tuberculose e parada com o cigarro. Do sujinho e teatro Record. Da Av. São João e os chopps da Brahma. Da tristeza tocante em ver o Corinthians se declinar e cair fulgurosamente como sempre faz, e de lembrar de passados com a camisa alvinegra. De ir ao enterro do Neco. De trabalhar vinte e sete anos na mesma empresa e saber que você cimentou aquilo.
Na verdade, faz falta, faz uma falta imensa. Do tamanho de Deus.
Por mais que eu estivesse ausente fisicamente de meu avô, nunca esqueci das coisas que me ensinou e me fez saber pela vida: como beber, o que falar, quando falar, onde realmente mora a prudência, como se afiam ferramentas, e principalmente: Quando saber parar. Das muitas questões que fiz ao meu avô, nenhuma ele me deixou sem resposta, por isso digo que fui mui afortunado e tê-lo em minha vida, e que a vida agora funciona menos dolorosa porque os calos e varizes de meu avô me ajudaram a ter varizes e queimaduras de ferro-de-solda em minha mão.
Eis, pois, a vida.
Sei que meu avô me passou seu legado em ouvir Renato e Seus Blue Caps, em tomar Run Montilla com coca-cola, Nat King Cole e Perez Prado, em ser corinthiano, em sempre ir ao inverso do que a unanimidade dizia, em debochar de toda situação, e principalmente, a se segurar porque "no final eu tenho que acordar cedo pra fazer alguma coisa, e se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim." (sic)
Sei, então, de n coisas (agora adulto) que meu avô me protegeu então na mocidade, e entendo mais uma vez um dito que um frade meu dizia: "O santo, o herói e o legado só aparecem depois de môrto". Uma triste e pungente verdade. Mas a mim, os meus quatro quarteirões, e das coisas que eu penso e sei, reconheço a maior grande de um homem quando o vejo - e que honra quando ele faz parte de minha vida e carrego 12,5% de sangue dele. A sua matéria se consome, mas ele continua inteiro e íntegro, não foi lhe imputado cousa alguma pois em seu tenaz ser possui tôda a honra e glória dos louros da vida - mãe maior da existência, a qual nenhum dos  juízes pode julgar, nenhum dos advogados defender, e nenhum dos militares guardar. A sua dívida - que está ao pé de zero, foi paga. E com isso, atinge o panteão dos heróis, que suas mãos não possuem mais calos e deformidades, aonde seu cabelo está novamente empastado com brilhantina, e suas pernas não possuem mais varizes. Está agora, na Rua Jacú, com seus quatro filhos, se preparando para ao sair da missa ir no campo da NIFE jogar uma bola e depois tomar uma. Passar no açougue do Seo Antônio, e ver a família melhorando.

Para você, meu avô, dou não só a direção dos meus pensamentos, mas o melhor de minha vida. Obrigado por muito e por tanto, e que mesmo que escrevesse tudo aqui, ainda existe aquilo em espaço-estreito-de-navio que cabe somente entre eu e tu. Obrigado pela sua existência.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Operator.

 O amôr, em suas três divisões, por ora pode ser demasiadamente lindo. Mas pode ser lancinante e cruel. Lembro quando olho para trás todos os sonhos que constitui e construí - alguns com rapidez, outros com cautela, e outros de qualquer jeito. E a sensação amarga do recomeço sempre me incomodou.
O amôr as vezes pode ser muito explicado, mas, quando torna-se frugal, torna-se melhor. E quando torna-se belo, deve-se ter cautela.  
Sei, também, que o amôr costuma ser vivaz com quem o sente, e que não se baseia apenas nas pernas grossas e olhos acastanhados das moças, mas no vento sagaz, na beleza das luzes do centro, dos cafunés nos Santos Cães da Rua, na feijoada na cumbuca de barro, o litrão na mesa de plástico e uma alegria de fim de festa...
Uma fumaça do cachimbo voando solitária pela noite, que por vezes no fornilho faz as vezes de lampião.
Talvez, há  uma grande chance do amôr nunca ser nada do que se quer, mas sim do que se precisa, mas, até no precisar deve existir um querer - seja de ordem de grandeza, ou da grandeza. Se ela usa salto ou all-star, se sorri ou franze a testa, se grita ou geme, se fala ou sente; que mal faz? É amôr, dentro do sacrário do peito d'ela reside parte de mim, e parte d'ela carrego atado a mim. E ao porto, digo não. Acosto, acocho e me atraco a marina de seu porto, fazendo-me saber de dela, e que ela se saiba de mim.
Haverão dias escuros e noites claras. Medos e incertezas, raivas abruptas e carinhos sem fim. Sei disso, é o mesmo esquema de maneiras diferentes em cenários iguais, mas, não compete a mim fazer toda a vez ser a última vez? Disse um velho senhor que conheci no passado que o "verdadeiro amôr, é o último amôr" (sic). Eu não discordo em parte, mas sei que não é apenas isso. Só o que excede, transgressa, urge e faz ser visto é notável e deliberadamente tangível no alto do ser.
E do resto? Que lá sei.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Last Summer Whisper.

 Este poderia ser o dia de nossas vidas.
Mas você tem o direito de transformar em algo comum... e não serei eu que tomarei a dianteira; a mim, basta o caminho. 
Dou o meu sorriso na graça do dia e do que o envolve, com todos os seus sins e nãos, com suas vontades e nuances, por isso sei que não posso pedir algo de direito a escolha. Se quiser, é o benfeito, e sem bem fazes, bem terá. Talvez não entenda, mas só quem toma as decisões diárias sabe como pode ser penoso e doloroso ter que escolher para outrém. Cabe, talvez, um consenso; mas não o direito de derrubar contra a outra pessoa um querer ou um gostar forçado.
Você pode mandar uma mensagem, você pode abrir uma cerveja, você pode sentir o vento mexer nos seus cabelos -  tudo isso faz parte de um momento e de uma síncope da vida, de perfeição tão bela que até nos atordoa. O que queres fazer, bem o podes; desde que estejas preparada para a consequência ou para o desfecho de suas ações. O que fizerdes, faça bem feito, pois o retorno há de ser bem feito para você também. E isso é o básico da sentença.
Fazer as coisas com carinho e afeto, mesmo que cotidianamente, nos alegram, mesmo que não parecendo. O que nos vale desse caminho a seguir, é como o fazemos, e se não ferimos quem está ao nosso redor pelas nossas atitudes e dizeres.

O que vale, é que este poderia ser o dia de nossas vidas, mas para você não é nem dia, e nem vida.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Up The Junction.

 Dizem, os sábios, que o amor é loucura.
Das mais atrozes, que dilacera e faz os sentidos se tornarem ridículos. 
Crendo nisso, logo me entendi enquão amante - seja da vida, da nostalgia, do tempo e do têmpo antes do tempo (importante dizer) e etc. Sou apaixonado por n coisas que me fazem gemer em ais e perder o fôlego das razões. Logo, se sou assim, desconheço e ojerizo o amôr em face de ser racional. Não existe. Amôr que pensa é lógico, e assim, não existe o imediatismo, a ensandecida vontade de demonstrar o sentimento para quem se ama ou para o mundo em geral - logo, o amôr enquanto racionalidade, é uma falha grave e alcova de pessoas que usam as outras. Caso encontre um ser desses, fuja para longe e peça a Deus que esse ser tenha um belo caminhar.
Pessoas que racionalizam o amôr na verdade tem uma grande falha em se entregar, e por isso acham que calcular a rota e racionalizar aquilo que apenas se sente vai mudar algo... e o que muda na verdade é como nós as vemos: de pessoas incríveis, para bichos. Rasteiros. De coração frio, estômago baixo e olhos acobertados. 
E eu, pessoa pequena de pensamentos e habilidades, creio que o desespero que emprega no amôr é o que rege, evolui e demonstra violentamente o mesmo; que aliás também reside nos cuidados silenciosos, nos pratos favoritos feitos, nos abraços em horas de dor, das noites de bebedeiras, e dos carinhos velados somente para a madrugada afã e perfeita. O amôr, como mãe que possui e provém todas as habilidades, logo se mostra prolífero de cuidados, quereres e coisas boas. Sem esse amor, a vida não posssui ter ou querer.
É como trabalhar com o que não se gosta, e ao sair do labor encontar livre e desimpedido aquilo que te rege como grã alegria e motivação - e sim, eu sei, e Deus sabe que eu sei que existe a alegria oculta, que nem todos os nomes são capazes de dizer, nem todos os pensares são capazes de elaborar e nem todo nome é capaz de lograr. 
Aliás, o meu é uma Antarctica. Gelada. 
Geladinha. De trincar.
Meu Santo Antônio, com uma dessa eu danço até com os Santos Cães da Rua!
E, enfim, me ponho a pensar, no que ouvi hoje sobre os amôres e os gostares, e percebo que as pessoas mudam os cenários, as faces, as fases, as ruas, mas a grã maioria dos seres humanos ainda tem o mesmo problema (possivelmente de fábrica): Eles não sabem - e talvez nunca vão saber - amar. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Silence Is Easy.

Dizia para mim um velho senhor, de hábito preto e olhos fechados enquanto esfregava suas mãos para esquentá-las: "Se te arrancam um pedaço, menino - segue."
Ah, a sabedoria dos mais velhos, quão fulgurosa é! 
Por mais que doa, por mais que aflige... por mais que pareça que não há o que ter depois do não-ter. Há quem busca, e há quem o tem. Vida é troca, e nem todas são de fato justas ou iguais - porquanto, sei que há muitas mãos que nunca deveríamos soltar e tampouco sei das mãos futuras que tocarão a minha quando a cingir no Aqueronte da vida. 
Só sei de mim, dos meus versos, de minha viola, e do sorriso daquela mulher que com a fumaça que sai da boca, me faz sentir melhor - mais vivo, mais inteiro. No demais, sei das desaprovações, dos erros, da peste, da morte, e daquilo que se oculta a cada passo; da infindável e formosa verdade, nunca pude a ter, apenas ouvi falar, e dizem-me os sábios que ela é boa. Que ela é linda. Que é a matrona de todas as bonanças. Sei também que as ruas estão mais policiadas e de alguma maneira não há mais tantos irmãos de rua aonde moro - parece estranho, mas é a pura verdade.
Pelo visto, ao contrário de tantos sábios e heróis, percebo que até a verdade tem lá seus níveis e formas; coisas que predestinam ou prenunciam guerras, ou apenas um sim ou não. E em um silêncio abrupto ao me dar conta disso, olho a janela, vejo o vento, penso em mim. Só sei de mim. Só sei dessa cidade que come e destroça sonhos e esperanças. E das mãos que toco - as seguro firmemente contra a minha - e não as quero soltar. Só sei de mim.
Não quero fumar. Agora não. Deixo-me esvanecer com o momento tão íntimo e particular. 
Ai de mim, se achasse que em algum tempo antes do tempo as coisas pudessem melhorar ou ter-se-lá alguma esperança, e se ouvissem como me presto a dignar os ouvidos a cada ouvir. Ai de mim, se vejo a vida como é, e não crio tanto caso; apenas tento fazer o que cabe dentro de mim como ser humano. Mas sei lá eu, que até a bondade tem preço, e que as represas se quebram. E lá eu, mantenho, aquilo que nem as paredes confesso, e em um espaço estreito de um navio, confio somente a mim; pois lá no fundo só (eu) sei de mim, e sei que algumas coisas não se competem a dividir, mesmo que pareçam terem ser feitas para tal situação.
Algumas vezes, o mais fácil a ser feito; é justamente a parte mais difícil de toda uma vida.