Cara, eu nunca peguei tanta chuva em toda minha vida. E nunca me senti tão vivo a cada gota que caia em meu cabelo, em minha face, em meu peito com a camisa semi-aberta e na minha alma, nunca em toda a minha existência eu nunca me senti tão real, em que pude sentir os nós dos dedos apertando os anéis, aonde senti cada passo que dei: Firme, contínuo e austero de qualquer passada não falsa.
É só uma chuva, criança, é só o tempo sendo maluco de novo em São Paulo, é só mais uma desilusão, é só mais um auto-desacato em sua pequenina sabedoria de boteco e o barco que te vira e que te afoga, é a cobra que pega e te mete entre os pés, se enrola entre suas pernas e devora teu espírito, é teu passante, corda, nó e folguedo de morte, sua última estadia neste local. Desde um tempo venho pedido ajuda para vocês, mas, esta é a última vez, e da próxima vez faço eu, e faço do meu jeito, e sem medo algum de conseguir meus objetivos e de ter minha glória e reconhecimento ante vossos narizes - mesmo que tardio, frio, duro e latente. Rogo que a minha Salomé não tenha piedade e corra até minha com altivez, porque cada dia é mais dificultoso viver sobre árduas penas. Eu peno, pois sim, mas tem mais gente que pena e não tem seus erros expostos num spotlight.
Senhor, misericórdia de nós.
Durante a chuva, pensei tudo isto, e mais um pouco, coisas intangíveis, com um nexo muito fraco, mas, que mantém a linhagem do pensamento interligado, e lembro da fase de um dos meus espelhos: "Se quando tu faz certo, tu num presta, imagina errado...", e ali reconheço este vaticínio: Ás vezes até a melhor das intenções pode estar (errôneamente) cravejada de venenos para prejudicar o que já está debilitado, vendo alguns discos, achei um bem raro com o título: Socorro! Nosso amor está morrendo!" Nada mais sucinto para quem já estava na lama. Se bem que a lama sempre foi meu ponto alto, mas, hoje foi o ponto baixo do baixo (consegue entender, leitor? Há sempre um nível pior do que já se encontra. Sempre).
Este, talvez, seja o movimento mais propício para quem vive uma vida igual a minha: Ter algo como aliado, e como eu, Marcus Queiroz, sou filho da Mãe Cecília e Pai Gonçalo do Amarante, escolhi pela desgraça e pelo dom, pela dor e amor, ter a música como raíz, e companheira, não importa o que se passa, pelos acordes fui salvo, pela capa seduzido, pela melodia violentado, e pelo sulco que ronca na ponta agulha, apaixonado. E espero manter esta união até o fim dos dias.
A chuva aperta, e há um pacote de discos bem embalado na minha mão, saio da Sete de Abril, cruzo a Dom José de Barros, um mate, dois mates, me mato, estou vivo, cruzo a São João, desço Antônio de Godói, passo o viaduto da Sta. Efigênia, tô indo pra casa. Estou livre de todo mal, "imunizado", se preferir. A música tem o efeito em mim, como uma benzedeira tem numa criança, ou um cônego num fiel, e, me orgulho um pouco disso, se achar uma força motriz maior que mim, que seja cria do Divino, e que me faz como se estivesse na presença dele. Ando cansado, e continuo em pé por causa da música, dos poucos amigos que se porpõem a estar comigo, ouvir meus cantos de Verônica e beber comigo porres homéricos. E eu sobrevivi a cada um desses momentos...hm, individualmente; O foda é que agora é tudo de uma vez; Sem hesitação.
Eu não temo que o barco vire, porque o barco já virou. E agora é só rumar o nado (não) sincronizado de idéias e motivos para um lugar melhor, um lugar bom, que tenha cerveja, música, gente feia e pizza. Muita pizza, e chuva; Esta mesma velha chuva que ainda cai em mim, e no meu pacote de discos e no guarda-chuva de dálmata do bebê que eu vi correr na rua com a mãe. E cada gota dessa, me afastou do mal de mim mesmo, mas ao mesmo tempo me trouxe uma realidade a tona que eu mal imaginava, o que me faz vivo, cada vez mais. Cada gota desta me batizou.
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