domingo, 28 de maio de 2023

Mandolin Wind.

Chove lá fora.
Acende cachimbo. 
Enche a caneca.
Solenidade de Pentecostes.
Apesar da chuva, ainda há a massa humana que se dedica a ver os shows que estão acontecendo pelo Centro afora, e isso acho de fato mui interessante. Ainda há gente, há movimentos, e só ficam nos apartamentos, apuleirados como pássaros, os que tomam chá e vêem a chuva cair, os que olham o universo, e principalmente os que entendem a vida em sua infinitude.
E afinal, o que é a vida? 
Deixa pra lá, hoje é domingo, deixa a existência pra depois...
Põe um disco, acende aquele fumo aromatizado, e olha o universo que habita diante dos seus olhos afora daquela janela. É um universo que colide contra o universo do seu ser; que não maltrata, agride, faz mal ou te ojeriza - na verdade, de forma mui natural lhe acolhe. E bem sabes, que esse texto fala de você. 
As músicas, as janelas, os discos, o frio que gostamos... Não há razão de ser se não for razão em ser verdadeiro.
E ser verdadeiro é um peso que desgasta. Custa uma vida inteira, mas nos dá a maior alegria de todas: nos pertencermos veramente, sem ter quê ou porquê.
E o vento, traiçoeiro e eterno moleque bagunça seu cabelo. E te dá aquele golpe de vida que o âmago da sua vida sente e pede - soterrado dentro de ti você sabe que ainda tem mêdo de viver um tiquinho. E por isso se cerca, se fecha, se corrompe, desgasta, e se perde num papel mais bem feito que Chaplin em O Grande Ditador. Infelizmente, está chegando o tempo em que você vai (terminar) de (se) quebrar. Deus vai te cortar com uma faca - te retalhar. E isso só para te fazer dar boa fruta. O cariño, a paz, a fôrça que ergues, e aprender a (re)começar não deveriam e nem poderiam ser difíceis...
Ouvi um trovão. Talvez hoje o Glicério alague, com fé em Deus.
Escrevo mais um tanto, aqui e ali. E seguimos. 
Para onde? 
Para onde Deus me mandar, pois ali é onde estou esperando meu dia de brigar contra o Rei.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Carta a Laércio.

1 - Prefácio e Saudação:
Marcvs, escriba por natureza e observador de nuvens para Laércio; Que as alegrias comutem em você como as estradas sempre levam uma cidade até a outra, meu bom amigo! Que as lindas garôtas ouçam e os Céus turvem ao seu favôr.

2 - Estimas geraes: 
Lhe peço perdão pela demora em escrever, mas como sabe tenho um asco em escrever forçado a quem me pede sistematicamente, e por isso deixo-te em último, mas não menos abandonado que aqueles a quem escrevi antes - ainda tenho muito a quê e a quem escrever, e as cartas nunca cessam, tal qual uma reza que ininterruptamente vemos o frade eterno fazer assentado no alto da tôrre. De fato, sentindo saudades do pôvo que fiz amizade aí, espero um dia poder ver-lhes e estimar em suas companhias um bom copo de licor e podermos novamente debater das coisas que rondam a vida de nosso têmpo.

3 - Preparação para a morte:
Que bom seria, ditoso, se Deus nos desse a alegria de morrer! Ai de mim se pudesse ser mártir alguma vez em algum lugar do mundo, oferecendo meus santos dons a quem me deu Sua Vida. Entrego cada dia como entrego a cabeça posta no ferro frio da guilhotina: Vivo, mas não vivo em mim, vivo por algo maior, e troco cada prazer e desejo por uma força maior que domina meus passos, sensos, tinos e alegrias: Sinto, mas apesar de humano e fraco, sou amparado por uma Fôrça que não me vale em ais e glórias. Humanizo, mas mesmo sendo explicitamente e ridiculamente humano, Deus sempre se compadece e mostra Sua Face para mim de uma maneira sublime.

4 - Senso crítico:
Me perguntas de jeito óbvio as coisas que cercam sua cabeça; e eu, tão pequeno, observo. Não sei dizer-lhe o que é certo em sua essência. A nossa vida nos tece uma cadeia invisível que nos põe em evidência a dizer o que é certo ou não. Não sou legislador, sou escriba e nisso me basto. Sei de mim, de meus erros e acertos dentro de minha lei. E mesclado a minha lei, uno-me aos que tem valores mais próximos dos meus para que habite em harmonia no universo de modo geral (assim o mundo foi criado, disse Hermes Trismegistro), e vos rogo pelo Santo Sangue do Cordeiro que assim pense, pois se a nau de tua mente adentra oceanos aonde não cabe teu coração, és grande demais para entender as coisas simples, e assim perde-se no comum, tornando-se errado para si, e para os seus.

5 - "Hino a Pérola":
Não ando, amigo, ansioso ou interessado em notas de rodapé, teorias recicláveis ou sonhos de 20 centavos. Quero apenas o que me cabe, e ler o que gosto. Quero a cidade cinza, o tempo frio, e a morte. Os beijos que o vento trás e as lágrimas pluviais que alguns chamam de chuva. De que me adianta saber se Tomé realmente escreveu o Hino a Pérola se eu ainda nem entendi ao certo como viver o evangelho de meu Senhor? Com o advento da informação tornamo-nos burros, pois queremos abraçar o mundo todo a todo o momento. E não tendo braços para suportar, nos quebramos. E foi ali!

6 - Embates e enemas:
Existem sim muitos doutores cegos de sua verdade, que inefavelmente tentam vender seu infinito particular como o verdadeiro - a desses, corra. Como diz Nosso Deus no evangelho segundo Marcos: "O que é a verdade?", e sai tu a pensar. Aceitar uma verdade, ou uma verdade grupal é totalmente válido desde que refletivo e pôsto em evidência contra a luz e as trevas; e só após ponderar e considerar cada aspecto, vírgula e decreto, entra tu. Entrar em um cordão e hastear seu pendão ético sem entendê-lo, é como uma lavagem estomacal forçada por aquilo que come e te intoxica: A comida primeira pode fazer mal, mas há de ser regorjitada ou evacuada, agora se contra a lei cíclica da natureza é imposto algo invasivo para que lhe faça uma mudança imediata, isso não é bom. Vê lá tu.

7 - Agradecimentos:
Agradeço muito pelos livros que você me devolve, e mais além: Pela singela recordação e pela boa alegria em saber de ti; Acesso meu livrário para poder colocar os novos (velhos) volumes e vejo que necessito de prateleiras para os volumes. Creio que irei necessitar relê-los para poder lhe dialogar sobre o dilema de Pedro em Antioquia, dá-me tempo e iremos ainda ver isso até as festas de São João.

8 - Sobre o incaælensa:
O incaælensa é a parte mais bela e necessária de atenção (sendo todo o resto conveniente também, como já o expliquei) na missa: Eleva-se um pão que se faz Carne, sobe-se um viño que se faz Sangue, então estando ali aos olhos dos crentes, Deus reina e habita e faz-se presente de Carne e Espírito (Santo), e a incensação do altar, consagração e fiéis torna-nos novamente limpos e preparados também para presenciar o maior mistério e glória da fé Católica: O revelo de Deus diante de nossos olhos humanos, decadentes, cansados e natimortos. Estando assim, de preparação e elevação espiritual em risca, notamos que este delicado e sublime momento nos faz uma força maior e mais unida - como homens e como filhos da Fôrça Trina. Apenas note o momento com o coração aberto, e ele lhe falará.

9 - Benção e despedida:
Reza por mim, e aos nomes que inclui no livro de meu coração. Abraça teu pai e diz que peço a benção a ele, e amplexos até seu irmão mais novo e a Gaudêncio. Guarda também nossos feitos enquão capas negras, e reza a Padre Deus pelo dom da vida de Gil, que há tanto nos faz falta - esteja ele entre os justos e os Santos, amen - e livres pela alegria de sermos amigos, ainda tomaremos a velha menta em algum bar. Se eu não for até o Vale logo, sobe tu até a Piratininga em Jvlio e nos veremos. Deus te abençoe e te ponha entre os Santos, Mártires, Únicos, Justos, Virgens, Patriarcas e Profetas. 

quinta-feira, 18 de maio de 2023

The Edge.

 Pau no seu cu, meu chapa!
E quero mais ainda que se foda seu cabelo translúcido e seus olhos fulgurosos, nós - modéstia a parte, os anjos, os santos, os mestres e os escribas - nós tamo é pouco é se fodendo é. A gente gosta mesmo de rir, brincar, sentir: e sem mão na bôca, a libertação está perto. A liberdade vêm, e cheira a crisântemos como um entronar de uma Amaterasu, ou como a morte no caixão de um cristão. Talvez você não entenda porque o pau no seu cu entrou até os seus tímpanos, por isso tu num lê. Toma meus olhos: A regra é clara, limpa, pura e simples.
Segura seu par, e beija forte. Se joga contra as ondas e deixa a água salgada do mar te iodar, e roda o mundo procurando sua paz. Faz carinho nos santos cães de rua, e abraça eles. Dá uma marmita ou uma grana aos Irmãos de Rua, e proclama um evangelho que no silêncio, perturba os anjos do Céu com seu tinar do coração, que bate mais forte que a voz do que prega imundamente.
Se você for bom, a bondade nunca sai de você, como um câncer benéfico - e de câncer eu entendo - e emaranhando tuas veias, pulsando em tua alma e rechaçando os seus sentidos mal-feitores, será tu exposto a clara luz que segue um comboio forte, que não lhe dará tristeza, e que ao quando sê tu exposto, se diminuirá, e assim, será dado como um dos nossos, e não dos deles. Não há de ser fácil, mas se lêes com o coração, recebeste o ouro que te dou, mas se caiu na armadilha trincada do escriba, tenho más notícias para dizer...
Ouve o baixo tocar. Pulsa. Ressona. Emana. Imanta. Ele dita as notas, contrapasso, repuxa e engrossa no cordão do refrão, e ele que te faz pular enquanto segura a amada pela cintura - aproveita e leva ela pra fora da pista e tomando um ar, diz pra ela as coisas do mundo, do amor, do Céu, de vocês, e de você, tão pequeno, e tão entregue a ela. Faz ela chegar ela perto, e mais perto, e mais perto. Ouve a sinfônica entrecoretante e inebriante que emana do coração pulsante dela, e eleia essa arrombada, meu mano! Beija ela! Celebra o amor, candango!
E VAI TOMAR NO CU RED PILL! Nós, da velha guarda, mantemos o bom coração e temos a rosa exposta no coração, e se não dá certo, só seguimos em frente. Saber lidar com o não, também faz parte do jôgo do amôr - A BENÇÃO, WAYNE FONTANA! Saber amar e ser amado não é difícil... Difícil deve de ser sua mãe e aguentar você falando merda gratuitamente; e dos meus livros de boa memória, te guardo no mais digno de sua corja: Os esquecidos. E portanto viva eu, peixinho da lagoa, Tio Fungo (de dôce memória) e a Repvblicæ Livre de Itaqvæera como berço de heróes que nunca serão esquecidos na lira dos trovadores e nas tabvlas dos bons escribas! Nós, os da boa vontade e de coração tenaz (que é longe de justo) ainda estamos por aí -  e vamos adiante até a perfeita hora da dôce morte!

E corre, falaram que tem post no blog do The Joker amanhã.

domingo, 14 de maio de 2023

Ofício.

 N. Do E.: Crônica dedicado ao mecenas que contribuiu com o café do escriba. Benedictvs si!

Se eu te dissesse tanta coisa te seria de entender?
Das coisas que sei,
Das que entendo,
Das que desconheço,
Que cabe no oculto de meu coração.

E com teu óculo analisaria sabiamente:
O que escrevo ou digo,
Emendando em minha conversa objetiva,
Uma liga que anuncia algo,
Ou apenas daria um simples sumiço?

Por favor, não olhe as coisas como frias;
pois se assim o faz, põe as em lugar comum.
E se torna comum, perde a magia,
se perde a magia morre o porquê,
e assim, não tem razão de ter ou ser.

Se estende a mão;
Aceita o abraço e o eleio,
E conhece, aceita, ama e gosta.
Abraça, aperta, morde, beija e devora.
Faz diferente para a borboleta imortal não morrer.

Dos ofícios do escriba, cabe a denúnica,
de um novo amor,
de uma vida que nasce,
de uma morte vindoura,
de um dengo.

E cabe, a quem lê entender,
por mais que pareça torto,
as linhas do trovador,
enquanto ele com suas linhas entreveradas, lhe diz:
"espera, não esfria, por favor, fica."

Agarra em um abraço e não solte,
Aperte a mão e ouça o som junto,
Deixa as lindas garôtas ouvirem,
Os céus turvarem,
Enfim, os corações se cruzarem.

sábado, 13 de maio de 2023

Crônica Desinteressante.

 N. Do E.: Crônica dedicado ao mecenas que contribuiu com o café do escriba. Benedictvs si!

Se vale o comentário, vale uma história. E se vale o interesse, não há motivo de rotular como desinteressante, não é mesmo?
É só um comentário - ou ao menos era pra ser, e de fato não deveria ser tratado menos que isso. Pra quê tanto escarcéu? N'um dado momento aonde as palavras se tornam mais ajuízadoras do que conciliatórias, para quê eu iria compôr uma tribuna da qual rejeito? Então, te tomas pela certeza que é só um argumento; e mais além: A sintonia ajuda, tal qual a música, as luzes inebriantes como um velho cabaré afrâncezado, e as estrelas, perdidas no Céu escuro, aparado por copas de árvores, dão a sorte de um querer bem.
Pra quê a noite, se existe companhia? 
E falemos de música, e falemos de sons, e falemos da Anima, mais ainda; falemos de nós, das piadas de fundo verdade, de humor tão cínico, besta, inerente, juvenil, sexualmente apelativo, mas de forma tão nascente, nosso. Falemos dos velhos senhores, do show, da vida em si, das apreensões e dos fumos e das cervejas, pois isso é o que basta ao momento.
E olha, há quanto tempo as coisas não acontecem de forma natural, por um acaso ou planejamento divino, e põem-se em marcha para dar certo e assim contribuir para uma alegria que reina perfeitamente no nosso peito? E falando em coisas do peito, Meu Deus, como se odeiam os prédios espelhados e como se odeiam os pulmões masoquistas de fumantes!
Procura no campo a paz que reside em teu peito, prepara um jantar, acende um cigarro, e passa a mão entre os cabelos: Que doida coincidência é a vida. Abre uma cerveja, e suspende-se num ato: estando inerte ao ar, sente novamente aquele coração pulsar, a barriga florear farfalar de velhas borboletas imortais, e como jovem sonham com um beijo - o velho rolê juvenil que a gente esconde em sete chaves num baú dentro de nossa alma para não se quebrar de novo: O eleio. Conversas bacanas e produtivas. O abraço. A música do pé-a-ouvido. O amasso. Amor travestido de sexo com suas ancas habilidosas maestramente levantadas enquanto se pesa o corpo do amado. O carinho travestido de qualquer coisa que você queira. A música tocando alta e a fumaça oriunda do cinzeiro incensando o lugar. Acaba o cigarro que se fuma sozinho - dois corpos estão ocupados. Os beijos de fim de noite enrolados em braços tão unidos que nos fazem perder a letra em dizer. E o acordar? Um café, forte e sem açúcar, junto com um misto, ou até mesmo apenas um pão com manteiga, mas feito com a energia e o sentimento que não se cabe em letras, mas é explicativo de quem o sente.
Conversa mais um pouco, fala mais um pouco, stalkeia mais que tá pouco. Abre a foto. Vê, olha e pensa: projeta um cenário e todas as roupas possíveis para usar e impressionar, além de poder dizer coisas que sejam alheias e verdadeiras, mas que não a afastem, olha para ela e pensa como o universo tem sido legal. Diz uma asneira gratuita para desbaratinar, e pensa além de tudo, no futuro, mesmo não tentando fazer planos. No dia do encontro, como será? Seria ela maior ou menor que eu? Ela gostaria de caras mais novos ou mais velhos? Será que rola um beijo no fim do encontro?
Perguntas, sem resposta, que ainda precisam de um desenrolar do tempo para se crismar.
Dado o dia, levanto, e ao ler tua mensagem, o coração traqueja um palpitar. "Ontem foi real", e isso alucina a vida, faz a vida ficar mais interessante, e dá mais gosto ao café. E ao ver novamente a foto, retorno ao turbilhão de sentimentos dados ao flerte da mulher que vi. E ela, me atordoando, permanece atenta como a sibila que profetiza entre os lábios voluptuosos a denúncia: Quero.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Céu De Brasília.

Quero andar um pouco.
Me divertir, sentir vivo talvez. Quero ver o começo da semana a noite. Os semblantes cansados nos comboios públicos, as dôces mulheres que tirando seus saltos de horário comercial, agora se desprendem de ancas em chinelos de dedo, as môças que se saindo da academia, parecem uma tartaruga-ninja com o casco de alça pôsto nas costas... Os fortes homens de alma frágil dependurados nos balcões do bar, tomando uma cerveja ou uma pinga com limão para aguentar o tranco, ou dormir sem jantar...
Tem um irmão-de-rua que passa, cativo e alheio ao universo. Seu saco de coisas encosta nos transeuntes, e atenciosamente, pede perdão a cada um. O passêio público parece algo tão largo e estreito; na quadra seguinte se reúnem os jovens para poder entrar em uma faculdade, e alguns adolescentes se encontram e sentindo o mal da imortalidade bebem, dançam, cantam e brincam com o amanhã; como se de forma bela isso fosse imortalizado em sua aura.
Uma estrela brilha demasiadamente, mais que a Lua - já não mais cheia. E ai dos olhos que as vêem, pois se o alteia para vêr, pode correr risco de perder a carteira, celular, e ganhar hematomas furtivos. Um vento suave como que de verão entrecorta os corpos cansados, que já mais do que nunca anseiam por sexta-feira. Tem um olho no alto da torre. Mão aberta, cajado pôsto em defêsa, e rôsto de fronte inquisidora. Olhos que olham, tangem, secam... aliviaram.
Ah, musa, deverias deixar eu me ocupando pelo brilho dos olhos foscos que vejo, do colorido cinza que têm nos prédios e marquises, das tôrres, bares, perfumes e cheiros fétidos; dos aviões que transpassam o ar sem ter nem com quê ou porquê, e nas rotas mais calmas, se tive sorte, ouvi uma árvore farfalhando ou alguém pedindo um dinheiro para pagar um corote.
E eu, tão pequeno diante da magna essência desse lugar, sou ao mesmo tempo dono de um universo tão complexo e confuso dentro do meu sorte. Os faróis são de estrada, faróis de milha como diria meu pai, e os semáforos hoje, logo hoje decidiram trabalhar. As bancas de jornaleiros começam a bater seu cartão e fechar. Um garoto de talvez 14 anos compra um cigarro solto. O vejo. É cabeludo, como fui. Sua mão parece frágil ao acender o isqueiro para fumar. Na primeira tragada ele engasga. Desvio o olhar para não intimidá-lo, e lembro-me de quem já fui - parcela de mim que não eliminei e ainda rola no meu recôncavo, alcunha de nome Ox; velho conhecido desse blog...
Ao sair do espaço, mantenho-me perto de alguma certeza, algo que ainda tente me mantenha firme. Faz muito tempo que não sinto meus pés tão pesados e meus olhos tão fracos. E ver essa cidade, mesmo que do lado de fora, por um pouco espaço de tempo, me acalma. Me dá a sobrevida que preciso, e afasta de mim aquilo que nem as paredes confesso; apesar de já dito. Me esqueço da sorte, da solidão, da contraforça e da raiva, e guardo em mim a sorte ou benção de ter sido filho do furacão - dos amigos mortos, heróis tardios, mártires irreconhecíveis, gloriosos desconhecidos e do pae tardio.
Dobro a rua de casa num arremate preciso para não ver mais estudantes arrogantes de direito, desço-a, tal qual os ônibus desordenados, e me mantenho apenas por existir ou por fôrça de pesar os pés contra o chão. Abro a porta, e vejo o saguão, tímido e de tapete suntuoso. E ninguém me espera, toma pela mão ou segue meu ser; como me disse o cantor: Quem me levará sou eu.
Se hoje saio para ver esse coração maquinado trabalhar, é porque o meu já não bate, tampouco palpita, e só a ouvir a sinfonia que essa cidade proporciona, sinto-me de alguma forma, imortal. E nenhum outro que não seja filho da Piratininga pode entender.
Ao meu chão, entrego meu corpo primeiro. Ao porto, não.