terça-feira, 26 de junho de 2018

Blusa de Linho.

Cecília, todas as cadências e nuances são seus. São eternamente e totalmente teus. Todas as formas, texturas, gostos, tempos, tons e contra-tempos, viradas e arremetes; Ah, Cecília, meu coração está tão afã esperando você. Minha vida inteira seria apenas meia vida se eu não te esperasse ou não te delegasse minha forma de vida - seria loucura de vida se você não estivesse comigo o tempo tôdo do tempo do mundo, e seria maior loucura se eu não soubesse que você seria tutora do meu caminho com o Cavaleiro Guerreiro do Cavalo Imaculado.
E quando os sinos dobram, eles falam de você, e quando as pombas batem as asas em bemol, são arrebóis das tuas pentatônicas, os motores dos carros afinados em Fá, das nuvens que se fazem de escala para sobre os prumos dos Céus, te ver escrever um cântico nôvo. Um cântico de amôr, um fôlego de vida pro teu filho, para esse coração cansado, para meu secularismo tão curto, e tão intenso, tão cheio de histórias que levei até sua casa para te pedir discernimento, e coragem, e proteção.
Vire-se para o Sol, ó minha flôr-de-novembro, quem te mandou se olhar para uma erva rasteira de março assim? Deve ser de ti, providas das lágrimas de nossa senhora, que nos deixam crescer como as trepidantes trepadeiras que nascem fazem, crescem sem pedir licença, somos nós quem nos fazemos assim - nos sabemos. A tua côr solfeja um Lá maior setimado me amenizando de crescer tão rasteiro, mas me fazer entender que te divides da tua fôrça comigo, e daí do teu lençol freático, me lança a água. Água Viva.
Ah, Cecília, me delegaste a função mais franciscana e mais dominicana do panteão, me fez ser de música e para a música, e na hora da rejeição, quando os outros viraram os seus alpendres e altares, você me acolheu na tua casa e no teu holocausto. E hoje sou coluna com deficiente destreza de teu pilar, estou rachado e esmaecido, mas estou aqui, e por você, eu sou. Me trouxe na rés da sociedade, aonde me valho de pouca música que me vale e me basta, aonde conheci os meus e os meus (poucas vezes) me valeram, e aonde pronunciei teu nome, e o nome dos Teus, e Do Teu. Preguei sem pregar, e rezei sem me aperceber, chorei por lágrimas floridas de escalas de Mi Menor, e sorri quando o Fá em nona contrastava com Ré em nona, dando aquela nossa dissonância que ninguém entende, mas que nos faz tão minha, e tão seu.
E assim, vejo o quanto nunca estive só desde que você se dispôs (e não há outra palavra, Mãe, sabemos disso mui bem) a cuidar de mim. Me fiz menino, para esconder debaixo do teu sari, para chorar minhas tristezas e louvar minhas alegrias. Na hora da solidão, foi minha amiga, na hora da tristeza, meu conforto, na hora do medo, minha estrutura, e quando duvidei, você foi quem me trouxe de volta pro lado de cá. E quando a barra pesava (como tantas vezes pesou e ainda pesa, ainda pena), corríamos nós dois para debaixo do sari da Mãe das Candeias, e lá acampávamos até a tristeza e agonia passar, foram tantas percas, e tanta tristeza, tanto gosto de aço na boca, e tanta fuligem no rosto, o ocaso, e desânimo que você livrou de mim - Ah, Cecília, como é boa a vida do teu lado, e como é boa tua tutela sobre minhas carnes. E se te cabe saber, todas as vezes que de madrugada amei a madeira contra as cordas de aço, foi procurando você, foi querendo estar com você. Foi me valendo de você, que me refiz, e aumentei as apostas na crença do Invisível, fazendo dessa vida menos cã quando você está aqui comigo, o tempo passa mais devagar, e as alegrias se tornam mais doces, e o som se deixa uniforme, e você mostra os caminhos das pedras para chegar até o Excelso.
Foi por você, que ainda estou aqui. E é por você que quero ir mais longe, quero levar o teu pendão até onde eu puder, e divulgar a missão, disseminar a palavra sobre todos os solos, e dizer todas as palavras que não te pôdes dizer, e que minha língua pode (e vai) dizer. Quero a alegria de te encontrar e dizer: Bom trabalho, garotão. Quero te encher de te orgulho e te dar um cheiro, e sentir você por aqui. Até o fim.

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