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quinta-feira, 14 de março de 2024

Ode a Seo Fabio.

Meu avô - aqui descrito como Seo Fabio, Fabivs Magnvs, ou Fabião - faleceu na segunda-feira (11/03). Descansou, após duras e tortuosas moléstias e tristezas. Finalmente pode enfim repousar e estar em paz consigo e com os seus. Encontrou com Jorge e Dona Lourdes e foi dar um beijo em Dona Maria, e com sorte foi também jogar bola com Fabinho. Fez a paz ser pacífica veramente, e debochou de todos os instantes sem nunca perder o senso de humor negro que habitava em sua alma. 
Em algum lugar do universo, está ouvindo Moreira da Silva tranquilamente e rindo de nós que ficamos aqui esperando algo...
Seo Fabio era maior porque soube ser menor e safo perante a vida e, apesar de ateu praticante tinha um São Jorge na sua oficina, e mantinha a sua vida pautada em valôres morais que nos ensinaram as avós antes das avós. Filho de pai militar que morreu cedo no Mato Grosso de tuberculose, criado pela mãe, desde cedo viu as casas com cercas de bambu, banhos de rio, igrejas ao domingo e a baguete filão embrulhada em papéis que depois usava para desenhar. Das bolas de meia com travessões de bambu. Da rua que cruzava a linha de trem.
Meu avô é atemporal, fora do tempo, do espaço, e das situações. Viveu os anos 70 nos anos 50, Viveu os anos 90 nos anos 00, viveu a vida com uma sabedoria que transitava no tempo e espaço - como fôsse lá desses sábios que apenas sabem viver, e que seu exemplo perpetua aos olhos, sonhos, sombras e formas. Em cada resquício, deixou um pouco de si nas músicas, nas ferramentas, nas cervejas, nos caminhos, nas bicicletas, e principalmente nas suas camisas do Corinthians e discos de vinil.
Da infância pobre, da luta efêmera pela liberdade, da doença da mãe, dos cigarros e cachaças, dos sorrisos e flertes com a patrícia aportuguêzada mais velha que trabalhava na GE, dos sorrisos, do casamento, das casas e mudanças, dos quatro filhos, e mais além sete bisnetos. Da tuberculose e parada com o cigarro. Do sujinho e teatro Record. Da Av. São João e os chopps da Brahma. Da tristeza tocante em ver o Corinthians se declinar e cair fulgurosamente como sempre faz, e de lembrar de passados com a camisa alvinegra. De ir ao enterro do Neco. De trabalhar vinte e sete anos na mesma empresa e saber que você cimentou aquilo.
Na verdade, faz falta, faz uma falta imensa. Do tamanho de Deus.
Por mais que eu estivesse ausente fisicamente de meu avô, nunca esqueci das coisas que me ensinou e me fez saber pela vida: como beber, o que falar, quando falar, onde realmente mora a prudência, como se afiam ferramentas, e principalmente: Quando saber parar. Das muitas questões que fiz ao meu avô, nenhuma ele me deixou sem resposta, por isso digo que fui mui afortunado e tê-lo em minha vida, e que a vida agora funciona menos dolorosa porque os calos e varizes de meu avô me ajudaram a ter varizes e queimaduras de ferro-de-solda em minha mão.
Eis, pois, a vida.
Sei que meu avô me passou seu legado em ouvir Renato e Seus Blue Caps, em tomar Run Montilla com coca-cola, Nat King Cole e Perez Prado, em ser corinthiano, em sempre ir ao inverso do que a unanimidade dizia, em debochar de toda situação, e principalmente, a se segurar porque "no final eu tenho que acordar cedo pra fazer alguma coisa, e se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim." (sic)
Sei, então, de n coisas (agora adulto) que meu avô me protegeu então na mocidade, e entendo mais uma vez um dito que um frade meu dizia: "O santo, o herói e o legado só aparecem depois de môrto". Uma triste e pungente verdade. Mas a mim, os meus quatro quarteirões, e das coisas que eu penso e sei, reconheço a maior grande de um homem quando o vejo - e que honra quando ele faz parte de minha vida e carrego 12,5% de sangue dele. A sua matéria se consome, mas ele continua inteiro e íntegro, não foi lhe imputado cousa alguma pois em seu tenaz ser possui tôda a honra e glória dos louros da vida - mãe maior da existência, a qual nenhum dos  juízes pode julgar, nenhum dos advogados defender, e nenhum dos militares guardar. A sua dívida - que está ao pé de zero, foi paga. E com isso, atinge o panteão dos heróis, que suas mãos não possuem mais calos e deformidades, aonde seu cabelo está novamente empastado com brilhantina, e suas pernas não possuem mais varizes. Está agora, na Rua Jacú, com seus quatro filhos, se preparando para ao sair da missa ir no campo da NIFE jogar uma bola e depois tomar uma. Passar no açougue do Seo Antônio, e ver a família melhorando.

Para você, meu avô, dou não só a direção dos meus pensamentos, mas o melhor de minha vida. Obrigado por muito e por tanto, e que mesmo que escrevesse tudo aqui, ainda existe aquilo em espaço-estreito-de-navio que cabe somente entre eu e tu. Obrigado pela sua existência.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Naquela Mesa.

 Ao meu avô, com votos de alegria.

Sons de címitarra entrecortam tua voz - lâmpejo de seriedade no ar de ironia que nos circundeia.
Não queria lhe ver em cama posta, deitado como se esperasse fim algum, mas queria te ver como sempre lhe vi em minha infância e juventude: eternamente a trabalhar na bancada da sua oficina, arrumando tudo, ajeitando as coisas do vizinho, me ensinando a mexer nas ferramentarias gerais, e me ensinando como se troca as correias.
Foste e é por enquanto o (claudicante) elo que restou de Fabinho. És minha raiz e sou tua foz. Me miro em teu projeto de vida para ser mais e melhor. E tudo que vos disse no teu 80° aniversário, vale ainda. Tudo. És meu pai, amigo, profeta e professor, que em poucas lições me ensinou muito sobre a vida e os aspectos que lhe encerram: conversar, rir, olhar nos olhos de quem merece, não ter medo do cotidiano/comum, saber como se efetua um trabalho para não o refazer, e principalmente, não desistir da felicidade.
És sinal principal e primordial de perseverança na minha vida, e não menos que um justo obrigado lhe devo - talvez minha profissão, e a remissão de meu pai; pois quando fui eu o pai de meu pai, você foi o meu irmão mais velho. E quando a Véa foi embora, você foi o primeiro que correu atrás de mim, e eu agora, me preocupando com você, me fez te olhar nos olhos e prometer que venceria para te dar orgulho.
E eu, tão vencedor de tantas batalhas, ousei prometer nada impossível, mas o que me cabe para te dar paz e saber que estou dentro de nossos preceitos - você que me ensinou sobre a Boa Piratininga, sobre João Ramalho e Bartira, que me guardou nos caminhos me ensinando cada rota e estrada, lhe agradeço por não ser o que todos deviam ver, mas naquilo que coube a nós dois, você ser o melhor avô do mundo - e sempre quando ouço Elvis, Nelson Gonçalves, Nat King Cole, ou Renato e Seus Blue Caps me lembro de você, com seu único neto que lia seus livros, ouvia seus discos, e não te pedia para arrumar, mas sim queria saber porque o fio rosa tinha que ser ligado na fase roxa do 110v.
És estrêla-auta de meu pendão. AXIOS!
Já estou em Piratininga. E essa cidade ainda é nossa. Cinza, fria, de garoa e gente trabalhadora. Estamos aí, e vamos adiante.

A benção, Fábio Magno!

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Os Argonautas.

Mãe prêta, deita a moringa no teu colo, e serve a água do tibum-gadum do copo arêado no açude. Côa nosso café e dá um pouco pro têu hômem. Põe teu xale e tira a carne do dessalgue, vê o Sol subindo da barra e estende as roupas no bateio. Água meus olhos em ver-te, monumento vivo da história viva, mãe da guerra e felicidade - de punhal aberto na mão, e afago ligæiro na outra, me cariña e corta meus cabêlos, Dalila moderna. Corta-me e me devolve a fôrça ee maneiras singulares.
Evoco as allegôrias, mí(s)ticas, e delas me envolvo e velo, zêlo. Dá-me, nêgra, o seu licôr embôjoado na tua moringa, dá-me, nêgra, teu amôr.
Extenso o camiño, forte a estrada, doloroso o penar, e seguimos. Meditamos na medida e zeramos a reza, e os joelhos se aprendem a rezar, e as bôcas deixam de beijar: se tornou a convivência. Doeu.
No fundo eu sou um belo de um panaca.
Ai, que quêm me diz que o amôr morreu, me explica porque das 24 horas dêste dia, concentro as 30 na tua pessôa, e porque quando me calo para me fazer presente, sinto-me a trair no que creio, nos meus ideaes e cousas que rondam meu coração. Ai de mim, Guaratinguæta, por estar feliz e triste, e não entender mais de tudo. Apenas manter a forma, mas o conciso e concentrado ser vazio - atenuo aqui a minha forma de dizer e pensar, e logo elogio os olhos que tangem das linhas. Encontro-me perdido mesmo estando a me encontrar, estou sentado na mêsa, com cerveja aberta, sôm, cômida e esperando minha pessôa chegar, descer do Rossio e vir têr commigo.
De fato, o Frade Eterno tinha co'ele as razões.
De fato, havia em si mil razões e mil motivos.
De fato, e minhas justificativas?
Eu queria, ao menos, ser fêliz.
E ser fêliz por completo, não utópicamente, tampouco pela história, mas daqueles que olham a mulher nua, deitada na cama, e sabe que dela lhe têm o amôr. Ó estrada sinuosa e maldita, da qual meu coração se estreita e passa o passo. Entrego a mim uma tristeza, pois é o que no momento sei dizer e fazer. Meu coração começa a terminar de desaguar água e viño, e seca. Uma lágrima cae de meu ôlho.
Não sou eixo ou ponto, não possuo pôrto-seguro em meus braços, e dado o visto e o momento, não sei fazêr bem a ninguém. Sou filho de qualquer revolta e táciturníco na luta, luta essa que aprendi a amar, e não fui de voluntário. O meu pastôr sabe que eu sei que Êle sabe das armas que carrego, e cabe a Êle decidir se sou água ou se sou viño. De mim, sei tanto que deixo aos outros acharem.
Me cabe o silêncio, para que ao menos ilusóriamente, eu ainda ache que serei notado em algum momento.

domingo, 17 de novembro de 2019

Gente Humilde.

Seo Fabio é a transição do têmpo e espaço, e nessa tentativa inútil de viver entre o saber e o descobrir, abri a fenda do tempo de imortalizar meu avô em palavras.
Nascido na fenda da pedra dura (chamada Itaquera), nasceu o homem de poucas palavras, ironia extrema, franqueza, e batedor-de-dedo-indicador na mesa quando bebe cerveja e come azeitona de tira-gosto.
Seo Fabio foi o homem (cujas profecias, pois homens desse calibre não estão na história, fazem), de bairro, futebol, de namoro-de-portão, de trabalho duro, e salário muito baixo, pouca comida e um omelete para quatro filhos. Uma esposa que lhe ajudava onde podia, e muitas vezes só aliviava o peso do mundo no bar, tomando a cana mansa-couro, ou o futebol onde se quebra ou é quebrado. O peito de meu avô é o lugar mais inacessível do mundo, e louvado seja quem o adentrou. Creio que se eu tivesse tantos dinheiros quanto bolsos em minha calça, deixaria todo isso guardado no peito de meu avô, nunca soube eu que alguém passou ali - e se passou, não voltou para contar a história.
De todo, meu avô sempre foi racional em tudo o que fez, agiu e constituiu ao longo de sua existência, claramente, nunca deixou muito o sentimento ir em sua frente, mas ao mesmo tempo, com sua forma, deixou o sentimento aguar parcas vezes - mas dessas parcas vezes, cada vez que me recordo, sei que vale mais do que uma vida sendo amado e amando. O altar que ponho Seo Fábio, o Velho, é digno por saber que foi um homem comum, que acordou cedo, labutou, jogou bola, bebeu, falou palavrão, brigou, riu, falou da política, ajudou quem pôde e como pôde, e se dedicou a família como pôde, em todas suas instâncias. Se meu pai foi omisso, nas raras vezes que pude estar pareado com meu avô, ele foi mais que avô, foi pai, mestre, profeta e amigo. Meu avô, por mais que não saiba, é um de meus melhores amigos.
É a prova cabal de que a vida não precisa de muito, mas o pouco tem que ser bem-feito, e feito com carinho e lucidez. E que na dificuldade proliferam coisas boas sim. Me ensinou tantas coisas, e mesmo sem saber, me incentivou em tantas outras, e indiretamente, me ensinou por tantas outras. Seo Fábio ainda hoje acorda, pega a bicicleta, vai até a banca, pega um jornal, passa um café, e lê o jornal ouvindo as notícias no rádio, e sempre que pode acompanha seu time jogando. Sempre que estou por lá, ouvimos uns discos, ou quando não estou lá, ele mesmo ouve os discos dele.
Seo Fábio não sabe, mas ele é uma das pessoas que mais sinto saudades.
Seo Fábio não pode morrer, e quando (infelizmente) a Irmã Morte o abraçar, rogo ao Santo dos Santos que mandem anjos em seu encontro, e que na presença da Virgem, sua alma seja amparada e consolada pelos serafins. Peço que ele, muro de arrimo e casa-forte de tanta gente dessa família, esteja em paz, pois não houve e nem haverá um espelho tão belo e límpido como esse homem. Espero ainda que segure meu rebento no seu colo. Espero poder curti-lo mais um tanto, e mais além: Espero poder abraçar aquele velho mais um tanto, mesmo nunca tendo a coragem de o fazer, e que no derradeiro momento, ele saiba que apesar de minha ausência, sempre se faz lembrado por palavras, atitudes, carinhos e prece.
E por último, mas como cimento, digo que meu avô, mesmo com sua agnosticidade, ou ateísmo, foi quem mais me ensinou de Deus, pois ao afirmar sua dúvida, me ensinou a entender o credo e correr atrás das Potências Celestes em meu caminho.

A benção, Seo Fábio!

"E eu que não creio, peço a Deus por minha gente; É gente humilde - que vontade de chorar"