Quando eu morrer, eu quero que o tempo esteja frio e nublado, mais, que tenha uma fresta de Sol obtusa no ar, solta, sem rumo até. Que ela tenha toda a certeza, de que minha alma se desprendeu do corpo, e que ela se abjuntou de Deus, e da paz que antes eu teria somente nos teus braços.
Quando eu me for, eu quero uma festa, com direito a venenos mil, e bençãos de padres e monges xintoístas, e que eles ruleiem com suas orações a minha alma, até que eu me sinta completamente morto no vazio (mesmo já estando), e que eu ache o lugar de minha alma, aonde ela se caiba, se resolva, e se refaça em calmaria.
Sinto saudades do tempo em que te olhava de longe, te mirava, e sentia teu cheiro quando passavas por mim, eu sinto saudades, Ó Meu Deus, do fichário comprimindo seus seios, do teu riso manso como um cordeiro, e das coisas que eram boas e morreram antes de mim nasceram. Sinto saudades do cabelo comprido, do soco inglês, das idas as galerias, e de quando a vida era pequena demais nos meus quatro quarteirões.
Sinto saudades de sentar com o Nei para almoçar, assistir Globo Esporte e ouvir Los Hermanos, sinto saudades de me cortar, para cada vez mais sair essa sujeira de mim, para que Deus esteja em mim, e que a morte mais ainda, que tudo o que eu disse de todos se invada em mim, se reine em mim, e que, como um câncer, invada cara poro e veia de mim.
Que eu morra debilitado, só, pois a realidade me atordoa de tal modo que nem sei mais se durmo, ou se dormindo eu acordo e sonho acordado. Atirado aos leões, que me tenha em Deus a morte mais linda e brutal, que nem mesmo Calígula tenha visto no Circus Máximus, que São Pedro abra a escada de serviço do Céu, porque é por lá que eu vou entrar, não me tenho nada a dizer e nem fazer, chega de idiotices, e bobagens. Minha vida acaba-se aqui. Não sou mais ator, ou papel, nem evangelista, nem o "São Icy Ox No Santo Campo De Centeio". Marcus Queiroz se encontra na ponta de um penhasco, com um terço na mão, e um rabisco em sua mão, faça um favor a humanidade, e entregue-o a sua amada, que não tardou em voar, e conhecer outros paucalares. O grito que sai de tua boca é tão forte, que se o proferido for, chega até a sair som nenhum!
Cortarei meus pulsos, entregarei meu cadáver na praça da estação, ponharei meus olhos perante o altar-mor do Senhor Morto, mas, ti, nunca mais verá meus olhos de novo, nem verá de meu corpo, e nem terá do meu sangue no teu. Estou me sacrificando, para me ver livre de você, e isso me faz mais infeliz ainda. Estarei eu jogado aos ventos, e sem ter o que dizer, eu apenas vou olhar, e fitar, rezar, e apreciar cada segundo que me resta.
Eu amo você. E ainda lhe amarei mais e mais.
Lhe darei o tosqueio e o estio de uma passagem boa, um pôr-de-Sol com chimarrão e um solo de violão para te lembrar das músicas de escutar com quem se ama, ou com quem faz bem por apenas existir ao nosso lado.
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