sábado, 16 de fevereiro de 2019

O Poeta Está Vivo.

Quando o Sol desce, cai sobre a Terra o brumeio de uma neblina, uma chuva, um cansaço que tange todos nós, e a natureza se mescla com nossos sentimentos. E o tempo tão cinza nos torna mais cinza ainda - não por mal, mas esse é mais um dos místicos momentos aonde comungamos com a natureza, e mesmo sabendo muito bem disso, negamos a nos afirmar.
A nível de sinceridade, nós negamos e nos negamos muito muitas vezes.
Jura nunca me esquecer?
Quando dentro do navio, e longe da baía, teus olhos cingirem o horizonte acquático, não lembra de nada, porque no mar de lágrimas, até a nau mais forte naufraga. Quando a luz trocar o escuro pelo claro, a forma densa da noite recuperará o brilho e eu não estarei mais lá. Habitarei apenas no imaginário de cada um com sua coisa específica: Em cada sonho, cada palavra, atitude ou querer, lá eu estarei - e não mais que isso. Os discos continuarão parados, e os instrumentos desafinados, desatinados. Eu serei o vento, mas você não me verá no vento (vaga lembrança dos dias de Junho).
Jura nunca me esquecer?
Quando você ver uma foto ou uma música, lembra do sorriso, e das coisas boas. Daquela tarde gostosa quando o vento gemeu nas árvores,e as fôlhas caíram sobre nós. Lembra da madrugada na praia, da pedra do pôrto, os amigos conversando, a Lua, as estrêlas, o eleio... Não lembra do fim, mas do meio para trás, lembra do têmpo antes do têmpo, e quando os gostos eram próximos, e a vida era maravilhosa. Lembrar de quando nos tínhamos e nos havíamos. Lembra daquilo que só sabe o que fica, e o que vai embora, e no reencontro, consome a verdade em um só.
E a chuva continua lá fora. E o dia continua penando em ser cinza. A fumaça do escapamento brinca com o côrpo de luzes que se tintilam no universo de uma rua. Há um irmão dormindo no papelão molhado na rua - e resto de marmita não o salvará de uma gripe.
Ah, quem me dera se eu sentisse na vida o gôsto agridoce das sensações, e assim julgasse o que habitaria em mim, em torno de mim, ou o que se passasse. E no vento que emaranha entre as coxas da menininha do portão, nas mãos que se lavam na pia de louça branca, do casal que desesperadamente está a fazer amor num apartamento vazio, na senhora com suas sacolas de feira, nos frades que passam apressados para o claustro, e na criança que segura a mão do pai para não se perder no metrô;

Ali não estará o tempo, mas alguém que viveu a medida do tempo em si.

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