quinta-feira, 26 de junho de 2014

O Evangelho Segundo o Porco do Mato/Beijo Exagerado.

Eu não vivo sem música. É meu mantra, minha dieta e meu oxigênio, pensando bem, eu vivo mais sem oxigênio do que sem música.
Quando eu cheguei, ele estava ali, prostrado como um príncipe, sentado no chão, tocando suas cordas, e rindo como quem viu Arjuna atirar flechas de paz em cada um dos seus corações, e seu rosto transmitia paz, e suas mãos tocaram as minhas, de tal modo que eu mesmo nem sei como foi tudo aquilo, mas, sei que nunca mais vou viver aquilo, nem tão cedo, nem tão tarde: Na proporção certa que Deus planejar. Ate hoje fico atônito em tudo o que vi, vivi, ouvi e aprendi com ele, e nas suas cordas eu ouvia o som, ouvia a minha alma livre da minha carne, e minha alma não era já mais tão maldosa, e tampouco minha carne era mais tão obsoleta, e eu nem era mais eu: Tinha apenas viajado para outra dimensão, estando longe demais para acreditar em algum tipo de devaneio. Tinha gente comigo, eles presenciaram tudo.
Assim como ele veio, logo ele partiu, e subitamente deixou todos nós sem entender como, onde e porquê. A mística aurea no ar indicou que um dia nos encontraríamos, mas, quando? Não sabemos quando. Devia eu ter dito a ele tudo o que eu sentia, e como ele era importante na minha vida? Não me sei, apenas segui meu instinto: Travei. Lindamente.
E então, ela estava lá. Em alguma gaveta do passado, ou em algum sonho mal-adormecido, ela estava lá, e me notou, e logo que me notou, não me sentiu, e quando me sentiu, não veemeu minha presença, e não velando, já se entregou. E ali ela foi minha! E hoje é minha, e amanhã cabe ao amanhã decidir, mas, até enquanto eu deitar a cabeça no travesseiro, e me cobrir com mantas, peles, cobertores e rezas, ela ainda será minha. Os beijos dela serão meus, tal qual seu colo, seu sorriso com sua boca pequena, seus olhos acastanhados, vremeiados como que saísse de um ceifo de milho. E mesmo se saísse do ceifo, por mil vezes que a visse, mil vezes a amaria.
E ele ainda não voltou de sua longínqua estadia, e ela está ao meu lado, e eu apenas espero - o quê, não sei. Fico a imaginar o que espero de mim mesmo, e do universo. Hoje nada mais resta além de aguardar novos rumos, novas bifurcações na estrada, e seguir. Para onde, não sei, mas, apenas pelo fato de seguir, já é um ótimo fator. Aguardar por coisas melhores, apesar de nada dar certo, e só conspirarem contra nós. Esperar pelo melhor, mesmo que ele não volte, e ela me deixe. Esperar coisas ótimas, mesmo que tudo caia. Aguardar pelo melhor, mesmo que nada vá dar certo, e você passe o resto da sua vida em medíocridade, e nenhum dos seus planos dê certo. O que importa é a fé.
E, mesmo que eu perca tudo, eu ainda tenho a música. E disso ninguém me tira.

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