segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Time To Hide.

 "E aí, Pedro, seu glad bird?"
Quando olhei assustado com essa saudação, vi a épica Irmã Eunice descer das escadas do Carmo Velho com algumas freirinhas. Eunice é uma das pessoas que mais senti falta quando saí da minha vida no convento. Ela tinha olhos tímidos, cálidos e cantava como um rouxinol; mas hoje parece ter mais vida e seus olhos pratejavam como se pegasse fogo. Ao subir a Martiniano de Carvalho, passando pela Casa do Carmo Velho indo ao festejo dos amigos, a encontrei saindo dos beiras da Casa Santa - a qual me interpelou com a frase e nome antigo. Ainda com o mesmo hábito de sempre, o véu puído tampando seus cabelos, e pelo visto trocou o violão por uma flauta que dava pra ver guardado em seu bornal. Conversamos brevemente, e subi para o folguedo, prometendo nos ver tão muito e tão logo. E ao sair da Igreja, lembrei de uma mulher que me falou do lado Carmelitano da força.
Chegado eu pois no edifício, senti de fato um frio em minha espinha e dores nos músculos e nos brônquios, como que de fato me houvesse saído de mim. Respirei. Vi rostos conhecidos, estimados, mas no dado ponto a dor me valeu tanto que não pude ver nada ou sentir nada além da lata de cerveja na minha mão. Respira, inspira. Deixe entrar, deixe sair. Respira. Essas dores me seguem desde quarta passada.
(Penso pois muito nas obras feitas das mãos, e num valor que se dá quando dedicamos o tempo, espaço e energia a cada uma dessas coisas - e se a intenção da qual ofertamos a quem damos é realmente intencionada. Apesar de hesitante, ainda sou o labrador humano que tem o coração ardente por um evangelho à moda franciscana, com pitadas de patrística; tiro de mim para os outros, dou o que é meu para quem amo, e reparto do pouco que tenho porque sei que na hora devida Deus me dará o que é por direito de meu aceitar e viver. Se, pois, to escrevo cartas, te dou a melhor parte de mim, pois é a dita letra. Se, então, to entalho ou trabalho por vós na madeira, é para ter algo que demonstre meu afeto e apego por você, e se, logo, dou-te algo meu, é porque te dou minha vida e te significo na minha vida.)
Após tonturas e leves enjôos, respirei e segui, como sempre. E após um leve bem-estar, vi teu rosto aparecer pela porta. Me emudeceu a voz depois de tanto tempo olhar para você, e além do emudecer, me turvou a vista e disparou o coração, me deixou sem graça. Ainda mexe. Vi o sorriso sem-jeito, os brincos, e as unhas claras, e a joaninha na perna. Leve disparo no coração; ansiosidade, paixão, passando mal ou princípio de infarto? Talvez tudo.
Fuma um cachimbo, ri, faz besteira, fala da vida, faz piada e vê as coisas acontecendo e sendo como são - vida se transformando, família, risos, festas, incenso e azul. Olha o Céu, vê que Céu lindo Deus pintou pros meus amigos, foi esse o dia que o Senhor preparou, e apesar das dores, alegrei e me exultei n'Ele.
Quão desprevenido, na hora de tomar uma água, veio quem me dispara o peito até mim. Uma conversa rápida. Um diálogo civilizado. Seu perfume me faz lembrar tanta coisa, fecho os olhos e evito contato visual. A água no copo acaba. Sua voz ainda me soa como um Angelvs.
Dói um pouco mais, respira. Dói um pouco mais, respira um pouco mais. Só tomo dois remédios se estiver em casa. A noite desponta, sinto as carnes vibrarem, melhor ir pra casa.
Deito, descanso. A janela aberta mostra uma noite épica, e consigo notar as estrelas fazendo cena no mesmo Céu ainda. Um vento gostoso entra ventilando na casa, e carinhando minhas costas, na vitrola tocando Asinhas Over America, e lembrei de tudo até aqui. E a dor me consumiu de tal forma, que de cansaço ou exaurido, dormi.

E algo em mim continua igual. Imutável como Deus.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Sem Título #66

Não quero, na verdade, falar nada ou ter a ver com nada.
Quero o silêncio de toda uma vida, para que na desordem da eternidade possa eu descansar - e no amontoado de palavras, desorientado dando uma pausa na leitura - possa eu ver e entender o que está rolando no movimento dos barcos. E quero ver aquilo que abrilhanta meus olhos - vinde ó ditosa, alegra tu o que em mim não cabe.
Reina em mim, como os raios que interceptam a janela apesar de toda a escuridão que acerta o circundar de minha cama. 
Quando, pois, entristecido ou reflexivo, deve-se pois tomar do café e andar, até sua mente cansar da vista colorida e distorcida, e assim voltar para casa para dormir mais um pouco. 
Desci as ruas, enquanto a fumaça do meu cachimbo incelensava cada pedaço da calçada, e eu, deixando a cidade fazer sua sinfonia sobre mim, permiti viver um segundo. E antes que fosse tarde, ou antes que fosse cedo, encerrei os braços nos bolsos e sorri para a leve brisa que bagunçava o cabelo e desajeitava a barba  me senti útil ou vivo de forma, como se fosse isso o que buscasse ou amasse a vida toda. E ao eiar os olhos para o andar alto do prédio, pude jurar por instantes ter visto você; não que fosse coisa alguma importante, mas um leve disparo em meu peito se deu. 
Fechei os olhos. 
Suspirei e me reneguei.
E triste, segui.
"Vivemos dias de rebelião".

terça-feira, 1 de novembro de 2022

(Find The) Cost Of Freedom

Eu duvido muito de mim e das coisas que penso. E por isso as transcrevo. 
Não tente entender. E se realmente quiser entender, me pergunte. A tua conclusão preciptada só pode piorar o quadro no qual extenso as minhas palavras e que você pode julgar; o dever do escriba é sempre (a seu modo, linguagem e têmpo) dizer das coisas de seu coração, de sua fé e de seu tempo. 
Boi voador não pode.
Conheço o oculto de meu peito e adentro dele sei das coisas de meu coração - das quais admiro e exulto em ais. E por isso escrevo. E danço tango com a morte e como um pastel nas horas vagas.
E a escrita transcorre entre sua íris entre o lírico, épico, e belo; mas sabe lá tu de quê escrevo. Falo de minha vida, minha luta, minha saudade, dos pássaros, da geral que pia, e do peixinho-da-lagoa. Minha temática é híbrida e florida, mas você só pode entender se seguir meus passos de forma que ao eu te explicar porque faço uma coisa; o significado e valor que ela tem - pode não parecer, mas todos nós temos valor e significado, peso, história e legado; só precisamos saber se estamos fazendo jus a nossa bagagem ou sendo extremamente cuzões.
Como já dito anteriormente nos anais desse blog, a função do escriba é denunciar e por na história o que acontece contra os fascínios e os facínoras que nos cercam - e eu, como aclamado e dito escriba (e por vezes proclamado profeta da estepe), escrevo e transcrevo o que me circundeia.
Tal qual Jeremias (Jr XX;VII-XVIII), instalo em mim a lamentação ad infinitvm de um "profeta" que incute a verdade de Deus em comunhão com a situação dos homens, e escrevendo pois sobre as linhas apuradas de quem antes ouviu e sentiu Deus, nos pássaros eu vejo/sinto/ouço todas as coisas que acontecem de maneira ferrenha e apressada contra meus olhos, carne e alma: Falo da vista da janela, da amada, do vento, do amor, da morte, da lamúria e da Excelsa Glória de Deus, que se encobre e se vela nos altos Céus, que agora derramando gotas de chuva, abençoa a cada um de nós, que apressados nem sentimos o milagre da vida - seja pelo guarda-chuva, medo de desfazer a escova do cabelo, ou de ficar gripado.
Assim como o profeta, escrevo das carnes que sangram não (tanto) por desabafo, mas por um motivo bélico de denúncia: Pelo povo que padece, sofre e perece; eis, Padre Deus, minha missiva. E assim como o profeta, tangeste minhas mãos e minha boca com a tenaz para que eu dissesse e falasse com o peito e o coração; e das noites da taverna: bebi, berrei, briguei, embriaguei, e fui herói. Disse a eles o que escarnece sua alma e denunciei a atitude que corroe a alma, mas que eles não são capazes de aceitar. 
Subi ao altar. Sentei-me a destra do altar, na escada. Naquele instante, naquele nosso pequeno tractvs, ficou decidido entre nós dois o que havia de ser; e assim como o profeta, fui tentado, posto ao sopé da morte, mas ainda sim vivo fiquei para exercer minha parte do tractvs e da nossa aliança, e ainda sim quando eles fôssem reis, eu os pisaria para mostrar a sujeira, e quando eles fôssem pôstos em humilhação, eu os mostraria o verdadeiro reinado e espólio que Me ensinastes.
Não os julgo. Mas os condeno, e peço ao Juíz que mude os corações endurecidos, e deixe as lindas garôtas ouvirem, e os Céus turvarem. Peço a paz, a calmaria, e o abraço que os braços procuram - de causa urgente e passível de morte. Ah, assim como o profeta digo a iniquidade do meu povo, e faço minha parte além da denúncia, pelas obras e pela ação-em-fé. E isso me basta; ainda que eu o ache tão pouco, mas Me ensinaste Tua matemática, e nos dias mais soturnos, mandaste teus mais diferentes e diversos amigos para ter comigo, e por Tua imensa Glória o pouco que tive dividi - e se multiplicou, e quando nada tive, obtive tudo de Tuas mãos, e quando meus olhos choravam, foi lá Tu e desceste até mim e me segurou em Teus braços, e quando estava Tu deveras ocupado salvando os meus a quem onerosamente orei, mandaste novamente os Teus. E vi você.
E assim como o profeta; sabendo de meus imensos erros e incapacidades, escolhi Você e o Seu partido assim como me escolheste, me capacitaste e me enviaste para a messe barulhenta e briguenta do cativeiro, e com isso escrevi minha história na Tua e me prometi que meu nome seria sublinhado para que fôsse o Teu mais brilhoso, e até hoje os Teus amigos me ensinam diariamente esta lição; e não me arrependo de estar e viver neste lado da história, de forma alguma. Pois, assim como o profeta, és a minha Força, Certeza, e Alegria. E nunca seja eu objeto ou fiança, pois não sou e nunca fui merecedor de nada de bom que me ocorreu até aqui, Bom Pai.
É tudo pela sua imensa Misericórida.