Espero pelo meu bem.
Estou d'outra margem do rio que repentinamente cruzou.
Será que a água corrente, de fato atormenta, ou seria a turvação das barcas que lhe afligem? Será de viração o vento que afasta, ou será Ordem Celeste, que os braços não se abraçam? Deve de ser morte, frio, peste ou mágoa.
Que não tenha demora, mas que venha. Que tenha pressa, mas venha a safo.
Fiz um tendal, apôsto três chamuscas: uma para a comida, uma para o luzeiro, e n'outra, para esquentar seus pés na entrada. Peguei suas comidas favoritas, trouxe seus mantéis favôritos, e guardei meu melhor cheiro para desaguar no seu abraço. E a mais devota Ave Maria rezei a cada dia, cada vez mais forte e nociva, para que a Mãe se compadecesse. Desci até as estrêlas, e subi até os mares, e afogando meu corpo no gélido corrediço, fiz as pedras me solavancarem, e fiz meu corpo âncorar. Peixes dançam ao meu redor, e lavo-me como se não tivesse pressa.
Vêde, ó rio, que por teu comprimento, em quatro pedaços te cruzava, mesmo sem força, mesmo gélido, mesmo sem barca, mesmo sem ter com o quê. Mas como mal posso comigo, inflijo as dôres contra ti. És imóvel e corre com depressa fôrça e raiva, e enquão lavo as roupas, desescamo peixes, lavo as pratarias e águo o ginete, és de vileza. Vêde, que separas o amor em quatro pedaços, mas se tal fôsse minha força (não só), lhe dobrava pela fôrça que ergo, e da cólera que padeço.
Há uma fumaça, tal qual a minha, na nôite que se escureia. Ela é fumegaz e se nota na outra barragem do rio. Pode ser de salteadores, de heróes, da comitiva, ou de pregadores; será que hão de ver que aqui também fiz três chamuscas? Sê bendito, Deus, que após tantos mantéis para coibir o frio, amanhã veja o amor me repousar em seus braços; e ouve-me, Mãe, trouxe até a lã de novilho para ser travesseiro para seus cabelos negros e sua cabeça agitada.
Mas um dia, que agora começa garoando. E que com rapidez apaga as chamuscas. E que com determinação faz um vento que derruba meu tendal. Com o vento, os mantéis se dispersam pelos ares... o cavalo, assustado com os relâmpejos, apenas foge para a barragem acima, e eu, sem ter mais lágrimas para chorar, deito sobre mim a lã de novilho.
Não demoro, meu amôr, logo chego.
Sê bendito, Deus Eterno, pois é só a água até os pés, pois o corpo tôdo já me encharcou por tua chuva. Chego-me a tal ponto que se misturam gôtas d'água celeste com minhas lacrimosas orações, enquão a água deita-se em meus jôelhos. A lã, em minhas costas agora toca o rio que estranhamente cessa a corrente, parecendo estio ou hora de cheia. Olho e pareço chegar mais perto da outra margem, enquão a lã chega pela sua metade molhada e dobrando o pêso. Respiro e não choro, pois meus olhos estão no nível da água. Faço-me âncora para te esperar, amôr, quando voltar. Te fiz três chamuscas, e morrendo de saudades me enrolei na tua lã de novilho para te abraçar uma última vez e te ter em lembrança. Agora, sou âncora posta submergida de vontade própria. Sou irmã das pedras cheias de lôdo e dos peixes que serei repartida como refeição, e com minha saudade e tua ausência, faço daqui minha morada.
Não tarde a voltar. Posso não estar aqui, mas estou aqui.
Epitáfio do Marcus Queiroz. Apoia esse blog, faz um pix pra nózes: marcusvini15@hotmail.com
sexta-feira, 28 de abril de 2023
Красно солнышко.
quinta-feira, 20 de abril de 2023
Lost In The Supermaket.
Um ano depois é muita coisa.
Ainda não sei dizer, se estou vivo ou morto. Sei que meu livro sai agora em maio após umas séries de desventuras e de fazer-saber e fazer-conhecer. Sei que não durmo mais no chão e tenho paz de espírito - ainda sonho e penso na morte de forma afã, mas tenho ainda o tino de mexer bem com a lâmina que trago oculta em minha mão.
Eu não sou herói, sou escriba. Dos que escrevem eximiamente sobre tudo, e no fim não te deixam entender nada. E já queimei o notebook com o cachimbo. E já mandei rezar uma missa. E já falei de menos. E olhei demais.
A água de beber é diferente da água de candinhar. E na anágua que ela veste, na têz da noite com os corpos no escuro, eu quero me esconder. E aninhado, aos olhos acastanhados que vermélidos, me dão alento, navego suspeitosamente em seus cabelos negros e penso em mim como escriba, daqueles que fala dela sem que ela perceba que eu cito-a. Diz Ednardo na música: "Pra menina meio distraída, repetir a minha voz...", e assim, quero permanecer. Como alguém alheio, mas não presente. Como rei sem trono, casa sem arrimo e olhos que hordam a cegueira.
Uma vez eu conheci um cara que foi um herói. Ele me disse que era dos boêres, e que lutou na Índia. Eu nem acreditei e nem desacreditei; Na verdade apenas ri - eu só pude rir. Conheci também uma moça que chorava lágrimas de prata, e que suas mãos eram mais quentes que água em ebulição... ela tinha nôme de pedra, talvez jade, talvez esmeralda, ou turmalina. Tanto quanta outra vez conheci um irmão de rua que falava latim, aramaico, grego koinè e hebraico-velho; me confidenciou que era grã historiador teológico, mas que a tudo largou para viver o que realmente desejava (as coisas de seu coração), e por isso perdeu tudo. Conheci uma mulher que se prostituía por medo da solidão, uma boliviana que pagou 50 mil em um anel, e trocou por uma casa na Bela Vista, e depois por dó (sic) ela se casou com o dono do ap golpeado e foi a melhor coisa que fez. Vi filhos de amigos nascerem, vi pessoas amadas morrerem, vi a tristeza e dor em cada coração e celebrei e fui rei com quem celebrou cada alegria de forma ferrenha. E isso me manteve vivo - por mais que ainda esteja dançando um tango errante com a morte; parando apenas para ir no banheiro e comer um pastel.
E em um ano depois, é muita coisa, nem dá pra contar tudo nesse texto, apesar de já o ter dito o suficiente...