Dôce vento, leve de mim tôdas as tristezas e preocupações, deixe ficar apenas o que se consolida, o que se faz verdadeiro de verdade por excelência e prazer, o que se faz verdadeiro pela vida. Vento, leva para o mar revolto e férreo tôdas as angústias e preocupações, e na hora da solidão, para o côrpo humano que mecânicamente trafega na rua, dá-o um arrebol de ar, circunda-o, faz-lo teu, toma a vida para êle, faz d'êle teu fantoche de vapor. E peço que para as alegrias, avenha com as brisas, aparando nas avencas, e fazendo as arrudas exalarem forte, e os juncos balançarem numa dança sincopada, cortando feixes de luz do Sol, e que nêste instante, permaneça a alegria eterna.
Da janela do edifício, uma alma respira dificultosamente, esperando um sôpro de vida, e na casa, uma janela aberta deságua pela rua um chôro murmurado da dôce garôta que está sem saída - mas que logo menos irá encontrar o alçapão abaixo dos seus pés, levar-lhe para outro lugar. Da torre daquela igreja, um Santo travado, com seus braços calcificados abençoa os pecados da última micareta, e ora pelo pôvo que nos seus diferenciais se faz tão igual - Das casas que erguem/De fôme que perecem - e mesmo assim se degladeia. O Santo surdo pelo tinar do Te Devm e com os braços dormentes e musculatura fixa apenas olha, com seu olhar carinhoso para cada um que se deixar encontrar e tocar por êle. E o vento, também se passando ao redor do Santo, carrega sua bôa energia para quem mais necessita; Sejam por orações, merecimentos, ou rota aérea. Deus é quem nos sabe.
O vento bate nos varaes dos quintaes geraes das casas, e faz a vida parecer inocente, sublime, verdadeira e bôa. E ela realmente é, mas, nós - Nós, os homens pobres do degredo, sua benção Dôce Mãe das Candeias - nos justificamos tanto, brigamos tanto, queremos vencer tanto, que não deixamos o vento batear as roupas, e nem o Sol as secar, apenas maldizemos a chuva, e o vento forte que as jogam no chão. E nós, recolhemos e temos o processo de fazer tudo de novo, de novo, e novamente.
Quero me desprender dos inúmeros véus que me cegam, e dar-te-os, Vento, e quero me entregar totalmente para você, e quando Tu, Vento, bater carinhando meu cabelo, eu iria perceber que foi ali naquele momento tôdo que esperei - que ali foi recebido de volta o penhor de tôdo o têmpo, tôdo o suor, tôda a fuligem que corre de minhas mãos...
Traga o que tiver que me encontrar, ou o que fôr do meu merecimento encontrar ao longo de minha caminhada. E leve de mim o que não se cabe mais em mim, o que não mereço mais, ou apenas necessita planar até outro ponto no universo. Mas apenas deixe as minhas ventas existirem para eu ser (mais) um (raro) das estepes que quer lhe bendizer, agarrar, sentir, se encher de Ti, observar, e compreender.
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