O encontro com o amado, mesmo que com a lamparina cheia de azeite, é muito dificultoso, Abba. Tem sorte os que crêem n'Ele com força e altivez cega, e nunca por um dia n'Ele duvidaram ou questionaram seus designos - o caminho ao Excelso, de tão fácil, chega a ser tão díficil, tão pesado, tão torturante, que se faz traiçoeiro, não por Êle, nunca por Êle, mas pela conduta e pela vida que se leva depois de sentir o maná do Divino. Senhor, dai-mo de bebêr está água!
...E desesperadamente, cá nós (eu daqui, você daí) querendo se estreitar com Deus, aos trancos e barrancos, rezando por sinais, por um sonho, revelação divina, turvação nos Céus, sangue na hóstia, dinheiro no chão, promoção no emprego, beijar aquela moça, e pondo os sinais/prova/credo de Deus não na existência de Deus, mas sim em nosso benefício. Não queremos a prova de Deus por ser Deus e nos amar como filhos D'Ele, mas sim queremos que ele nos dê aquela "ajeitada", um "empurrãozinho", uma "agitada". Queremos que Deus seja Deus e nosso empregado.
Senhor Jesus Cristo, Filho de Davi, tem piedade de mim, um pobre pecador.
Disse Santo Thomaz de Aquino: "Deus não é uma medida proporcionada ou infligida, por isso não é necessário que esteja conosco em gênero de criatura". Mas, mesmo não estando em gênero, está em tudo e em tôdas as coisas podes ser encontrado, apenas nos esquecemos deste pequeno detalhe, assim como sempre perdemos as esperanças e esmorecemos, afinal, somos humanos, e errar faz parte de nossa natureza em trilha ao acerto. E como é difícil, Abba, trilhar o caminho certo, e fazer as coisas que ressonam em nosso coração serem atreladas aos deveres, e mais além, conciliar tudo nessa vida tão puta, que nos quer, nos usa, cospe e só nos torna a ter quando temos seu pagamento. Como é pesada a porta que abrimos e quase sempre se fecha após entrarmos.
No silêncio dos bancos, eu me encontrei, nos barroquinos e nos marrons de três nós. No meio dos moradores de rua com seus corotes, com a alegria dos confrades, e do Cristo pobre e crucificado, no terceirismo. E ainda sim, enquanto abro esta nova porta onde meu corpo pagão, mas já limpo passa, me cansa, como se depositasse todas as esperança num altar aonde não ocorrerá o mistério da fé. Mas uma vez sinto - como tantas outras vezes sinto - que perdi o tino.
Sinto me desajustado, atrelado, feio, ignóbil, burro e bobo. E quando ando, não sei se os olhares que pairam em mim olham pelo fato d'eu ser coisa exótica que não se vê nas ruas, ou realmente realça em mim a aura do que carrego em mim, dos meus valôres, ou se resplandece em mim. Não sei dizer ao certo se no fim das contas se mostra a excentricidade d'eu ser meu, ou se as pessôas notam a incrível paz que carrego em mim por ser quem eu sou, e a felicidade que emano em ser o que eu sou; A cada dia me sinto mais distante das pessoas, e mais distante das coisas que me trouxeram aos lugares que gosto de ir, e me sinto mais distante da idéia comum de vida que meus amigos tem, e me sinto cada vez mais distante de entender o outro, quebro a regra agora para dizer ao menos uma vida que gostaria de ser entendido, e ter quem me console na hora da solidão. Mas isso é só uma nuvem que sempre passa, e nunca se pesa sôb mim.
Peço a Deus a fiança dessa vida no desterro de meu coração, que lavado sôb sua água e vinho desague o melhor de mim sobre os meus e os que mais precisarem de mim, e que eu leve paz e bem para tôdos os corações que eu encontrar, que eu ouça a linda moça cantar, que eu veja o Céu se turvar, que os sinos dobrem como se fôssem minha vida ali tinando no metal, Te Devm, Te Devm, Te Devm, até a última balada deixar de ressonar seu último Hertz. E ao deixar a chuva deixar ser alegoria metafórica ao panorama citado, a água nos lava do mal, as coisas boas acontecem e vão rolando para o solo, a nossa alegria reaparece, e o frio nos faz querer esquentar ou querer ser esquentados, e a casa vazia se torna cheia de cobertores, cães e gatos nas camas e união. E tudo vai se dando côr até a chegada do vermelho fôgo de São João até a definitiva instalação do painel de côres da Primavera.
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