quinta-feira, 10 de abril de 2025

Padaria.

Se sinto falta de algo, é de teu pouco tamanho, e de teu cabelo escuro, que por horas me enforcava, e por horas me incensava e me deixava dormir como um rei. Do cheiro in natura de sua pele, e da naftalina que emanava que você nunca sente porque nunca entenderia...
E de verdade, se calo o estreito que comprime meu peito, não de mal é; pois, apenas ainda me excluo como sempre me excluo de todo o tudo, pois sei que não pertenço, e qual a receber o prêmio de consolação, aguardo ansiosamente. E digo isso não por maldade - pois a palavra não dita, mulher, é lâmina que tange, e não me extenso em explicar, porque estou cansado; e a cada cansaço meu, estará vós o dôbro - mas entendo a condição e ainda sim a aceito. 
E de ti? Silêncio.
O vago silêncio monstruoso do Leviatã que ronda até hoje na beira da minha cama, ou onde quer lá que eu durmo, com sua bocarra satânica a me espreitar; e eu, anti-argonauta, Caronte por natureza navego não por ter mêdo, mas por necessidade tênue que me extingue, e se me foge a dita palavra, peço que gentilmente olhe minhas atitudes, pois ali provavelmente resida mais do que qualquer peixe que saia de minha bôca. E minha bôca, em qualquer situação resulta em chamar seu nôme, tanto como mulher, como mãe, para que me escondendo embaixo da sua saia, eu possa me refugiar do mundo em suas coxas e suas mãos. E que na fumaça dos tabacos e incensos, eu cada vez me esconda e morra dentro de você, para que antes que eu diga ou profira mentalmente a sentença, seja você a juíza que ostentando em punha a vista espada, execute. Não por ser me submissa, mas ó mulher, pelo fato de ser minha, pelo fato de segurar-me em teus braços, e natimorto, desfalecendo, e perdendo as ribeiras de minha carne, você possa, enfim, ver a luta até aqui e suturar minhas feridas, e lutar por mim como ostensóriamente* eu tendro a lutar por vós.
Eu devoto minha vida ao seu legado, mas você não vê.
Por mais que saiba de meu desejo de ir embora, permita então que antes que eu vá que o seguro entre nós seja o trato feito e bem calculado - dito isso, ao menos encanta-se em mim mais uma vez e decanta essa alegria e salva-me deste mundo quaresmal de dôr aonde Superman e suas ideias tão loucas parecem tão necessárias. E digo vos, não por necessidade, mas por um apêlo, aonde meu coração tão pequeno estreita em suas mãos, e o esmaga sem perceber ao ignorar ou descasear situações tão pequenas a vós, mas tão grandes e significativas para mim.
Estende, logo, seus braços e me esconde, e assim como nus, deitados n'quela cama, no pôr-do-Sol, com a luz se pondo e doirando seu côrpo, e os ônibus fazendo uma sinfonia de buzinas e freios, me guarda no seu sacrário e ouve o que não consigo dizer, aquilo que me faltam tôdas as palavras, mas apenas meu gesto diz tão tenaz, e você, única sibila dotada de mim, sabe dizer em precisa forma e textura, e dando-me a chancela, guarda-me.
...porque mesmo longe, e você nunca percebendo, mulher, volto para você. Pois é tudo por você.

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* = Referência a Santa Clara de Assis; o Barra-Vento do Senhor.