Não deixa eu passar o tempo, se eu passar o tempo, eu me passo, mas você passa junto, e se você passar, eu fico passado, e só vou poder lembrar do passado. Passou. É só mais uma chaga pra coleção, é só mais uma música que não ouvirei durante um tempo, é só o vento lá fora.
Lembra daquele dia, lá fora, aonde tudo se cabia num compacto de simples coisas, e lembra do quanto eu gostava de você, do quanto a minha mão se abriu para poder pegar na tua, e lembra do nosso beijo, lembra; Lembra?
Lembra de como eu não tentei te surpreender, e como você se sentiu mal quando aquela maré-de-gente invadiu o bar da esquina, e você lembra de como estava linda naquele parque? Eu ainda tenho aquela foto guardada em algum lugar, eu até revelei ela; Lembra do quanto conversamos, e o quanto seu sôrriso foi a razão do meu? Lembra do tempo bôm, tempo ruim? Você lembra de tudo aquilo ainda?
Hoje resta apenas o segmento da fatídica estrada, e além disso, restam os olhos que não mais procuram, que não olham pras nuvens no Céu, que tampouco fitam o Martinelli, que se tangem num horizonte de cima do viaduto, e que maneia a cabeça com o sôm da marcação, resta apenas o primeiro desejo desde o começo. Resta tudo aquilo que ficou suspenso no ar, que ficou pra depois, ficam as mazelas de um muito que não compete mais a mim, e cuja porta, tôda vez que encosto na mão para fechar, mais quero deixar intacta, pra ver se você volta, se você ainda sente minha presença.
Encosto a cabeça acachaçada no travesseiro, a radiola produz a trilha sonora de fim-de-feira. A música mais aleatória me lembra você, e a frase mais desconexa é a que tem mais sentido pra mim, e no sonho imagino seu sorriso, seu cabelo, seu corpo pesando contra o meu, e tantas cousas que apenas em sonho, se concretizaram.
Em algum lugar do tempo, e espaço, nós estamos unidos, e essa tem sido minha única consolação, saber que em algum lugar do tempo, em algum recanto do espaço, numa linha de tempo, aquela menina tão linda e viva, é a menina daquele menino de íris-esmeraldina.
Aqui cai o último véu, a punch-line, e o sorriso fica terno. Aqui eu vou, mas ainda pensando em você. Me encontro agora entre os muros de pó-de-ostra, e aqui pretendo ficar. Ser um alguém, talvez - ou talvez não ser mais um alguém, quem sabe? Aqui me cabe entre os outros, e aonde as imagens parecem nos perseguir com os olhos, aonde os afrescos nos tetos conhecem os pecados de cada um, e aonde meu coração será só da Concórdia.
Aqui eu estou, aqui eu sou, aqui eu vou.
A água parada é turva.
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