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terça-feira, 2 de junho de 2026

Miss Sueter

...Ou um texto para quem tentou se matar.

Me lembro de seu cabelo longo e escuro, e teus olhos negros como uma maldição taciturna que não deixava ninguém dormir. Conhecemo-nos novos, por isso nunca pude vê-la como os outros viram, meu approach com você sempre foi diferente. Podíamos ser o que viesse em nossas turvas mentes, porque no fim, (em primeiro plano) um triumvirato, e depois, uma dupla.

Hoje, te trabalhas de alguma coisa num apotecário, ou algo assim. Se perdeu no tempo traiçoeiro das falsas suposições, e acha que está certa no silêncio e desagravo de levar a vida a tons chagados e murmurantes, trilhando a espiral de se imolar por vã questão e estreito espaço de dor que lhe cabe o peito. Esquece de quêm fôste, e ao que na vida lhe benfez, tange nada a lugar algum - o silêncio, que ecoa nas atitudes e ideias vazias, é agora teu dono e mestre. Esquece os que lhe dobraram o braço em nó como companhia; e o pouco do bem-viver que estima vida ‘inda entre tuas mãos, escorre como a água que ao esvanecer, mau lavas teu rosto porque estás a perder por egoísmo e cinismo cego e delator. Perdeu-se, e finge-se irreconhecível para não encarar a vida, cousa que outrora, em nossa juventude, com problemas mui menores - a nível de verdade - lidávamos, vivíamos, e amávamos. Se éramos reis, tu seria a assunta. Éramos amigos, e tu a amorosa, a Dora que faltava em nosso trapiche.

Quiçá você nem se lembre mais de Natalie quando morreu nos nossos braços depois daquela facada quando brigamos com aquele povo no centro, ou quando Bep foi para a Holanda tentar uma vida melhor do jeito errado, ou Rodrigo quando descobriu o câncer que o levou embora; tampouco, há de recordar os estúdios e ensaios, os olhos cruzados na mesa de bar, e as loucuras do centro, sair carregada do bar fingindo desmaio para não pagar a conta e as cervejas dentro de seu carro regadas de conversas cheias de match, ou quando a noite virou dia e as músicas da alpha fm faziam sentido, quando nossos pais morreram, e quando você não acreditou que era verdade tudo aquilo. E por bem da história - modéstia a parte, vos sou crônista, ditoso têmpo, conclamo que proste seus ouvidos aqui - eu lembro. E talvez, só talvez, escrever, além de gravar na eternidade, seja uma forma de denunciar; um grito feito para ninguém ouvir.

O tempo, enfim, foi suspenso no ar; pois no agora, assim eu o quis. Era 2012 ou 2013. Lembra quando encontramos os meninos na frente da estação, dizendo que iam lá protestar não só por vinte centavos, mas por um lugar melhor? Eu ‘inda acho que termos gasto nosso tempo nas cervejas do Xaréu foi mais útil. E no seu carro prata, entre as curvas da estrada, levava-me pelas curvas para irmos na divisa, e ali olhavamos o Céu, e corríamos da segurança, sempre felizes, nunca alegres. Éramos, na forma mais poética, prudentes no erro. E te fiz saber ainda, por último, que aquela garôta do norte não me passou de um pesadelo, quiçá um sonho amargo com gôsto de leucemia.

Marcvs de MMXII: Jogatina, álcool, estádios e serestas.

Menina, quase-indíca-quase-indigena, de kaftan e salto. Meu melhor musk derramado ao pescoço e na jaqueta jeans, e seu floratta que tinha cheiro de desejo e amôr selvagem. Sorriso ameno. Cara de maconheira. Coração maior que os seios, voz aveludada e pele banhada a monange, e um gosto musical que parou nos anos 80. A gente nunca foi naquele baile de samba-rock, não é mesmo? Pena, que agora faz-se tarde. Entre tanta coisa que ainda parece ser tão tardia, tão a se perder…

Volta, se der tempo, e olha as fotos que tiramos, e os sorrisos de quem lhe estima. E se permitir, levanta os olhos, e vê o Sol, deixa a chuva molhar e o vento circundar. Esquece. Pode não parecer, mas após sacudir levemente o saco de memórias do tempo, espero que veja que isso tudo é uma fase, que como tudo passa. De forma bela e precisa nada mudou, apenas envelhecemos e nos tornamos mais propensos a suportar mais. Isso tudo você há de tirar de letra.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Poor Places.

 Estive pensando em você, e me deu uma saudade da vontade - cousa tão nossa que capaz de tu saber o que é; porque de alguma forma, eu sou você.
N'outro dia, no vagão do metrô tive a impressão de ver você; mas cabelo não era escuro, e tampouco fazia aquele olhar cínico por cima do óculos. E ali percebi que eu queria lhe ver essa noite. Para conversar, dizer do muito que trago no peito, e daquilo que minha alma anda desaguando de formas erradas e momentos incertos; ando a errar em muitas coisas buscando motivos certos no que é efêmero, e esquecendo do que tanto conversamos.
E devo dizer que vi outros lugares, flertei com novos mundos, amei outros amores; mas inexorável fui me atando a mim. Me permaneço aonde me encontraste, e aqui até hoje firmarei meus pés. Estou no mesmo lugar aonde me deixaste. 
(Lembro de meu pai, que no caixão, puseram um cachecol e duas madeiras em seu pescoço. E lembro do cachecol acinzentado que havia na volta de seu pescoço). Talvez tenha sido ali que me dei conta que minha côr favorita foi cinza, e onde me despedi dos excessos para aprender mais no silêncio e na calmaria - do hedonismo disse não, e da desregra abandonei - me isolei e reconstruí aquilo que só a mim é digno de orgulho - mas sei que de você arranco um riso bobo.
Hoje, a caminho de casa, o Sol se pôs alaranjando, ferindo uma têz royal no Céu. Risquei os dedos no ar em riste, como se de alguma forma esse carinho nos interligasse, e pensei novamente em você (espero que não se importa, mas até imaginei sua presença) e nos sons que ficaram suspensos; nos cachimbos que não fumamos, nas conversas de varar madrugada no alpendre, e em tanta coisa que de alguma forma você sabe, você sente, você - em qualquer forma que esteja - entenda.
Sinto, então, que ficou muito para caber, e por ora me contento que seja esse vazio - espaço estreito de um navio - que diga tudo de maneira mambembe, ridícula, debochada, e inerente; assim como no silêncio pus os dedos ao Céu para te encontrar, meu pensamento viaja com perguntas, dilemas e desabafos, e no divã de seu silêncio, desaguamos um no outro uma saudade não fictícia, mas de um futuro, um porém, a virgula consumatória do universo que nos ousa em separar no longo fôlego de curta vida que teimo em gastar. O Sol já se pôs, e a noite repousa em nossas mentes.
Eu não vou lá para fora.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Memorial de Tio Fungo.

 Hoje - exatamente as 22:15h - far-se-ão cinco annos da partida de Tio Fungo.
Tio Fungo não era ninguém, e por essa sorte tão magna, ele conseguiu ser tudo em uma omnipresença tão lancinante, que rasgava os soberbos, amansava os coléricos, guardava os amostrados, e alegrava os tristes. Tio Fungo, tio meu por parte paterna, era talvez o parente mais próximo (salvo meu avô) que me assemelhava e remetia meu pai: tinha fala mansa, mas sabia atrovejar a voz quando necessário; campesino, não saía de seu quintal da casa/chácara em Guayanazes, e quase sempre me convidava para tomar garapa de cana em seu engenho. Não tinha o olho esquerdo, após salvar a esposa de um incêndio, que me lhe custou esta quista visão - que há de se convir, era ainda mui atenta.
Tio Fungo, atento aos sinaes do têmpo, soube se atualizar e conversava sobre temas modernos sem ter medo de suas raízes tão conservadores. Era forte, mas manso. Suas mãos calejadas pelo manêjo de instrumentos pesados em seu quintal demonstrava isso; aos fins de semana, sempre se ajeitava para vender limão e especiarias na fêira. E era feliz, com o básico que veramente lhe pertencia e lhe guardava de todo o pensamento vão.
Êle também, muitas vezes queria aprender novas cousas, das quaes me orgulho de ter ensinado algumas, e com êle pude também aprender cousas na qual meu pai - livre de julgamento - não pôde fazer por mim. Fazer a barba, quebrar uma garrafa, olhar nos olhos e controlar a raiva, fazer valer sua palavra, e ter a verdade em tudo para não ser para-raio de mentira (sic). Os toques das galinhas, as plantações, colheitas e douração, tudo isso foi oriundo dele... e a ele devo meu tributo.
Era um dos maiores tocadores de viola, e sempre se orgulhava em dizer que já tocou com Tião Carreiro - mesmo que isso carecesse muito de fontes. E sorria, com seus poucos dentes, e ora mascava o fumo de corda que era visível no canto esquerdo da bochecha, ou estava com seu cachimbo caboclinho fazendo uma fumaça enquanto arrancava cachos de banana...  
Foi o primeiro a me ver com corte de cabelo moecano na juventude turbulenta, o último a me consolar na partida de meu pai e um dos primeiros a me apoiar quando entrei - e saí - da vida religiosa. Foi quem rodava peões de madeira comigo e me ensinou a afinar a viola em cebolão em Mi. Meu primeiro porre de pinga queimada foi com ele, e quando pensei no fim, foi quem me ajudou a olhar o começo. 
Em 2019, Tio Fungo no auge de seus 90 anos foi achado (profeticamente, cabe dizer) ido no seu amado quintal, quando seu coração, que de tão grande era, quis se acochar mais um pouco e crescer, deixando assim seu ar rarefeito e cálido. Nos dias seguintes, sua chácara foi vendida, e por não ter filhos, perdeu-se o rincão para seu irmão mais nôvo, que ao passo da modernidade, hôje possui cabêças-de-pôrco de aluguel. E a vida seguiu, mas alguma coisa naquele dia parou e se manteve com Tio...
...e por sua memória, seu legado, e sua vida - tão humilde, simples, pacata e grandiosa, lhe pago este tributo na condição de escriba dos tempos, inclusive os meus do qual tenho tanto amor e afã, Tio Fungo! - άξιος! 

quinta-feira, 14 de março de 2024

Ode a Seo Fabio.

Meu avô - aqui descrito como Seo Fabio, Fabivs Magnvs, ou Fabião - faleceu na segunda-feira (11/03). Descansou, após duras e tortuosas moléstias e tristezas. Finalmente pode enfim repousar e estar em paz consigo e com os seus. Encontrou com Jorge e Dona Lourdes e foi dar um beijo em Dona Maria, e com sorte foi também jogar bola com Fabinho. Fez a paz ser pacífica veramente, e debochou de todos os instantes sem nunca perder o senso de humor negro que habitava em sua alma. 
Em algum lugar do universo, está ouvindo Moreira da Silva tranquilamente e rindo de nós que ficamos aqui esperando algo...
Seo Fabio era maior porque soube ser menor e safo perante a vida e, apesar de ateu praticante tinha um São Jorge na sua oficina, e mantinha a sua vida pautada em valôres morais que nos ensinaram as avós antes das avós. Filho de pai militar que morreu cedo no Mato Grosso de tuberculose, criado pela mãe, desde cedo viu as casas com cercas de bambu, banhos de rio, igrejas ao domingo e a baguete filão embrulhada em papéis que depois usava para desenhar. Das bolas de meia com travessões de bambu. Da rua que cruzava a linha de trem.
Meu avô é atemporal, fora do tempo, do espaço, e das situações. Viveu os anos 70 nos anos 50, Viveu os anos 90 nos anos 00, viveu a vida com uma sabedoria que transitava no tempo e espaço - como fôsse lá desses sábios que apenas sabem viver, e que seu exemplo perpetua aos olhos, sonhos, sombras e formas. Em cada resquício, deixou um pouco de si nas músicas, nas ferramentas, nas cervejas, nos caminhos, nas bicicletas, e principalmente nas suas camisas do Corinthians e discos de vinil.
Da infância pobre, da luta efêmera pela liberdade, da doença da mãe, dos cigarros e cachaças, dos sorrisos e flertes com a patrícia aportuguêzada mais velha que trabalhava na GE, dos sorrisos, do casamento, das casas e mudanças, dos quatro filhos, e mais além sete bisnetos. Da tuberculose e parada com o cigarro. Do sujinho e teatro Record. Da Av. São João e os chopps da Brahma. Da tristeza tocante em ver o Corinthians se declinar e cair fulgurosamente como sempre faz, e de lembrar de passados com a camisa alvinegra. De ir ao enterro do Neco. De trabalhar vinte e sete anos na mesma empresa e saber que você cimentou aquilo.
Na verdade, faz falta, faz uma falta imensa. Do tamanho de Deus.
Por mais que eu estivesse ausente fisicamente de meu avô, nunca esqueci das coisas que me ensinou e me fez saber pela vida: como beber, o que falar, quando falar, onde realmente mora a prudência, como se afiam ferramentas, e principalmente: Quando saber parar. Das muitas questões que fiz ao meu avô, nenhuma ele me deixou sem resposta, por isso digo que fui mui afortunado e tê-lo em minha vida, e que a vida agora funciona menos dolorosa porque os calos e varizes de meu avô me ajudaram a ter varizes e queimaduras de ferro-de-solda em minha mão.
Eis, pois, a vida.
Sei que meu avô me passou seu legado em ouvir Renato e Seus Blue Caps, em tomar Run Montilla com coca-cola, Nat King Cole e Perez Prado, em ser corinthiano, em sempre ir ao inverso do que a unanimidade dizia, em debochar de toda situação, e principalmente, a se segurar porque "no final eu tenho que acordar cedo pra fazer alguma coisa, e se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim." (sic)
Sei, então, de n coisas (agora adulto) que meu avô me protegeu então na mocidade, e entendo mais uma vez um dito que um frade meu dizia: "O santo, o herói e o legado só aparecem depois de môrto". Uma triste e pungente verdade. Mas a mim, os meus quatro quarteirões, e das coisas que eu penso e sei, reconheço a maior grande de um homem quando o vejo - e que honra quando ele faz parte de minha vida e carrego 12,5% de sangue dele. A sua matéria se consome, mas ele continua inteiro e íntegro, não foi lhe imputado cousa alguma pois em seu tenaz ser possui tôda a honra e glória dos louros da vida - mãe maior da existência, a qual nenhum dos  juízes pode julgar, nenhum dos advogados defender, e nenhum dos militares guardar. A sua dívida - que está ao pé de zero, foi paga. E com isso, atinge o panteão dos heróis, que suas mãos não possuem mais calos e deformidades, aonde seu cabelo está novamente empastado com brilhantina, e suas pernas não possuem mais varizes. Está agora, na Rua Jacú, com seus quatro filhos, se preparando para ao sair da missa ir no campo da NIFE jogar uma bola e depois tomar uma. Passar no açougue do Seo Antônio, e ver a família melhorando.

Para você, meu avô, dou não só a direção dos meus pensamentos, mas o melhor de minha vida. Obrigado por muito e por tanto, e que mesmo que escrevesse tudo aqui, ainda existe aquilo em espaço-estreito-de-navio que cabe somente entre eu e tu. Obrigado pela sua existência.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

California.

 A vida é tão bonita que parece o arquejo dos seus pés quando eles se contraem para você se espreguiçar, e a janela entreaberta faz um degradê em sua pele que marca cada pedaço de paraíso e pecado, e na alfândega, o sorriso teu é a chancela e teus cabelos negros, o pedágio. Eu estou voltando pra casa.
Minha avó sorria sem dentes, tampando gentilmente a bôca, e depois se curvando, elevando as mãos ao Céu, como se a alegria fôsse - como o é - dom de Deus. E tem muita gente por aí que sorri sem ser humilde e não eleva os dons para Deus. E eu, quando me lembro de minhas raízes, volto para onde nunca saí - para a seiva da gênese; eis-me aqui...
...eterno garôto encreiqueiro, trigueiro príncipe do degrêdo, filho ordinário de Itaquera, de sôco inglêz na mão e terço na outra, pude ser tudo o que a vida me deu e me fez caber ser - amei e odiei na mesma proporção, turbulento com a mãe e desastroso em achar o amôr; e nas ruas cheias de estranhos, me disfarçava como mais um; por mais que eu não possa mais, ainda dobro o triângulo, e desço tôda a Brigadeiro Luís Antônio tomando um latão ouvindo The Who. Eu me tomo como sou, e me aceito na medida que me faço, sendo sob-medida para mim, sem ser algo que não sou, e tampouco ser pouco para o raso. Transbordo quando devo, e irrito os que não entendem ainda. Sou eterno transgressor, como tôdo degredado é.
Aquela árvore, apesar de podada ainda está lá. E firme, e forte, sem vermes ou doença. Suas folhas ainda caem na calçada e fazem um farfalhar agradável durante o vendaval, e quando chove, estranha e misticamente a sua copa consegue nos proteger; descendo um tanto a rua tem a banca de pastel do Birebadim, a tenda de ervas do seu Sinval, e o cara que arrumava panelas - e minha avó sempre comprava a borracha de panela de pressão nele. O barbeiro que cortava meu cabelo morreu, mas seu filho tomou conta do lugar, e assim o negócio da família continua em boas mãos. Meus amigos ainda estão espalhados - talvez cada vez mais - em todos os recôncavos. E ali na rampa, Toninho não está mais. E Tio Fungo, infelizmente falecido de morte trágica não pode ver como o Sol descia vermelho do lado dos novos prédios que subiram no lado esquerdo da praça aonde eu e os meninos bebíamos vinho quando cabulávamos aula. 
Os trens ainda fazem o mesmo som quando batem a curva férrea, e a cidade ainda tem o mesmo cheiro de cinza, fumaça, urina e café. Os olhos descompromissados de edifícios clássicos com igrejas barrocas se transfiguram quando passas com seu vestido e all-star. Ao te ver, o tempo se reduz para ver qual livro escolhe da estante; põe um óculos escuro, tá é Sol lá fora.
Ah, o Sol quando desce e faz sombras, é tão lindo. E a cerveja posta na mesa de madeira na calçada, o cachimbo aceso e a conversa a rodar sem fim, a miséria e a alegria com os livros postos num cantinho pra não esquecer enquanto ainda se decide o que comer... ainda tem tempo, e se não tiver tempo na rua ainda tem muitos bares, e chegando em casa ainda dá pra fazer mais alguma coisa. Tem um cara pedindo grana na esquina da minha rua, mas ele não usa pra comida - e se bobear ele come mais e melhor que eu com todas as marmitas que ele recebe, tanto que outro dia deram um pau n'ele por ele ter feito um "esquema" de vendas de marmitas doadas para quem não conseguia comer as doadas outrém. Disseram até que ele deslocou o joelho, mas eu o vi normalmente em pé e em ordem. 
Nenhuma correspondência na cadeña, e nenhum recado no mural, e após três lances de escadas avanço ao meu refúgio - não há dulcinéia que me espera, mas meus livros gritam de saudade e meus instrumentos urgem por um afago, e enquanto enoitece na cidade, vagueio em cordas e letras para falar que sinto saudades daquele Céu estrelado que hoje fulgura em meu coração.
Após um banho, é acordar melhor amanhã.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

De Uma Lontra Para Um Cigano.

 "Quem sabe, sabe; quem não sabe sobra" (VALENÇA; Alceu, 1976)

Ao ditoso amigo cigano que a tudo vê e sente, mas como a rocha, inerente como uma justiça perene se mantém cego como a musa de libra em mãos:

Eu fumo e tusso fumaça de gasolina, e cá aqui no centro mantenho-me vivo a cada respiro de fumaça cinza, e a cada transeunte de passo apressado, vejo meu patrício - primo direto oriundo de (São) João Ramalho e (Santa) Bartira. A São Pavlo da Piratininga, de amôr e ódio, é a mãe que nos obriga a cômer dos vegetaes tão intragáveis, mas que no calar da noite nos beija a fronte e nos cobre com seu mantel - e o mundo só presta assim, é um bom e um ruim - na hora derradeira. Se tratamos bem nossa terra, sustentamos pois o fôgo, qu'essa victoria é nossa!
De tua casa, fiz a minha; de teus conselhos, fiz meus caminhos; De tua sapiência, fiz a minha; De tua irmandade, fiz meu irmão mais velho; De sua forma campesina, encontrei meus parentes distantes; De seus rebentos, fiz meus sobrinhos; De nossos segredos, selei nossa parceria diante do Imóvel e Onipresente sacrário de Padre Deus - a vida. 
Se amizade vale um tesouro, sei bem aonde pus meu coração; e vejo que o encontro no local certo.
Quando me ostento na luta a qual derradeiramente amo, então sei de mim, e sei dos meus; Pois, quando me chamas a caminhar contigo o passo mantido e lutar a luta que amas ao seu lado, sei que não passo além de mim, pois lá tu que conhece a limitação e o entrave tal qual um pai ajuda, ensina e admoesta - de rispidez mas com o amôr embutido como fôlhas recém-cortadas de presunto num papel térmico. 
Há uma estrêla a nascer meu mano, que sobe e fulgura o Céo de maneira ilimitada e que rege os acontecimentos de agora e futuros: Tal como o Cruzeiro do Sul que guia os tanoeiros e as naus ao seu lugar-temente, que sua estrêla brilhe ferozmente, como na fronte de Domingos de Gusmão, para que em sua mente estejam espelhados os translúcidos brilhos cristais d'aquém te faz viver mais prudentemente. E se pega em armas pela questão de ordem, abençoo-vos, mas se pegas e ostenta a horda do insustentável sentimento de ser e estar com o ferro quente que seguras pelo ego estar afã a vós, rezo em contrito; pois de tua natureza não sinto ou vejo maldade, e se assim o faz, foi por quem te fez ver a vida assim que ojerizo, pois: "o homem nasce bôm, mas o metal o corrompe". E sabes que não quero lhe magoar, pois tenho-te em alta conta e entre os santos de minha igreja, assim como chamo outros dois de nós. Mas é vergonhoso - não só a ti, mas a minha lontrice também - ver o quanto precisamos dar tombos e rasteiras até chegarmos na melhoria e na perfeita alegria. Estamos bem. Mas ainda temos tanto muito e tanto mais. 
E pelo seu esforço desse item, e de tôdas as composições de teu ser; é tu aquele que entende a vida melhor que eu, e recupera em mim o brilho perdido de após cansado de pelejar, encontro novamente a minha rosa-dos-ventos, e acho nôvo rumo, nova vida, novo momento. Que Deus, o Bôm Santo Antônio e a Dôce Virgem Mãe das Candeias o abençoe - ontem, hoje e sempre. A benção se estende aos seus.

Aikão lhe manda amplexos e abraços.

Do seu irmão mais nôvo;
A Lontra Franciscana.

"And in the end; everything's alright." (ROOT; Ginger, 2023)

domingo, 23 de julho de 2023

Carta A Oshiro-Romani

1 - Prefácio e saudação;
Marcvs, escriba, para Brayan e Camila. Que Deus os encontre em boa forma, bom estado, e bom coração.

2 - Das alegrias;
Alegremos e demos festas - dentro e fora de nossos corações - por tão salutar alegria. Mas, além da alegria que reina, devemos saber das alegrias que sondam nosso espaço, pois dentro do espaço de um navio, temos lá nossa alegria, a alegria que se compartilha, e a alegria geral, que em bando ou grupo, prenuncia tempos de paz.
2.1 - das terrenas;
Devemos acatar todo sim com regozijo, mas lembrando que todas alegrias são temporárias bem como as tristezas. Logo, enquanto houver-se alegria, deve se esticar o sorriso mais belo no rosto, e quando a tristeza avier, devemos por nosso sorriso mais forte, para honrar a alegria que veio, e para afugentar a tristeza - filha do feo, que não se contenta em vermos em paz.
2.2 - das esprituaes;
E nas alegrias geradas através de rezas, e pedidos sinceros ao coração, devemo-nos alegrar a alma de maneira tão bela que não só agrade a Dôce Mãe das Candeias, mas sim a Deus Pai, o Criador, pois tôda alegria, tôda honra, e tudo de mais belo e perfeito pertence só a Ele, com Ele, e por Ele.

3 - Preparação para a morte;
Devo-lhes alertar também acerca do fim - inevitável e belo encontro aonde veremos face em face Aquele que nos mantém. Não é apenas caridade, nem apenas obra, nem apenas boa atitude, nem apenas boa criação, tampouco bons valores. Nós, de gênero humano, longe da matemática celeste, esquecemo-nos das vias de caridade, das bondades quotidianas e damo-nos por perdidos, por mais que nosso coração pertença a Deus. Ser pae e mãe, é elevar seu(s) rebento(s) ao máximo possível para que eles tenham o coração bom de seus pais, e extirpem os erros para que sejam melhores - cousa que não incluem da violência, do erro, do ódio ou da palavra de inclinação ao erro. Digo, pois, para lhes verem um dia, novamente, unidos na festa do lugar tomando uma pinguinha em algum boteco no Céo!

4 - Da Família;
Da família, pilar da unidade entre o ser e o Criador, criam-se universos de realidade infindáveis, e exponho-vos sobre, não porque sou melhor ou maior, mas para apenas lembrar-vos de cousas pequenas, porém estritamente importantes.
4.1 - Unidade;
Família é união, e não há como fugir disso; se a família se desintrega, são apenas indivíduos que habitam abaixo do mesmo teto, logo, irmãos devem se amar e se proteger, pai e mãe devem se respeitar e se proteger, um com/pelo outro, no cansaço de um, que o outro divida o fardo, e na alegria de um, que o outro saiba se alegrar, pois sendo espelhos vivos de exemplo no caminho terrestre, logo, se uma palavra amarga toma conta do lugar, ou uma repreensão se torna algo excedente, temos aí a abertura do agravante, o índice do erro.
4.2 - Indivíduo;
E que cada indivíduo, tenha também seu tempo, seu espaço e seu domínio: falar, pensar, agir, rezar, amar, se recolher e poder criar seu pensar e seu agir - e percebam que na individualidade daquilo que conclamo, nenhum dos itens vae contra o que lhes digo enquão união. Logo, toda a família precisa de um tempo individual para ter seu respiro; não para ser quem é, pois isso deve-se de ser sempre, mas sim para também ter suas amizades, seus passatempos, e sua mentalidade individual para gerir o pro-bonum para sua família.
4.3 - Da benção em ser mãe;
Ah, a mãe! Olhemos para a Maria, Excelsa. Quão bela é! E tu, ditosa Camila, bendita é tu entre as mulheres, pois teu coração agora desdobra num novo coração, e numa nova forma de sentir, viver, amar, e cuidar. E essa, é a parte do seu corpo que mais vae doer, mas também é a parte que mais irá lhe alegrar, portanto sempre abençoe seu(s) rebento(s) o quão puder, até se exaustar, pois a benção de uma mãe é a maior reza que alguém pode se ter na vida.
4.4 - Da maldição em ser pai;
Major, lembremo-nos de Nóe e Jacob. As palavras do Patriarca da casa, são de extremo perigo. Cabe-te a missão mais bela e extenuante de ser o sentinela, também tem o peso da maldição. Se Camila tem o lado bom, você fica com a faca; Logo, entende-se que se pelo seu crivo houver alguma injustiça, quando afligir sobre seu(s) rebento(s), lembre-se do poder que tens em dizer algo.

5 - Da vida de casal;
Se uma família se constitui em mãe, pai e filhos, logo há um casal. Há de ter sempre a importâncea em não esquecer isso. O casal torna-se mãe e pae, mas ainda sim é um casal. Se vocês amadurecerem, amadureçam o relacionamento de vossas mercês, e se a vida estagnar, reinventem para evoluir e fazer melhor e direito. Os filhos, são a consequência da união, logo, nunca se esqueçam de que vocês não passam de um casal que vingou, deu certo, deu frutos, e gerou pessoas boas para este mundo.

6 - Da igreja;
Alegro-me em ver vocês se aprumando no lado católico da força, e isso de fato é algo mui interessante. Não digo isso de forma pejorativa ou gabosa, mas sei que isso me faz sentir que há uma busca em vocês para a eterna melhoria, tanto de dentro, como que de fora, logo, exponho dois temas:
6.1 - Valores;
Nossos valores - aquilo do qual nunca abriremos mão - tem que estar pareados ou nivelados na nossa crença. Se não seguimos nossa crença, ou seguimos mas com exceções e pequenas permutas, isso não nos torna dignos em nada. A vida, em si, é tão básica, simples e humilde que nos assusta, logo, admoesto a vocês que entendam que os valores da igreja eterna são simples, e se estes valores forem de prudência e evolução para vocês, creio que estão no local certo.
6.2 - Tradição versus Conservadorismo;
São Brayan, quantas vezes você me ouviu falar que a "Igreja de Cristo é imutável?" (sic). Pois então, torno a repetir. Na nossa igreja temos inúmeras ordens, congregações, e mais de trinta tipos de liturgia. Não cabe a nós nunca misturarmos a Imutável Igreja de Cristo com o século (nosso tempo), e tampouco acharmos que a Igreja deve ser pendida a um lado ou convicção. A igreja é tradicional, mas não conservadora. Jesus é o Cristo, e não revolucionário. Na beleza dos cantos tridentinos, vemos sim Deus agir, mas foi pela CEB que vi muitos amigos meus de carestia que não tinham o que comer, serem nutridos e serem hoje boas pessoas. A nossa igreja é como uma grande família, com inúmeras personas, cada qual com seu jeito, maneira, e forma. Devemos apenas ter a harmonia de viver em paz, sem dizer quem é certo ou errado, pois, se cremos no mesmo Cristo e elevamos a mesma hóstia santa, logo todos nós temos o mesmo Credo.

7 - Das raízes;
Imploro a vós: Nunca percam suas raízes. Quem perde suas raízes é condenado ao suplício, ao erro, a peste, a maldição e a morte. Da humildade, da felicidade com pouco, das alegrias sacras que residem no simples, da paz, e da felicidade: Sempre se lembrar do bom passado, e transmutá-lo ao advento e tempo de Cecília, a benvinda e bem-aventurada entre nós. Quem esquece suas raízes, esquece de si mesmo, e esquece de onde veio, para onde vai, e o que quer fazer.

8 - Benção e Despedida;
Acerca de mim, não me aquietaria em escrever no meu alfarrábio de memórias sobre grandes pessoas que se tornaram grande família e que eu pudesse dar algo tão meu (palavras foscas) para um memento desse porte. Abençoo-vos com minha humilde e fraca reza, e peço que Deus os abençoe e os ponha entre os Santos, Únicos, Justos, Primeiros, Patriarcas, Profetas, Virgens e Mártires.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Woohoo.

 Bateu cinco graus no centro. Eu vi, eu estava lá.
E foram cinco graus bem pesados, bem medidos e bem acirrados. E a precisão da sensação térmica deu os mesmos cinco graus. Era frio, mas o viño que me desceu aos nervos me aqueceu mediante a falta de teus afagos e teu dínamo vivo que chamas de corpo.
Avisa a tomboy que hoje não tem café. Só chá.
Sou suspeito para falar, né? Gosto do frio e seus nuances - sinto-me verdadeiramente vivo, ou útil de alguma forma quando essas correntes de ar me circundeiam; sinto ecos do passado e de alguma forma mui estranha também sinto os meus antepassados em presença dijunto a mim. Sinto mais prazer nas bebidas quentes, e posso simplesmente andar nas ruas sentindo o mundo a minha maneira; não que isso seja algo especial, mas sinto que nesta forma eu absorvo mais do meu infinito, e com isso me sinto mais disposto a entender, refletir, agir e cuidar.
Hoje de manhã se deu em 10 graus. E foi ótimo.
Apesar das roupas não secarem decentemente, ainda sim é um bom tempo. É quando as pessoas se recolhem. É quando tem São João. É quando a vida se torna mais íntima e menos de exposições públicas, sem vermos todo o mundo vibrando em unissono na rua, havendo mil ecossistemas a cada esquina, se degladiando por um lugar ao Sol. É quando tudo estranhamente se permanece absorto, meticulosamente quieto. Estático. Dentro de sua concha. 
Vi uma criancinha no Terminal Pq. Dom Pedro dizer pra mãe: olha, sai fumacinha da bôca! enquanto a mulher em seu exercício materno olhava cariñosamente e ao mesmo tempo procurava o ônibus para entrar, e por um momento lembrei de minha mãe quando me levava ao Cândido Fontoura ou ao Darcy Vargas. Lembrei de muitas mães que como sublimes leoas se dividiram em formas irrecuperáveis para ser (em sua conduta e forma) o firmamento para seus filhos e filhas. Lembrei de Dona Antônia (entre os justos), e timidamente soltei fumacinha pela bôca mesmo sem têr um cachimbo de usufruto para disfarçar. E esse era eu. Aos 31 anos de idade, atingido invariavelmente por uma criança, ressuscitei uma parte morta dêntro de mim em um terminal de ônibus que também foi palco de minha infância. E ao entrar no ônibus, apenas ri.
Após goles de café, relatórios e testes, cá estou eu. Aqui na Mooca faz os mesmos 10 graus (em sensação), e de fronte para o meu quintal - amada Piratininga - sorrio, e lembro de um bôm têmpo. Faço mais um café, e com a corrente de vênto na janela, vejo a cidade fria se transfigurar para um formigueiro silêncioso.
...na verdade, agora fazem 13 graus. 
Que dia delicioso. 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Céu De Brasília.

Quero andar um pouco.
Me divertir, sentir vivo talvez. Quero ver o começo da semana a noite. Os semblantes cansados nos comboios públicos, as dôces mulheres que tirando seus saltos de horário comercial, agora se desprendem de ancas em chinelos de dedo, as môças que se saindo da academia, parecem uma tartaruga-ninja com o casco de alça pôsto nas costas... Os fortes homens de alma frágil dependurados nos balcões do bar, tomando uma cerveja ou uma pinga com limão para aguentar o tranco, ou dormir sem jantar...
Tem um irmão-de-rua que passa, cativo e alheio ao universo. Seu saco de coisas encosta nos transeuntes, e atenciosamente, pede perdão a cada um. O passêio público parece algo tão largo e estreito; na quadra seguinte se reúnem os jovens para poder entrar em uma faculdade, e alguns adolescentes se encontram e sentindo o mal da imortalidade bebem, dançam, cantam e brincam com o amanhã; como se de forma bela isso fosse imortalizado em sua aura.
Uma estrela brilha demasiadamente, mais que a Lua - já não mais cheia. E ai dos olhos que as vêem, pois se o alteia para vêr, pode correr risco de perder a carteira, celular, e ganhar hematomas furtivos. Um vento suave como que de verão entrecorta os corpos cansados, que já mais do que nunca anseiam por sexta-feira. Tem um olho no alto da torre. Mão aberta, cajado pôsto em defêsa, e rôsto de fronte inquisidora. Olhos que olham, tangem, secam... aliviaram.
Ah, musa, deverias deixar eu me ocupando pelo brilho dos olhos foscos que vejo, do colorido cinza que têm nos prédios e marquises, das tôrres, bares, perfumes e cheiros fétidos; dos aviões que transpassam o ar sem ter nem com quê ou porquê, e nas rotas mais calmas, se tive sorte, ouvi uma árvore farfalhando ou alguém pedindo um dinheiro para pagar um corote.
E eu, tão pequeno diante da magna essência desse lugar, sou ao mesmo tempo dono de um universo tão complexo e confuso dentro do meu sorte. Os faróis são de estrada, faróis de milha como diria meu pai, e os semáforos hoje, logo hoje decidiram trabalhar. As bancas de jornaleiros começam a bater seu cartão e fechar. Um garoto de talvez 14 anos compra um cigarro solto. O vejo. É cabeludo, como fui. Sua mão parece frágil ao acender o isqueiro para fumar. Na primeira tragada ele engasga. Desvio o olhar para não intimidá-lo, e lembro-me de quem já fui - parcela de mim que não eliminei e ainda rola no meu recôncavo, alcunha de nome Ox; velho conhecido desse blog...
Ao sair do espaço, mantenho-me perto de alguma certeza, algo que ainda tente me mantenha firme. Faz muito tempo que não sinto meus pés tão pesados e meus olhos tão fracos. E ver essa cidade, mesmo que do lado de fora, por um pouco espaço de tempo, me acalma. Me dá a sobrevida que preciso, e afasta de mim aquilo que nem as paredes confesso; apesar de já dito. Me esqueço da sorte, da solidão, da contraforça e da raiva, e guardo em mim a sorte ou benção de ter sido filho do furacão - dos amigos mortos, heróis tardios, mártires irreconhecíveis, gloriosos desconhecidos e do pae tardio.
Dobro a rua de casa num arremate preciso para não ver mais estudantes arrogantes de direito, desço-a, tal qual os ônibus desordenados, e me mantenho apenas por existir ou por fôrça de pesar os pés contra o chão. Abro a porta, e vejo o saguão, tímido e de tapete suntuoso. E ninguém me espera, toma pela mão ou segue meu ser; como me disse o cantor: Quem me levará sou eu.
Se hoje saio para ver esse coração maquinado trabalhar, é porque o meu já não bate, tampouco palpita, e só a ouvir a sinfonia que essa cidade proporciona, sinto-me de alguma forma, imortal. E nenhum outro que não seja filho da Piratininga pode entender.
Ao meu chão, entrego meu corpo primeiro. Ao porto, não.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

MMXXII

 Mas gente do Céu, que aninho treta...

Este ano de fato foi o ano onde mais a porca franciscana torceu o rabo. Ao meu parecer, vi que esse ano não foi revelador, mas sim temerário, de grã vileza e de fôrça rude. Esse ano mostrou tanta coisa que, vemos face a face. 

(DISCLAIMER: Não venha até aqui com seus olhos positivistas tentar ler o que escrevo com alguma "aura" linkediniana. Aqui é mato - raw franciscan way of life, and such a well respected workin' class mate - e pretendo continuar assim por mais um tanto. Me vale a alegria de ser o que vivo e professo do quê viver uma ilusão ou flertar com estilo de vida incompatível, ou também como dizemos no populesco: "arrotamos caviar comendo mortadela.")

A vida nos ensina a ser francos, ter noção de justiça, re-considerarmos, e termos o entendimento que nem toda teoria é certa, e todo livro também possui seu inutilismo. Tenho receio daqueles que se escondem atrás de livros, alpendres, pórticos e arietes, e no alto de sua douta vida e grã sabedoria não descem para a arena para viver com gosto e agarrando sua própria alma com fôrça e altivez. Ah, que pena. Pena que seus livros te ensinem tanto sobre amor, e não ame; te doutrinam sobre misericórdia, e não faça; te fale sobre ter sensatez, e você tem falácias descontinuadas.

É mais fácil ser superior, né? Mas mais difícil é 'guentar o tranco da vida com todas as suas porradas e imperfeições e ter a cabeça tranquila no travesseiro que fez tudo o que podia, sem hesitar, sem pensar, sem murmurar e sem se conter por quaisquer barreiras que te façam humano e vivo/atento a todos os sinais de vida que o Criador te imputa ao redor de tua carne - fez com desespero e alegria aquilo que se prega em um evangelho vivo e imutável.

Seus diplomas serão papéis amarelados, sua ciência pode e será refutada, e seus momentos de "bom-vivant" serão mal-ditos pela suas costas. Te restará apenas o (parco) bem que você faz de coração aberto; você tão em pressa de viver esqueceu principalmente de viver. Que bandeira... 

Esse ano foi o ano que escrevi meu livro e o publiquei. Se der certo, a primeira meta do ano que vem é fazer uma tarde de autógrafos num lugar que gosto muito. Oro a Padre Deus que dê certo. Espero os rostos e as auras que tanto me fizeram bem esse ano para celebrar no ano que vem este momento tão belo em minha vida.

Ah! E me mudei. Agora o garôto da zona leste tá no Centro da Cidade!

Tenho medo da riqueza material e o que ela faz com a cabeça das pessôas; e dos que vi, meu coração até hoje dói por eles terem tão fascínoramente "virado a cabeça", tenho ojeriza das famílias de "comercial de margarina", tenho surtos coléricos ao ver pessôas tão felizes que batem palma pro Sol - a alegria de viver reina e se estabelece em meu pêito, e se a engrandeço de maneira exacerbada, me torno inimigo daquilo que carrego em meu ser; Deus que se manifesta no silêncio e vem em meu auxílio nas horas mais tristes aonde ninguém segurou minha lágrima ou me fez ombro amigo.

Houveram dias que houve silêncio. E quando apertava, rezava. E quando a reza não dava, chorava. E quando a lágrima secava, recorria como um desesperado aos pés da Cruz. E inexplicavelmente tudo dava um pouquinho certo - certo o suficiente para que eu ainda sentisse vida em mim, e no meu coração. 

Este ano perdi amigos, referências musicais, perdi família, perdi o amor, quase me perdi, trabalhei em lugares e profissões que nunca achei que faria, e mesmo longe eu estive perto - fui agraciado e reconhecido pelos trampos que fiz e pela força que exerci. E aonde fui, levei meu velho crucifixo de bolso com um Santo Antônio, e repetindo a fórmula que minha avó rezava, dizia ao me sentar na mesa: "Alto! O Sagrado Coração está comigo!". E quiçá por Deus, ou pelo meu merecimento, hoje estou num cargo bom, numa empresa boa, num lugar bom, com uma vida que ainda bagunçada, mas bem.

Esse ano foi um porre. E a garantia é não saber o que vem no ano que vem. A garantia é mais trabalho, mais cervejas, mais exames, mais leituras, mais sons, e mais silêncio; se retirar e aprender a morrer é uma questão de ordem.

Feliz ano nôvo, tilápios. Paz e Bem!

Do;
Queiroz, Marcus.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Tabacaria.

Uma tabacaria, sobrado, casa.

No bairro do grito, aninhado a árvore daninha,
ao lado do boteco de decanos senhores,
um bandeira, plantas, santos franciscanos e pretos velhos.
Tem uma família lá me esperando.
A mãe escreve no portão o preço, as filhas desenham retratos de infância.

Esse não é qualquer lugar. Eu juro por Padre Deus.
Ali tem gente que gosta de graça.
Ali tem verdade.
Ali mora Deus.

Tem grama no chão. Chão que a gente pisa com respeito e carinho, sabe?
Tem bandeiras, fumos, cangalhas, tererés, músicas,
conversas e dissertações da vida e uma chegança:
A chegança mais bela dos amigos,
que após sentir o peso da vida, apenas se reúnem,
e falam do riso para guardar a lágrima para depois.
"Robson, mais uma cerveja por favor?"

Tem tabaco. Tem conversa,
riso, confidência, verdade e esperança.
Flôres, incenso e azuis, a harmonia mais bela da vida comum.
O lugar mais franciscano na vida anti-franciscana.
Concorda-se entre os anjos que:
o n° 126 é a casa aonde se une a família de sangue com a família que escolhemos.]

Frades, presbíteros, diaconatos, militares, ferreiros,
aposentados, engenheiros, advogados, vendedores, alfaiates
reis, rainhas, pessoas comuns, pessoas extraordinárias,
pais, filhos, nóias, e cabeças de meia-lua.
Somos uma gama de pessoas que se auxiliam, se gostam, e se velam.

É sábado, tabaco, cerveja e lanches da Loanna com um Benício que descansa no ventre.
Valentine e Aurora trazendo a felicidade de crianças aos velhos corações cansados que lembram de sua infância e do evangelho do Senhor.
Robson, velho novo timoneiro, Anhangværa moderno, de conversa e sábios conselhos. De riso e de verdade cortante.

O dia nasce, o dia corre, o dia desce.
E morre mais uma semana.
E no sábado, comprar mais um fumo pro tabaco,
é que esse aqui do meu bornal já acabou.

Deus Vos Salve Essa Casa Santa.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Carta a Malé.

 1 - Prefácio e saudação;

Marcvs, escriba e radioativo para Madalena, irmã minha, irmã de meu Gil. Que os abraços e amplexos de saudade que entrego ao vento estejam bem de encontro a vós. Escrevo essa carta, pois do Dia da Mãe do Perpétuo Socorro e também natividade de nosso Gil, possamos meio que a distância aliviarmos a falta do nosso dominicano predileto.

2 - Amenidades geraes;
Estou bem na medida do possível, Malé, comecei a lidar com a "radiação" hoje. Um pouco de enjôo, um pouco de fome, um pouco de cansaço e um pouco de raiva. Agora para amenizar a tonteira, eu danei a usar uma muleta, para grandes caminhadas ou ladeiras, e tenho consumido grandes quantidades de chá matte. Tenho visto o Sol nascer e morrer, e orado tanto quanto a cabeça deixa, o olhos veem e a mão traqueja; de fato não escondo que estou passando por um péssimo momento, mas, entreguei a insígnia desta situação a Deus, e o que Ele quiser de mim, estou aqui. Por mais que doa, estou aqui. Por mais que machuque, estou aqui, e por mais que por momentos eu não queira, estou aqui, então deixo a Deus as coisas que desejo, quero, penso e preciso. E se for de Sua vontade, que se concretize, se não o for, cabe a mim aceitar; quanto ao livro, terminei há um tempo, quando der, lhe mando uma cópia, ou posso lhe enviar pela internet o primeiro da saga - tenho certeza que muitos elemenos que você conhece estão lá: Gil, Rachael, Fillipi, Rafael, Bæda, e até mesmo Mãe Inês!

3 - Preparação para a morte;
Sei que daí praqui são poucas horas, por isso peço que quando vierdes, vem me ver, e lanço a vós um abraço em Dona Tereza, Dona Joana, e todas essas santas senhoras e mulheres que constituiram você e Gil como bons irmãos e grandes amigos meus. Se o tempo não for bondoso, vá lá e acende tu uma vela pra mim, e ora pra que em algum recôncavo de la do lado de lá eu possa ver Gil, sentarmos, rirmos e nos escondermos no sari da Doce Mãe das Candeias.

4 - Lembranças de Gil;
De Gil, guardei um sorriso, uma carta, a Teothokos (que posteriormente dei para alguém que amo muito, que precisava de uma graça, e como aquele ícone me valeu, deixei com ela e não pude pegar de volta, me perdoa), um terço de São Miguel que sempre guardo com estima, e uma camisa. O que permanece comigo, guardo com afã a memória dele. E se a mim, amigo, irmão de ordem e vida dói, penso como não dói bem mais em você e Dona Joana a ausência. Oro sempre por ele, pedindo o sufrágio de sua alma, e que Deus já tenha o acolhido. Gil, independente de sua sexualidade, era de virtude, de fé, de esperança, de oração, e de uma devoção assustadora para com a Virgem Maria. Guardo dele, os melhores momentos e melhores conversas.

5 - Sobre a vida;
Quão a ti, como me alegra saber de tantas coisas boas! Se der me a graça Padre Deus, que eu não morra sem ir te visitar e comer um churrasco teu! E mais me alegro pela vida que você gera no ventre, bendito seja Deus! Imagino Dona Joana já babando pelo rebento teu, e faço meus votos que seja mui feliz. Escolheste um bom caminho, e agora, vendo a vida acontecer com casa, carro, filho e mãe, alegremo-nos por tudo isso. É a mão de Deus que repousa sobre ti, Malé!

6 - Despedida e benção;
Peço-te perdão por não ter falado muito com você, mas não ando conseguindo conversar muito. E além disso, ando cansado e as vezes me pego ofegando (fazer alongamentos atualmente tem sido uma merda!), mas, como sempre seguimos! Que Deus te abençoe, te guarde e te livre de todo o mal, e que a ponha junto com seu rebento entre os Santos, Justos, Únicos, Primeiros, Virgens e Mártires. Amo vocês em verdade e Deus permita que nosso encontro esteja logo e perto!

E viva Gil!

terça-feira, 14 de junho de 2022

Carta a Bep.

 1  - Prefácio e saudação;

Marcvs, escriba e claudicante para Bep Andrade e os seus. Que Deus encontre graça e paz na sua família, e faça nela prodígio de louvor.

2 - Prodígios e peixes;
A vida, Bep, tem sido dificultosa mas não me queixo, entrego a Deus cada passo meu e quem conhece minha alegria vê minha tristeza e quem abraça minha dor será minha motriz para orgulho. Tenho a cada dia olhado o movimento dos barcos, e visto as coisas acontecerem, e eu, a cada segundo espero que as coisas melhorem - peço teu perdão em não ter dito nada sobre a moléstia que me aflige, não queria lhe afligir ou tampouco fazer algo que pudesse lhe preocupar, conhece minha natureza.
E sim, ainda tenho meus transes e êxtases, mas os oculto e apenas digo aos meus. Tenho sim evitado de pensar e dizer dessas coisas pois sei que a primeiro momento tudo o que eu possa vir a dizer sempre serei taxado, então ainda guardo - e pasme! - até agora um peixe foi falho, e fui justamente a do Heitorzinho. Vai entender...

3 - Preparação para a morte;
Não quero, não propenso e nem estimo viver mais do que a minha mão alcança e porque meu coração deseja. Sei que uma hora irei me esvanecer, e talvez mais cedo do que imaginávamos. Em Agosto, quando vierdes, quero que eu esteja ainda por aqui para poder te ver e te roubar um abraço (com cautela, pois estou dolorido), ver Rodrigo e teus filhos. Quero poder ver-te, amiga, em terras brasileiras e te dar seus presentes. Te sinto em saudades pessoais e gostaria de podermos nós três comermos uma feijoada e rirmos um pouco; necessito de alegria em minha vida, e por mais que as palavras de vocês me reconfortem, me interessa um pouco de contato humano. Não tenho medo da ida, Bep. Mas tenho medo da condição que me envolve, por isso escrevo aos meus e aos que tanto estimo.

4 - Sobre a perseverança;
Abrace seus filhos, e os ame. Beije teu homem e o celebre. Cuide-se, e mantenha a fé. Persevere. Lute. Seja gentil, dócil, mansa e humilde, e não tenha medo - o Atos dos Apóstolos segundo São Lucas que nos ensina que não devemos ter medo. Por isso, te dou a coragem dessa vida, tenha-a como tenho, e respire cada segundo desse ar, como eu respiro. Ter medo neste instante e nesse momento é totalmente inconcebível, e saiba, que ainda rezo por vós, os seus, e pelos seus desafios.

5 - Conselhos finais e benção;
Te guardo no Sagrado Coração, na barra do sari da Doce Virgem Mãe das Candeias, e na proteção benéfica do Bom Santo Antônio. Que seus filhos estejam em paz, harmonia, glória e amor. Que seu amado seja sempre seu eterno e infindo amor, e que todos seus desejos puros e sinceros de coração se realizem. Seja forte, determinada, tenha fé e coragem. Deus te guarde e te proteja, Bep!

terça-feira, 31 de maio de 2022

Naquela Mesa.

 Ao meu avô, com votos de alegria.

Sons de címitarra entrecortam tua voz - lâmpejo de seriedade no ar de ironia que nos circundeia.
Não queria lhe ver em cama posta, deitado como se esperasse fim algum, mas queria te ver como sempre lhe vi em minha infância e juventude: eternamente a trabalhar na bancada da sua oficina, arrumando tudo, ajeitando as coisas do vizinho, me ensinando a mexer nas ferramentarias gerais, e me ensinando como se troca as correias.
Foste e é por enquanto o (claudicante) elo que restou de Fabinho. És minha raiz e sou tua foz. Me miro em teu projeto de vida para ser mais e melhor. E tudo que vos disse no teu 80° aniversário, vale ainda. Tudo. És meu pai, amigo, profeta e professor, que em poucas lições me ensinou muito sobre a vida e os aspectos que lhe encerram: conversar, rir, olhar nos olhos de quem merece, não ter medo do cotidiano/comum, saber como se efetua um trabalho para não o refazer, e principalmente, não desistir da felicidade.
És sinal principal e primordial de perseverança na minha vida, e não menos que um justo obrigado lhe devo - talvez minha profissão, e a remissão de meu pai; pois quando fui eu o pai de meu pai, você foi o meu irmão mais velho. E quando a Véa foi embora, você foi o primeiro que correu atrás de mim, e eu agora, me preocupando com você, me fez te olhar nos olhos e prometer que venceria para te dar orgulho.
E eu, tão vencedor de tantas batalhas, ousei prometer nada impossível, mas o que me cabe para te dar paz e saber que estou dentro de nossos preceitos - você que me ensinou sobre a Boa Piratininga, sobre João Ramalho e Bartira, que me guardou nos caminhos me ensinando cada rota e estrada, lhe agradeço por não ser o que todos deviam ver, mas naquilo que coube a nós dois, você ser o melhor avô do mundo - e sempre quando ouço Elvis, Nelson Gonçalves, Nat King Cole, ou Renato e Seus Blue Caps me lembro de você, com seu único neto que lia seus livros, ouvia seus discos, e não te pedia para arrumar, mas sim queria saber porque o fio rosa tinha que ser ligado na fase roxa do 110v.
És estrêla-auta de meu pendão. AXIOS!
Já estou em Piratininga. E essa cidade ainda é nossa. Cinza, fria, de garoa e gente trabalhadora. Estamos aí, e vamos adiante.

A benção, Fábio Magno!

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Feira Moderna.

 Hoje estou em vigília, enquanto velo o sono de meu terceiro pai. 

Seu sono ressona em toda sua casa assim como o som oriundo das ruas, e como parafraseio a banda: "enquanto os gritos dizem, os acordes tocam, estão dançando nas ruas"; e eu, por um leve momento pensei ouvir Yes tocar. 

E as pombas, se aninham em conjuntos nos parapeitos das janelas, e eu as vejo daqui. Elas me fitam esperando um sonoro alguma coisa de mim, e eu, apenas as fito em união, espiando-as num ninho improvisado de concreto e união, enquão a mãe pomba adula seus filhotes embaixo das asas e os pombos maiores cercam os filhotinhos de rato voador.

A noite cai na cidade velha, e agora são poucos carros que tocam a passar nos viadutos e ruas - estradas nuas aonde se pode ver no sossego do crepúsculo o asfalto e dar-lhe um descanso. Eu rezo um terço, e olho a janela, que brilha e incandeia uma cidade que incandeia o meu peito e que me dá a esperança de dias melhores e nunca me decepcionou; fundada pela conversão de São Paulo, a Vila da Piratininga sempre se mostrou em constante progresso, conversão, mudança e acompanhamento. 

E a janela, de meu coração, está com as luzes apagadas e entreaberta para a luz invadir o quarto e matar os ácaros. Luzes acendem, apagam, e transmutam, como lâmpadosas verticais e estrêlas postas em vértice na terra - mas ainda sim a luz não se ousa extinguir, ou se por embaixo de um alqueire.

Vejo os livros da estante - teologias maçantes, pesadas, dignas, edificantes e sérias, vejo as estrelas do Céu, e vejo vivendo a mesma situação em novo cenário, perspectiva e prisma. Fico sentado na cama e vejo a noite envolver tudo e todos, e notando as voltas do ponteiro, meu pensamento se desloca em mil lugares, pessoas, coisas, e temporãs; troco a resposta pelo silêncio, e repouso. 

Abre teus braços, amor, que eu 'inda tenho um pedaço de Deus (eu adoro essa citação d'O Terço!), e guardado em teus braços, olho para dentro de mim e vejo tanta coisa, que silencio no eleio dos teus abraços, aguardando de teus carinhos de teus dedos finos que acariciam minha pele, e de teus olhos que me tangem, e de seu canto que me refrigera. E foram mulher, tantas batalhas, tantas lutas, tantas horas da solidão, e tanto desarranjo, que quando vejo minhas obras, as cousas que edifiquei, os mortos que sepultei e os caminhos que tomei, me sinto forte e magno, de fato até mui sábio. Tristes e difíceis começos sempre terminam em finais gloriosos, como dizia-me a Velha sibila sábia enquanto engomava a calça. 

E foi um difícil começo. Agora, espero - assim como o fim dessa noite - o fim glorioso. 

Pax et in terræ. Amen.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Kyrie Eleison.

Ontem eu vi um religioso chorar ao meu lado na igreja.

E eu, calejado pela mesma dor que ele passa, apenas pude segurar em seu ombro e lhe jogar sortes e bençãos.
Vi ontem (apesar de sem óculos, a olho nu e perto de mim) uma realidade que conheci desde os tempos de claustro: vi a vida em fraternidade dar sua dor mais latente, e eu, do lado de fora e com minhas dores, vi quem sentia dor mais forte e pesarosa que a minha, por mais que a minha ainda me molestasse.
E eu, olhando para ele - menino novo, solto de vaidade e com desterro em entender a vida apesar de ser douto nas coisas do Céu, lembrei de meu passado, de meu pai de carne (biológico), e de como o Doutor Tadeu deu o diagnóstico de metástase dele naquele hospital verde e branco. Lembrei de como me senti sem chão, e me dediquei a um cuidado, e de como me entreguei veramente pela primeira vez (na época, então com 18 anos) em uma oração sincero, um pedido sincero; idas e idas em hospitais, esperando que ele regredisse ou estabilizasse; e o alto, imponente e místico pai, se reduziu a um magro esquelético claudicante pai, que muitas vezes se fez segredo nos meus braços, e que guardei em minha força, para que eu fosse o pai de meu pai, trocando-o de roupa, dando comida, rezando seu credo, tocando violão, rindo e esvaziando sua bolsa de urina, e lembrando de seu passado, até seu último momento. Eu lembro, eu estava lá.
Dei meu apoio ao clérigo novo, fiz piada dos gestos liturgícos exagerados e assim, fui a missa pela terça vez para entregar ao Eucarístico um filho, que mesmo armado de terço e cruz, batina e benção, estava desamparado. Por algumas vezes senti este mesmo sentimento quando via um pai ou irmão de ordem falecer, e logo me pus no lugar do clérigo que sofria e compadecia pela morte do pai.
E lembrei de como a dor assola todos os corações e todas as casas; de como a morte iminente é um cemitério geral, e nós, os "homens" (seres dotados de tanta virtude, orgulho e vãgloria), infelizmente apenas perdemos isso no cemitério; e explico-vos pacientemente: todos os dinheiros, glórias, status, chamadas sociais, orgulho, falsa-piedade e "bem estar" apenas afastam e destroem a nossa vida comum, e aqueles, cujos quais devemos amar, amparar, fazer valer de nossos votos e promessas e que nos querem bem dentro do que coostumo chamar de "diferencial/igual", andam em segundo plano, e as vezes repelidos por nós.
Meu segundo pai (espiritual) está com metástase, e assim como o primeiro (biológico), e agora seguimos em silêncio, novamente, a longa e sinuosa estrada de até a festa do lugar. E que Deus, O Bendito pelos séculos do Sem-Fim o conceda um bom fim-de-festa, boa morte, e sua entrada aos Excelsos Céus. 

Sua benção, Dom Daniel.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Carta aos Dispersos.

São Paulo, ano do Senhor de 2020, ao 29º dia do Mês de Maio.

I - Prefácio, e saudação.

Marcus, o Queiroz; Filho de Fábio, de Márcia, amado por Antônia, de coração Franciscano, mente Dominicana e bôca Beneditina, aos dispersos pela pandêmia: Paz e Bem! Glória imortal ao Sangue vertido da Cruz, pois Ele é a melhor forma de viver.
A filha, no ventre da amada, ao Sol que ainda aquece no frio, ao Marçal, Bezerra, Leão, Cunha, Leme, Arcanjo, Miriani e aos que me circundam: Graça e Paz! Fartura para os que dividem, e misericórdia aos que acumulam.
Em tempos de crise, ticoliro (lhe chamo assim desde que soubemos de vossa alegre e bem-vinda  chegança), nós andamos dispersos, mas o fundamento, côrpo e essência para se manter são é você. Então, o tôm, contracrônica e palavra dessa epístola é para você. Os acima citados são meus, e me tem carinho como os tive, logo, se são pessoas de meu viver, pode os considerar teus amigos e próximos.
28 anos, sem a amada, com a barba extensa, e a todo dia orando por você, e desejando ardentemente segurar-te em meus braços ao menos uma vez e te amar gloriosamente - filha, és de fato a concretização de um sonho, e a alegria que fulgura em meu peito, faz-me bem e dá-me ânimo e esperança. Não há um dia que eu não imagine sua mãe, e não pense nela, tampouco cá vós, e oro para que o dia da festa esteja pronto e digno para sua entrada. Em ti vejo a calma que tanto busquei, e o motivo de continuar a terra. Em paz e ainda em paz, desejo ser para ti o pai que nunca tive, e ser presente como o meu nunca foi, amar-te e apoiar-te e dar-te o que conheço, tenho e sei. Te ensinar o amôr, a verdade, e o que realmente é o mundo. Não te quero santa, mas não te desejo comungando com falso moralismo, quero-te livre, verdadeira, e fiel a seus princípios - e mesmo que os teus princípios possam me magoar, serei fiel a teu amôr, pois é por você que dobro meus joelhos a cada dia desde que soube que seria o melhor presente que tua (incrível) mãe poderia me dar.

II - Passar dos dias, admoestação, cuidar e conhecer:

E aqui eu fico, isolado, longe, arrumando a casa para sua chegada, e imaginando você; Desejo que não seja nem igual a mim, tampouco a sua mãe, mas que tenha seu brilho próprio e que ache seu lugar ao mundo, que eu e ela possamos lhe dar com o tempo e com a experiência, você é a primogênita, e cheia de amôr. Permita Deus que nós sejamos exímios em sua criação e possamos lhe passar o que julgamos ser a verdade. Filha, agora me acho aparte de vocês, mas nunca em momento algum deixei de amar ou sequer pensar em vocês, digo com a certeza dos Patrísticos que estou vivendo um sonho acordado, mas o maior sonho de minha vida, não estou vendo. Apenas sentindo. Deus é bom, justo e maravilhoso, e a tôdo momento cabe a Êle render glórias, pois em respostas de minha oração, Êle me entregou sua mãe como mulher, mãe, amiga, namorada, amante, rainha, consorte, e esposa. Ter sua mãe não foi apenas amar uma mulher, mas ela fez mais por mim como qualquer outra. Sua mãe encontra-se num patamar igualado e nivelado de sua Avó Márcia, e de sua antecessora, Dona Antônia - A Véa.
Porquanto você estiver com ela, diga que a ame, cuide e ampare dela, faça-a bem, respeite e ouça as decisões e conselhos dela com sabedoria. Abrace-a forte, e beije o rôsto mais macio que há. Tenho mais certeza ainda que não poderia haver mãe melhor para você do que ela. Afora sua mãe na terra, há Maria, a Virgem Sempre Bem-Aventurada, que ouve minhas preces e há de sempre lhe acompanhar por onde for, porque a amada Rainha Celeste, mãe nossa, me disse que cuidaria dos teus passos e te daria a alegria. A Mãe, minha filha, sempre quer nosso bem. Sempre.
Ame seus avós, e não esqueça de sua avó Márcia, que muitas vezes lhe ora e pede sua vinda com saúde, e ânimo. Cookie, a cachorra mais desordeira do mundo te espera ansiosa para lamber sua cara e roubar sua comida. Todos nós, deste lado da história estamos muito ansiosos por você e fazemos votos de lhe amar muito, e em paz, e contemplar você.

III - Consolação, virtudes, apoio:

Não há culpa, não há magoa, não há dôr. Há um vazio que vocês duas deixaram, e que nunca se preenche. Nos primeiros dias, pedi tanto a Deus pela morte, e ele nunca me respondeu. Talvez eu deva lhe segurar nos braços para entender o que é a perfeição, para depois partir. Filha, dou-te como lição ser sempre leve, aceitar tudo o que Deus lhe manda, e amar as pessoas com cada tino e certeza de seu coração, confie em tua intuição, e acredite sempre em seu potêncial - se hoje sou pai, e estou vivo, é porque ao longo do caminho sempre tive o sonho de um dia poder constituir minha família, e mais além: Sabia de que minha vida seria perfeita com tua chegada. Não houve um dia que não esperei por hoje, e digo que você desde que revelada já foi muito amada, tôdas as minhas alegrias hoje são você.
Se eu não estiver por perto, saiba que lhe amo, e lhe tenho confiança em tudo o que fizer, e mais além: Tudo o que desejar, que for sincero e puro, de teu merecimento, Deus lhe dará e te recompensará pelo que dividir com teus irmãos. Ama a vida, e despreza o gôsto de ocre na bôca, renega a casa, flôrete e jardim, e ama a perfeição, entende que tudo que vive é irmão, e que há uma Fôrça soberana que rege, guarda e ilumina teus passos nessa terra. Sê feliz, pois quem tem sorriso na boca não tem tempo para chorar; Entrega-te só para quem te merecer, pois tem seu pêso posto em ouro, vale muito e é estimada, preciosa e querida. Ame apenas quem for digno de seu amôr, sê caridosa com todos e louva a Deus por tudo, pois em Tudo Êle estará contigo e te livrará do mal por onde você for, carregas o sangue franciscano, sê humilde, grata e em paz.

domingo, 17 de novembro de 2019

Gente Humilde.

Seo Fabio é a transição do têmpo e espaço, e nessa tentativa inútil de viver entre o saber e o descobrir, abri a fenda do tempo de imortalizar meu avô em palavras.
Nascido na fenda da pedra dura (chamada Itaquera), nasceu o homem de poucas palavras, ironia extrema, franqueza, e batedor-de-dedo-indicador na mesa quando bebe cerveja e come azeitona de tira-gosto.
Seo Fabio foi o homem (cujas profecias, pois homens desse calibre não estão na história, fazem), de bairro, futebol, de namoro-de-portão, de trabalho duro, e salário muito baixo, pouca comida e um omelete para quatro filhos. Uma esposa que lhe ajudava onde podia, e muitas vezes só aliviava o peso do mundo no bar, tomando a cana mansa-couro, ou o futebol onde se quebra ou é quebrado. O peito de meu avô é o lugar mais inacessível do mundo, e louvado seja quem o adentrou. Creio que se eu tivesse tantos dinheiros quanto bolsos em minha calça, deixaria todo isso guardado no peito de meu avô, nunca soube eu que alguém passou ali - e se passou, não voltou para contar a história.
De todo, meu avô sempre foi racional em tudo o que fez, agiu e constituiu ao longo de sua existência, claramente, nunca deixou muito o sentimento ir em sua frente, mas ao mesmo tempo, com sua forma, deixou o sentimento aguar parcas vezes - mas dessas parcas vezes, cada vez que me recordo, sei que vale mais do que uma vida sendo amado e amando. O altar que ponho Seo Fábio, o Velho, é digno por saber que foi um homem comum, que acordou cedo, labutou, jogou bola, bebeu, falou palavrão, brigou, riu, falou da política, ajudou quem pôde e como pôde, e se dedicou a família como pôde, em todas suas instâncias. Se meu pai foi omisso, nas raras vezes que pude estar pareado com meu avô, ele foi mais que avô, foi pai, mestre, profeta e amigo. Meu avô, por mais que não saiba, é um de meus melhores amigos.
É a prova cabal de que a vida não precisa de muito, mas o pouco tem que ser bem-feito, e feito com carinho e lucidez. E que na dificuldade proliferam coisas boas sim. Me ensinou tantas coisas, e mesmo sem saber, me incentivou em tantas outras, e indiretamente, me ensinou por tantas outras. Seo Fábio ainda hoje acorda, pega a bicicleta, vai até a banca, pega um jornal, passa um café, e lê o jornal ouvindo as notícias no rádio, e sempre que pode acompanha seu time jogando. Sempre que estou por lá, ouvimos uns discos, ou quando não estou lá, ele mesmo ouve os discos dele.
Seo Fábio não sabe, mas ele é uma das pessoas que mais sinto saudades.
Seo Fábio não pode morrer, e quando (infelizmente) a Irmã Morte o abraçar, rogo ao Santo dos Santos que mandem anjos em seu encontro, e que na presença da Virgem, sua alma seja amparada e consolada pelos serafins. Peço que ele, muro de arrimo e casa-forte de tanta gente dessa família, esteja em paz, pois não houve e nem haverá um espelho tão belo e límpido como esse homem. Espero ainda que segure meu rebento no seu colo. Espero poder curti-lo mais um tanto, e mais além: Espero poder abraçar aquele velho mais um tanto, mesmo nunca tendo a coragem de o fazer, e que no derradeiro momento, ele saiba que apesar de minha ausência, sempre se faz lembrado por palavras, atitudes, carinhos e prece.
E por último, mas como cimento, digo que meu avô, mesmo com sua agnosticidade, ou ateísmo, foi quem mais me ensinou de Deus, pois ao afirmar sua dúvida, me ensinou a entender o credo e correr atrás das Potências Celestes em meu caminho.

A benção, Seo Fábio!

"E eu que não creio, peço a Deus por minha gente; É gente humilde - que vontade de chorar"

domingo, 7 de abril de 2019

Rock, Baby, Rock.

A garôta não existe mais.
"É invenção do vento", disseram-me êles, assentados sobre os tamboretes, apesar de poucas vozes ouvirem e muitos ouvidos falarem. E ninguém quer saber se muito ou se pouco, apenas quer saber e ir atrás do que convém. E eu, fiquei para escanteio, fiquei para depois, deixei para outro dia, empacotei e quis saber se dá pra entregar ao remetente.
Ah, coração traiçoeiro, que bate e bate e não chega em compasso sincopado. Te orienta!
Talvez até estivessem certo, eles. Afinal, nem eu botei fé, e com os ombros cansados contra a maré, hoje me deixei ser um da correnteza, e ao parar de reter, não sinto mais a vontade de entender, de fazer saber, tampouco de fazer a vontade prevalecer. Quero agora é ganhar no grito, quero é bater na cara, e gritar mais, quero e tudo de cerveja, de skol. Quero é ver a geral piar e apoiar na arquibancada meu alvinegro, e voltar para os pontos riscados no chão de Seo Fábio, e lembrar o nome de tôdos os boiadeiros, para me valer daquela antiga reza para quem me acompanha. Quero é ver meu nome no Céu, e não aceito menos que isso. Quero tudo o que reneguei, porque isso não mais me valeu, o Céu sobre minha cabeça não tem mais heróis. Apenas pessoas iguais a mim, que quanto mais as chamo, mais parecem longe, distantes, inóquas ao que digo - e mesmo eu falando latim, elas inda sim não me entendem.
Sorria, enxuga as lágrimas, recusa a porta e estreita e vai viver, guarda a pérola e vae viver, que a vida é boa, e os deuses sorriem ao teu favôr.
Quero emagrecer para entrar na calça de baile, quero a bota engraxada e a camisa engomada, tirar a barba e cortar o cabelo em três pôntas. Quero os anos de Start de volta, e as coca-com-montilla, as meninas de saiota e fred perry, botinha e riso maldoso, quero as andadas atrás do boteco mais barato, e o riso aberto, imortal, isecular, que nunca vai morrer, e vai se gravar na coxa das moças e no fígado dos amigos, quero tudo que me cabe por direito, e mais além: Quero que calem-se as bocas, e que se entendam os sonhos. Quero a vida por vida, a minha vida por direito - que ninguém nunca toma, rouba, fere ou mata. Quero o gemido louco e desenfreado de gozo, quero tudo aquilo que me foi prometido e mais do que foi, e dessa vez não me dou o direito de dividir, quero para mim, e para minha tumba, pois se muitos juraram sobre ela, nela habitarei e nela tudo o que for meu por excelsa garantia, lá estará - pegará quem quer, sobreviverá quem eu deixar. Eu sou o vento.
Deixo minha humildade a quem se inteirar da verdade, e meu matulo a quem quiser carregar pedras, meu paladar para quem quiser comer sal, e minha alma para quem quiser contemplar Deus. Deixo minha vida para quem quiser bater de frente com o inefã, e deixo meu segredo ao Prometido, pois só Ele tem direito disso, como acordado na Ceia Mística, e as garôtas deixo minha motriz sexual, para que quando alguém as tocar, seja eu o primeiro, intermediário e último pensamento. E de menos, deixo meu afago a tôdos os caninos da rua, e quem quiser me sentir, vai me achar no Centro Velho, ali na São João e Barão, nos botecos, nas lojas de discos, nos sorrisos, e tudo mais que de bom e infinito que houver.
Eu quero o aboio de meus avôs nordestinos, tão amados, estimados, queridos e amados como todo o povo da Correntina! A benção, Vô Francisco, A benção, Rainha Dona Antônia!

Eu quero o que é meu por direito, só que dessa vez eu vou mandar buscar.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Luz Dos Olhos.

Abba, não sei se tens lido essas pequenas cartas virtuaes que mando daqui do degredo para Vossa Santidade, mas, como Pai (forçado) Espiritual, sinto-me obrigado a escrever para vosmecê. Não numa obrigatoriedade paternal, eclesiástica ou espiritual, mas pelo Frade Eterno que nos ensinou a fraternidade extra-ordens e pela amizade que temos - e numa tentativa de esvanecer minha cabeça. Deus o abençoe pelo seu tempo e Deus me abençoe pelas minhas inúmeras tentativas de me re-erguer.
Tenho tido muita saudade de minha avó, e tenho a matado da melhor maneira possível: Ouvindo Gonzagão a tôrto e direito. Ao menos assim a sinto perto de mim, e consigo ter em mim um pouco da fé e vontade de batalhar pelo direito-temente de vida que a minha Rainha tem. Minha avó, por um pequeno imperfeito-perfeito de Deus não irá durar para sempre, e isso me atordoa, mas tenho a completa ciência que a missão dela está se cumprindo: Criou os filhos, aguentou os pesos da vida, viu os netos vingarem, Deus me deu a maior alegria da minha vida que foi ser criado por ela e ser instruído na fé Cristã, e aprender melhor as coisas (simples) da vida. Enquanto minha mãe tomou tôdas as rédeas de casa, provendo sobre nós três, minha avó foi minha mãe, e minha mãe foi meu pai, não deixando nada em absoluto me faltar.
E considero engraçado que mesmo com tantos (des)amores, os únicos amores que me valeram foi o da Mãe das Candeias, Mãe Cecília, Antônia e Dona Márcia. O tão óbvio nos pega pelas ventas e nos faz sentir tão bobos, não? Só me sinto cada vez mais feliz e jubilante ao Senhor por ter descoberto isso em têmpo e poder devolver tôda essa doação de vida e amôr que deram para mim ao longo de suas vidas - eu faço bem menos da metade da metade, mas luto para fazer o possível e quando menos imaginar, fazer o impossível.
Quero tôdo tempo que eu puder, e tôdo tempo quanto houver pra mim é pouco pra dançar com minha véa numa sala de reboco. Minha vó me ensinou a me recolher na oração durante as fases difíceis da vida, e louvar a Deus nas horas bôas, assim como a ensinou aos seus filhos. E não existe honra maior que eu ter ficado embaixo do mesmo teto que ela.
Se eu pudesse, longe e livre de meus pecados, pedir algo a Deus, seria que ela durasse o máximo de tempo. Poder curtir com ela, ouvir a voz da minha rainha, dizer a ela que estou me cuidando, que a Cookie vae bem, e tudo se mantém firme, e continuo rezando, que os frades vão bem, e tudo continua legal - e com as contas em dia. Quero que a estrêla maior do meu Céu nunca se apague, mas sei que o brilho eterno dela irá me guiar e alumiar para onde eu for. Mas, como esse dia (graças a Deus) irá demorar a chegar, até lá vamos curtindo.