quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Argonauta.

Pega o barco, toma a réa dos ventos e sai para velejar, e que te importa tal medo da morte, se no seio de Deus te guardou a vida? Sai por aí e esquece toda a dor, toda a mágoa, todo o medo, sofrimento e falta de sorte; Esquece quem já pisou em você, e releve: Neste momento, você estará pisando em uma madeira que está te livrando da gélida água do oceano. Deus será seu minarete mais próximo, e que suas provisões durem o quanto der o tempo de vento. Saia para passear a esmo, e deixe o mundo fazer seu caminho.
Esquece aqueles que magoaram teu coração. Transcenda, passe disso. Conte apenas com teu passo, compasso, força, voz e amor próprio.
Deixa que as pessoas venham até você, e te tragam novos ares, novas empreitadas, novas cousas que ultrapassam as idéias nossas, e que você não se sinta só, porque acima de tua cabeça há um Deus, e no oceano existem peixes que você não come, que lhe farão companhia. Siga as estrelas, e no lado sudoeste do Cruzeiro Do Sul e estarão lhe esperando as docas artesanais entre as pedras. Não que tenha alguém lá, mas, talvez uma parada vez ou outra num solo firme lhe faz bem para descansar o espírito, e sair do mareijo constante.
Vista teu casaco, a noite será longa, e tire um pouco o bornal da cabeça para seu cabelo sentir um pouco o bom vento do noroeste. Ele te inflará até algum lugar. Olha para um lado, e não te vê nada, e tampouco para o outro. Em um raio de quilômetros, não te vê em nada, não te sente nada, e nem ninguém. Agora se sente como eu, isolado dentro de um cardume de peixes abaixo de teus pés. Apenas respire, e cante - se preciso - para não perder a sanidade. Em algum lugar, há de alguém algum dia pôr o pensamento em ti, e talvez até sentir saudade. Mas, seu paradeiro é inócuo e longínquo, então, se alguém realmente quiser te ter de volta, que venha atrás de ti, e te faça voltar. E, tenha certeza que alguém, ao menos uma pessoa, seja ela quem for, se importa e há de vir.
Olha as estrelas, você crê no firmamento entre elas? Você crê em mim? A solidão é passageira, é só o medo primal de criança, a noite acordado ficou lembrou dos tempos de escola: Humilhado por conhecer demais, por professar a fé que tinha, por usar a camisa dentro da calça, por ter vergonha de falar em público, e de nunca olhar ninguém nos olhos. O Ketchup atirado no cabelo, na surra coletiva no recreio, no não do par da quadrilha, no medo de desagradar alguém, na solidão: Sozinho no pátio, comendo seu pão com presunto e queijo e tomando suco de laranja. Sozinho no barco, tomando vodka com suco de laranja e comendo misto-quente. Algumas coisas não mudam.
Ele dorme, e acorda. Franze a testa e vê que é cedo ainda. Uma praia está bem mais a frente, por quê não atracar?
Um novo dia pode trazer uma nova situação.

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