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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Vida Me Assusta(?)

 Após lêr o têxto da Poesia Viva e Morta, a sua pergunta me fez meditar muito; e ao conseguir por as partes nos pontos e depois por completo, me lembrei porque fiz de minha casa um eremitério, e minha jaqueta a minha concha: o mêdo.

Assim como na música do Sá & Guarabyra (Por que que eu me guardo do mundo assim escondido? É coisa que só pode explicar quem vive o que eu vivo), o texto de Doña Jordana me tangeu num nível preocupante: Me alembrou de que eu ainda estou vivo, e afora as preocupações quotidianas eu ainda hesito, e ao olhar o estreito vão que separa a causa do efeito, lembrei dos mêdos desde quando era garôto e o porque da vida me assustar.

A vida me assusta quando olho para os lados e percebo que tenho poucos amigos, e desses poucos são raros os quais compartilhos os mesmos gostos e mesmas sentenças - motivo que até expliquei n’outro texto ido. O futuro me assusta não envelhecer ou pôr mêdo da morte, mas por anseio em perceber que me encontro em estreito caminho da solidão, pois daquilo aonde os caminhos não se cruzam e bôcas não conversam; a escrita posta em letra alivia - momentaneamente.

Ademais, o Sol tão quente que cozinha os miolos; cerveja choca; gente que não sabe ser educada; domingo as nove da noite; fumaça de pastel recém-frito; churrasco bem passado; meu time quando perde; e emprestar um livro e não devolver - tudo, tudo, tudo isso, invariavelmente me causa um medo não por estar envelhecendo ou ser (mais) introvertido (que já sou), apenas por sentir o rumo das situações, e ver a vida como se desdobra e não pôder mudar as atitudes, têmpos, e questões que nos tangem enquanto pessoas. A incapacidade de mudar diante do que acontece ao meu ecossistema.

Se por alguma vez me tendro a não dizer nada, peço perdão - talvez eu não me sinta afã para falar alguma pois meu cérebro fervilha. E se ele trabalha, a bôca se cala e o peito gême de forma inexorável; abrindo-se no vão da alma um corte que tange e não sangra, fere mas não mata. Agoniza. Quando escrevo por maneiras e metodologias, discorro de mim em letras cursivas e retilíneas, e lembro muitas coisas - principalmente das quais gostaria de esconder no recôncavo mais denso de minh'alma. Escrevo mais um tanto, e lembro de um passado da vida, as questões que esbarram no presente, e o anseio do futuro. Eu estou apenas processando fatos, como um microcomputador; e por isso, me pego a transpor para o papel o que minha bôca nunca diria, talvez apenas para os amigos mais amigos de tôdos os amigos, mas não cousa alguma que se diz a Pai e Mãe - cousa que até esses dias até pensei em dizer para minha mãe: não critique a distância que você causou; mas me lembrei que quase nunca ela me ouve, e tampouco entende o que eu gostaria de dizer com isso - passaria eu apenas a dizer tudo do peito, e ela arguiria com um vazio que lhe é tradicional. E por isso, a isolação se fêz presente e danosa. E com isso, entendo mais de mim.

Percebo então, que quando escrevo, tenho tôda a coragem que a vida tentou me roubar em suas atitudes. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

If I Can Dream.

 É notável o quão triste nos tornamos ao longo do caminho, e nossas lágrimas, assim misturadas com a poeira, a barba, fundem-se no espaço tempo: torna-se então o tudo e o nada; e deste âmago - agridoce veneno amêndoado que destoa de nossas entranhas - por ora tiramos a esperança.
...mas, esperança de quê? A ser franco, também não sei.
Meu côrpo, tão místicamente fundido a sujeira da estrada e ao mau-trato da bagagem, nada anseia do que o descanso, e além do descanso, o desejo. Nada me apetece o palato, tange a bôca, brilha os olhos, e exulta minh'alma do que pôder têr, enfim, o atracar do pôrto - e meu côrpo, agora saveiro, desgastado e cansado da viagem, parar.
Dos momentos tristes, de chegadas e partidas, dos idos, das acinzentadas coisas, dos talvezes, e dos esquecimentos, revelias em que fui pôsto e dos sopé-de-morte, eu escrevia, como o faço agora, mas antes do escriba, havia o que via, e era quem mirava. Eu era um mirante antes do tempo da pena e letra. E por vezes olhar me salvou da destruição, antes que eu aprendesse a escrever.
E das passagens, paragens, pradarias, ruetas, bosques, brônquios, e pontas-de-praias, guardo lindas vistas, das quaes sei de onde são e para cada lugar as pertence. Mas eu, transeunte transitório, levei em meu peito um pouco de tudo, e espichei um tiquinho de mim em todas estas quadras pintadas por Deus, e nelas, permaneço. 
Da mágoa, retorço, faço fundição e olho o universo como antes, e finalmente, cansado, me ponho a não pelejar, mas apenas levantar e seguir, deixando o silêncio como crônica ou testamento que faço agora denunciando o descaso, ocaso, e despeito, mas principalmente, o quão fascínora são as pessoas que habitam nesse mundo.
Quando me falta a atenção, o abraço, a mão estendida, o beijo, e quem me ouve; dedico-me piamente a encontrar dentro de mim a vista daquelas pedras na praia, ou aquele cheiro de mato molhado depois da chuva na chácara, tanto como as fôlhas que caiam na floresta anseiando por um nôvo renascer. Quando me falta algo, transmuto, elevo, torno a ser, e esqueço do que dói e me ponho em outro local, outra estrada, outro som, outro minuto - e desde lá, meus tempos tão pequenos, onde nem me era explícito a dimensão e profundidade de ser, eu sempre me refugiei nas paragens e cercanias, para que assim eu pudesse ser. E antes de ser escriba, eu era espectador. Eu via. E no que via, por poucas vezes me fundia ao quadro. E pela janela do quarto, pela janela do carro, pela janela do claustro, pela janela do carmo, pela janela do alto, eu via. E via muito. Longe. Longe de tudo isso, e por vezes (ainda pequeno e inocente) rezava para Deus que queria ser um pássaro para sair dali fugindo rápido e ligeiro, como que brincando no ar, e deslizando entre vôos e giros, estar livre e ganhar, enfim, a paisagem que me libertava a vista e a alma retorcida. 
E ali, e agora aqui, me mantenho. Cada vez mais longe de você.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

A Pair Of Brown Eyes.

 Sinceramente, não creio na certeza do que cresce e floresce. 
Cada vez mais creio no que minha mãe me nutriu desde cedo a crer: que eu não teria amôr, que não saberia o que isso seria (ou como seria/funcionaria), e como relógio com deficiência psicomotora, estaria eu fadado a chegar cedo demais ou tarde demais em toda história que me acochasse, sobrando pra mim a dita migalha. Como fadado a ruína e crescido na pobreza, guardei no âmago de meu coração os maiores desejos de um homem enforcado, e nele fiz meu trapiche e caserna. Nos dias frios, as estrêlas eram as confidentes, e a Lua, quando aparecia em formas cuniformes, era a musa de minhas trovas e serestas. E quando havia frio, os cobertores eram o abraço; e no calor, o vapor quente da natureza era o clima que nos excitava. 
Hoje, mais uma vez, é de solidão. E apenas isso.
Aliás, como se percebe que se chegou tarde demais? (não há relógio que determina, e é isso que atordoa e dói)
Apenas quando algo se consuma? Ou quando seu peito se arde em ais e vendo a oculta efíge daquilo que os olhos velam, você simplesmente esquece quem é, o que veio fazer, e porque está ali? 
E aqueles pares de olhos, que almejei minha vida toda, de repente não estão mais lá - e sendo franco, nem sei se eles alguma vez estiveram, e talvez tenha sido uma busca vã e fadigosa por nada. E como diria Dona Márcia: mais uma vez construí minha casa na areia. E tôda a busca, tôda a verdade, tôdo o sonho, tôda a esperança, tôda a fé, tenha sido tardia demais; logo não me resta nada mais e nem nada além de sentar no meio dessa estrada.
Sim, sentar. Parar. Fim. Corte abrupto.
Sacudir o pó das sandálias aonde não se é benvindo, e seguir para algum lugar só meu, aonde eu possa cegar esses olhos, tanger em tenaz viva de fôgo meu coração, e calar aquilo que pulsa jorrante ao peito, a mente anseia e o corpo clama. Matar o homem novo e renascer o velho. Não mais pulsar água e viño, mas apenas entender a vida como é e segui-la de maneira cada vez nenhuma. Não havendo vida, não há o que doer.
Os discos, os livros, estão todos aqui, tôdos eles me dizem aquilo que me cabe. Tudo isso ainda (por curto espaço de tempo me pertence). Que se te procura conforto, ombro amigo, ou descanso, mais fácil contar com o vazio do que com quem você está amplo e apto a entender e viver. Não se preocupar e deixar aquilo que mais dói e tange do que faz bem, e parar de pensar tudo por aquém não pensa tanto - sem escusa, sem justificativa, sem entrega e sem pensamento.
Entre a água e viño, escolho o copo que me anestesia e me deixa sair de mim, para num momento, trancado em meu apartamento, eu possa me sentir vivo, inteiro, e soltar um ris genuíno de alegria em meu peito desfigurado e em meu rôsto transfigurado, judiado da viagem até aqui.
Sigo, não por opção. 
Eu, sinceramente, termino e encerro aqui.
Um  afago nos Santos Cães da Rua, e meu amôr a tôdos os Irmãos Profetas da Rua que em seus abrigos, são mais sábios do que eu, e nas igrejas que fui, um pedaço de mim - meu coração, no Largo. E aos que se exilam, meu venerável e ditoso respeito cego de armas.
No mais, adeus.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Hand In Glove.

Mais um pesadelo, mais uma cama encharcada de suor, mais um dia. menos um dia. Mais um cansaço e mais um amargor para o coração já pesado.
E eram mãos que não se tocam mesmo em contato, beijos que se trespassam violentamente mais aprazerados do que afetivos, e sentidos que sentem outras coisas em vez daquilo que ousa sentir - ao canto, um corpo jazia, com sangue escorrendo do lençol. Esvanece e transfigura diante de mim aquilo que meu coração novamente se ousa derramar. Dizem os especialistas que é normal perder o coração... mas perder a alma e o anseio, do vívido estar e do viver e do falar, é totalmente perigoso e nocivo.
É sobre a demora, sobre o atraso, o caos, e jogar a bomba e sair correndo. É sobre ver o lance feito e sair andando e não pensar em um segundo em assumir a situação - demolir todas as crenças e todas as perspectivas e ainda achar que não se há problema, abrir fôgo "sem querer" e  não cogitar ao menos se deve socorrer. 
A omissão, é mãe de males inconvenientes gerados por uma ridicularização do ser.
Dói, transluze e passa, eles dizem. Mas eu não sei, eu não concordo. E pela enésima vez me paro distante, e vejo os cacos no chão, me preparando para pacientemente os resgatar e os pôr em ordem, mesmo que ninguém me pergunte, mesmo que ninguém me entenda, mesmo que ninguém me ponha em dedicação, mesmo que ninguém suporte, mesmo que de novo, entre os mares de gente seja apenas eu.
Outro dia vi um cara chorando na rua. Suas lágrimas pareciam lâmpeijos de cristais que desciam contra sua vontade. Havia um papel em sua mão - foto, letra, e algo mais que não pude ler. Mesmo de fone, pude ver que ele dizia algo, sua bôca denunciava algumas palavras que se misturavam com os cândidos cristais que jorravam de sua face. Hoje, ao caminho do correio, disse o fiscal do terminal que ele foi três vezes no mesmo ônibus, e apenas olhava a paisagem, como se aquilo o acalmasse de alguma forma.
Não ouvi os sinos, e vi cada pessoa estendida no chão. Olhei cada face opaca e me vi em cada um. Pensei em cada pensar e não encontrei nenhuma solução a não ser daquela que minha cabeça ecoa há anos. E no silêncio da vida, os passos começam a ser duvidosos, incertos, impacientes, e vacilantes - não que seja lá  coisa boa ou ruim, mas apenas coisa comum ou qualquer, de uma verdade que tange como um ferro quente e atordoa, e você percebe que aos outros sim, e a você não; e dada qual a censura da vida, a indagação gera um buraco que toma a alma e a consterna e a fazer gemer. Torce. Cidade ambígua. Desilusão. Os solos de guitarra no ouvido apenas lhe farão sentir anestesiados por minutos. O sorriso de receptividade parece mais vazio que nunca.
As memórias, os ditos, e os sangues que marcam a parede trazem histórias de durante e agora, mas não significam nada - e isso me atordoa. Assusta-me veemente (como sempre me assustou) que de uma certa maneira nada signifique e nada tenha um porque de ser, ter e viver. Poderia até dizer que sigo bem como sempre segui e vivo como sempre vivi, mas sei que seria uma grã mentira contra mim e contra a verdade em que me encerro; pois deixei um tanto de mim em quem encontrei, e levei uma parte dos que conheci - e entre as cicatrizes, não vivo. Existo.
Então me diga como eu devo "bater de frente" diante do colpaso, ver a vida com olhos cegos e entender que tudo de repente não passa de um eterno teatro de fingimentos - ah, a bôa-vida que quer se ter de alguma forma, e outrora repousavam em olhos de uma mulher chamosa que conhece as regras muito bem. Não existe fórmula, lhe adianto, mas há caminhos; e que nesses caminhos resultam em cheganças e partidas. E isso mantém-se imutável.

domingo, 11 de junho de 2023

Ao Homem Môrto.

E tu, homem môrto;
Nada leva além dessa terra
a não ser o ódio de quem te ama,
e o perdão de quem não te conhece.

Teus livros na parede não serão lidos - talvez doados,
sua amada amará outro amor,
teus filhos te oraram em despêito,
afinal, és homem môrto, de terra contra carne bruta.

Abre tua alma,
e esquece as vezes que você desafinou,
e estranhamente lírico, és tu;
Sobrepujado entre os altos Céus,
uma voz para cantar.

E tu, homem môrto;
Tudo aprendeu nessa terra,
incluindo as festas e as arguras,
e o abraço que acalmava sua animosidade.

Seu carro será trocado,
suas roupas irão para a caridade,
teu dinheiro tão bem guardado será gasto braviamente,
afinal, és homem môrto, sem carteira ou pensão.

Mostra sua petição,
emane o que de bom você já presenciou,
ricamente humano, foi você;
Estando longe da condição humana,
consegue agora desatinar.

E tu, homem môrto;
Não precisa despertar pra trabalhar,
agora não importa o que deve ou ganha,
só te resta até o fim do juízo descansar.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

MMXXII

 Mas gente do Céu, que aninho treta...

Este ano de fato foi o ano onde mais a porca franciscana torceu o rabo. Ao meu parecer, vi que esse ano não foi revelador, mas sim temerário, de grã vileza e de fôrça rude. Esse ano mostrou tanta coisa que, vemos face a face. 

(DISCLAIMER: Não venha até aqui com seus olhos positivistas tentar ler o que escrevo com alguma "aura" linkediniana. Aqui é mato - raw franciscan way of life, and such a well respected workin' class mate - e pretendo continuar assim por mais um tanto. Me vale a alegria de ser o que vivo e professo do quê viver uma ilusão ou flertar com estilo de vida incompatível, ou também como dizemos no populesco: "arrotamos caviar comendo mortadela.")

A vida nos ensina a ser francos, ter noção de justiça, re-considerarmos, e termos o entendimento que nem toda teoria é certa, e todo livro também possui seu inutilismo. Tenho receio daqueles que se escondem atrás de livros, alpendres, pórticos e arietes, e no alto de sua douta vida e grã sabedoria não descem para a arena para viver com gosto e agarrando sua própria alma com fôrça e altivez. Ah, que pena. Pena que seus livros te ensinem tanto sobre amor, e não ame; te doutrinam sobre misericórdia, e não faça; te fale sobre ter sensatez, e você tem falácias descontinuadas.

É mais fácil ser superior, né? Mas mais difícil é 'guentar o tranco da vida com todas as suas porradas e imperfeições e ter a cabeça tranquila no travesseiro que fez tudo o que podia, sem hesitar, sem pensar, sem murmurar e sem se conter por quaisquer barreiras que te façam humano e vivo/atento a todos os sinais de vida que o Criador te imputa ao redor de tua carne - fez com desespero e alegria aquilo que se prega em um evangelho vivo e imutável.

Seus diplomas serão papéis amarelados, sua ciência pode e será refutada, e seus momentos de "bom-vivant" serão mal-ditos pela suas costas. Te restará apenas o (parco) bem que você faz de coração aberto; você tão em pressa de viver esqueceu principalmente de viver. Que bandeira... 

Esse ano foi o ano que escrevi meu livro e o publiquei. Se der certo, a primeira meta do ano que vem é fazer uma tarde de autógrafos num lugar que gosto muito. Oro a Padre Deus que dê certo. Espero os rostos e as auras que tanto me fizeram bem esse ano para celebrar no ano que vem este momento tão belo em minha vida.

Ah! E me mudei. Agora o garôto da zona leste tá no Centro da Cidade!

Tenho medo da riqueza material e o que ela faz com a cabeça das pessôas; e dos que vi, meu coração até hoje dói por eles terem tão fascínoramente "virado a cabeça", tenho ojeriza das famílias de "comercial de margarina", tenho surtos coléricos ao ver pessôas tão felizes que batem palma pro Sol - a alegria de viver reina e se estabelece em meu pêito, e se a engrandeço de maneira exacerbada, me torno inimigo daquilo que carrego em meu ser; Deus que se manifesta no silêncio e vem em meu auxílio nas horas mais tristes aonde ninguém segurou minha lágrima ou me fez ombro amigo.

Houveram dias que houve silêncio. E quando apertava, rezava. E quando a reza não dava, chorava. E quando a lágrima secava, recorria como um desesperado aos pés da Cruz. E inexplicavelmente tudo dava um pouquinho certo - certo o suficiente para que eu ainda sentisse vida em mim, e no meu coração. 

Este ano perdi amigos, referências musicais, perdi família, perdi o amor, quase me perdi, trabalhei em lugares e profissões que nunca achei que faria, e mesmo longe eu estive perto - fui agraciado e reconhecido pelos trampos que fiz e pela força que exerci. E aonde fui, levei meu velho crucifixo de bolso com um Santo Antônio, e repetindo a fórmula que minha avó rezava, dizia ao me sentar na mesa: "Alto! O Sagrado Coração está comigo!". E quiçá por Deus, ou pelo meu merecimento, hoje estou num cargo bom, numa empresa boa, num lugar bom, com uma vida que ainda bagunçada, mas bem.

Esse ano foi um porre. E a garantia é não saber o que vem no ano que vem. A garantia é mais trabalho, mais cervejas, mais exames, mais leituras, mais sons, e mais silêncio; se retirar e aprender a morrer é uma questão de ordem.

Feliz ano nôvo, tilápios. Paz e Bem!

Do;
Queiroz, Marcus.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Prosa de Hospital #1

Escrevo, pois,
pelo simples fato de viver,
e minhas crônicas falam assim de tudo um pouco:
Da vida, da morte, dos dias, dos minutos, de tanta coisa...
Mas, hoje, ela fala da desesperança, e da falta de fé.
(cousa incomum atrás das letras que transcrevo)
Creio sim em um Padre Deus que tanto falo,
mas sei que hoje ele parece distante, longuíquo,
de forma inacessível,
e na minha atual forma estou a procurá-lo.
Você viu Deus por aí?

Sinto que quando me falta a fé é como se parte de mim morresse
[já estando eu ao sopé da morte, não sinto em difuso]
e errante, tento reavivar a alma minha que não cessa em ais,
entregando cada rincão de mim ao ser mais, ser menos, ser ser.
Tento entender o que se passa em mim eliminando cada ponto,
cada vestígio de tristeza,
e peço por vezes que alguns estejam comigo para eu ter força,
ora eles estão,
ora não, 
e isso me deixa triste e pensativo por demais.
E me recolho e me volvo a Deus.
e chorando, deixo Deus cuidar de mim, e elevo a Ele minhas mazelas, assim:

Deus, se podes me ouvir,
do trato que temos, daquele oculto em meu coração,
o nosso jardim secreto, vos rogo: 
deixa que apenas eu e você saibamos, e que apenas eu e você fiquemos,
cuida, daquela que amo, e ajuda-me a ir em frente,
e dá-me animo, os abraços, os beijos, os carinhos e a exultação,
salva-me do inimigo, e principalmente de mim mesmo.
Deixa no chão meus passos para que os que me procurarem possam ver
Segui, mesmo sem nada a entender, e com pouco a perder.
E abri a mão como abro mão da vida.

Agradeço, Bom Deus,
tudo até aqui,
mas penso comigo mesmo,
que já é bem mais hora,
de me reunir com você,
então me leva pra sua destra,
pois deste mundo já deu tudo o que deu,
e meu pranto minguou.

Mas imploro, Bom Deus,
que se houver ainda uma chance,
aquela mesma chance que te peço com os pássaros e peixes,
então me deixe viver,
e põe em mim nova vida, novo sentido, e força,
e que a dor não doa, e que o fogo não forje,
e eu imune a toda dor que me encerra
possa ser mais forte e quiçá feliz,
com a mulher que amo, 
com saúde restaurada,
com a vida posta em ordem,
com Você em minha vida
por Tua santa vontade imperativa,
amen.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Carta a Fillipi.

 1 - Prefácio e saudação;

Marcvs, escriba, para Fillipi, seus dois rebentos e adjacentes. Que a alegria de sua vida seja sempre esse combustível que queima em nossa alma. Evoé!

2 - Avisos geraes;
Escrevo em saudades. De um amigo, de um irmão, de um amigo que empresava comigo desde as idéias e piadas bestas até o mais sério dos assuntos e os guarda em seu coração como um cibório. Escrevo com a pressa de um churrasco do Gabriel(TM) com direito a cachorro de polo. Escrevo pelo anseio de sentar com vós e lhe dizer tudo e o tanto até aqui - deixa-me, irmão, rir mais uma vez, brincar mais uma vez, ser feliz, e debochar com os meus que amo. E nas nossas brimcadeiras juvenílicas, ao menos uma vez, eu possa me sentir imortal de alguma forma.

3 - Preparação para a morte;
Estou indo hoje para Alvim. Na verdade, enquanto lêes, já devo estar a caminho da volta para minha nova morada. E espero que o tempo seja bom comigo e com você. Espero que sejamos carinhosos com o tempo, e mais além: que a escrita seja a sua única arma, e que o seu sorriso em sair do degrêdo seja validado por suas meninas que lhe amam, e por quem te acompanhar do lado - e faço votos, pela Santa Madre d'Deus, que tenhas quem te ame, e te faça bem. E conta pra eles que eu também escrevia, mas não tão bem como você, e muitas vezes eu queria ter escrito com você, pois sinto falta dos amigos que me escrevem e aos quais escrevo. Tens músculos, mas tens cérebro e tem a lira e a pena. Usa-as!

4 - Admoestações geraes;
Guarda tuas filhas? Como lhe diria isso! Pai honroso e ditoso, tal qual o Bom José é tu, menino meu, e se ensinas tuas meninas de modo como pensas, o mundo lhas serão de fácil entendido e não serão confundidas. Pensei pois em lhe admoestar algo, mas não posso, pois sermos de mesma raíz e foz, temos o mesmo modo de pensar, por isso vos rogo, antes que o tempo não dê, guarda todos os nossos sorrisos num baú de prata, e sorri para mim. Prometo lhe sorrir de volta. Ria. Brinque. Deboche. Ouça um som. Ame. Chore. E principalmente nunca se renda e se entregue a cada causa, pois tudo aquilo que nos é feito de peito aberto e mente incisa, não nos será objeto de repulsa ou raiva posterior.

5 - Solidão;
Se me perguntas, digo que estou bem. Mas no oculto sabes que não estou. E isso me entristece. Mantenho-me de olhos abertos, e no meu oculto dilacero e dilato aquilo que nem as paredes confesso e me corrói a todo dia. E minhas lágrimas jorram molhando todas as langes. Me encontro na caravana de um beduíno. E o Sol é forte. Quem me oferta água?

6 - Resposta;
Pedes para que lhe peça algo? Que coisa pediria? Apenas uma, que seria a mais dificultosa: Constrói-me uma mulher. Menor que eu, de cabelos pretos, olhos castanhos, boca carnuda e de mil tatuagens. Constrói-me uma mulher que ria, brinque, fale asneiras e releve os meus erros como relevarei as falhas de construção dela. Constrói-me a mulher de coxas almofadadas aonde descanso o peso do mundo em suas pernas, e que pelo afago dela em minha barba eu não sinta por um segundo dor no corpo, doença, raiva, cansaço, tontura ou náusea. Constrói-me uma mulher que lute para me erguer como eu a farei ser meu hasteio e pendão - pois eu a farei. Constrói-me uma mulher que canta como um rouxinol da manhã aonde eu possa dedilhar minha viola, que ornada com a voz dela, fará o mundo ser melhor. Constrói-me a mulher de mãos boas para cozinhar, que prepare o frugal, trivial e o inovador, e que sem me por em pé de surpresa, consegue me fazer evoluir nas pequenas coisas - das quais amo tanto. Constrói-me uma mulher, do mesmo credo que o meu, que venha a missa comigo, e que comigo, seja mais do que nenhuma outra poderia ter sido; e se tu, ó ditoso amigo, puderdes fazer isso, vos louvo e digo que realiza o que ainda tenho desejo no oculto do meu coração.

7 - Sobre a felicidade;

E tu, mantém a felicidade como meta, e atinge-a; Obrigo-vos. Que teus olhos não se fechem até estar em paz e em graça com a paz e o amor de Deus e os teus desejos e sonhos;  Luta até o fim contra tudo que te fizer ou parecer inimigo, e mantém-se firme. Mantém-se com fé. Obra a esperança dentro de ti, e não deixa de jeito maneira que ela seja roubbada de ti. Guarda ela como tua terça filha! E assim, dessa maneira, somados aos teus dons, boa e justa vida sei que há de ter.

8 - Despedida e benção;
Te abraço e te guardo em comunhão. O meu abraço se extensa até Gabriel, Aninha, Nath, Migvæl, Tufão, Maiqvis, Wagner e os nossos. E diz que os guardo em mui carinho e mui saudade - Que Deus os abençoe e os ponha todos entre os Santos, Únicos, Justos, Profetas, Primeiros, Virgens e Mártires. A você, que a benção que lhe dou extensa até tuas meninas e to dou a prosperidade de uma vida boa, longe e livre de todo o mal. Te amo, estimado irmão. Guardo-te até a vista.

domingo, 1 de maio de 2022

Poema.

 Acordei agora pela madrugada. São quase quinze pras duas.

Sonhei com você, que usava com uma máscara assim como nos teatros gregos, que na forma sorria, mas abaixo da máscara você chorava e tangia a tristeza.
Meu coração contraiu, e eu me lembrei do bom tempo.
E agora, na madrugada que cai pela cidade, me pergunto: será que você também lembra de mim, e seu coração também se contrai?
Será, de fato, que você vão vê e não sente o amor que emana de teu peito? Que antes de tudo, o amor é a tríade da doação, da caridade, e do cuidado? Não sentes que você precisa ouvir a voz do coração e deixar a razão de lado, porque está faltando algo? E, que de tudo e de todos, o seu amor por mais que tente o silenciar, ainda está aí? E que esconder esse amor ou silenciá-lo também está a me machucar?
Tenho passado dias difíceis, mas Deus tem me aliviado o peso com seus anjos e santos. Você pode não estar passando por dias difíceis, mas sei no teu coração que eu ainda estou volta e meia circundo teu pensar. E está tudo bem, também está no meu. E, por favor, vêm-me-vêr. Ando precisando de você mais do que imagina e numa proporção drástica; tenho tanto a te contar daqui do cativeiro que você não imagina das coisas que ocorreram - as boas e as ruins.
Nós nos cuidamos, nos protegemos e batalhamos um pelo outro desde sempre, se você me lê, te peço que venha ter comigo com certa pressa, não só para eu ter um bom dia, mas para aliviar um pouco e extenuar o peso da vida. E se você quiser, ainda tenho guardados (e acumulados) todos os chameguitos para você, desde massagens até cafuné na cabeça.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Elegia.

POR FAVOR, não ponha carga maior em meus ombros. Tampouco olhe em meus olhos com piedade ou vã misericórdia - se não te pode deitar-me em teus braços, ouvir o que digo, ou tampouco prezar pelo pouco que tenho, não me sobrecarregue.
Se julga algo, ilustre, pela tua libra deve dar o peso justo ao que é certo. Se você infringe o peso ou exonera o erro, então você erra. Se você erra, então vai e repara o erro - é assim que eles ensinaram no meu entorno, reparar erros e constituir novo momento.
Ao menos entenda, e se não puder entender tente. E se não puder tentar se dedique, e se a dedicação não for suficiente, esforça e seja exímio, como fui.
De fato, eu, criança solta e doida pelo mundo não reconheço o que me cega, mas deixo minha reminiscência em cada pedaço que passo gravando meu existir no mundo. A cada lugar que passo deixo minha essência, riso, deboche e palavra; e aqueles que passaram após a mim deixaram enunciado que me viram, me sentiram e me viram em locais aonde me eternizei. E quando eu for embora, sei que deixarei cada local meu com minha marca impressa, e por mais que a boca não assuma, serei o tormento do pensamento, a lágrima solitária, e o nome preso na garganta. Serei o mais belo pendão hasteado em algum tendal.
Mas, sinto cada dia que passa que não deveria estar aqui. Que talvez eu deveria deixar de existir. Devesse eu, de fato, deixar essa caravana.
Quando eu me chamar saudade, deixarei pontos mais fechados do que abertos, pois não guardei para ontem. E quando os sinos tocarem, os pássaros aparecerem, o Sol nascer, e quando o vento derrubar, será a recordação: não será teste, nem coincidência, e nem a vida. Será aquilo que espreita, e finge não se dar conta, quando eu me chamar saudade, levarei na mão um terço, e muitos calos dos pesos e barras.
No fim, pelo visto não importa o quanto você é bom, mas o quanto você aguenta as tretas e ainda dizer que está tudo bem - mesmo não estando.
No fim, não importa o quão fazes de boas ações, ou aquilo que tem velado teu coração; vale o que te julgam e te cabem necessário.
No fim, não importa o que você pede ou considera: você é condicionado a aceitar o que subjugam, e dizer amén.
E assim, passar para depois parece tão fácil, de comum fazer e explicar. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Hurt.

 Não se importe se eu morrer hoje.
Celebre minha história, como sempre eu a celebrei.
Conte meus feitos, reúna meus amigos, e cada um, em paz e em vêz conte meu legado, que ouviu de minha bôca.
Sentado, do lado de fora, honrarei cada um de vós, sentado em minha amaldiçoada memória. Direi bôas palavras, juro. Serei vossas testemunhas diante do Santo Tribunal, os guardarei e os amarei.
E vós, após minha morte, me amem de verdade ao menos uma vez em diante.
E não me abraçando, valorizem o abraço, não me beijando, aprendam a amar, não me vendo, aprendam a urgência em vêr quem se estima, e não ouvindo minha voz, aprendam a ouvir. Quando eu me chamar saudade, aprendam a usar a memória como alma e arma.
Estou indo embora, e não se importe, mas estou deixando pegadas antes que vocês digam que fui sorrateiro.
E eu, do lado oposto, guardarei cada denário que me destes e cada cana que me batestes. Segurarei o entôjo e armarei o sorriso entredentes, desejando cada vez mais a morte após a morte e o descanso da alma que intensamente amou demais, viveu demais, sofreu demais, e morreu em desâmago.
Cá a mim, resta o gôsto de veneno na boca enquanto durmo, e a vontade de pedir perdão aos que amo, e meu grito mais sincero de ódio aos que renego. Me torno inimigo das sombras, das luzes, da noite e dia, e espero em mim a hora de morrer; habituado, pois, ao centro do universo, aonde tudo recebo e nada consigo inflingir, restrinjo minha existência a uma básica sentença de não ser mais, do deixar para depois...
...Afinal, qual cousa boa faria se ainda vivo?
Encomendo esse resto de sopro, pois, a Virgem das Candeias, e ao Bom São Cristóvão, e que nessa travessia, eu aprenda ao menos que não há com quem contar.
E que de resto, nada nessa vida importa. E peço perdão aos que aborreci, achando que eles se importavam, pois a estes amei mais.

E o resto é o sino do Largo.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Aqui.

 Quando vêm essa noite tão densa,

que me trás vozes e falsos-peixes,
minha carne vibra e meu olho incelensa.
Sinto-me triste, fustigado, cansado e desiludido,
e dá-me o prazer de não-ser e não-existir,
para ter (e dar a) paz (a todos a quem feri).
Quando olho a janela me suspiro pelas maravilhas da Destra criadora,
mas me sinto usurpando o local de outra alma,
vivendo algo que não é meu,
atrapalhando algo na vida de cada um que me circundeia.
E o gôsto férreo da morte me parece mais belo e valioso,
pelo simples fato de só saber ferir/magoar/machucar/tanger,
E sentir (saber?) que não se é suficiente/digno/justo/bôm.
E minha alma se cala enquão as carnes tremem.
Sinto que meu desserviço aos meus e a mim mesmo só aumenta.
Tento me aprazer mas esta densidão teima em me arrodear.
E por ter escolhido a água e o viño me apego mesmo que haja absência.
E me sentindo só, inútil, triste, e incompetente, sigo.
Talvez,
quando você estiver lendo esse trovejo,
eu estarei não querendo viver mais.
E te peço desculpa, de coração, peito aberto.
Não me sou assim porquê quero.
Talvez a vida - as chagas ou as pessoas - me imputaram a isso.
Me perdoe por favor por estragar o cenário.
Sou da lira e da pena,
por isso denuncio tudo o que sinto em lêtras;
mas,
se puderdes e quiserdes fazer algo por minha pessoa
(cousa da qual duvido muito)
vos rogo que me abrace forte, incandeiamente.
Diz-me das cousas bôas que obrei,
dos sorrisos que arranquei,
do amôr que cativei,
da lágrima que estanquei
(se é que o fiz algo assim)
e segura-me firme e não me deixe morrer de minhas mãos.
Olha meus olhos e vêde minh'alma suspirante,
que entre o sufrágio e o mítigo, fel e têz nêgra,
mantém-se sem saber porque se mantém.
E se tiverdes essa paciência e virtude por minha pessôa,
vos rogo que,
por mais um momento,
me manterei,
aqui.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Alô, Meu Deus

 Abba;

Se possível, me guarda esta noite nos teus átrios, e silencia minha voz por um instante. Dilacera e corta meus dedos - de lepra, tato ou corte; para que a função não seja mais ofertada. E o gosto de fel que tange a boca, se possível, elimina. Silencia minha cabeça, meus pensares, e ao abrir meu punho, dá-me a mão.
Deita-me na campa, e sentindo o cheiro da chuva fresca, anima-me a me pertencer; pois eu bem sei: eu tenho, eles não. Eu luto, eles não, Eu entrego, eles guardam.
Eu sou.
Dizem, Abba, tanta coisa que magoa as vezes. Te sabes, que eu e tu, no nosso jardim secreto, que nunca quis cousa artificial, difícil, ou que custasse mais do que a vida; de vera, eu só queria a felicidade: A casa, a mulher, os filhos, o carro, árvore e churrasqueira. Queria ter casa no campo, de vera - mas me bastaria ter o que me cabe nesta proporção. Queria ver o Sol nascer mais vezes, olhar a rua e rezar para cada irmão meu que passa por mim, e principalmente não me deixar abater por cousas tão tolas, tão pequenas - mas que tem tanto significado para mim.
Abba, me sinto só.
De fato, me consisto em solidão de carne, pois sei que de alguma forma Sua presença está aqui, em mim e por mim, mas não desmerecendo Tua presença, me sinto falta de gente igual a mim. Gente que ama, aceita, e me faz sentir importante de alguma forma. Sinto falta de sentir aquele momento que alterna entre o riso e a compreensão, e de vera, Abba, por hora me sinto cada vez mais só, e parece mais uma vez com a noite da solidão; aquela mesma noite aonde sentia os taciturnos medos de criança e sentia a travessia do ido.
Eu, estando no mar de gentes, quando me refugio, me guardo em Vós, mas quando eu, estando a sentir o que bem agora sinto em meu peito, tento me refugiar em Tua alçada, porém me parece que até Vós me repeles - sei bem de meu passado, e das lutas que travei para sepultar o homem velho, e no segredo que nos cabe, no nosso jardim secreto, sabes de meu coração, e daquilo que mais me dói (a dita adaga no peito pelos santos, poetas, profetas...), por isso, peço que não Se afaste de mim, nem tão pouco esconda Tua face de mim. E me lembra sempre do que aquele passarinho, empoleirado na janela do claustro, cantou indecorosamente, raivosamente, abençoadamente, e proféticamente; deixa, que meu grito vença, pois das bandeiras que fiz, levei a honra, e da devoção que carrego, emano fé.
Pois te peço, assim como tom de deboche e desafio o endurecimento da víscera, e do riso bobo, do carinho e da tez. Peço que me perca de mim como o profeta no deserto, até que o pastor venha.
Se eles são, seremos mais. Se eles cantam, a gente arregaça. Se eles dançam, a gente bota pra ferver. Se eles são autossuficientes, somos carentes porque somos humanos. Se eles são doutos, somos burros para que eles tenham a quem ensinar. Se eles não tem tempo, somos os que criam tempo no tempo para ser servil.
Lembra, Abba, da porta estreita.
Lembra, Abba, que o deboche no fim das contas foi só uma arma pra esconder as chagas.

sábado, 8 de maio de 2021

Snowdance.

 Será que você pensa em mim, talvez como eu penso em você? Que eu entre os marronzinhos penso num carmelo, e de lá do lado do morrete do carmo, você pensa num marronzinho? 

Em algum dado momento dessa história, seu coração vai desaguar tudo isso, e largando de lado essas coisas tão banais, separatistas e desnecessárias, e será que ao abnegar disso tudo você vai se render nos meus braços? Será que no meu cativeiro, seria você que me desataria a cadeia e diria: Toma a capa, veste e vêm? É você por quem eu esperei há tanto, há muito, há dentro, ou devo ainda deixar meu coração preso no baú dentro do mar férreo? Diz-me que é a mulher que anda pela rua sem mêdo, bebe da fonte, e deságua na foz de minha bôca.
Jorra-se água e vinho. E é a vida.
Não sei não fazer planos, e não sei me apaixonar sem desaguar em mim tôdas as alegrias de ter alguém, tanto como dentro de meu lado oculto sei de minhas inseguranças, de meu mêdo, e de tôda a mágoa que cabe naquele grito dos 15 últimos segundos da canção grafada. Eu, sabendo de mim, sei de tudo ao meu redor, e eu me conhecendo, sei das texturas, gestos, côres, e das coisas que os profetas, anjos, primeiros e menores falaram. E antes deles, sei de mim. Me ponho como um na multidão, esperando que você me note, mas pelo visto há de demorar, ou talvez seja apenas um paliativo enquanto o seu homem não vem.
E não tem nada não, está tudo bem assim mesmo, apenas deixe a regra do jôgo clara, e eu me declino do que me pede. Me vale a paz do que esse entôjo, me vale o amôr do que essa amargura, e me vale o êxtase do que esse destêrro. Lágrima jorra, coração sabe porque, mente arquiteta pensar, e o carrasco de si mesmo o acusa com régua, para que a régua o meça. Não há nada de decente ou justo, é só a vida ocorrendo, e é normal, talvez até comum.
"Você se lembra daquele dia, no Rossio, tomando as mãos de gesso na tua, aquêle pedido? Você pediu, e talvez não tenha pedido direito. Nem tudo que nos transborda faz bem, alguns transbordes são para nos afogar - matar, sabe? Distingua a água do vinho e não tenha mêdo: Tôdos morremos e tôdos sabemos de si. Mas Deus, nessa hora se faz o Juiz, testifica e setencia quem é diferente."
Faz frio, um cachorro ronca, e os instrumentos se calam. Gostasse eu que minha mente se calasse, que meus pensamentos não me traísse, e que meu coração fôsse ao meu favôr. Gostasse eu que não fôsse meu primeiro juíz e carrasco, e que o pêso da história (constatação do fato) não penasse contra mim.
O têmpo, implacável perfeição advinda de Deus, sabe de mim, de meu coração imperfeito, e dá a razão e a lágrima. Andando contra o vento, sozinho, o vento não fala - carinha, o vento não corta - abraça, e o vento não desarruma - conta um segrêdo-de-pé-de-ouvido. A lágrima cai, e independente do que se há, é de lágrima, e nada mais, é apenas o desabrochar do mêdo. Saber de mim e saber de minha ferida e imperfeição: Vêde êles; tão lindos, belos, beberrões, saudáveis, com suas posses e empregados, e presentes...
...E eu esguio, de pés cansados, feio, desarranjado, sem posses, sem empregados e ausente.
In vera veritas; Não sei falar de amôr mais, perdi a mão dos versos, mas ainda deságuo minha dôr e mêdo por linhas como ninguém, e sei de mim e minha condição, aceito-a, e considero-a. De fato, as vezes também me sento com os da tribuna e rio de mim mesmo co'eles, afinal, é engraçado: Não há quem me ame, ampare, ou console, e tampouco sei que não sou aprazível para mulher alguma, tampouco sei que sou de boa companhia e trato, que tenho muitos defeitos (físicos também) que não são os que mais podem me ajudar neste quesito.
Eu lembro da vida, de quem amo e estimo, e choro.
Não há quem se arrume pra mim, tampouco há quem se adorne pra mim, e está tudo bem. Há quem se adorne pros outros, e infelizmente está tudo bem. E infelizmente, meu coração mais uma vez pena, geme, chora e tange.

E não há nada, absolutamente nada nessa vida, que eu não quisesse mais do que a morte.