Ontem eu vi um religioso chorar ao meu lado na igreja.
E eu, calejado pela mesma dor que ele passa, apenas pude segurar em seu ombro e lhe jogar sortes e bençãos.Vi ontem (apesar de sem óculos, a olho nu e perto de mim) uma realidade que conheci desde os tempos de claustro: vi a vida em fraternidade dar sua dor mais latente, e eu, do lado de fora e com minhas dores, vi quem sentia dor mais forte e pesarosa que a minha, por mais que a minha ainda me molestasse.
E eu, olhando para ele - menino novo, solto de vaidade e com desterro em entender a vida apesar de ser douto nas coisas do Céu, lembrei de meu passado, de meu pai de carne (biológico), e de como o Doutor Tadeu deu o diagnóstico de metástase dele naquele hospital verde e branco. Lembrei de como me senti sem chão, e me dediquei a um cuidado, e de como me entreguei veramente pela primeira vez (na época, então com 18 anos) em uma oração sincero, um pedido sincero; idas e idas em hospitais, esperando que ele regredisse ou estabilizasse; e o alto, imponente e místico pai, se reduziu a um magro esquelético claudicante pai, que muitas vezes se fez segredo nos meus braços, e que guardei em minha força, para que eu fosse o pai de meu pai, trocando-o de roupa, dando comida, rezando seu credo, tocando violão, rindo e esvaziando sua bolsa de urina, e lembrando de seu passado, até seu último momento. Eu lembro, eu estava lá.
Dei meu apoio ao clérigo novo, fiz piada dos gestos liturgícos exagerados e assim, fui a missa pela terça vez para entregar ao Eucarístico um filho, que mesmo armado de terço e cruz, batina e benção, estava desamparado. Por algumas vezes senti este mesmo sentimento quando via um pai ou irmão de ordem falecer, e logo me pus no lugar do clérigo que sofria e compadecia pela morte do pai.
E lembrei de como a dor assola todos os corações e todas as casas; de como a morte iminente é um cemitério geral, e nós, os "homens" (seres dotados de tanta virtude, orgulho e vãgloria), infelizmente apenas perdemos isso no cemitério; e explico-vos pacientemente: todos os dinheiros, glórias, status, chamadas sociais, orgulho, falsa-piedade e "bem estar" apenas afastam e destroem a nossa vida comum, e aqueles, cujos quais devemos amar, amparar, fazer valer de nossos votos e promessas e que nos querem bem dentro do que coostumo chamar de "diferencial/igual", andam em segundo plano, e as vezes repelidos por nós.
Meu segundo pai (espiritual) está com metástase, e assim como o primeiro (biológico), e agora seguimos em silêncio, novamente, a longa e sinuosa estrada de até a festa do lugar. E que Deus, O Bendito pelos séculos do Sem-Fim o conceda um bom fim-de-festa, boa morte, e sua entrada aos Excelsos Céus.
Sua benção, Dom Daniel.
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