quarta-feira, 12 de outubro de 2016

XII de Outubro

Faz-me manso, e lava meu coração na água da tua ânfora, Maria, me guarda na barra do seu vestido e me livra do dragão feo da maldade. Faz-me bom, Maria, e me guarda na hora da solidão, pois quando eu caí, foi você quem me valeu e me sustentou pela destra, e quando eu rezo pela tua visa em mim, é você quem me vale do medo da agonia. Foi você, Maria. O tempo todo.
E eu, tão sujo, tão da lama, filho único de leoa genuína, esposo do degredo, me guardo por não querer disseminar minhas mãos tão sujas, tampouco sujar os que me cercam, me diz Maria, porque quando a água me puxou, você me puxou de volta, e naquela noite, quando a luz era distante, você pôs uma candeia no meu caminho? Por quê eu, tão sujo, tão pequeno, tão desnutrido sou acolhido por você?
Maria, olha pra mim, e vêde que sou comum, trivial e cometo erros, e trago sangue nas minhas mãos, das mágoas que cometo diariamente contra as pessoas que mais amo, mais estimo, e não faço por querer, mas talvez meu jeito de ser só tenha acabado mais e mais comigo. Maria, tem misericórdia de mim, e ouve outras orações; Disse-me o homem que quem é da lama, na lama fica, na lama morre; E talvez se'a bem isso, Mãe, eu não tenho vocação para estar entre os seus, e minhas mãos ainda tremem muito, e eu nem fiz nada ainda, nem dizer o que sinto eu consigo, imagine ser um dos seus...
Maria, eu não tenho nada. O que fiz de bom, fiz por amor e compaixão, e o que fiz de ruim fiz pelo meu prazer e por querer ter o gosto do amargo na boca, e o que sei, coube a mim saber, e aprendi que não posso ensinar as pessoas que não podem ouvir - porque eu mesmo duvido do que ouço. Eu não me sinto bem, Maria, há uma dor carregada no meu peito, os ombros cansados, e tem gente sorrindo, indo viver, ser feliz. E eu, buscando a felicidade (de modo meu, mas, a buscar), toda a hora da minha vida indo buscar esse sentimento de satisfação que me cabe nas mãos, e ao mesmo tempo inunda tanto as almas, e eu, quando me lavo na tua água, me sinto limpo e preparado pra isso, mas, Maria, parece que tem horas que é tão difícil vencer...
Maria, eu ainda sei o significado da porta estreita, mas me dói. Hora ou outra tento sorrir, mas ando tão desolado e tão chateado com os últimos acontecimentos que nem sei o que dizer, ou o que fazer, me sinto tão sozinho que tem vezes que trafego sozinho ante a ávida multidão na rua, e isso me assusta tanto, me assusta o medo que tenho de me entregar, ser quem sou e o que sou pras pessoas, me assusta que eu saiba tudo, e ao mesmo tempo seja tão frio pra realidade. Tão frio pra mim mesmo. Tão ignóbil a ponto de que a dor, mesmo pungente, já seja lidada de forma costumeira, e isto não deve ser certo. Não é, ao menos para quem não é adpeto do sadismo.
Maria, está um Sol lindo lá fora, e eu não queria nem sair de casa, nem da cama, da minha ilha. Maria, se você ler essas linhas, me dá um sinal, me dá uma faísca de que hoje o dia vai ser bom, como sempre é com você - Tua presença, Tua companhia. Maria, continue me mostrando o caminho, mesmo que eu não saiba onde ir. Sei que tenho a crença de que uma hora para de doer: Essa dor, essaa chagas, o desamor, tudo deságua de vez, e sei que com você, Maria, sempre que estou na sua presença, essa mágoa acaba.

Obrigado, Maria.

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