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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Escritos e Quaresma.

 Neste têmpo quaresmal, têm-se por costume (a quem pratica algum exercício quaresmal ou professa a fé cristã), de retrair-se e tornar-se mais alheio as situações, mas não a si. Período este em que a fé orbita não no dito sadismo católico em venerar a bárbarie fêita contra um Deus-Homem (Filho). De fato, não cabe aqui esta apologética, não por enquanto. Cabe sim, em tom de resumo, lembrar que tôda aquela dôr que por vêzes tentou-se mensurar em pinturas, esculturas, e afrescos fôi por uma questão de amôr, cariño, entrega, sacrifício. Um Deus que de tanto amôr pula na frênte da bala para nos salvar do tiro - this is an analogy, btw.

MAS, se para você isso ‘inda não faz sentido, outrora lhe explico. Este não é o intuito do escrevinhamento de hôje. O que quero lhe perguntar é: você já pensou na morte?

E quando eu lhe pergunto isso, quero lhe provocar em maneira espiritual, deixando a partir de agora até sempre que nunca há de ser meu intuito evangelizar, ou lhe trazer para o meu lado. Apenas quero lhe fazer exercitar a mente - eu prometo.

Ter a noção de finitude de uma vida, e ainda sim contando com o fator de incerteza do fim, nos causa um frio na barriga, ou até mesmo desperta um mecanismo mental de defêsa que beira a loucura que nos pede e demanda que vivamos de excesso em excesso, ‘té que não se haja mais o excessivo e excedente - cousa que por si só já adianta o processo de finitude. Mas, ao invés disso, por qual motivo não se apegar em uma religião, ou até mesmo estudar veramente uma filosofia de vida para que lhe seja leve? O peso não deve esmagar, mas sim tornar-se costume, pois se acostumando com o fim, não se é pego de surprêsa, tampouco sente-se que nada fez de útil durante a caminhada terrestre - os traços úteis, tornar-se-ão esquadros para as pessôas ao redor, ou aquelas que nem saberemos um dia que se inspiraram em nós; parece mentira, mas acontece e com mais frequência do que imaginamos.

Nos dias de solidão, meditar. Nos dias com companhia, conversar. Nas noites de insônia, relembrar, e na pressa do dia, esquecer - há quanto têmpo temos devotado em nossa vida cousa tão certeira e importante que é lembrar nosso fim, e nossas percepções sobre isso? Meditar sobre a morte, é aprender que a parte fundamental e intransferível, que não há de ser burlada, acontecerá; e ao suceder, devemos estar prontos: ou de consciência tranquila sabendo que nunca se foi um cuzão, ou que estamos em paz e ainda em paz iremos até o Criador.

Num acidente de carro, engasgado com o rango, reagindo a um assalto, sendo empurrado pela massa até a linha do trem… de alguma forma, sendo ela bôa ou má, heróica ou trágica, certa ou errônea, acontecerá. Deve-se então, que nossas atitudes perdurem após nossa ida; preferencialmente as bôas ou (re)conciliatórias - preferível aquele que pede por paz e misericórdia, do que aquele que se esvai em desavença com os outros e com si mesmo.

Eu, tento achar a minh’alegria pessoal diariamente, para assim poder fazer parte de uma alegria coletiva e abrangente no futuro. Seria mentiroso se lhe dissesse que consigo isso - até vos assumo até que fracasso muitas vezes, mais do que gostaria - mas ao aproveitar cada oportunidade do dia (com prudência) para ter uma bôa vida, e com o máximo de coisas em ordem. Colocar a cabeça no travesseiro e dormir de acordo com nossas atitudes, também é uma forma de zelar pela vida - a daqui e da futura. Ao menos assim, de alguma forma consigo me preparar para o fim, e sabendo que os traços que deixei para trás foram poucos, mas com esfôrço de que seriam sinceros e humanos - ajudar os que se podem, amar os que carecem, volver aos que perecem, ir contra o que oprime, e nunca por mim. O Amôr que conheci, é um amor que me leva as lágrimas - um Amôr que se consome e esgota, de copo, cruz e pedra fria - e se ele, como eterna Fênix de meus dias, nasce e morre tôdo dia em meu pêito, ele pede que eu O siga da maneira que der (mas com esmero), para que um dia, na festa do lugar, reveja eu os amigos idos, a Véa, Tio Fungo, Toninho da Rampa, Fabião, e tantos outros que hoje, com Êle sejam um. Espero que eu tenha provocado qualquer coisa em você, se sim, êste têxto cumpriu sua função.

Pois para mim (e espero que para você também), a Êle precede, permanece e excede tôda a Glória do sêm-fim.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Memorial de Tio Fungo.

 Hoje - exatamente as 22:15h - far-se-ão cinco annos da partida de Tio Fungo.
Tio Fungo não era ninguém, e por essa sorte tão magna, ele conseguiu ser tudo em uma omnipresença tão lancinante, que rasgava os soberbos, amansava os coléricos, guardava os amostrados, e alegrava os tristes. Tio Fungo, tio meu por parte paterna, era talvez o parente mais próximo (salvo meu avô) que me assemelhava e remetia meu pai: tinha fala mansa, mas sabia atrovejar a voz quando necessário; campesino, não saía de seu quintal da casa/chácara em Guayanazes, e quase sempre me convidava para tomar garapa de cana em seu engenho. Não tinha o olho esquerdo, após salvar a esposa de um incêndio, que me lhe custou esta quista visão - que há de se convir, era ainda mui atenta.
Tio Fungo, atento aos sinaes do têmpo, soube se atualizar e conversava sobre temas modernos sem ter medo de suas raízes tão conservadores. Era forte, mas manso. Suas mãos calejadas pelo manêjo de instrumentos pesados em seu quintal demonstrava isso; aos fins de semana, sempre se ajeitava para vender limão e especiarias na fêira. E era feliz, com o básico que veramente lhe pertencia e lhe guardava de todo o pensamento vão.
Êle também, muitas vezes queria aprender novas cousas, das quaes me orgulho de ter ensinado algumas, e com êle pude também aprender cousas na qual meu pai - livre de julgamento - não pôde fazer por mim. Fazer a barba, quebrar uma garrafa, olhar nos olhos e controlar a raiva, fazer valer sua palavra, e ter a verdade em tudo para não ser para-raio de mentira (sic). Os toques das galinhas, as plantações, colheitas e douração, tudo isso foi oriundo dele... e a ele devo meu tributo.
Era um dos maiores tocadores de viola, e sempre se orgulhava em dizer que já tocou com Tião Carreiro - mesmo que isso carecesse muito de fontes. E sorria, com seus poucos dentes, e ora mascava o fumo de corda que era visível no canto esquerdo da bochecha, ou estava com seu cachimbo caboclinho fazendo uma fumaça enquanto arrancava cachos de banana...  
Foi o primeiro a me ver com corte de cabelo moecano na juventude turbulenta, o último a me consolar na partida de meu pai e um dos primeiros a me apoiar quando entrei - e saí - da vida religiosa. Foi quem rodava peões de madeira comigo e me ensinou a afinar a viola em cebolão em Mi. Meu primeiro porre de pinga queimada foi com ele, e quando pensei no fim, foi quem me ajudou a olhar o começo. 
Em 2019, Tio Fungo no auge de seus 90 anos foi achado (profeticamente, cabe dizer) ido no seu amado quintal, quando seu coração, que de tão grande era, quis se acochar mais um pouco e crescer, deixando assim seu ar rarefeito e cálido. Nos dias seguintes, sua chácara foi vendida, e por não ter filhos, perdeu-se o rincão para seu irmão mais nôvo, que ao passo da modernidade, hôje possui cabêças-de-pôrco de aluguel. E a vida seguiu, mas alguma coisa naquele dia parou e se manteve com Tio...
...e por sua memória, seu legado, e sua vida - tão humilde, simples, pacata e grandiosa, lhe pago este tributo na condição de escriba dos tempos, inclusive os meus do qual tenho tanto amor e afã, Tio Fungo! - άξιος! 

quinta-feira, 14 de março de 2024

Ode a Seo Fabio.

Meu avô - aqui descrito como Seo Fabio, Fabivs Magnvs, ou Fabião - faleceu na segunda-feira (11/03). Descansou, após duras e tortuosas moléstias e tristezas. Finalmente pode enfim repousar e estar em paz consigo e com os seus. Encontrou com Jorge e Dona Lourdes e foi dar um beijo em Dona Maria, e com sorte foi também jogar bola com Fabinho. Fez a paz ser pacífica veramente, e debochou de todos os instantes sem nunca perder o senso de humor negro que habitava em sua alma. 
Em algum lugar do universo, está ouvindo Moreira da Silva tranquilamente e rindo de nós que ficamos aqui esperando algo...
Seo Fabio era maior porque soube ser menor e safo perante a vida e, apesar de ateu praticante tinha um São Jorge na sua oficina, e mantinha a sua vida pautada em valôres morais que nos ensinaram as avós antes das avós. Filho de pai militar que morreu cedo no Mato Grosso de tuberculose, criado pela mãe, desde cedo viu as casas com cercas de bambu, banhos de rio, igrejas ao domingo e a baguete filão embrulhada em papéis que depois usava para desenhar. Das bolas de meia com travessões de bambu. Da rua que cruzava a linha de trem.
Meu avô é atemporal, fora do tempo, do espaço, e das situações. Viveu os anos 70 nos anos 50, Viveu os anos 90 nos anos 00, viveu a vida com uma sabedoria que transitava no tempo e espaço - como fôsse lá desses sábios que apenas sabem viver, e que seu exemplo perpetua aos olhos, sonhos, sombras e formas. Em cada resquício, deixou um pouco de si nas músicas, nas ferramentas, nas cervejas, nos caminhos, nas bicicletas, e principalmente nas suas camisas do Corinthians e discos de vinil.
Da infância pobre, da luta efêmera pela liberdade, da doença da mãe, dos cigarros e cachaças, dos sorrisos e flertes com a patrícia aportuguêzada mais velha que trabalhava na GE, dos sorrisos, do casamento, das casas e mudanças, dos quatro filhos, e mais além sete bisnetos. Da tuberculose e parada com o cigarro. Do sujinho e teatro Record. Da Av. São João e os chopps da Brahma. Da tristeza tocante em ver o Corinthians se declinar e cair fulgurosamente como sempre faz, e de lembrar de passados com a camisa alvinegra. De ir ao enterro do Neco. De trabalhar vinte e sete anos na mesma empresa e saber que você cimentou aquilo.
Na verdade, faz falta, faz uma falta imensa. Do tamanho de Deus.
Por mais que eu estivesse ausente fisicamente de meu avô, nunca esqueci das coisas que me ensinou e me fez saber pela vida: como beber, o que falar, quando falar, onde realmente mora a prudência, como se afiam ferramentas, e principalmente: Quando saber parar. Das muitas questões que fiz ao meu avô, nenhuma ele me deixou sem resposta, por isso digo que fui mui afortunado e tê-lo em minha vida, e que a vida agora funciona menos dolorosa porque os calos e varizes de meu avô me ajudaram a ter varizes e queimaduras de ferro-de-solda em minha mão.
Eis, pois, a vida.
Sei que meu avô me passou seu legado em ouvir Renato e Seus Blue Caps, em tomar Run Montilla com coca-cola, Nat King Cole e Perez Prado, em ser corinthiano, em sempre ir ao inverso do que a unanimidade dizia, em debochar de toda situação, e principalmente, a se segurar porque "no final eu tenho que acordar cedo pra fazer alguma coisa, e se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim." (sic)
Sei, então, de n coisas (agora adulto) que meu avô me protegeu então na mocidade, e entendo mais uma vez um dito que um frade meu dizia: "O santo, o herói e o legado só aparecem depois de môrto". Uma triste e pungente verdade. Mas a mim, os meus quatro quarteirões, e das coisas que eu penso e sei, reconheço a maior grande de um homem quando o vejo - e que honra quando ele faz parte de minha vida e carrego 12,5% de sangue dele. A sua matéria se consome, mas ele continua inteiro e íntegro, não foi lhe imputado cousa alguma pois em seu tenaz ser possui tôda a honra e glória dos louros da vida - mãe maior da existência, a qual nenhum dos  juízes pode julgar, nenhum dos advogados defender, e nenhum dos militares guardar. A sua dívida - que está ao pé de zero, foi paga. E com isso, atinge o panteão dos heróis, que suas mãos não possuem mais calos e deformidades, aonde seu cabelo está novamente empastado com brilhantina, e suas pernas não possuem mais varizes. Está agora, na Rua Jacú, com seus quatro filhos, se preparando para ao sair da missa ir no campo da NIFE jogar uma bola e depois tomar uma. Passar no açougue do Seo Antônio, e ver a família melhorando.

Para você, meu avô, dou não só a direção dos meus pensamentos, mas o melhor de minha vida. Obrigado por muito e por tanto, e que mesmo que escrevesse tudo aqui, ainda existe aquilo em espaço-estreito-de-navio que cabe somente entre eu e tu. Obrigado pela sua existência.

domingo, 11 de junho de 2023

Ao Homem Môrto.

E tu, homem môrto;
Nada leva além dessa terra
a não ser o ódio de quem te ama,
e o perdão de quem não te conhece.

Teus livros na parede não serão lidos - talvez doados,
sua amada amará outro amor,
teus filhos te oraram em despêito,
afinal, és homem môrto, de terra contra carne bruta.

Abre tua alma,
e esquece as vezes que você desafinou,
e estranhamente lírico, és tu;
Sobrepujado entre os altos Céus,
uma voz para cantar.

E tu, homem môrto;
Tudo aprendeu nessa terra,
incluindo as festas e as arguras,
e o abraço que acalmava sua animosidade.

Seu carro será trocado,
suas roupas irão para a caridade,
teu dinheiro tão bem guardado será gasto braviamente,
afinal, és homem môrto, sem carteira ou pensão.

Mostra sua petição,
emane o que de bom você já presenciou,
ricamente humano, foi você;
Estando longe da condição humana,
consegue agora desatinar.

E tu, homem môrto;
Não precisa despertar pra trabalhar,
agora não importa o que deve ou ganha,
só te resta até o fim do juízo descansar.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

The Edge.

 Pau no seu cu, meu chapa!
E quero mais ainda que se foda seu cabelo translúcido e seus olhos fulgurosos, nós - modéstia a parte, os anjos, os santos, os mestres e os escribas - nós tamo é pouco é se fodendo é. A gente gosta mesmo de rir, brincar, sentir: e sem mão na bôca, a libertação está perto. A liberdade vêm, e cheira a crisântemos como um entronar de uma Amaterasu, ou como a morte no caixão de um cristão. Talvez você não entenda porque o pau no seu cu entrou até os seus tímpanos, por isso tu num lê. Toma meus olhos: A regra é clara, limpa, pura e simples.
Segura seu par, e beija forte. Se joga contra as ondas e deixa a água salgada do mar te iodar, e roda o mundo procurando sua paz. Faz carinho nos santos cães de rua, e abraça eles. Dá uma marmita ou uma grana aos Irmãos de Rua, e proclama um evangelho que no silêncio, perturba os anjos do Céu com seu tinar do coração, que bate mais forte que a voz do que prega imundamente.
Se você for bom, a bondade nunca sai de você, como um câncer benéfico - e de câncer eu entendo - e emaranhando tuas veias, pulsando em tua alma e rechaçando os seus sentidos mal-feitores, será tu exposto a clara luz que segue um comboio forte, que não lhe dará tristeza, e que ao quando sê tu exposto, se diminuirá, e assim, será dado como um dos nossos, e não dos deles. Não há de ser fácil, mas se lêes com o coração, recebeste o ouro que te dou, mas se caiu na armadilha trincada do escriba, tenho más notícias para dizer...
Ouve o baixo tocar. Pulsa. Ressona. Emana. Imanta. Ele dita as notas, contrapasso, repuxa e engrossa no cordão do refrão, e ele que te faz pular enquanto segura a amada pela cintura - aproveita e leva ela pra fora da pista e tomando um ar, diz pra ela as coisas do mundo, do amor, do Céu, de vocês, e de você, tão pequeno, e tão entregue a ela. Faz ela chegar ela perto, e mais perto, e mais perto. Ouve a sinfônica entrecoretante e inebriante que emana do coração pulsante dela, e eleia essa arrombada, meu mano! Beija ela! Celebra o amor, candango!
E VAI TOMAR NO CU RED PILL! Nós, da velha guarda, mantemos o bom coração e temos a rosa exposta no coração, e se não dá certo, só seguimos em frente. Saber lidar com o não, também faz parte do jôgo do amôr - A BENÇÃO, WAYNE FONTANA! Saber amar e ser amado não é difícil... Difícil deve de ser sua mãe e aguentar você falando merda gratuitamente; e dos meus livros de boa memória, te guardo no mais digno de sua corja: Os esquecidos. E portanto viva eu, peixinho da lagoa, Tio Fungo (de dôce memória) e a Repvblicæ Livre de Itaqvæera como berço de heróes que nunca serão esquecidos na lira dos trovadores e nas tabvlas dos bons escribas! Nós, os da boa vontade e de coração tenaz (que é longe de justo) ainda estamos por aí -  e vamos adiante até a perfeita hora da dôce morte!

E corre, falaram que tem post no blog do The Joker amanhã.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

MMXXII

 Mas gente do Céu, que aninho treta...

Este ano de fato foi o ano onde mais a porca franciscana torceu o rabo. Ao meu parecer, vi que esse ano não foi revelador, mas sim temerário, de grã vileza e de fôrça rude. Esse ano mostrou tanta coisa que, vemos face a face. 

(DISCLAIMER: Não venha até aqui com seus olhos positivistas tentar ler o que escrevo com alguma "aura" linkediniana. Aqui é mato - raw franciscan way of life, and such a well respected workin' class mate - e pretendo continuar assim por mais um tanto. Me vale a alegria de ser o que vivo e professo do quê viver uma ilusão ou flertar com estilo de vida incompatível, ou também como dizemos no populesco: "arrotamos caviar comendo mortadela.")

A vida nos ensina a ser francos, ter noção de justiça, re-considerarmos, e termos o entendimento que nem toda teoria é certa, e todo livro também possui seu inutilismo. Tenho receio daqueles que se escondem atrás de livros, alpendres, pórticos e arietes, e no alto de sua douta vida e grã sabedoria não descem para a arena para viver com gosto e agarrando sua própria alma com fôrça e altivez. Ah, que pena. Pena que seus livros te ensinem tanto sobre amor, e não ame; te doutrinam sobre misericórdia, e não faça; te fale sobre ter sensatez, e você tem falácias descontinuadas.

É mais fácil ser superior, né? Mas mais difícil é 'guentar o tranco da vida com todas as suas porradas e imperfeições e ter a cabeça tranquila no travesseiro que fez tudo o que podia, sem hesitar, sem pensar, sem murmurar e sem se conter por quaisquer barreiras que te façam humano e vivo/atento a todos os sinais de vida que o Criador te imputa ao redor de tua carne - fez com desespero e alegria aquilo que se prega em um evangelho vivo e imutável.

Seus diplomas serão papéis amarelados, sua ciência pode e será refutada, e seus momentos de "bom-vivant" serão mal-ditos pela suas costas. Te restará apenas o (parco) bem que você faz de coração aberto; você tão em pressa de viver esqueceu principalmente de viver. Que bandeira... 

Esse ano foi o ano que escrevi meu livro e o publiquei. Se der certo, a primeira meta do ano que vem é fazer uma tarde de autógrafos num lugar que gosto muito. Oro a Padre Deus que dê certo. Espero os rostos e as auras que tanto me fizeram bem esse ano para celebrar no ano que vem este momento tão belo em minha vida.

Ah! E me mudei. Agora o garôto da zona leste tá no Centro da Cidade!

Tenho medo da riqueza material e o que ela faz com a cabeça das pessôas; e dos que vi, meu coração até hoje dói por eles terem tão fascínoramente "virado a cabeça", tenho ojeriza das famílias de "comercial de margarina", tenho surtos coléricos ao ver pessôas tão felizes que batem palma pro Sol - a alegria de viver reina e se estabelece em meu pêito, e se a engrandeço de maneira exacerbada, me torno inimigo daquilo que carrego em meu ser; Deus que se manifesta no silêncio e vem em meu auxílio nas horas mais tristes aonde ninguém segurou minha lágrima ou me fez ombro amigo.

Houveram dias que houve silêncio. E quando apertava, rezava. E quando a reza não dava, chorava. E quando a lágrima secava, recorria como um desesperado aos pés da Cruz. E inexplicavelmente tudo dava um pouquinho certo - certo o suficiente para que eu ainda sentisse vida em mim, e no meu coração. 

Este ano perdi amigos, referências musicais, perdi família, perdi o amor, quase me perdi, trabalhei em lugares e profissões que nunca achei que faria, e mesmo longe eu estive perto - fui agraciado e reconhecido pelos trampos que fiz e pela força que exerci. E aonde fui, levei meu velho crucifixo de bolso com um Santo Antônio, e repetindo a fórmula que minha avó rezava, dizia ao me sentar na mesa: "Alto! O Sagrado Coração está comigo!". E quiçá por Deus, ou pelo meu merecimento, hoje estou num cargo bom, numa empresa boa, num lugar bom, com uma vida que ainda bagunçada, mas bem.

Esse ano foi um porre. E a garantia é não saber o que vem no ano que vem. A garantia é mais trabalho, mais cervejas, mais exames, mais leituras, mais sons, e mais silêncio; se retirar e aprender a morrer é uma questão de ordem.

Feliz ano nôvo, tilápios. Paz e Bem!

Do;
Queiroz, Marcus.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Disco Eterno.

Achei uma foto tua na minha carteira. 
Enquanto eu olhava os documentos geraes, achei uma 3x4 tua. Vi seus olhos, sua boca, e seu cabelo. Foi inevitável sentir um tipo de arrepio pela espinha, e mais ainda foi difícil sentir algo que fugia a realidade terrena de um momento. Um momento incrível, clichê do clichê.
Que que se há de fazer, afinal? Apenas suspirei e ri por um momento, e me amarguei. Lembrei do Bôm Tempo. 
Assusto-me (de fato) com a distância e paradoxalmente a presença, e estando tão longe me encontro aqui, agindo então entre o silêncio e o oculto da mão, abro os dedos então para tocar um canto novo nas cordas de meu violão; e os pássaros, pousando no beiral da minha janela, cantam comigo um solfejo e brincam com as migalhinhas que deixei para eles se fartarem; faço então o mirar pela janela enquanto dedilho uma nota menor, e dou uma risada enquanto o bemol das cordas me seduz. A vida, enfim, se faz presente em cada recôncavo; e olhando para mim, ainda eu com o oldre vazio - e com uma pequena dor - deixo o meridiano para depois para enfim (fingir) sorrir. Entre nossas vidas, cruzam-se linhas, algumas se acertam, e outras se delimitam. Umas se tangem, outras são paralelas. 
A vida torna se oca, vazia, ainda com tonturas, ainda com tristeza, mas ainda sim é a vida. Sigo, mas não sigo por mim. Sigo pelos meus, e aos que amo e estimo como se fossem meus; ainda que por pouco tempo. Por mim, não seguiria e ouso no tanger não querer mais, e de fato, mantenho-me pelos peixes, pelos olhos, mãos, Cecília, flores, incenso e azuis. E qualquer coisa além do que eu digito aqui é mentira; assim como a saudade que sinto aqui expressada é a pura verdade. O prazer que tenho em viver é vão e inútil, pois quando perde-se uma parte grã e vital do querer, não se pode ser reposto ou transposto em outro qualquer. E quando se perde a esperança, desmorona-se. E por isso decidi parar de me tratar ou cuidar. Quero deixar de ver o Sol nascer, pois apesar dos motivos de ir, me cabem mais os motivos de ficar.
Quero aquela velha praia nublada, a chuva, os trovões, e os gritos no saveiros ornados com porres homéricos de coca-cola com rum montilla. Quero a lira, a pena, a glosa e o pendão. Quero, finalmente, deixar as lindas garôtas ouvirem, e deixar os Céus turvarem. Espero a vida depois da vida como quem aguarda com esperança a batida de maracujá antes da feijoada dos heróis. 
Dada a mão aberta contra a brisa suave do tempo, no estio das passagens do ar corrente entre os dedos, seguro o tempo e a razão, e o peito, não - deságuo como herói, já sei ser verdadeiro como o que Habita em meu peito ensinou - e não troco ou denuncio aquilo que meu peito guarda em Glória e Excelsa verdade, pois antes de mim O era, e antes de O ser, Se fez. E aos que se dizem reis, a estes cabem a terra temporã, pois quem carrega um Verdadeiro tesouro, divide; e estes, tão donos da verdade e de razões, se perdem. Graças a Deus, eu vou morrer, e eles, infelizmente vão morrer. 
Se realizo minha sorte, faço de mim casa e estrela. E estando em mim, permaneço de copo e cruz. Abro os braços em riste, enquão funde-se em mim as chagas e os bálsamos e a vida. Abro os braços em forma de rendição e deixo o Sol queimar a pele alva que me faz casca, e quando vejo os primeiros goteijos da chuva, me sinto vivo, ou talvez safo - principalmente esguio. Lírios na mão, estrêlas no Céu, e descalço, vejo a imensidão de uma cidade que desce e sobe aos olhos pela sua imensidão.
E chove pela madrugada. A dor não me deixa dormir.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Sunday Morning.

Estávamos bebendo eu e meu irmão ontem. Na sexta ou sétima garrafa, sei lá.
Rindo e conversando da vida.
Curando as feridas um do outro.
Acabamos de comemorar a morte de um desafeto nosso.
Eu o tangi. Feri de faca como há muito não o fazia, e desaguei naquele momento enquanto o punhal maldito descia entre a pele e jorrobatava sangue marrom, de raiva toda a minha agressividade e cólera soterrados por anos de cristianismo e bons pensamentos eu desapeguei para apenas ali fazer a justiça que não esperei do Céu, e tampouco a dos homens.
Quando, já em ponta de morte o desafeto ganiu, meu irmão puxou o gatilho com os olhos em riste e bradando de raiva. Os capangas dele deram um jeito no corpo, parece. E isso o ensinaria a não mexer mais com um casal que desce a rua para se divertir e tampouco balear a esposa grávida, roubar o dinheiro de alguém e quase aleijar alguém que não tem a ver.
Ríamos, brincavamos, como se aquilo fosse quotidiano em nossas vidas - e talvez, num passado distante o fora. O meu irmão, assim como eu e a gama de nossos amigos, vem de uma raíz nordestina, aonde ainda mantemos a situação a se resolver no brilho da faca - não que isso explique, mas denuncia muito a nossa conta.
Não tinhamos pais, e nossa formação era das brigas de rua, das missas, e das idas em estádios e tomar cerveja num bar que vendia escondido para nós. Eu, na verdade, me enveredei pelos caminhos de Padre Deus e me inseri no contexto apostólico e diplômatè. Meu irmão, pegou em armas verdadeiras e se sujou com hasseldamas, mas de contrapartida ergueu capelários, doou dinheiro, cuidava das crianças e viúvas e os que em dolosa aflição estavam, foi mecenas da providência divina. Eu, vivi. Ele, também.
Na mesa, cerceados por cervejas e pizzas, nós falávamos de Alvares de Azevedo, da existência de Deus, do princípio da minha - por supuesta - cura, dos heróis de nossa juventude, e de nossos demônios taciturnos, que arrodeiam nossa cama, daqueles que nos abrem os olhos quando queremos fechar.
Ele, em respeito a mim, não há de guiar e pretorar os passos da amada a quem um dia lhe pedi para que sentinelasse para que eu não me sujasse. Eu, em respeito a ele, pedi uma última alegria.
Tangemos aquele que nos fizera mal, e deixando-o na tendinha, seguimos como fazíamos na época em que éramos deuses: nos lavamos, olhamos um pro outro, nos abraçamos, e fomos descarregar o acontecido em cervejas para esquecer. Pusemo-nos um no lugar do outro: Fui assediado enquão acompanhado pela amada e doente, ele, ferido e pobre, com sua esposa ferida e sem o fruto no ventre dela. Isso nos impulsionou ao último ato transgressor - mas ainda lemos Agostinho, rimos e sabemos falar da somatória do medo, somos os mesmos, apesar de evoluídos(?).
O bar estava pra fechar, embrulhou a pizza e me deu os pedaços para jantar, me levou até em casa e me abraçou, e foi depois ver sua mulher e cuidar dela. E assim seguimos a noite de um domingo.

E apesar de tudo, somos humanos. Relicáriamente humanos. E eu acordei.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Time Moves Slow.

 Estou aqui no hospital. Não imaginava que drenos no pulmão fossem incomodos. Já são três dias.

Depois de três dias a dimensão de tempo é tão difusa, tão surreal, que chega a incomodar.
Estou vivo ainda, por graça de Deus ou por alegria, talvez. Estou vivo, principalmente, pela esperança. As que imputam em mim e nas que eu gentilmente ponho no meu coração, ornando-as com a beleza de Deus.
Gostaria de beijo e abraço específico. Da voz e da tenaz palavra. Isso me acalmaria senão, atordoaria benéficamente. E neste frio, tremo as pernas com os cobertores postos, e sorrio. Apesar de toda essa lama, toda essa tristeza, ainda sinto e tenho um pedaço de Deus em mim. E isso também é esperança.
De esperança em esperança foi como vivi, pois assim pude deixar a providência divina e as obras da caridade nunca falharem dentro de sua matemática celeste.
Nunca senti que vivi pouco, pelo contrário: vivi o tanto que me coube, e tendo isso em mente não me regojizo ou me vitimizo: vivi o tanto que pude e que Deus deixou eu viver dentro de Sua tutela. Deus, além de Deus foi meu melhor amigo, pai, irmão, advogado e pretor.
Essa imunidade baixa e os dias frios me nocautearam. Alguns dizem que irei sobreviver e que rezam por isso. Mas, docilmente ponho nas mãos do Divino o querer (não só disso, mas de tudo que abrange minha mente agora). Caso viva, bendigo Meu Senhor. Caso morro, bendigo a Vida. Faço parte de toda uma sistemática que sinto entorno a alegria e a tristeza, e assim sigo. Na minha janela, não pousaram passarinhos, e isso me entristece, mas a nutricionista me deu gelatina de limão, e isso me alegra.
Achar a alegria em tudo, e agradecer a Deus por tudo, por todos a todo o tempo, esse foi o conselho que Frei Francisco me ensinou.
Tento, apesar de tanta dificuldade pesarosa e dificultosa, ver Deus em tudo, e mais dificultoso ainda, agradecer pela Sua ditosa vontade. E neste estreito espaço de navio, oro. Acho que nem nos meus tempos mais espiritualizados eu rezei tanto. Este frio me trava os dentes, mas me liberta a alma. E se eu voar, eu posso ir te visitar? Sentar na beira da tua cama, cantar tua música, e te fazer sorrir? Como um passarinho marrom?
Mais uma noite. Mais uma noite. Menos uma noite. E o Sol desce no cinza e arqueija a noite densa e enevoada. Sorrio. É das noites que gosto, mas como um mercúrio, me envenena em doses lenta. O que amo me mata. Sorrio. Se me sobra, sobra tu, letra ditosa da pena. Inclina-te em minha ordem, pois ainda em claudicância eis que mando o teu ditar: escreve, escriba; se não como testemunho, como ao menos um alpendre de verdade para quem ler como memorial. Se me cabe escudo, agora liberto-te, a adaga oculta que guardei para a noite memorável quando me amavas: Diz-me, Deus - a qual roga os miseráveis, quão longo e dulce suplício é esse que me embute, se nunca pedi ou desejei galardão de santo?É pela minha relutância, tal qual Cupertino, que me fazes assim? Sou filho da porta estreita, e por ela passei n vezes sem murmurar, mas, quando me põe no sopé da morte e vejo eles tão distantes, sinto-Te mais ainda. Não te abstém, força minha, Corre Tu em meu socorro e salva-me nas excelsas glórias, pois da porta santa abri para chamar Teu nome.
És o Deus de Dona Antônia, o Deus que ela há tanto e muito rezou e que nunca foi confundida. É a Você que clamo nesta hora de minha solidão e amargor.
Eu acho, que eles chamam de milagre. Eu chamo de vida. Eu chamo de viver.
Ora pelos meus, e salva a minha (ela) do laço do passarinhedo, e quão a minha vontade, que seja inferior ao Teu querer. Por isso lhe invoco, glorioso Jesus Cristo, Filho de Todo o Poder Criador que me amou primeiro, atira-se no precipício que me encontro e reclina teu Bom Ouvido para ouvir esta última prece: Deixa as lindas garôtas ouvirem e deixa os Céus turvarem. Encosta-Te em mim e abraça-me, para numa última vez, unido a Vós, possa sentir o amor o querer, e estando na mais alta dificuldade, sê Tu aqui meu animador, e dá me o riso. Alteia meus olhos, e reconecta-me ao que perdi para que encontre. Dá-me vida para que eu possa terminar a promessa que te fiz, e escondido dentro do Teu Sagrado Coração, não me vejam, sintam, ou possam agir de mau juízo de mim.
E estando eu contigo, que você me alivie cicatrizando todas essas chagas para que eu, estando junto a Ti, possa apenas me glorificar de Você ter me acolhido e restituído tudo aquilo que perdi - e vagarosamente - retorna ao oculto de minha mão, ou como nos diz o profeta: "retorna em mim o riso, e faz-me viver". Dando-me, tais poucas três cousas que lhe peço, rugirei como o Leão de Baoz para que não Maculem teu nome, e sei Teu Capistrano. Ergurei elogios e honras, e mandarei promulgar Teu Nome, pois nesta presente agonia e sufrágio me valeste.
E que eu só leve alegria a todos os corações, amen. E de paz em paz, roguemos ao Senhor.

Alto! O Sagrado Coração está comigo!

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

II Carta a André.

 1 - Prefácio e Saudação;
Marcvs, escriba para André. Filhinho, que toda sorte recaia sobre você, e ao ler os textos de crônicas de um passado, saiba de um bom tempo que houve. Como gosto de parafrasear Tio Fungo: "Havia um tempo antes do tempo." Cabe a nós abrirmos e fecharmos a porta, o canto, a lágrima, e aceitarmos o fim iminente.

2 - Considerações gerais;
Considera a maldade. A solidão. Os corações endurecidos. O orgulho. De todos esses, moí como bagaço de cana e bebi o sumo. Fiz de dor alegria, fui príncipe, rei, amigo, irmão, consorte, pretor e altivo. Desci até uma mina d'água e lavei os pés e joguei uma concha-forma-mão de água em meu rosto, e pude seguir a estrada. Mas, trago-vos o perguntar: E a estrada? Que forma tem e aonde dá? Quando não sabemos, e não temos mais o ímpeto juvenil da coragem e da sapiência, não queremos mais aventuras, queremos apenas descanso. E isso, filho meu, é o que mais anseio. Aposento a lança e deixo-vos a pena e a lira. 

3 - Preparação para a morte;
Não tenho medo. Fui desde cedo posto em pé de igualdade com a morte e coube a minha parte o entendimento, então sei de mim. Choro apenas pelas lágrimas que irão derramar por mim, por latência, de forma retardante e demorada. Vazio estando o ninho, mantenho-me de olhos fixos ao Céu, e pelo Deus que rege o firmamento, pago o preço do fim que irei acometer: O frio, o chão, a dor, a solidão, a fome, o cansaço, a claudicância e o não querer viver mais.

4 - Das crenças;
Creio em Deus, e isso me bastou em trinta anos. Deve me bastar mais uma eternidade. Deve me valer uma eternidade. De fato, o que se consiste senão ter a força de Deus para caminhar, olhar, ver, viver, ter e sentir? Deus me sustentou até aqui, e agora, no ponto mais calamitoso, me sinto só. Sei que por mais que não O veja ou O sinta, Ele ainda está, mas, atordoado em demasia com o silêncio que ricocheteia em minha mente, não consigo dizer e tampouco fazer muito. Minha crença diminui - e analogamente - aumenta em minhas veias, tal qual aquilo que mina minhas forças e esperanças. A morte pode me ter, mas, ao menos uma vez há de ser em minha maneira.

5 - Da tristeza;
Acolhe o triste, e lida com a lamúria dele com paciência e amor. Sê amigo, pois um dia hão de enxugar teu pranto, pois quem é da lira e da pena tem um coração grande, daqueles que chora, ama, vive e sente. Então, vê lá tu e segue em harmonia, pedindo sempre a Deus pelo melhor jeito de consolar o povo que sofre, perece e padece. E todo bem que fizer ao sofredor, é bem que volve a ti por mérito, ordem de Deus, ou da vida.

6 - Das tradições;
Devemos sempre manter costumes e tradições, de tal forma que quando estivermos sempre a ponto de entender, ver, viver e sentir, sintamo-nos também perto de um costume e tradição. Olhemos também para dentro de nós, e dado a alegria da vida, consigamos nos entender, se fazer entender e dar a vida aquilo que não se enumera, que não se sente, não se vê ou tampouco se tange. Que pelos costumes de uma corrente de pessoas, sejamos nós brindados pela alegria de viver, 'inda que tardia. E que pela tradição, façamos e sejamos lembrança. 

7 - Do oculto;
Existem segredos, dentro de cada recôncavo e rincão de uma alma que nos tomam de forma imperfeita e imprecisa. Não temos acesso a acessa parte - aqui ficamos. Mas, quando alguém nos der por dieito um acesso ao nosso oculto, ou até mesmo ao nosso Jardim Secreto, aonde compartilhamos o nascer e gerir de nossas esperanças e fomentos, devemos sempre honrar o compromisso do oculto, respeitando-o, e dando seu tempo para que se abra: tal qual a flor, que em loucura de primavera se abre, faz-se faceira e manda a vida subir até vós.

8 - Da raiva;
E nos rincões, da raiva que nos trará, exortaremos ao Bom Deus que a elimine, pois somos de lira e pena, e só usaremos a raiva quando profanarem a nós e os nossos - na condição de pretores, seremos a guarda de quem amamos, e na condição de escribas, usaremos a raiva para exortar o que é desnivelado ante ao universo. E, dentro de nós, usaremos nossa raiva e ódio apenas contra uma pessoa: Nós mesmos. E isso nos elevará em magistério pelo desvelo da vida, cuja perdemos, e logo a Encontramos.

9 - Da morte;
E no silêncio, oculto, de fim-de-feira e fim de bandeira, aonde o frade eterno repousa, estaremos pois, nós. E na morte, após lágrima sincera, e não copiosa, entregaremo-nos, a parte certa e devida da vida que foi vivida: Bem pesado e bem medido, seremos condecorados com o que nos aprouve, e após isso, apenas Deus bastará.

10 - Benção e despedida;
Abençoo-te diante dos Santos, e peço a Padre Deus que te dê boa vida, e bons frutos. Que você seja frutífero, solícito e amigo de todos os momentos que a vida lhe ofertar. Viva, e siga sempre o Sol, pois tudo foi feito pelo Sol. E tudo que você pensar, será.

sábado, 27 de agosto de 2022

Carta a Mariana.

 1 - Prefácio e Saudação;

Marcvs, escriba e reflexivo, para Mariana. Que o Deus Triuno de Boa Fé desça e acampe aonde vos fizer teu ninho!

2 - Considerações gerais;
A despeito de nossa longa conversa de ontem, gostaria novamente de vos agradecer pela paciência, escuta, bons conselhos, risos e boas palavras - pois to sabes bem mais e melhor que eu que num mundo aonde nem todos tem tempo para todos e tampouco boas palavras para todos, cada boa palavra e atenção é sinal de cristianismo verdadeiro (conforme a ditosa que falávamos ontem)

3 - Preparação para a morte;
Vivi duas vidas em uma. Vivi, pois, bem. Como meus avós, meus pais, e quiçá meus rebentos. Pude conhecer todos os lugares que quis ir, bebi mais do que devia, ouvi a doce música em meus ouvidos e amei a mais bela dentre todas, a mulher. Então, caso me ocorra de susto ou de ida, a morte não me pega em arrependimento, pois vivi bem, e pude no clarão do dia sentir uma felicidade que não se cabe no peito. E se eu viver, oxalá possa eu conhecer novamente a Fonte primal de toda vida, e que nessa Vida, eu seja e eu esteja. E que como nos diz Zózimo: "O que nos for por direito, estará conosco pela primazia de Deus".

4 - Do serviço;
Sou escriba. Escrevo. E dano a escrever. Essa é minha missão, e de forma análoga, meu legado. E o teu, quando inspira e infla as pessoas a se cuidarem e terem bom juízo de si, é mais que belo, único e preciso, grã amiga. De fato, quando a Censora me mostrou suas íconas palavras a fato de alertar ao povo do mau comum e siilencioso, fiquei-me afã de vós, e de certo crédito tens em minha melhora (dijunto a Censora) e minha busca (mesmo que sinuosa) pela melhora. Te tens em máximo respeito pelos bons conselhos, boas palavras e boa índole. Quando nós descemos até uma pessoa e guiamos ela para um camunho bom, de fato temos em nós avivado um Espírito Paráclito de vida que não se cabe dizer de quã glória é. E vós, ditosa Mariana, é sacrário dessa Magna e Divina Beleza.

5 - Do pastoreio;
Se cá eu como escriba cuido de minhas ovelhas leitoras, lá tu cuida, amiga, de tuas ovelhas que perguntam sobre a saúde. Parafraseando Santa Clara, o barravento do Senhor (TM), digo-lhe: Nunca perca de vista o seu ponto de partida. Tem sempre bom propósito, e não se esquece da gênese - seja a familiar, a dos princípios, a das boas cousas, ou de Padre Deus, início eterno sem fim. Tens o mesmo tanto de responsabilidade e benção nas pessoas, guiando-as e instruindo-as, e por isso peço a Deus por vosmecê que nunca perca o fôlego e te mantenhas em passo continuo, brindando-nos com boas palavras.

6 - Da vida;
Quero, amiga, a nível de sinceridade: a cura, a mulher, e a calma - mesmo sabendo que tais feitos estão fora de minha alçada. Quero também, a felicidade, que se extenda como o Céu sob nossas cucas esvoaçantes. Quero uma boa vida a todos que buscam o descanso do passo mantido, e vejo em vós que de forma análoga também estima isso para seu pastoreiro - e não te sabes como isso me exulta! Mais nos vale querer o bem do que fazer uma maldade ou um esquecimento casual. E por isso, ditosa Mariana, desejo-te a vida (em forma de Londrina, em forma de Torresmo, em forma de higiene do sono) da melhor forma que te aprouver! Rogo por vós!

7 - Despedida e benção:
Oro por vós, e agradeço por teu zêlo e cuidado para comigo. Peço ao Santíssimo Sacramento do Altar que esteja sempre contigo e abençoe teus planos e teus passos, e que te nunca percas da tua essência, e posto em teus olhos os veros mirares de verdade, que seja tu sempre assim. Que Deus te abençoe e te ponha entre os Santos, Únicos, Justos, Mártires, Patricarcas, Primeiros, Virgens e Mártires. E que Deus nunca esqueça de vós.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Prosa de Hospital #1

Escrevo, pois,
pelo simples fato de viver,
e minhas crônicas falam assim de tudo um pouco:
Da vida, da morte, dos dias, dos minutos, de tanta coisa...
Mas, hoje, ela fala da desesperança, e da falta de fé.
(cousa incomum atrás das letras que transcrevo)
Creio sim em um Padre Deus que tanto falo,
mas sei que hoje ele parece distante, longuíquo,
de forma inacessível,
e na minha atual forma estou a procurá-lo.
Você viu Deus por aí?

Sinto que quando me falta a fé é como se parte de mim morresse
[já estando eu ao sopé da morte, não sinto em difuso]
e errante, tento reavivar a alma minha que não cessa em ais,
entregando cada rincão de mim ao ser mais, ser menos, ser ser.
Tento entender o que se passa em mim eliminando cada ponto,
cada vestígio de tristeza,
e peço por vezes que alguns estejam comigo para eu ter força,
ora eles estão,
ora não, 
e isso me deixa triste e pensativo por demais.
E me recolho e me volvo a Deus.
e chorando, deixo Deus cuidar de mim, e elevo a Ele minhas mazelas, assim:

Deus, se podes me ouvir,
do trato que temos, daquele oculto em meu coração,
o nosso jardim secreto, vos rogo: 
deixa que apenas eu e você saibamos, e que apenas eu e você fiquemos,
cuida, daquela que amo, e ajuda-me a ir em frente,
e dá-me animo, os abraços, os beijos, os carinhos e a exultação,
salva-me do inimigo, e principalmente de mim mesmo.
Deixa no chão meus passos para que os que me procurarem possam ver
Segui, mesmo sem nada a entender, e com pouco a perder.
E abri a mão como abro mão da vida.

Agradeço, Bom Deus,
tudo até aqui,
mas penso comigo mesmo,
que já é bem mais hora,
de me reunir com você,
então me leva pra sua destra,
pois deste mundo já deu tudo o que deu,
e meu pranto minguou.

Mas imploro, Bom Deus,
que se houver ainda uma chance,
aquela mesma chance que te peço com os pássaros e peixes,
então me deixe viver,
e põe em mim nova vida, novo sentido, e força,
e que a dor não doa, e que o fogo não forje,
e eu imune a toda dor que me encerra
possa ser mais forte e quiçá feliz,
com a mulher que amo, 
com saúde restaurada,
com a vida posta em ordem,
com Você em minha vida
por Tua santa vontade imperativa,
amen.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Argumento.

Se quiser saber de mim, ouça meus discos. Principalmente os meus favoritos: Os de samba de roda, os de progressivo, os com baixo marcado, e passe a mão na minha cerveja e sinta o que minha língua amava, se abrace na minha camisa favorita, e se te cabe saber, meu suor e meu perfume ainda estarão lá. Não vou e nem quero desanimar, apenas estou deixando tudo isso pra depois.
E eu, quero desesperadamente teu abraço e teu aconchego.
Se te interessar saber, eu ainda estarei nos lugares que tanto amei e cada pedaço de mim estará fragmentado dentro de quem eu tanto amo e tanto estimo como uma horcrux, e quando você quiser me procurar, ache-me nos sorrisos, nas minhas devoções, na minha fé, nos abraços que te pedi, na música que te fiz, nas cervejas, no Corinthians e tudo o mais que eu tanto cativei e cultivei. Se quiser saber de mim, fale com quem sabe de minha gênese, do meu agora e do meu fim; Pois quem souber de tudo isso vai te contar de mim, e quando minha carne for de terra, seu sorriso não me atingirá, e quando minha lamúria virar paz, você notará que tudo foi preciso como a ciência de Deus. Lírio.
Quando quiser saber o que eu sinto, vá nas igrejas que tanto fui e tanto amei, e chegando lá, dobre seus joelhos ante o altar e olhe: Seus olhos verão o que eu vi, e assim seu coração sentirá o que eu senti. E logo depois de sair, me encarregarei de te consolar, eu serei o vento em lhe beijar a face, serei o semáforo para atravessar, e a condução rápida e vazia, e quando chegardes em casa, serei a refeição saborosa e o descanso na cama com a janela entreaberta.
Serei a música que toca seus ouvidos, e que encrostada nela, lhe trará uma mensagem de atitude positiva. Ou realista. Mas nunca negativa; serei alguém que mesmo distante, estará mais próximo que você imagina, mas não nesta hora. E se você ainda me procurar, não me achando nisso tudo, saiba que em tudo eu serei, eu estarei - se você quiser.
Segurarei os dias, horas e minutos, ou os apressarei, e tomarei partido do que vale, assim como suas lágrimas serão nuvens que pedirei pra Deus rachar em forma de chuva, e com isso lhe darei toda a experiência de estar, ser e sentir. E nos avisos, na escrita do muro, na orla da praia, na síncope, na blusa que te veste, tudo... Ali sou eu, ali eu estou. E não faço por mal, nem me leve a mal. É apenas parte da minha palavra, minha promessa. Serei em você a saudade que eu sinto agora de você.

E o resto é apenas um detalhe.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Carta a Lilian.

 1 - Prefácio e Saudação;
Marcvs, escriba, para Lilian. Que Deus te acolha, ouça teus rogos e salve-te de ti mesma. Que nesta carta que discorro a vós possa eu mostrar por exposição histórica e teológica os motivos prudentes e perenes para mudar sua mente antes que você se arrependa dos atos que hão de se seguir. Tua carta me tomou três dias pelas idas ao hospital a noite, e por achar palavras precisas em te demover. Espero que leias com o coração aberto:

2 - Considerações geraes;
Devo admitir que mo encheram os olhos de cólera o que li de vós, e o caminho que te tomas. E o sorriso que nutria de ti, ó amiga, caiu e esvaneceu como areia em ampulheta. O engôdo que tenho do sangue sujo, junto com tuas novas formas de querer viver libertinosamente, e me dão mais nôjo e raiva. Aparta-te de mim, e do meu rincão se te for melhor tomar esse caminho que adiantas o passo agora. E abstenho-me de rir, mas sim me ponho na risca de levantar meu calcanhar contra vós, pois me lembro das antes de ti - das quaes alguma tu conheceste pois era também amigas de teu irmão: Rachæl, Luíza, Conceição, Ana, Mariana, Bep, e as justas que se perderam no caminho. Te rogo, enquão não te maculas: aparta-te de mim. É o demônio que te aconselhas, messalina! 

3  -  Preparação para a morte;
Tenho meus pecados, tristezas, e todo o restante. Mas, sei bem que eu na batalha para cuidar de meu fim, adianto-o. Gostaria que você também pensasse assim, ao menos não tomaria tanta rota errada como acerto e se arrependeria futuramente. Espero a morte como quem esperava a coragem da boa briga, ou de dobrar o sino no linguote. Espero a morte como quem espera a pena capital, e vivo enquão posso, e peço a Padre Deus que minha ida não afete o ecossistema que me arrodeia, mas, que se faça em expiação de meus pecados e pela piedade dos meus. Que seja eu sopé da porta para que Meu Bom Senhor passe. Se sofro, e Deus o permite, foi porque eu mesmo pedi que minha vida fosse uma forma de evangælho aonde pudesse perseverar na fé e que por minha luta, pudesse levar pessoas novas para conhecer Meu Senhor. E se a tudo passo em necessidade, aflição, dor e solidão, tenho Meu Bom Senhor a meu lado, e Ele me provém e restaura tudo em Seu tempo e de acordo com minha necessidade. 

4  - Perca de fé;
A Fé se faz necessária, mas a perca dela é fator comum. Nós, de gênero humano somos fadados pelas tentações demôníacas (tal qual as de seus futuros atos) a termos um afastamento de Deus. Mas devemos a todo instante e momento volvermos nossa carne e nossa cabeça a Padre Deus, e dando-nos este tratamento, logo estaremos propícios a estar com e em Deus - seja por costume ou por aprofundamento da fé. Comece com uma breve prece. Depois reze uma oração, e após isso volte a rotina. Ao menos, tente; talvez isso faça você voltar ao seu eixo de prumo. E talvez no orago, você possa ter assim ter finalmente consolação e sair dessa vida vazia e não cair no poço errôneo que d'agora queres a água amarga. LEMBRA-TE DE RACHÆL!

5 - Loucura da Santidade;
Todo santo ou propenso a santidade é louco, degenerado e renegado - e isso nos mostra a história e o tempo hagiográfico. A inquietação, o amor irracional pelas cousas do Céu, e principalmente a vontade de melhorar o mundo. De vera, ainda qu'o defenda o laicismo do estado, me vejo a crer que a melhor infraestrutura para uma sociedade é a pauta cristã; e não porque nós somos melhores, mas porque agimos de perdão, amor, justiça e misericórdia. E quando fazemos esses quatro feitos de verdade, abrimos nossa alma verdadeiramente, e O Justo Pai das Luzes, vai nos guiar e nos dar enfim, a paz que só Ele tem e é capaz de nos dar. 

6 - Medo de sofrer;
To me dizes do medo de sofrer. E vens dizer isso a mim, que jorrei lágrimas de dor fronte a musa? Vens dizer a mim que durmo no chão frio enquão minhas carnes vibram de dor e por vezes derramo sangue de meus ouvidos? Vens dizer a mim, que acordo todo dia a vomitar? Vens dizer isso a mim que me encontro só em gênero de carne? Vens dizer isso a mim que perdi o pouco valor financeiro que tinha guardado? Vens dizer isso a mim que passei duas noites no hospital após a dose da radio ter dobrado? Vens dizer isso a mim que estou sem força de batear roupa na mão? Eu sei o que é sofrer, e carrego no oculto de meu coração e elevo esse meu sofrer ao Bom Senhor que mais sofreu por mim. E não digo metade do meu sofrer, pois estamos em época temporã de criar mártires e fazer teatro do afã alheio. Você não sabe o que é sofrer, Lila. Louva cada pedaço, recôncavo, cama, fogão, geladeira, tv, dinheiro, roupas e amigos que tem. A vida ainda não te deu o vero sofrer, então roga a Padre Deus nessa piedade.

7 - Consolação;
Se eu puder me glorificar, que me glorifique no Senhor, e se for para exaltar, que sejam as virtudes dos meus, tão melhores a mim. O sorriso me consola, o abraço me alivia o fardo, a eucaristia me cura, e o terço me faz sentir forte. A minha consolação baseia-se n'Um Deus Misericordioso que desce até mim através de um afago, uma hospitalidade, um beijo, um almoço, um lavar de roupas, uma carona, uma ajuda, e nos milagres tão inexplicáveis que fogem de minha língua explicar. Minha consolação se baseia na minha fé e na minha crença, e agindo-as com mutua respeito, formam-se numa coisa só. E ter a consolação verdadeira, é saber que Deus dá, Deus tira, Deus restitui, Manda buscar, conserva e melhora. 

8 - Considerações finaes;
Deixo-te com Deus e o Bom Santo Antônio. Peço a Eles que mude tua cabeça e tão muito e tão logo você possa mudar sua vida e mudar seu jeito de ser, começando por sua nova escolha de vida. Ouve. Para. Pensa. Muda. E para melhor. Minhas preces e bençãos se extensam até seu filho, e rogo a Virgem Maria por vocês. 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Carta a Malé.

 1 - Prefácio e saudação;

Marcvs, escriba e radioativo para Madalena, irmã minha, irmã de meu Gil. Que os abraços e amplexos de saudade que entrego ao vento estejam bem de encontro a vós. Escrevo essa carta, pois do Dia da Mãe do Perpétuo Socorro e também natividade de nosso Gil, possamos meio que a distância aliviarmos a falta do nosso dominicano predileto.

2 - Amenidades geraes;
Estou bem na medida do possível, Malé, comecei a lidar com a "radiação" hoje. Um pouco de enjôo, um pouco de fome, um pouco de cansaço e um pouco de raiva. Agora para amenizar a tonteira, eu danei a usar uma muleta, para grandes caminhadas ou ladeiras, e tenho consumido grandes quantidades de chá matte. Tenho visto o Sol nascer e morrer, e orado tanto quanto a cabeça deixa, o olhos veem e a mão traqueja; de fato não escondo que estou passando por um péssimo momento, mas, entreguei a insígnia desta situação a Deus, e o que Ele quiser de mim, estou aqui. Por mais que doa, estou aqui. Por mais que machuque, estou aqui, e por mais que por momentos eu não queira, estou aqui, então deixo a Deus as coisas que desejo, quero, penso e preciso. E se for de Sua vontade, que se concretize, se não o for, cabe a mim aceitar; quanto ao livro, terminei há um tempo, quando der, lhe mando uma cópia, ou posso lhe enviar pela internet o primeiro da saga - tenho certeza que muitos elemenos que você conhece estão lá: Gil, Rachael, Fillipi, Rafael, Bæda, e até mesmo Mãe Inês!

3 - Preparação para a morte;
Sei que daí praqui são poucas horas, por isso peço que quando vierdes, vem me ver, e lanço a vós um abraço em Dona Tereza, Dona Joana, e todas essas santas senhoras e mulheres que constituiram você e Gil como bons irmãos e grandes amigos meus. Se o tempo não for bondoso, vá lá e acende tu uma vela pra mim, e ora pra que em algum recôncavo de la do lado de lá eu possa ver Gil, sentarmos, rirmos e nos escondermos no sari da Doce Mãe das Candeias.

4 - Lembranças de Gil;
De Gil, guardei um sorriso, uma carta, a Teothokos (que posteriormente dei para alguém que amo muito, que precisava de uma graça, e como aquele ícone me valeu, deixei com ela e não pude pegar de volta, me perdoa), um terço de São Miguel que sempre guardo com estima, e uma camisa. O que permanece comigo, guardo com afã a memória dele. E se a mim, amigo, irmão de ordem e vida dói, penso como não dói bem mais em você e Dona Joana a ausência. Oro sempre por ele, pedindo o sufrágio de sua alma, e que Deus já tenha o acolhido. Gil, independente de sua sexualidade, era de virtude, de fé, de esperança, de oração, e de uma devoção assustadora para com a Virgem Maria. Guardo dele, os melhores momentos e melhores conversas.

5 - Sobre a vida;
Quão a ti, como me alegra saber de tantas coisas boas! Se der me a graça Padre Deus, que eu não morra sem ir te visitar e comer um churrasco teu! E mais me alegro pela vida que você gera no ventre, bendito seja Deus! Imagino Dona Joana já babando pelo rebento teu, e faço meus votos que seja mui feliz. Escolheste um bom caminho, e agora, vendo a vida acontecer com casa, carro, filho e mãe, alegremo-nos por tudo isso. É a mão de Deus que repousa sobre ti, Malé!

6 - Despedida e benção;
Peço-te perdão por não ter falado muito com você, mas não ando conseguindo conversar muito. E além disso, ando cansado e as vezes me pego ofegando (fazer alongamentos atualmente tem sido uma merda!), mas, como sempre seguimos! Que Deus te abençoe, te guarde e te livre de todo o mal, e que a ponha junto com seu rebento entre os Santos, Justos, Únicos, Primeiros, Virgens e Mártires. Amo vocês em verdade e Deus permita que nosso encontro esteja logo e perto!

E viva Gil!

terça-feira, 14 de junho de 2022

Carta a Bep.

 1  - Prefácio e saudação;

Marcvs, escriba e claudicante para Bep Andrade e os seus. Que Deus encontre graça e paz na sua família, e faça nela prodígio de louvor.

2 - Prodígios e peixes;
A vida, Bep, tem sido dificultosa mas não me queixo, entrego a Deus cada passo meu e quem conhece minha alegria vê minha tristeza e quem abraça minha dor será minha motriz para orgulho. Tenho a cada dia olhado o movimento dos barcos, e visto as coisas acontecerem, e eu, a cada segundo espero que as coisas melhorem - peço teu perdão em não ter dito nada sobre a moléstia que me aflige, não queria lhe afligir ou tampouco fazer algo que pudesse lhe preocupar, conhece minha natureza.
E sim, ainda tenho meus transes e êxtases, mas os oculto e apenas digo aos meus. Tenho sim evitado de pensar e dizer dessas coisas pois sei que a primeiro momento tudo o que eu possa vir a dizer sempre serei taxado, então ainda guardo - e pasme! - até agora um peixe foi falho, e fui justamente a do Heitorzinho. Vai entender...

3 - Preparação para a morte;
Não quero, não propenso e nem estimo viver mais do que a minha mão alcança e porque meu coração deseja. Sei que uma hora irei me esvanecer, e talvez mais cedo do que imaginávamos. Em Agosto, quando vierdes, quero que eu esteja ainda por aqui para poder te ver e te roubar um abraço (com cautela, pois estou dolorido), ver Rodrigo e teus filhos. Quero poder ver-te, amiga, em terras brasileiras e te dar seus presentes. Te sinto em saudades pessoais e gostaria de podermos nós três comermos uma feijoada e rirmos um pouco; necessito de alegria em minha vida, e por mais que as palavras de vocês me reconfortem, me interessa um pouco de contato humano. Não tenho medo da ida, Bep. Mas tenho medo da condição que me envolve, por isso escrevo aos meus e aos que tanto estimo.

4 - Sobre a perseverança;
Abrace seus filhos, e os ame. Beije teu homem e o celebre. Cuide-se, e mantenha a fé. Persevere. Lute. Seja gentil, dócil, mansa e humilde, e não tenha medo - o Atos dos Apóstolos segundo São Lucas que nos ensina que não devemos ter medo. Por isso, te dou a coragem dessa vida, tenha-a como tenho, e respire cada segundo desse ar, como eu respiro. Ter medo neste instante e nesse momento é totalmente inconcebível, e saiba, que ainda rezo por vós, os seus, e pelos seus desafios.

5 - Conselhos finais e benção;
Te guardo no Sagrado Coração, na barra do sari da Doce Virgem Mãe das Candeias, e na proteção benéfica do Bom Santo Antônio. Que seus filhos estejam em paz, harmonia, glória e amor. Que seu amado seja sempre seu eterno e infindo amor, e que todos seus desejos puros e sinceros de coração se realizem. Seja forte, determinada, tenha fé e coragem. Deus te guarde e te proteja, Bep!

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Carta a Daniel.

1 - Prefácio e saudação;
Marcvs, escriba e leitor de nuvens do Céu, a Daniæl, chefe de sua tribo e pai-de-reis, segundo a linha de Abrahæ. Que Deus seja louvado pelo dom de sua alma.

2 - Espelho do justo, manter a conduta;
Escrevo-vos na solenidade do Bom Santo Antônio, de certo feliz, e esperançoso com pontos específicos, e vos digo: eu deleito-me com tua amizade, e alegro-me com teu amor fraterno, que por tantas, muitas, diversas vezes me foi amigo, herói, pai, filho, soldado e comandante. Ao meu, que me é importante como pedaço-de-mim, rogo a Deus Pai que te mantenha com o coração puro e belo longe e livre de todo o mal, pois é assim que vocês (os justos) devem se manter: Longe e livre de todo o tipo de mal; ao se guardar e manter no caminho da justiça, tudo pode parecer estranho, difuso, errado e de humilhação, mas não nos esqueçamos daquilo que Deus nos deu e nos ensinou durante a graça e a glória, e abrindo os olhos, pudemos ver a verdade e assim não reconhecendo o inferno que nos atrai, abrimos mão dos designos que nos entristecem e seguimos a estrada diante dos preceitos do Senhor. E por mil vezes quando sentei e chorei, desconfiando de mim mesmo e de meu coração, foi você quem me abriu as portas do Céu, mostrando-me que cada segundo ainda mantido nessa vida vale a pena, logo, se essa minha alma existe neste mar de tristeza, devo-a, e diante do Tribunal de Cristo, digo sem pestanejar que fôste o fiador dela junto com Santo Antônio, Virgem Mãe das Candeias e os Santos, Únicos, Justos e Mártires.

3 - Preparação para a morte;
Guarda meus textos, escritos e contra-crônicas, livros, conselhos para se conviver bem em sociedade, manifestos e ordens geraes. Quando eu morrer, deixo todos esses amontoados de letra em sua propriedade, e vos dou como guardião de minha letra, meu bom Eliseu. Peço que assim como deixei preceitos para a Yalorisà de Oyà, que você possa no meu enterro me dizer as bárbaries, e não me dar a alegria de boa passagem: diz a todos como fui desprezível, o quão errei e como a todos magoei e fui péssimo. Digo também, que você reze um Padre-Nosso pela minh'alma, para me livrar do fogo selvagem, e que vós, possa ao segurar a alça de meu caixão, me guardar em segredo pela última vez, e ao ver a terra batida posta em cima da madeira de meu caixão, se alegrar e exultar por finalmente um peso de sua vida ter sumido - e aos meus que permanecerem, vos peço que propague o esquecimento de meu ser, pois nunca fui ou quis ser nada de importante, apenas quis viver o que me coube, e consegui isso poucas vezes. Por isso vos peço, fulmina minha presença do mundo, pois sou desprezível e de difícil tato, e sei que minha vida não foi de fato heróica ou profética, e ao esvaziar o cortejo, dança em meu túmulo, para que assim se justifique que eu possa ao menos uma última vez ter contato com a Dôce Música - afora de ser uma bela piada a que possa vir a ser dita depois.

4 - Da graça de ser comum; contra a loucura da falsa-riqueza/falsa-bondade;
Abraça teus filhos então, vai e beija tua esposa, fala com tua mãe e a pede benção e agradece a Deus por tudo, sem exceção. Deus, dotado de bondade e benevolência, te fez boa pessoa e te livrou do mal, te guardou e te intercedeu entre os justos. Deus te pôs em grande lugar, e da tribuna que sentas, faz tu parte de homens de virtude, que tendo o coração de carne, se preocupa com as coisas do Céu, e elevando-se ao Céu, desce a terra para cuidar de seus irmãos, e isso te constitui um justo, pois ao se permanecer nem ao Céu, e nem a Terra, teu coração se permanece em perfeição, de votos que eu o guardo dijunto ao Sagrado Coração. Amo vos, e vos quero bem. Deus te guarde e te livre de todo o mal! Há uma graça muito feliz em ser comum, em viver a vida comum, e não anseiar pelo bem material demasiado humano, e vos digo: se fizerdes o mínimo, desde que em entrega a Deus, teu coração exultará! Ser comum é melhor e maior do quem exalta pela vã glórias das riquezas, coisas caras, e barzinhos ridículos de Pinheiros e Faria Lima, e que o teu coração, dado no parâmetro certo da caridade, amor, fé, esperança e doação, conhecendo os limites de teu corpo e de tua esperança, te façam ter boa vida e frutífera - desde que os entregue como santos dons perante Deus. Vede, quantos se dizendo conhecedores e fiéis ao desejo de entrar ao Céu que se perdem em ter tesouros na terra e acumulando riquezas, desfazendo mãos, e não olhando com caridade, piedade e misericórdia - esses, sim, assassinos da verdade absoluta de Deus, se fazem contra a paz, contra os anjos, e contra a voluntas donatio pacem que Jesus nos pediu na Santa Regra. E é contra esses que devemos rezar mais, pois destes porcos hipócritas, nós - os sujos, degredados, ridículos, bestas, incoompreensíveis e malditos - seremos os juízes, advogados e intercessores.

5 - Da morte, futura ausência e aspectos gerais;

Ao olhar no espelho me vejo esvanecer, então agora me preparo para a memória de ser algo um dia no imaginário popular ou de alguém, guardo-me para ser um abraço num recôncavo, uma lenda de algum bar, um ajuízado falador de palavras bélicas, ou apenas ser eu mesmo que habita levemente entre a dimensão de ser e estar.
Lá fora tem um Sol Laranja que brilha, e ele grita meu nome. A cada dia ele chama para viver e seguir, abrindo seus braços e caminhos para que eu vá para o lado iluminado. E os olhos brilham quão constratados ao mesmo Sol. A minha íris esmeraldina, logo menos não existirá mais, e meus pulmões não mais estarão em respiro. Os lagos aparelhados pelas árvores cantarão uma canção que ninguém ouvirá - da qual eu serei maestro, e dias depois que eu me chamar saudade, aí sim hás de saber que não mais estarei eu entre vós, e não se pertube, crede em Deus e saiba que só fui até onde minha mão alcança; como sempre. Sim, meu irmão, estou me despedindo de uma luta que não quero mais lutar, pois para mim é mais proveitoso não lutar, do que ter que lutar e se cansar mais.

6 - Conceito final e benção;
Deixo-vos no Sagrado Coração - belo, justo e épico; e que Ele vos abençoe e te guarde entre os Santos, Justos, Únicos, Primeiros e Mártires. Que Deus te faça bom e forte. Que Deus unifique suas estradas até a reta final da caminhada. Que Deus nunca pese Sua destra contra você, que tenhas nessa vida toda a alegria possível. E seja forte, por tudo, por todos, com tudo, e com todos.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

II Carta a Kamila.

 1 - Prefácio e Saudação;

Marcvs, escriba e propagador da letra, no pensar e magistério, para Kamila, yalorisà de Oyà. Que a Virgem Doce Mãe das Candeias te livre de todo o mal, injustiça, iniquidade ou presente tristeza ou duvida!

2 - Felicitação e admoestação;
Ah! Me exulto em tão boa resposta, e preceito posto. Aceito de bom grado novamente tua consorte para me dar a motriz, e tu, ouvindo meus ganidos de dor, como Simão de Cirene me ajuda a andar e seguir. Amiga, te rogo no Sagrado Coração que seja sempre em paz tua vida, teus caminhos, tua voz e tua bondade com este pequeno pedaço de escândalo e escárnio que vos escreve - rogo-te mais: como futura yalodè (é assim que se escreve? Nem me lembro mais...), que tenhas sempre o senso de justiça apurado, a bondade em abundância, o corpo fechado, as misericóridas abertas e principalmente a caridade como força motriz de toda função e ação que hás de ter, e acima e adjunto a isto: que seja a verdade sua mãe e o amor teu pai, e assim, teu sacerdócio, tal qual Melquisedec se perpetuará na boca dos que te virem e ouvirem.

3 - Preparos geraes para o fim; justificativa do modo (forma) de vida;
Mãezinha, quando for minha hora de morte, te rogo neste expresso capitulo meu desejo: Enterra-me na minha zona leste que tanto amo. E enterra-me com o bornal (poncho) que lhe mostrei, com o capuxo posto em minha cabeça e abaixo dele a camisa do corinthians que é a minha favorita. Se possível dá minha corrente com minhas medalhas ao primeiro irmão de rua que virdes pela frente, e arruma minha barba como gosto que ela fique, e deixa-me partir com os pés descalços, sem sapato ou meia. Guarda-me em excelsas memórias, e deixa que a terra fria crie raízes em meus cabelos, e meus olhos fechados possam ver o mundo, e descansando de uma tristeza e amargura, abrindo meus olhos para uma nova vida, possa eu sorrir e glorificar ainda sim mais um minuto, mais um momento, mais uma hora aonde se faz sentido estar em paz de lá do lado do lado de lá. Diz aos meus que fui herói, que venci, perdi, caí e reegui. Fui logrado, e dentro de mim guardei o peso de cada segredo, lágrima, alegria e euforia. Fui rei e escravo, fui mestre e escriba, profeta e ouvinte. E não me incomodei em estar por cima ou por embaixo - tanto pelo contrário; tudo o que fiz foi pensando em ser feliz, dar felicidade, e obter satisfação. E a todos, diz que fui ninguém de importante, apenas pó de poeira, resto de subêjo, fim de feira, e os que se revoltarem, estes saberão de mim - e eles se erguirão para falar meu nome com carinho, os verá.

4 - Sobre o Segredo;
Guarda teus segredos no oculto de teu coração, e revela-os somente a Deus, e no máximo aos que merecem teu respeito e tua confiança, e trabalha-os, evolui-os, e usa-os como régua e alicerce para ir além; e não tendo medo, guardados e bem distribuidos, irás ver que eles crescem, frutificam e ficam em paz e em força. Sonhos são diferentes de segredos sim, mas, uma hora um sonho se torna segredo, e um segredo mau fecundado se torna sonho. E deixar um sonho morrer é abortar uma idéia que não se teve a chance de se apresentar decentemente.

5 - Propagar a tudo e todos;
Hastear um pendão (bandeira) é algo de extrema dificuldade. Mas é feliz quem propaga sua idéia/ideal, e leva com dedicação tal feito. Por isso rogo a Jesus Cristo, redentor do mundo, que você possa sempre ter fôlego, coragem, fé, ânimo e amor em tuas feituras, e que dado o sentimento de desprezo, medo, ignorância, apenas continue a fazer seu trabalho bem-feito. Veja: eu escrevo tantos anos aqui, e ainda sim, por mais que sejam poucos, minha palavra ainda é perene e se faz necessária - e ainda me julgam profeta!

6 - Sobre o cuidado e o zêlo;
Cuide de quem precisa ser cuidado. Parece óbvio, mas o óbvio precisa ser dito - e essa afirmação se atrela com o que vos disse sobre a caridade e suas diretrizes. Tenha zêlo com suas coisas, suas pessoas, seu credo, e sua felicidade. Zele por quem zele por você, e entregue uma folha bem preenchida como relatório justo de tua conduta, sem tirar e nem por um ômega. E a justiça, quando lida na tua sentença, será computada em teu favor, pois tu será nova e renovada entre tudo e todos, e transcenderá como o Sol se o bem fizer, o bem manter, e o bem aflorar; assim eliminarás pouco a pouco o mal do mundo.

7 - Conservar a eternidade do Infinito;
Ser sacerdote/profeta/oráculo é conservar o Divino em sua Infinidade. É estranhamente explicar o que não se explica, amar quem nos Ama, e mostrar a parcela boa da vida após a vida enquanto penamos por aqui. Por isso, ao falar de Deus e suas obras e caminhos não economize palavras e teorias. Seja sempre alegre em demonstrar - mesmo que ineficaz  - quão grande É, quão misericordioso É, quão belo É, e quão miraculoso É. E quanto amor tem.

8 - Agradecimentos finais e benção;
Obrigado, por ter tão prontamente tido comigo. Guardado-me em tuas orações e ter feito e falado coisas tão edificantes que me fizeram animar tanto pro fim como para o começo. Agradeço por ter tido tempo em tanta coisa verdadeira que sei que desperdiçou comigo - peço-te perdão por ter sentido dor, não sou mais o jovem que caminha pas bandeiras. Agora ando pouco e prefiro ficar deitado para não passar mais mal ou sentir dores lancinantes. Que Deus te abençoe e te ponha entre as Justas, Únicas, Santas, Virgens, Mártires e Sibilas. Que Deus te abençoe e te faça boa mulher e boa pessoa. Que Deus te abençoe e te guarde no Seu sacrário. Que Deus te livre de todo e qualquer tipo de mal. Que Deus subjulgue Satanás e sua infâmia longe de ti. Que Deus te conceda uma boa vida. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Hurt.

 Não se importe se eu morrer hoje.
Celebre minha história, como sempre eu a celebrei.
Conte meus feitos, reúna meus amigos, e cada um, em paz e em vêz conte meu legado, que ouviu de minha bôca.
Sentado, do lado de fora, honrarei cada um de vós, sentado em minha amaldiçoada memória. Direi bôas palavras, juro. Serei vossas testemunhas diante do Santo Tribunal, os guardarei e os amarei.
E vós, após minha morte, me amem de verdade ao menos uma vez em diante.
E não me abraçando, valorizem o abraço, não me beijando, aprendam a amar, não me vendo, aprendam a urgência em vêr quem se estima, e não ouvindo minha voz, aprendam a ouvir. Quando eu me chamar saudade, aprendam a usar a memória como alma e arma.
Estou indo embora, e não se importe, mas estou deixando pegadas antes que vocês digam que fui sorrateiro.
E eu, do lado oposto, guardarei cada denário que me destes e cada cana que me batestes. Segurarei o entôjo e armarei o sorriso entredentes, desejando cada vez mais a morte após a morte e o descanso da alma que intensamente amou demais, viveu demais, sofreu demais, e morreu em desâmago.
Cá a mim, resta o gôsto de veneno na boca enquanto durmo, e a vontade de pedir perdão aos que amo, e meu grito mais sincero de ódio aos que renego. Me torno inimigo das sombras, das luzes, da noite e dia, e espero em mim a hora de morrer; habituado, pois, ao centro do universo, aonde tudo recebo e nada consigo inflingir, restrinjo minha existência a uma básica sentença de não ser mais, do deixar para depois...
...Afinal, qual cousa boa faria se ainda vivo?
Encomendo esse resto de sopro, pois, a Virgem das Candeias, e ao Bom São Cristóvão, e que nessa travessia, eu aprenda ao menos que não há com quem contar.
E que de resto, nada nessa vida importa. E peço perdão aos que aborreci, achando que eles se importavam, pois a estes amei mais.

E o resto é o sino do Largo.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Beco do Mota.

Desce com o passo apressado, aprecia a visão, segue um cortejo desconexo, com as pessoas que se comprimem e não cumprimentam, desce o Sol do Céu e tange o zênite com a morte. Morre o Céu, morre o atropelado, morre as oito horas trabalhistas, morre um pouco de tudo a cada dia. A Igreja tricentenária mantém-se imortal comparedes de taipa de pilão, sensação de paz e morte e o acobreado entrando nas narinas. Há de ser.
Quisera eu imprimir um pequeno gesto meu nas paredes e espaços que couberam no universo dessas ruas e dessas casas, desses copos e dessas garrafas, e quisera eu ser um alguém que realmente fosse de parte inteligente e interessante para alguém, quisera eu ter sido mais um dos que contestam, fazem e apeiam. Quisera eu ser o nôme que se dizem antes de dormir, linha razonal de ser alguém benquisto e bem-vindo pelas pessoas que me acercam - sabem de mim, mas não sabem acerca de mim, dizem saber de mim, mas guardam o que eu posso ter dito, ou fingem lembrar, ou lembram até onde cabem. Eles falam muito e nada dizem, eles penam muito pelos pecados ao longo da vida, eles dizem que esquecem, ou dizem o que lhês convém, sendo que o jeito é outro.
Aprendi, então, que na morte não existe fome, dor, tristeza, ou raiva. Existe a paz - que busquei minha vida tôda.
Decidi, então, deixar meu nome nos ladrilhos do triângulo, aonde ninguém (há de) sabe(r), mas quando notar, verá a minha fuligem lá, no chão, paredes, varandas, sacadas, architetura, nomeclatura e acinzentar, ali serei mais (m)eu do que serei (por) vocês. E quando nas bases sólidas dos pórticos das Igrejas ouvir o choro de quem pede o trôco, eu irei sorrir e deixar minha alma tão solta como o vento aonde os pássaros se voam para uma eternidade. Serei eu o que mais quis por mim, e pela vontade que me cabe, e deixarei escrito nas paredes o que vocês nunca quiseram ver, mas em tempo hão de encarar a realidade.
Há sangue inocente sendo derramado. Jorra-se água e vinho. Ao ler isto, será tarde demais.
Para os que achei serem meus, retiro o cargo de se encarregarem de algo, ando a perceber que faz quem quer, e ninguém tem motivo de poder incubir missões a ninguém. Ninguém é dono ou senhor de ninguém, tampouco pode se deixar preceitos ou missões post-mortem. Ninguém está nem aí pra porra nenhuma, e os poucos que estavam, agora, estão começando a deixar essa terra, e partir para novos rumos, novas histórias, e novos sentidos.
Há dias a vida deixou de ser vida.
Eu já me decidi, sem reconsideração.
Quem diz entender apenas vê a carne, e não sente o espírito, e por isso julgo de ser burrice. Julgo de ser idiota, julgo de ser digno de maldição, julgo de ser réu de morte, porque se cuida de carne, deve se cuidar de alma, de espírito de essência, não se deve limitar o cuidado na carne, pois a carne padece, mas todo cuidado dado a alma, seja por alento, alegria, ou conforto, este sim é digno de júbilo e de vero agrado a Deus, pois a alma não se corrompe ao descer da carne na terra fria. Os dias passam, e a dissimulação torna-se cada vez mais forte e visível. Em um quarto, uma pessoa chora. E no frio, a salvação não vem em forma de martírio, enquanto os corações duros reinarem.
Ao tocar o sino, cada fração minha há de deixar esse tempo e esse espaço, formando um novo local, e um novo minuto para minha existência, e aprendi (e continuo a aprender) a cada dia que passa que por mais que as pessoas digam que estão com você, não estão. Você apenas corre tão sozinho e cansado pelos caminhos sem ninguém a te dar alento, e a te dar seguridade. No final nada disso importa muito, e esta crônica de alerta social entona desabafo, e ninguém há (de ter questão) de entender.
No final, as pessoas só ganham carinho, valor ou um amôr (digno) quando morrem. Talvez seja esse o sentido: Morrer para ser (finalmente) amado de verdade.