terça-feira, 31 de maio de 2022

Naquela Mesa.

 Ao meu avô, com votos de alegria.

Sons de címitarra entrecortam tua voz - lâmpejo de seriedade no ar de ironia que nos circundeia.
Não queria lhe ver em cama posta, deitado como se esperasse fim algum, mas queria te ver como sempre lhe vi em minha infância e juventude: eternamente a trabalhar na bancada da sua oficina, arrumando tudo, ajeitando as coisas do vizinho, me ensinando a mexer nas ferramentarias gerais, e me ensinando como se troca as correias.
Foste e é por enquanto o (claudicante) elo que restou de Fabinho. És minha raiz e sou tua foz. Me miro em teu projeto de vida para ser mais e melhor. E tudo que vos disse no teu 80° aniversário, vale ainda. Tudo. És meu pai, amigo, profeta e professor, que em poucas lições me ensinou muito sobre a vida e os aspectos que lhe encerram: conversar, rir, olhar nos olhos de quem merece, não ter medo do cotidiano/comum, saber como se efetua um trabalho para não o refazer, e principalmente, não desistir da felicidade.
És sinal principal e primordial de perseverança na minha vida, e não menos que um justo obrigado lhe devo - talvez minha profissão, e a remissão de meu pai; pois quando fui eu o pai de meu pai, você foi o meu irmão mais velho. E quando a Véa foi embora, você foi o primeiro que correu atrás de mim, e eu agora, me preocupando com você, me fez te olhar nos olhos e prometer que venceria para te dar orgulho.
E eu, tão vencedor de tantas batalhas, ousei prometer nada impossível, mas o que me cabe para te dar paz e saber que estou dentro de nossos preceitos - você que me ensinou sobre a Boa Piratininga, sobre João Ramalho e Bartira, que me guardou nos caminhos me ensinando cada rota e estrada, lhe agradeço por não ser o que todos deviam ver, mas naquilo que coube a nós dois, você ser o melhor avô do mundo - e sempre quando ouço Elvis, Nelson Gonçalves, Nat King Cole, ou Renato e Seus Blue Caps me lembro de você, com seu único neto que lia seus livros, ouvia seus discos, e não te pedia para arrumar, mas sim queria saber porque o fio rosa tinha que ser ligado na fase roxa do 110v.
És estrêla-auta de meu pendão. AXIOS!
Já estou em Piratininga. E essa cidade ainda é nossa. Cinza, fria, de garoa e gente trabalhadora. Estamos aí, e vamos adiante.

A benção, Fábio Magno!

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Puente.

 E obrigado por ter vindo.

Ao descer da casa de pai, indo ao encontro do Senhor, me chamaste para a missa - e eu sem saber, fui. Que dileta surpresa encontrar a amada na casa do Amado, e te ver linda. E mais surpreso, saber que eu estava em teus pensamentos ao me chamar para a missa; mas tudo bem, estás no meu constantemente.
E obrigado por ter vindo.
Tenho cerrado os dedos em riste em vez de fechar os punhos, e ao ver o Céu, a Lua, e as estrelas, tenho deixado a vida fazer de mim o que eu quiser. Tenho gritado contra uma escuridão e tenho sorrido sempre que posso; volto a bater o pé e balançar a cabeça ao ouvir o acorde sincopado e violento, enquanto penso em te mandar tantas músicas, tantas canções, tantas letras - por favor, não me ignore.
E obrigado por ter vindo.
Ao tomar banho na sua casa, foi a primeira vez em sabe lá Deus quanto tempo que eu não usava shampoo e condicionador - e não me sentia de vera limpo - e que eu não me sentia alguém importante. Por fraquejo de costume, quase te passei um café; mas desfrutei da vista da Piratininga vista de sua janela - que por mais que odeie, sabes bem que amo de toda minha gênese e foz. E você, melhor que São Paulo, está linda.
E obrigado por ter vindo.
Tenho ainda ouvido muitos sons, conversados assuntos novos e feito atividades fora de meu ponto. Tenho observado o movimento dos barcos, e do vento; e tenho passado por lugares que evocam uma nostalgia, conversado assuntos de fé, trabalho, índole e esperança, e alguns sorriem, e outros franzem a testa para pensar. Tenho me encontrado em cada acorde e letra nova, e tenho deixado um pouco de mim a cada esquina nova que faço rota de caminho novo. Tenho lidado com as adversidades com fé e bom humor, e entregando as situações sôfregas na mão do Bom Senhor. Por dias o peso se pesa e dobra, e por dias se alivia - e teu carinho no meu rosto, teu beijo descompromissado no meio da noite, me valeu livrar do peso da existência por uma noite.
E obrigado por ter vindo.
Teus olhos vão me contar uma denúncia que já sei. E meus olhos acatarão seus atos, mesmo que fechados, e que me importa é que eu ainda te meta um riso na boca, um frio na barriga, e um afago nos pés.
Y gracias por venir...

domingo, 29 de maio de 2022

Tratame Suavemente.

 Você continua linda, após tanto (pouco) tempo sem lhe ver, sua casa continua linda, arrumada, e você continua bonita e de sorriso cativamente - é inegável esse vão entre nós, mas, me alegro em assim te ver, te ouvir, e falar amenidades, pois assim ao menos me sinto próximo a um vão de distância.

De certa forma, entendo e quero te ver, e me alegro que por mais que seja um momento assim de rapidez, e por ora emborcado no silêncio, você nem imagina como tua presença me faz bem; escrevo por desabafo, enquanto te vejo dobrar as roupas, mas adoraria beijar você, segurar teus braços e sentir teu perfume; ouvir-te e sentir-te. Fazer segredo de nós dois. E poder te amar por toda uma vida, de fato. E ainda sim, motivos e sanções me impedem de caminhar até você e consumir minha glória.
Ao te ver arrumar tua casa, vejo tua virtude. Ao te ver me dar entrada, vejo seu coração, e bem sabes que não tenho tato e nem timing, mas extendo até você meu coração, e você inegavelmente sabe o que sinto por você, e que não deixei de sentir de forma alguma ou maneira alguma.
E nem passou muito tempo definitivo ou eterno, mas suas pernas continuam lindas, e o arquejo de teus pés continuam belos e firmes, suas tatuagens reluzem contra sua pele, e o modo despretensioso como fuma seu cigarro de palha ainda me ecoam um passado recente, aonde nos vejo num quarto-cubiculo, nos vejo em uma kitnet da zona sul, e nos vejo aqui mesmo neste apartamento aonde nós muitas vezes fomos nossos - nos pertencíamos.
Gostaria agora de sentar ao seu lado. Sorrir. Contar uma piada. Te fazer rir. Te beijar. E ver o Sol nascer e morrer ao teu lado. Queria afagar tuas mãos, te dizer das minhas aventuras, e te falar do amor que ainda tenho no peito que reside só pra você, e gostaria que acenasse de volta para mim, que me desse apenas um beijo, e que me guardasse de forma magnífica no sacrário do teu coração - por favor, assenta-te ao meu lado, ri e brinca. Termina de ser a peça faltante da minh'alegria.
E terminas de olhar o celular, e olha o universo. E me notas.
Minha mente diz teu nome, meu coração anseia pelo teu nome, e minhas mãos sofrêgam sem as tuas. E assim que eu me encontro em tua presença, meus olhos evitam não te olhar, mas te querem mais que tudo.
Dentro de nossa intimidade, conhece o êxtase que tenho na tua presença, e que não gostaria de ir embora.
Me chamas para um filme. A roupa seca. Me alimentas. Sentas ao meu lado. Divide um cigarro. A têz cai lá fora. Ainda vês que teu nome tem um coração, ri, fala em inglês, e cochila, acaba o filme, lhe acordo. Seguras minha mão. Beija. Chama-me pra dormir. Encosta em mim e sorri com o peito disparado. Lágrimas negras caem, saem, doem. Teu sorriso me desconcerta. Teus afagos me confortam e me dão paz - e por mais que disseste que seria só ontem e o ontem ficaria no ontem, não poderia eu ter uma forma de ter sido cuidado melhor.
Nos seus braços, me senti um alguém novamente.
Não quis e não fiz questão de dormir, passei vários momentos dessa madrugada lhe fazendo cafuné, beijando suas costas, nuca, e afagando teus braços e pernas. E pela primeira vez depois de muito tempo, consegui dormir com o corpo encostado no seu durante o tempo todo.
E ao romper da aurora, vi dormindo comigo, estando comigo, e perfumando o quarto com teu aroma. Assim soube eu que era Deus. E sempre foi.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Es Nuestra la Libertad.

 Enquão cruzo a rua para tomar o coletivo, vejo os carros que trafegam entre o andar-parar. E eu ouço uma voz nova, que me conta de sonhos e colonizações, que me eleva o riso e desafrouxa o nó - e tenho visto e vivido muito tanto.

Meu médico me diz tanta coisa sobre viver e estar vivo; e também me acompanha na caminhada - não sei dizer nada sobre isso, mas sei dizer que ando mais calmo, mais perceptivo, menos labrador e com esperanças; e infelizmente (verdade seja dita), a minha paz de espírito aumentou muito após meu exílio.
Não ando nem feliz e nem triste. Ando apenas com saudade. Ando apenas com minhas pernas. Ando rezando muito. Ando meio desligado.
E é só uma questão de tempo - creio eu - para que o rajar do vento nos reúna no mesmo lugar; se deixarão armas, cores, nomeclaturas titulares e assim as cartas chegarão, os amores reinarão, os beijos serão dados e os abraços consumidos. Da foto, refulga o brilho dos olhos da amada amiga/amante/irmã/batalhadora/musa/nêga, que estando em riste, dizem o que palavras não fazem, e no segundo que se pensa, a saudade anseia dos dois lados - é ignorância achar que só um sente falta, ou só um pena. E dos lados, se anseia uma volta - o corpo deseja, e a alma anseia.
Ah, o Sol frio; melhor e mais prudente que o Sol quente, apenas dá o contra-tom das cores que lutam contra os cinza-queimados dos prédios e edifícios, e esquenta a população que faz essa cidade andar; e eu, como filho e engrenagem dessa máquina mercante, também tenho meu lugar ao Sol (frio). Mas sei que teu lugar é em meu coração :P
Um céu limpo, sem estrelas, timidamente azul se transfigura e se refaz. E se faz novas todas as coisas. Pessoas entram e descem do ônibus, e assim segue mais um dia que se inicia - e espero desse dia, o que espero todos os dias: tua volta para terminar de culminar toda a felicidade que tem acontecido.
Sei bem que me lê. E isso de certa forma me alegra, e me motiva a escrever; o tanto que rezo por você deve de ser o tanto que vens a ter e ler aqui; é amor, mas n'uma de suas formas plurais - e nem adianta dizer que não, pois você bem sabe que é; tanto como eu. E anseio, poder ver o quão mais logo possível, teu sorriso e tua mão no meu ombro como no domingo passado. E o resto, faço valer a pena como você nunca viu ou sentiu antes; pois dessa vez as estrelas estão ao meu/nosso favor.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Negro y Blanco.

 Eu não sei falar de amôr. E espero nunca saber pôder falar. O falar de amôr é língua celeste da qual que por mais me empenho, me é difícil - falar um turco arranhado me parece ser mais fácil que dizer de amôr.

O amôr, como Minas das Geraes, me faz saber que existe, mas me é distante, e por vezes é inacessível, e quando vou a Minas me emociono e choro, canto e brinco, me dá sudorese e mêdo que eu cometa algo de errado na qual não possa ir para a Terra Santa no Brésil. O amôr, como Minas, tem curvas, môrretes e destêrros, lindas imagens, fé, e paz. Em parcos momentos, agitos, mas é amôr de paz, de cadeirinha na calçada, violão e riso aberto, sem medo. O amôr, assim como Minas, é poesia, é declamação, é música tão sacra, lírica, psicodélica e progressiva. Minas é a morena de cintura e sorriso tímido, de voz mansa e brado. Meu coração repousa em Minas, e eu não sei falar de amôr. 

E Minas, de minhas lembranças de garôto, de meu passado, tão distante, que nem lembro como chegar, como ficar, como falar, e me pego em gagueijos ao dizer o nome de Minas Geraes, quando olho o Céu. Amar é descer o São Francisco de canoêiro com tarrafa amarrada, e só sabe disso quem alguma vez já foi a Minas. É a beleza de sua arte sacra, seus sons, texturas, gôstos e pôvo trigüeiro. Só sabe disso quem foi até Minas e sobreviveu. É de ter mãos suadas ao vêr a minæira, e a cachaça deixar de ser proletariada para ser bêm comum. Minas é análogo ao amôr, e nem se sabe bem porquê. Mas quêm têm paz e quêm quer paz, volve a Minas. Eu deixei um belo tanto de minha paz em Minas das Geraes, na promessa d'eu ir a essa terra bendita, ou dela me dar sua filha dileta pra mim. 

Bem, eu fui a Minas algumas vezes, e senti sempre a mêsma cousa. Mas eu não sei falar de amôr. E não sei falar de Minas... e eu não sei se nem um suspiro da morena eu arranjo. Minas, e suas mulheres cercados de austeridade, me apaixonam e desarranjam.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Viernes 3 AM.

 Bom dia.

Espero que esteja bem e dormido bem.
Hoje é terça. Terça do Bom Santo Antônio. Estou indo trabalhar. E ando rezando para agradecer a graça de um emprego novo, e a pedir para você ir bem no seu serviço. Penso que, nunca deixei de orar por você; diziam unanimamente os meus antepassados que "rezar por alguém durante nossa ausência é a maior prova de amor". E espero que pelas bençãos de Tonhão você possa ir bem hoje.
De vera, achei engraçado hoje sonhar com você, e acordar pensando em você como se ontem tivesse te visto, ou até mesmo te sentindo: E agora mesmo, enquanto o Sol alumeia pela janela do ônibus, cruzo a Paulista, e me sinto quente, enquanto não houver muitas sombras de prédios coagindo o Sol a se intimidar. E tem gente na rua. E tem gente no mundo. E eu estou por você.
Creio em Deus, e creio nas coisas como são e como acontecem; sinais, visões, presságios, sortes e bençãos: tudo tem seu peso, valor e sinal da presença de Deus em nossa vida. Alegrou meu domingo lhe ver, e alegrou minha segunda começar a trabalhar num projeto para o Mosteiro de São Bento. Não posso e não consigo deixar de ver a presença e os favores de Deus em minha vida a cada instante, a cada segundo, a cada momento; e por isso elevo meu coração pequeno e meus santos dons, dados por Deus, de volta a Sua obra - na terra como no Céu, no sertão como no mar, reparte entre nós o Pão na tua mesa, estamos circundados no Teu altar.
Espero que você tenha um bom dia hoje. Que você tenha boas vendas, que se apegue ao Bom Santo Antônio e a Doce Mãe das Candeias, que ao sentir o vento, sinta um beijo que pedi pra roubar de você, e não leve a mal - algo me diz que você também quis.
Ah! Você está linda hoje. (:

domingo, 22 de maio de 2022

Regina Cæli.

Ao te ver, meus olhos travaram. Sempre meus olhos te travam ao te ver, como se fosse sempre a primeira vez que lhe vejo ante a este mundo belo de coisas boas e magníficas.
E renasces em meu peito a cada dia, a cada segundo, vindo até mim pela mente, pelo coração, pelo pedido e pela razão: Te ornas em beleza autossuficiente, que é maldito todo anel, todo brinco, todo esmalte e toda maquiagem. Te ornas em mel, que tua voz vibra cada pedaço de minha carne, e meu coração é reagido com choque elétrico quando te vejo próximo a mim, e teus olhos, como que sondando cada recôncavo de minh'alma, me inebria, e teu sorriso? Ah, teu sorriso... farol de dias de solidão, atracadouro de esperança e beleza aonde reside a boca mais bela, de beijo perfeito, que se eleia e reside minha glória e perdição - canto da sereia, porta entreaberta, cama macia e arrumada, e lamber panela de brigadeiro.
Ao te ver com Cæciliæ no colo, foi inevitável associar com as inúmeras vezes que lhe imaginei com Teresa ou até mesmo Antônio, e ao te ver radiante com um rebento no colo, não me admirou e nem me assustou em saber o quão perfeita você será quão for mãe. E te ver de véu, foi algo que por muitas vezes cogitei ver, mas, ao te ver no lado puro do lado puro, vi a outra face da amada que nunca vi. E meus olhos, por mais que estivessem mui afincados em vós, se fixaram no mistério pascal que merece mais atenção que ti - e não me leve a mal, são apenas negócios.
E ao sair da igreja, para trocar a roupa suja de sangue e suor, desci para a Boa Morte, e depois olhei o Santíssimo, e me rendi em casa, e ao descer minha rua, lhe vejo no renegade marrom (vermelho?). Você está me perseguindo? :P
E o Sol, diferente, me trouxe você pela coincidência, e me trouxe você pelos caminhos, e no tabaco de café e no tabaco de jack paiol para cachimbo. E ao ir na igreja do fim da tua rua, para levar ao meu irmão ateu ao cristianismo, me escusei, mas não consegui não pensar em você, no seu vestido e no seu oxford.
E no meio da noite, subindo a Conde, um passarinho cruzou o Céu semi-estrelado. Nos cumprimentamos, e era Deus.

E você, como sempre, estava irrepreensivelmente bela. As it always. 

sábado, 21 de maio de 2022

Resonance.

Muitas pessoas me pedem um glossário para entender o que falo, escrevo ou determino; mas devo admitir que durante tempos eu tentei aplicar uma mini-glosa aonde eu pudesse escrever minhas palavras e dialéticas para que as pudesse traduzir... mas achei estranho.

Eu sei que a escrita é travada, mas como todo entalhe no seu desbaste puro, tem lá sua beleza. Mas assim como uma escultura, penso que meus textos deveriam ser lidos e re-lidos para chegar numa conclusão definitiva: lê-se de parte em parte para chegar em todo.
Meus textos são codificados sim. Cheios de entremeios e situações que só podem chegar até quem veramente os pertence - e por mais que você possa achar que seja escrito para você, repense; se for para você, logo saberá por um jeito, uma frase, ou algo específico. E na verdade, escrevo de lágrima, de desabafo, de irromper, para extenuar de mim aquilo que muitas vezes tira meu sono, ou por poucas vezes escrevo para me ganhar o sono, e livrar de mim aquilo que as paredes lembram, a cidade grita, e os sinos dobram, e as flores gemem.
Fui recentemente laureado com a notícia de um livro a ser publicado, e isso me alegrou. Fui recentemente assolado com um acidente doméstico e isso me desolou - e assim segue a roda do mundo. A alegria e a tristeza andam lado a lado no meu coração e assim tento sobreviver dia após dia, assim como inúmeros tantos outros seres humanos nesse mundo, e repousa em mim (ainda teimoso) um sentimento de fé e esperança que não pode ser apagado - seja pro meu bem ou pro meu mau.
Alguns lutam, e eu apenas espero as ondas quebrarem no mar. Não tenho pressa, nem medo, nem raiva, nem nada. Apenas, literalmente, espero aquilo que o coração deseja, a alma ora por, e que a mente não consegue esquecer. E de certa forma, sei também que não sou esquecido, pois dei de mim e deixei em mim toda a minha dedicação, todo meu amor, afeto, zêlo, e afã. Sou dos petrinos, mas sou peça inestimável, calunga de louça, e de coração quasar.
Sou da Piratininga, que agora zela pelo meu pai.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Uncertain Smile.

 Como são sortudos os que amam, e que se sentem amados. Como eles são dotados de virtude, graça e glória!

Como são belos aqueles que notam todo sacrifício de amor, toda vontade suprimida e todo carinho distribuído. Como também são belos os olhos de quem vê mais do que a atitude, e aquilo que há por detrás  - quem sente o coração, quem tange a alma, quem quer e precisa fazer (o) bem-amar. Muitos ainda não sabem, mas o amor está em extinção, em risco claudicante de morte.
Deve-se sim mandar flores, escrever cartas, falar baboseiras, dar presentes, zelar e ter afã. Olhar nos olhos, beijar, ter cuidado, e saber quando se precisa ser mais pelo outro. Deve-se abraçar sem motivo, e principalmente abraçar quando mais se necessita, deixar-se em marca de atitude ou doação e imprimir sua marca no amado, para que saiba que invariavelmente está ali. É, além da admoestação perene e justa, a vontade virtuosa de cuidar da pessoa, de ter com ela, e de deitar o tempo, para cada segundo valer.
Ditosamente, ter paciência, e se encaixar, cada pedaço e cada milímetro, e deixar-se levar por um sentimento que secou nos corações - cegos, não amam, e tornam recreativo o uso de gostar, para que assim, amem com retaguarda, esquecendo do Deus que professam, do doutor que hasteiam, e da verdade que carregam.
Colocaram delimitações e estágios naquilo que nunca se deveria ter.
Se você ainda crê no amor, lute. Seja cafona, babaca, ridículo, mas ame. E mostre o amor. Exponha. Dê a cara a tapa, pois, não se ama um amor em vão. Todas as músicas, espaços, lugares, perfumes, palavras e gestos, sempre se remetem ao amado quando se ama; e o amor - criança traiçoeira, infantil e levada, porém sincera e cativante - sempre acha um caminho, e quando feito, não pode ser transposto.
Olha o Céu, ele trás o amor. A água, trás o amor, o silêncio, a rua, tudo de certa e direta forma trás o amor quando se ama, e por mais que você não compreenda, é necessário abrir o coração para amar, ser amado, cuidar e ser cuidado, e nestas trocas - veras simbioses daquilo que dois seres se dão, resulta na mais bela coisa que se há na terra. O amor.

E o resto, é consequência dos atos.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Carta a Lucas.


1 - Prefácio e Saudação;
Marcvs, escriba e oriundo do degredo, escreve a Lvcas, o pioneiro de si. Adiante abençoo e como o sustentáculo louvo teus pés que vão, ficam e hão de pisar de meu grã amigo, gente de minha gente.

2 - Admoestação e constatação;
Vejo que, ao passo que nos mantém vivos, consideremos o que ainda temos na mão e ao nosso contorno, e por mais que as coisas sejam propensas a ruína - e creia em mim, eu vi a ruína como bem sabes, e agora reconstruo minha vida e tenho bons olhos pro que há  de vir e me mostraram - ainda temos a chance de recomeçar, como os discípulos em Emaús, como Franciscos, e tantos restauradores.
Mas, denoto que por mais que as coisas estejam nebulosas, devemos sempre manter uma esperança na melhoria de nossos dias, e trabalhar em diversos aspectos: Ora por fé, ora por esperança, ora por amor, ora por certeza, ora por dúvida, mas sempre devemos agir, e de preferência pela prudência e de acordo com nosso desejo, e pelo que nosso coração anseia e a mente projeta.

3 - Preparação para morte e consolação;
Você viu um homem preparado para a morte. E o tomou como pai assim como ele lhe tomou como filho; assim como ele fez comigo. E o nosso pai - que agora, criados pelo alo vatilício e vaticíniado de família lhe chamo de - meu irmão, dá-nos um grande exemplo de como morrer em pé, olhando o Sol e a Lua, vendo as pessoas ao seu redor e esperando a sua hora definitiva, e nós, participantes de sua páscoa pessoal, somos de certa forma brindados por exemplos que tanto eu como vós não tivemos essa instrução. E após termos vividos errantemente, encontramos um ser humano como nós, com seus erros e acertos como nós, temos (finalmente!) um motivo para ir adiante; mais uma estaca para ficar nossas raizes neste solo.
E devemos, ser fiel as nossas raizes, ao que ouvimos, aos que nos ajudaram/ajudam há tanto e muito e agirmos sempre de misericórdia e perdão. E sempre que possível, fazermos boas coisas e bons momentos.

4 - Teofania e sinais;
Digo-lhe, pela tua curiosidade, e para revelar: A Teofania que temos não se baseia em um sinal divino/místico surreal; perceba: Deus se revela em cada coisa a cada momento em todo o minuto e tempo.
No sorriso das crianças, no vento, na chuva, nos abraços bons e sinceros, e nos passarinhos - em tudo isso encontramos sinais de Deus, e em Deus nos encontramos em comunhão e vontade, e isso nos ajuda a ter fé, conhecer os sinais e propósitos de Deus, e principalmente agir de acordo com o movimento dos barcos. Quando temos um sinal de Deus, obtemos a chancela para entender situações, moldarmos planos, e principalmente meditarmos. Entregar-se numa vera vontade de Deus não é impoossível, mas nos basta entregar verdadeiramente em vez de oração decorada e de livro transposto na mente: A rotina da fé constitui-se bravamente e arduamente, mas isso lhe explico em outra carta.

5 - Esperança, fé e o universo;
Ter esperança é nossa vontade, e nosso desejo. Ter fé é nosso combustível, e o universo é oo campo aonde Deus deseja que atuemos.
Se tivermos fé, podemos pedir quaisquer coisas a Deus, e pela Sua santa vontade e permissão, acontece. A fé, quando elaborada e trabalhada, consegue fazer todas as coisas renovadas e belas.
Ter esperança, é como no velho ditado que "o jogo só acaba quando o juíz apita", e que isso nos vale de forma bela e digna. Quando temos esperança, somados a fé, temos uma crença inabalável em n situações que podem nos levar a glória excelsa. A esperança é a mais ditosa das virtudes, que nos inebria com os sons, luzes, palavras, atos, remissões e orações, e nela, não se encontra erro ou mancha alguma, pois nisso atendemos o propósito de vida e viver. Bem sabe de minha chaga que dói e do que me machuca até a alma agora, mas, além do frio, me resta a esperança, a fé e o universo. E Deus, é o que me sabe. E é esse meu momento: Orar, ter esperança, e esperar pela minha botica.

6 - Conselhos finais, agradecimento e benção;
Agradeço por ter vindo me ver, e por ter me dividido o teu fardo comigo. Por ter deitado no chão cru e gélido comigo, e rirmos enquanto nossos queixos batiam. Agradeço por andar comigo na glória e na humilhação.
Aconselho-vos, a ter sabedoria, ter mansidão, contar com todos que lutam e estão contigo e lhe ajudariam sem pestanejar. Teu pai manda bençãos e sortes de sem-fim.
Abençoo-te, como quem te guarda em um sacrário para ter o melhor de tua vida viva em mim. Deus te faça bom homem e boa pessoa. Deus te abençoe meu irmão.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Feira Moderna.

 Hoje estou em vigília, enquanto velo o sono de meu terceiro pai. 

Seu sono ressona em toda sua casa assim como o som oriundo das ruas, e como parafraseio a banda: "enquanto os gritos dizem, os acordes tocam, estão dançando nas ruas"; e eu, por um leve momento pensei ouvir Yes tocar. 

E as pombas, se aninham em conjuntos nos parapeitos das janelas, e eu as vejo daqui. Elas me fitam esperando um sonoro alguma coisa de mim, e eu, apenas as fito em união, espiando-as num ninho improvisado de concreto e união, enquão a mãe pomba adula seus filhotes embaixo das asas e os pombos maiores cercam os filhotinhos de rato voador.

A noite cai na cidade velha, e agora são poucos carros que tocam a passar nos viadutos e ruas - estradas nuas aonde se pode ver no sossego do crepúsculo o asfalto e dar-lhe um descanso. Eu rezo um terço, e olho a janela, que brilha e incandeia uma cidade que incandeia o meu peito e que me dá a esperança de dias melhores e nunca me decepcionou; fundada pela conversão de São Paulo, a Vila da Piratininga sempre se mostrou em constante progresso, conversão, mudança e acompanhamento. 

E a janela, de meu coração, está com as luzes apagadas e entreaberta para a luz invadir o quarto e matar os ácaros. Luzes acendem, apagam, e transmutam, como lâmpadosas verticais e estrêlas postas em vértice na terra - mas ainda sim a luz não se ousa extinguir, ou se por embaixo de um alqueire.

Vejo os livros da estante - teologias maçantes, pesadas, dignas, edificantes e sérias, vejo as estrelas do Céu, e vejo vivendo a mesma situação em novo cenário, perspectiva e prisma. Fico sentado na cama e vejo a noite envolver tudo e todos, e notando as voltas do ponteiro, meu pensamento se desloca em mil lugares, pessoas, coisas, e temporãs; troco a resposta pelo silêncio, e repouso. 

Abre teus braços, amor, que eu 'inda tenho um pedaço de Deus (eu adoro essa citação d'O Terço!), e guardado em teus braços, olho para dentro de mim e vejo tanta coisa, que silencio no eleio dos teus abraços, aguardando de teus carinhos de teus dedos finos que acariciam minha pele, e de teus olhos que me tangem, e de seu canto que me refrigera. E foram mulher, tantas batalhas, tantas lutas, tantas horas da solidão, e tanto desarranjo, que quando vejo minhas obras, as cousas que edifiquei, os mortos que sepultei e os caminhos que tomei, me sinto forte e magno, de fato até mui sábio. Tristes e difíceis começos sempre terminam em finais gloriosos, como dizia-me a Velha sibila sábia enquanto engomava a calça. 

E foi um difícil começo. Agora, espero - assim como o fim dessa noite - o fim glorioso. 

Pax et in terræ. Amen.

sábado, 7 de maio de 2022

Nuvens Pesadas.

E no dia cinza, 

que as nuvens encobrem o Sol,
brinca um vento moleque que passa por mim.
Ajeito a gola e vejo a fumaça do tabaco esvanecer no ar,
e vendo as luzes da cidade amada,
me sinto calmo, 
de certa forma realizado,
mas principalmente,
me sinto bem. 
Passo na tabacaria e pego a encomenda de meu pai,
(que não esquece de seu novo velho filho e o presenteia)
E vou para minha terceira nova casa, de nova mãe e novo pai. 
E ali, me deixam e me obrigam a fazer morada,
e nisto transposto a minha vida,
creio em Deus e oro.
Pelo prato posto na mesa;
Pela confiança ofertada a mim;
Pelo ter com e saber com quem contar;
Pelas missas e ofícios e vida espiritual;
Por quem enxuga meu pranto,
e comemora minhas glórias:
e por estes, Bom Deus, trago seus nomes inscritos em meu coração na Tua presença.
E os entrego do meu pequeno e fraco ao Teu Sagrado e Belo Coração.
Toda ternura é uma forma de amor,
e todo amor se cabe e se basta no peito e na razão,
mesmo que no momento e se diga se sim ou se não,
amor verdadeiro que não se dissipa, morre, foge, mente ou traiçoeira.
Porém; 
se quiser saber, te tenho em todo zelo.
Toda atenção,
toda reza;
todo momento.
todo seu. 
Ei Senhora Atração, Action Woman de primeira;
Jack O' Diamonds está na esquina vendo as nuvens censurar as estrelas.
E elas irão brilhar a todo custo. 
Mesmo que não as vejamos.

E foram os deuses que nos escutaram, menina!

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Kyrie Eleison.

Ontem eu vi um religioso chorar ao meu lado na igreja.

E eu, calejado pela mesma dor que ele passa, apenas pude segurar em seu ombro e lhe jogar sortes e bençãos.
Vi ontem (apesar de sem óculos, a olho nu e perto de mim) uma realidade que conheci desde os tempos de claustro: vi a vida em fraternidade dar sua dor mais latente, e eu, do lado de fora e com minhas dores, vi quem sentia dor mais forte e pesarosa que a minha, por mais que a minha ainda me molestasse.
E eu, olhando para ele - menino novo, solto de vaidade e com desterro em entender a vida apesar de ser douto nas coisas do Céu, lembrei de meu passado, de meu pai de carne (biológico), e de como o Doutor Tadeu deu o diagnóstico de metástase dele naquele hospital verde e branco. Lembrei de como me senti sem chão, e me dediquei a um cuidado, e de como me entreguei veramente pela primeira vez (na época, então com 18 anos) em uma oração sincero, um pedido sincero; idas e idas em hospitais, esperando que ele regredisse ou estabilizasse; e o alto, imponente e místico pai, se reduziu a um magro esquelético claudicante pai, que muitas vezes se fez segredo nos meus braços, e que guardei em minha força, para que eu fosse o pai de meu pai, trocando-o de roupa, dando comida, rezando seu credo, tocando violão, rindo e esvaziando sua bolsa de urina, e lembrando de seu passado, até seu último momento. Eu lembro, eu estava lá.
Dei meu apoio ao clérigo novo, fiz piada dos gestos liturgícos exagerados e assim, fui a missa pela terça vez para entregar ao Eucarístico um filho, que mesmo armado de terço e cruz, batina e benção, estava desamparado. Por algumas vezes senti este mesmo sentimento quando via um pai ou irmão de ordem falecer, e logo me pus no lugar do clérigo que sofria e compadecia pela morte do pai.
E lembrei de como a dor assola todos os corações e todas as casas; de como a morte iminente é um cemitério geral, e nós, os "homens" (seres dotados de tanta virtude, orgulho e vãgloria), infelizmente apenas perdemos isso no cemitério; e explico-vos pacientemente: todos os dinheiros, glórias, status, chamadas sociais, orgulho, falsa-piedade e "bem estar" apenas afastam e destroem a nossa vida comum, e aqueles, cujos quais devemos amar, amparar, fazer valer de nossos votos e promessas e que nos querem bem dentro do que coostumo chamar de "diferencial/igual", andam em segundo plano, e as vezes repelidos por nós.
Meu segundo pai (espiritual) está com metástase, e assim como o primeiro (biológico), e agora seguimos em silêncio, novamente, a longa e sinuosa estrada de até a festa do lugar. E que Deus, O Bendito pelos séculos do Sem-Fim o conceda um bom fim-de-festa, boa morte, e sua entrada aos Excelsos Céus. 

Sua benção, Dom Daniel.

domingo, 1 de maio de 2022

Poema.

 Acordei agora pela madrugada. São quase quinze pras duas.

Sonhei com você, que usava com uma máscara assim como nos teatros gregos, que na forma sorria, mas abaixo da máscara você chorava e tangia a tristeza.
Meu coração contraiu, e eu me lembrei do bom tempo.
E agora, na madrugada que cai pela cidade, me pergunto: será que você também lembra de mim, e seu coração também se contrai?
Será, de fato, que você vão vê e não sente o amor que emana de teu peito? Que antes de tudo, o amor é a tríade da doação, da caridade, e do cuidado? Não sentes que você precisa ouvir a voz do coração e deixar a razão de lado, porque está faltando algo? E, que de tudo e de todos, o seu amor por mais que tente o silenciar, ainda está aí? E que esconder esse amor ou silenciá-lo também está a me machucar?
Tenho passado dias difíceis, mas Deus tem me aliviado o peso com seus anjos e santos. Você pode não estar passando por dias difíceis, mas sei no teu coração que eu ainda estou volta e meia circundo teu pensar. E está tudo bem, também está no meu. E, por favor, vêm-me-vêr. Ando precisando de você mais do que imagina e numa proporção drástica; tenho tanto a te contar daqui do cativeiro que você não imagina das coisas que ocorreram - as boas e as ruins.
Nós nos cuidamos, nos protegemos e batalhamos um pelo outro desde sempre, se você me lê, te peço que venha ter comigo com certa pressa, não só para eu ter um bom dia, mas para aliviar um pouco e extenuar o peso da vida. E se você quiser, ainda tenho guardados (e acumulados) todos os chameguitos para você, desde massagens até cafuné na cabeça.