sexta-feira, 31 de março de 2017

Osanah.

Eu não estou onde eu queria, e isso me deixa tão feliz - você nem imagina o quanto. Outro dia joguei tantas roupas fora, tantos bilhetes, cartas, nostalgjias de um tempo ido, um passado que ainda habitou o presente, um perfume que ainda lasciva as narinas deste contra-cronista. Achando escritos meus - crônicas rudimentares dos meus 16, 17 anos - lembrei dos meus sonhos, planos, ideais e ilusões, feitios e fetiches, e de como cresci diante do adverso e do universo, como eu estou tão forte, incrivelmente forte a tudo que veio me sobrepujar. Eu me senti alguém que venceu na vida, e bati palmas para o universo e sua contra-fôrça, pois, não me deu o que quis, mas, o que mais precisei para acalmar a alma. O corpo. A mente, ainda não.
Após lembrar de tanta cousa, me remeti ao meu passado, época tão distante e tão próxima, tirei a camisa, camiseta, e me prostei em frente ao espelho: O balofo gordo cresceu. Hoje tenho um cabelo que me satisfaz, uma barba que bem ou mal está aí, minha barriga diminuiu, mas, ainda sim vejo as marcas de navalha no meu braço que a tatuagem não pode esconder, vejo um braço menor que o outro, as marcas de espinha, a lânguidez de um corpo turvo. Posso ainda estar horrível, mas, ao menos estou melhor do que antes. Um pouco melhor.
Voltei ao quarto, e coloquei aquele velho disco de fazer-pensar, e pensei na ignorância das pessôas, na relatividade da vida e quantas eu perdi em carne (mas não em espírito), quantas me afastei e quantas se afastaram de mim, quantas me sangraram e quantas eu vi outras pessôas sangrarem. Vi a degradação do ser humano, a maldade ser via expressa, e as pessôas que se afastaram simplesmente por não ter peito por se deixar sangrar, ou por sentir um sangue que escorre por elas. Lembrei de tanta gente boa que há no mundo, e lembrei daquele velho músculo que coloquei num baú trancado que joguei no mar férreo. Lembrei da vida que me coube, da vida que me tem, e do corpo-a-corpo que joguei com ela, e hoje não mais, nem nunca mais, hoje eu estou jogando fora cada sentimento, cada pedaço, cada razão, cada viver, cada ter. Estou deixando tudo isso pra nunca.
Achei uma foto: Ela olha sorrindo pra êle, e êle olha para o horizonte, com aquela cara de piranha sem dente. Achei uma medalha, com sete linhas de umbanda. Achei um texto de um amigo, um desenho de uma amiga, um ingresso de um show, a palheta de um dos meus heróis, um pedaço de pano da roupa de uma colombina, um voto, achei o projeto Baden Powell, dentes, achei letras e textos, um devocionário de São Paulo, e um terço. Achei uma carteirinha de universidade, achei um bilhete de um amado, outra foto: Um homem, com seu filho no colo, rindo, uma farra. Outra foto: Uma Rainha, segura seu neto mais novo no colo, com as mãos fechadas pois estava com a mão molhada de lavar a louça, achei aquela última garrafa de Original que tomei naquele apartamento; Guardanapo de Pizza Hut com a irmã no Tatuapé, patuá, Salve a Rainha com a letra dele. Achei coisas que me lembraram da vida antes da vida.
Percebi, após achar tantas coisas minhas, tantas coisas compartilhadas com as histórias da minha gente, que a vida continua, e que eu nunca quis, mas, Deus me levantou mil vezes das mil vezes que caí. Que Deus me segurou quando eu ia cair, e que por intermédio d'Êle, tive amigos (alguns eternos, outros veraneios) que me ajudaram, tiveram comigo e foram por mim. Tive amores eternos de quatro meses e histórias mal resolvidas. Tive prazer em trabalhos, e trabalhos em coisas prazerosas, e apesar ainda dos meus trejeitos, formas e manias, continuei a jogar fora coisas, peças, pessôas, tudo aquilo aonde eu não me cabia mais, ou me fazia mal; Pior: Que desacreditava de mim, que não me aceitasse nas minhas deficiências, ou que quisesse/quiser me podar de alguma forma - aprendi que quando gostamos de uma pessôa, a aceitamos e estamos com ela, independente de seus jeitos ou tato, a aceitação, afinal. Hoje de manhã, após essa limpeza, vi que minha vida neste terral está no fim, e começo a rumar para um lugar diferente, aonde (talvez) um desafio maior me espera. Algo maior que eu nunca vi, vivi, ou senti. Algo que em parte anseio, em parte quero desistir, algo que em parte peço para não ter, mas sei que preciso. Coisa que só posso explicar aos ouvidos que querem realmente ouvir e entender o que se passa na minha massa cinzenta.
Percebi, que as memórias sempre hão de existir, e as cicatrizes de algumas também. Mas apesar de todas as recordações - boas ou ruins - a vida continua, e este é o milagre maior da vida. Tôdas as coisas passarem, e pela vida afora eu vou jogando fora as coisas que eu guardei por guardar, apenas para manter em mim tudo aquilo que só me deu bonança, e que me fez o que ser o que sou hoje.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Sïs.

Os filmes de hollywood só servem pra mostrar pras mulheres que elas precisam ser magras, peitudas, e putas devassas, e que tôdo homem tem pau pequeno, precisa ser atlético e viver insanamente - e é por isso que eu vivo no passado: Eu não quero me dar ou aceitar forçada e repetidamente uma realidade que não faz parte de mim. Eu, tôdos os dias, tento exercitar a minha sinceridade, logo após que deixei os véus caírem, e foi a melhor coisa que eu já fiz, pois, quando me aceitei, vi que minhas realidade e meus sonhos não são iguais aos de muita gente, mas, com algumas pessôas comuto do mesmo sonho, e com outras, vivo a mesma fantasia que fulgura minha mente.
Mulher de verdade bebe, vinho, cerveja, vodka, tem estria, na tpm fica a flôr-da-pele, gosta de um chocolate, é linda quando acorda de manhã (inda mais quando tem o cheiro de dormida e tem o corpo quente), usa aquela calcinha velha, surrada, confortável, tôda mulher quer ser feliz, e tirar o sutiã/soutien (é assim que escreve, mamãe?) quando chega em casa, e algumas delas entram na vibe de achar que um peito é maior que o outro, ou que a auréola é grande demais, ou menor demais...
Mulher, não! Quisera eu e o Bôm Deus que desfiassemos um rosário para dizer de ti, tudo o que nos cabe em palavras, trejeitos e gestos. Você é linda da maneira que é, e te ama verdadeiramente (sim, ainda existe o vero amor) quem te aceita, em corpo, mente e alma - mais além: Não ama de carne, ama de essência. Aceita suas pernas sem depilar por dois, três dias, ri quando você arrota, e simplesmente quando te dá a cólica, pisa em ovos, trás chocolate, oferece colo, carinha teus cabelos, e canta no teu ouvido pra dormir, faz oral sem cerimônia, sem medo, sem nojo, chega junto (Povo do degrego) e simplesmente vive os dias idos ao seu lado. Mulher, você é muro de arrimo, pedra ângular, fundamento, casa-forte e alicerce.
Quando nós, católicos, rezamos da Ave Maria ou Salve Rainha, pedimos a proteção de uma das fôrças femininas mais fortes, potentes, amadas, cheias de amôr, poder, e graça para nos perdoar, e nos livrar da hora da solidão, da hora fea, do medo da morte - pedimos a Dulcíssma Mãe das Candeias para que Ela nos interceda ao Deus Triúno. Uma mulher que convence um homem. Quantos de nós, homens, não fômos convencidos pela amiga, pela irmã, pela mãe, avó, esposa, namorada, quantos? A mulher é peça vital da vida, e isto é difundido, só faz necessário ser aceito e compreendido. A mulher real, que existe por aí, não quer do privilégio. Quer da igualdade.
Deus, em sua Infinita sabedoria, nos deu da mãe para gerar e cuidar, da avó para mimar, da môça para amar, da Concórdia para rezar, e da Irmã Morte para amenizar o medo e trauma causado pela ida daqui para outro terral, óbviamente, pela cultura e individualismo, os nomes e cenários mudam, mas, a essência mantém-se da mesma forma, do mesmo jeito. Igualmente.
Os filmes de hollywood não mostram a mulher que foi largada pelo marido com o filho, e labuta para sobreviver e cuidar e proteger da prole, educar um filho pra ser um moleque a menos no mundo, e sim um homem. Os filmes de hollywood não mostram a mãe-chefe-Rainha que lavando roupa pra porra toda da Vila Miriam, cuidou de sete filhos, e ajudou cada seu, sem a ajuda de homem algum, incluindo seu filho, o dito "varão" - quem assumiu o pendão foi uma Mulher; Outra Rainha - Outra Maria. Os filmes de hollywood não mostram a môça que tenta conciliar tudo, e chora durante a noite, achando que nada vai dar certo (minha irmã, eu me lembro de ti, e rezo), e o pior de tudo: Os filmes de hollywood não mostram nunca as mulheres de verdade, e pessoalmente, nunca mostraram sequer um arquetipo de mulher que eu amei ou que me deu a honra de ser minha. E nem hão, o jôgo deles é outro, é vil, não é puro como aqui no degredo. Por isso eu vivo no passado, para não dar olhos e ouvidos aos ditos idos de hoje, de agora, dessa lama.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Que Bandeira.

Sai dessa, Morena. Vai morenar teu côrpo no sol-a-sol, vai é curtir, toma uma e sorri. Sorri que a vida sorri de volta, e embaixo do sari da Concórdia, foi onde eu me refiz - a vida é boa, e o fim gera um novo começo que gera um novo fim que gera uma nova chance, um novo caminho. Sai dessa, Morena. Sai dessa e não se erra que eu tô pra longe, tô rindo daqui, e você rindo daí, e rimos sem rir em conjunto, mas temos do riso em comum-senso. Sai dessa, Morena, que você já me ganhou, me deixou ir, e eu que não posso mais voltar, sai dessa - não foi vacilo, nem medo, nem nada. Sai dessa. Olha pra quanta gente que há no mundo, e percebe que você tem mais motivos pra rir do que eu - ouve tudo o que eu já disse, lê de novo tudo o que eu li, e passa pelos lugares que eu te levei, e lembra. Ali eu estou, e ali eu (por enquanto ainda) sou; E você sempre será, sempre está: A abelha que faz o mel, vale o tempo que não voou.
Sai dessa, e cai no mundo, e lembra de tudo aquilo que poderia ter sido, ter estado, ter ficado, suspendido e cuidado. Cuidado. Bôm conselho: A vida não aceita troco de moeda, e na maioria das vezes só passa uma vez com boa vontade. A vida não é ruim, como tôda criação de Deus, ela é justa. Nós, que na condição humana, não conseguimos desmistificar o rosário completo das coisas boas e ruins, e no meio-de-campo, não temos Zé Maria na retaguarda, Luizinho na ponta-de-lança, ou até mesmo Rivellino na alta-guarda. Estamos nós mesmos com bola na mão, na hora da roubada de bola, e não podemos derrubar, nem nos deixar machucar, nem perder a bola, e nem perder o lance pra dar aquele gol. Morena, tu já fez o seu gol.
Neste momento, após a queda do véu anunciado, vejo o que nunca coube em mim, o que nunca pude ter sentido em minha vida, e caio de joelhos sobre a tumba de um passado tão agitado quanto limpo: Nada a temer, mas tudo para se esquecer - I Me Mine - e deixar tudo na Asa Menor do tempo, do vento; Tudo se renova, e se transforma, e não quero dizer com isso que o amôr não se transforma, muito pelo contrário: Ele pode sim, e deve, se renascer, liquefazer e ser ad aeternum, mas, ele também pode renascer. E ele renasce quando naquela mesa daquele bar com aquela cerveja com aquela música e aquele trejeito (cousa que só se acontece duas vezes na vida, se os sujeitos fôrem realmente predestinados a se aturarem).
Daqui do degredo, tudo continua lindo, a cerveja continua gelada, as pessôas cortêsmente param de limpar a calçada pra você passar, e o Sol faz sua contribuição aparando as roupas no varal, e as crianças que brincam na bacia de aço da mãe no quintal são tão lindas, são tão lindas, é tudo tão lindo, lindo como o infinito que é você, Morena. Lindo como o infinito que é Deus, lindo como tudo aquilo que permanece no ar, mas, eu não ouso mais dizer ou tocar, ou até mesmo procurar - deixo nas mãos do Divino.
Morena, sei que você ainda vem aqui ler uns textos, e eu ainda escrevo aqui lembrando do passado, gravando os dias do presentes, e infelizmente deixei o futuro nos braços de Quem o cuida melhor. Sei também que estamos em rumos, tempos, vias e caminhos totalmente, extremamente opostos. Mas, tudo aquilo que eu senti um dia ainda está suspenso no ar - como aquelas mortadelas presas na padaria. Basta você cortar a corda, e deixar cair. Sai dessa, que dessa vida só se levam as coisas boas, o que guardamos no velho baú de prata.

terça-feira, 28 de março de 2017

Nada Será Como Antes.

Sente, que nada é mais como antes.
Sente, que você mudou, mas não tem nada não: Mudou pra melhor, eu juro. Seus olhos ainda continuam lindos, vívidos, fortes, tementes e tinindo, olhos que simulam um paraíso que cabem entre a face cingida de quem há pouco esteve entre a porta estreita e a perfeição do supérfulo. Eu tomei uma direção, e você outra, mas não tem nada não. Se fôr da vontade de Deus, a gente se encontra logo mais, amanhã, ano que vem, daqui há umas horas, num outro plano espiritual. Mas, por favor, caia por terra com seus conceitos, assim como deixarei cair os meus: De você quero apenas a sua essência, o que me fez tanto amar você.
Sente, que nada é mais como antes.
Sente que eu já fui o sôm, fui o vento, fui a água turva, nôite illustrada, fui da geral, e cantiga de marujada, hoje sou velação, cêra que derrete e nada pensa, apenas mantém a linha em comunicação, olha para até onde fui, até onde me deixei, até onde te encontrei, e tira esses véus, véus tão claudicantes que você não entende que no final, não há mais dor minha, e, de mim mais nada tem. De mim tem apenas aquele abraço guardado para depois (leia novamente o 1º parágrafo), tem o bôm pensamento e o bôm conselho, de mim, apenas a música que me devoto desde o ventre da madre, e nada mais, nem a menos, nem incisivo, e nem externo. Tão somente isso, o que te cabe, o que me cabe, minha vida, sua vida. E nada além disso.
Sente, que nada é mais como antes.
Quando a ficha caiu, não era tarde, e sabe disso somente eu e você. Deus também. Mesmo que historiadores, escribas como eu, pessôas dissidentes de um sentimento, e até mesmo os doutores da Igreja, Reis, Profetas, Monsenhores e Biscoitos ouvissem sobre tudo aquilo, e fôssem reproduzir, nenhum deles saberiam como foi grande, como foi simples, rápido, humilde, mas tão genuíno, de uma grandeza tão grande que era miúdo, cabia somente entre nós dois, e quando perguntassem a mim, ou a você, o que foi, acredito que mesmo que usássemos da melhor palavra, e da mais alta nostalgjia para dizer, não conseguiríamos, porque é algo que ainda não morreu, está vivo. Talvez definhando, morrendo com certa, hm, "dignidade", mas, tá aí. Live and Let Live (Arthur Lee, eu me lembro, não me deixe esquecer nunca).
Sente, que nada é mais como antes.
Sua efíge ainda me causa um sentimento estranho, como se eu tivesse algo pra dizer, e nunca digo, e morro com esse peixe na garganta, com essa areia me afogando, e talvez eu nunca irei dizer tudo aquilo que ficou pendente - roupas no varal, aquela camisa que você amava, que eu sempre usava pra te ver, o cheiro do perfume, o anel do Santo Guerreiro que não habita mais em minhas mãos, e de mim só sobra a barba, o corpo deformado, mal definido, o cabelo sempre bagunçado, a velha tatuagem de Mater Cecília, e aquele sôm no ouvido, falando pouco e ouvindo muito, e seguindo. Maravilhosamente seguindo.
Sente, que nada é mais como antes.
Ergui as mãos pro Céu, e rezei. Pedi as nuvens que me dessem um brumeio, um frio, uma alegria, uma festa, um milagre, uma razão. Calcei botas novas, reparti do meu sangue, tomei um café de rei, e um almoço de pashá, e saí - na rua tive com os meus, ouvi, fui ouvido, senti, e recebi amplexo dos que estão comigo na lida diária; Gentes que se lembraram de mim, que estiveram comigo, que me fizeram bem, que me fizeram mal, mas, que de alguma forma eu deva ter marcado a vida, pois se lembraram de mim. Mas, de todas as mensagens, abraços, carinhos, e presentes, o melhor foi o teu.
Sente, que nada é mais como antes.

XXVII (Completo)

N. do E.: Texto em versão completa, maçante e sem cortes. Quem pôde ter acompanhado a versão fragmentada aqui vai achar trechos a mais, poupados durante a divisão do ensaio. 

Calado, ao meu peito permaneço em meditação; Saio dos extramuros de portas pesadas e férreas para novamente me meter nas construções de homens, com assuntos de homens e pensamentos vilipendiosos. Eu sou um homem, faço parte dessa máquina mercantil, meu sentir pede socorro, pois a cada dia, a cada segundo, a cada hora, hordas de anjos, senhores-de-lei, músicas, escritos, amigos, pessôas-das-geraes me lembram e me fazem afirmar que não sou daqui. E quando tento diariamente me tanger os olhos com o ferro quente da realidade, Deus novamente me brinda com um Céu, uma garôa, um frio, uma cerveja, uma bôa conversa, ou apenas uma fôrça que nunca foi nem nunca será minha, como teimosia de criança, para seguir em frente, que minha recompensa está a vir. Minha recompensa, leitor, é a morte. Nada mais, nem além disso. Na morte encontro a paz, na morte encontro Seo Fábio, na morte encontro Jesus Cristo, Nosso Senhor. Na morte encontro tôdas as respostas que sei que aqui de forma alguma terei, por isso cada vez mais quando me enrolam em espirais de ilusão, bobeira de fim-de-feira, me deixo atrair, pra me ver se naufrago logo; E assim encontrar minha paz, e em contra-partida dar a paz a quem está ao meu lado. Esse côrpo é meu empréstimo para pagar outra dívida, assim como essa vida é para saudar e mostrar que até aqui no degredo, tem gente boa, feliz, altiva e inteira (que, obviamente, não sou eu). Não pense, leitor(a) que com isso tenho tendências suicídas, ou depressão, muito pelo contrário. Filho de enforcado não repete erro, e além disso, me fiz, me vi, e estive sozinho por tantas vezes, que me acostumei com a solidão, e quantas vezes mais lutei por ter gente ao meu lado, para ver se a vida não valia com alguém do lado (amigos, namoradas, esposa, consorte...), mais descobri que as pessôas andam mais solitárias, egoístas, e vivendo umas espécie de queda-de-braço: Não te assumem o que sentem, mas, se o faz primeiro, vira réu delas, e mais além; Te corre risco de sangrar, e quem sangra primeiro não é errado, mas é quem é mais cristão, amou o outro como a si, tomou o outro pra si, como se entregou ao outro: As verdadeiras mãos que são sujas de sangue estão ocultas - tem do mêdo, da má alheia, e não sabem como agir quando encontram um carneiro em seu holocausto, apenas se tremem e se refugiam em seu infinito particular. O sangue inocente nas mãos, no fim das contas, são também de mãos mais inocentes ainda, por não se deixar ir adiante, ou se deixar viver, ter; Dizem-se tanto, e pouco se são, e muito se enchem do vazio, e na hora da vera, é tudo tão tardio, é tão triste, e as pessôas que se eiam, no final das contas são as que mais vazias estão. Elas dizem se comungar com o amôr, mas, o amôr do qual eu comungo não tem fim, prazo de validade, ou como-se-porta. Ele é o Amôr, tão só, somente, é. A vida é mais simples - algumas pessôas que a complicam. Se agregaram em mim o amôr sem fim de uma vida renunciada, a contra-fôrça, e a fé de Dona Antônia; Elas me fizeram dar o passo descompassado e viver o que vivo, sentir o que sinto, temer o que temo, e almejar o que não consigo nem imaginar possuir; Faço do vento, veículo aonde jogo estas palavras, pensamentos e sentimentos, e que cheguem aos ouvidos, olhos, bocas e corpo, pois meus não são meus, agora - mais do que antes - se pertencem a geral: Concórdia, Cecília, Bep, são da geral, são amarras que me desatei, e aquela camisa do Corinthians nem uso mais, e até mesmo o velho anel do Santo Guerreiro, penso em deixar em desuso para cada vez mais aderir essa vida. Minha vida. Sua vida. A vida, em si. Quando se vive para Alguém Maior, se esquece de si, das horas, dos dias, se esquece até mesmo de tudo que um dia possa ter ocasionado dôr. E por mais que algumas ainda façam o músculo repuxar, tudo isso passa, tudo isso acaba, tudo isso é deixado de lado, para dar lugar ao que realmente importou, importa e há de importar cada vez mais na vida daqui por diante. Me importa apenas fazer o bem, e sentir que de alguma forma o bem me invade, dando o elo da minha vida, da minha geração, de honrar e fazer parte do meu passado, de meu presente, e do meu futuro, naqueles que carregarão meu sangue, o Santo Guerreiro se apeia em seu cavalo, assim como o Pai da Rainha apeiava em seu cavalo, e ia para a beira do São Francisco para negociar peças de madeira, ferragens e talhados, o cavalo corre, mas a rédea o mantém sob o domínio dele, e com um grito: 
Eia! EIA! Deocleciano, minha fé se reside em ti. Tão só em somente em cada um dos meus - idos, estados, futuros. Deocleciano é Patriarcha de tôda essa gente humilde, feliz, o Pai da Rainha Original. O pioneiro do degredo que dobrava ferro e pregava madeira, apeiava no cavalo e descia a correntina até a Quinta da Bahea para ir ver o Nosso Senhor do Bonfim. Deocleciano é o difusor do Ofício, que se reside em cada um de nós, em cada um de cada seu, que ainda sim reza sem parar, porque Nossa Senhora está de joelhos. Deocleciano é o pendão imaculado de fôrça, de fé, de perseverança. É quem nos trouxe até aqui, dando sustâncea na farinha de Dona Antônia, dando fôrça de lá do lado de lá, e aqui, nós fazemos nossa parte, nos mantendo, nos cuidando, nos tendo.
Para cada raio de Sol, há uma prece, Seo Deocleciano, eu sei disso hoje mais que nunca - um prefixo dedicado a uma prelação, e a cada brumeio, um agradecimento; E mesmo que nós na nossa humanidade carnal raramente consigamos ver o que está a acontecer, existe e sempre existirão pequenos milagres: Os dois reais achados no bolso da calça, ir sentado no metrô, o café de graça dado no serviço, e a cabeça que ora pende pra alegria, e ora luta para se permanecer em alegria. Para cada gôta de chuva, existe uma benção, e por isso ando sem guarda-chuva e deixo me molhar, para me sentir vivo, para cada grão d'água molhar meus cabelos e cingir minha face, e se misturando com meu olhar, talvez aia de vingar uma lágrima de alegria. Talvez.
Quando nós, na nossa leiga ignorância, vamos nos desenvolvendo e descobrindo com o tempo tudo o que estava a nossa frente, nós rasgamos mais um véu que nos cegava, com isso, temos a vida verdadeira em nosso olhar, nossa mente, nosso coração. Pois, ao rasgar o véu cegante da ignorância, nós nos abrimos para o inonimável, e para uma alegria que não se têm fim - é como se ouvíssemos Baden Powell a tocar na nossa sala. É o Divino, é o Espírito Santo no Sacrário abaixo da imagem de Jesus Crucificado. Um Jesus tão pobre, tão amorenado-de-vela, tão frágil, tão ferido, tão môrto, tão por mim, por você, por nós... Faz-me um favôr, desce até a dobra da rua, aonde havia um rio, ali se deve fazer o bem, e novamente, e novamente, e novamente, até se cansar. Sobe o elevado, e cruza a avenida, ali também se pode fazer a vida renascer, ali pode-se dar o bem com bem, e fazer a bondade aflorar. Em tôdo lugar há uma chance de ser bom, mas, bom de verdade, bom de alma. Em tôdo lugar vejo uma chance de honrar Deocleciano, Antônia e Márcia.
Quão cansados estão essas pessôas que se degladeiam e se machucam pelo prazer de se sentir bem, de ver lágrimas e dôr brotarem de outrém - dessas pessôas, devemo-nos cada vez mais nos aproximar, e nos fazer casa e caserna delas, devemos dar amor, carinho e morada. O ser humano não é mal, êle apenas se perdeu no labirinto da ganância, do medo, e de não conseguir ver atrás do Véu de Deus, e nisso se achou maior ou no mesmo patamar que o Dulcíssimo. Não existe dôr, nem maldade, isso é invenção do feo.
Aonde nos cabe, estamos, e a cada porta estreita, nos devemos encolher mais, e deixar que os maus sejam maus, mesmo não sendo, e que os bons se elevem até o Divino, e desçam até a terra batida pelos homens que não entendem da lição que foi deixada no evangelho. Eu ainda estou na minha estrada, estou no meu rumo, tenho meu dia bom, e agora, tenho minha fé. Há um Cristo crucificado, tão mirrado, tão machucado, tão por mim... Por quê não poderia eu estar no lugar dele? Por quê sofrer tanto por mim? Pantocrator deveria muito bem saber que gente do degredo igual a mim tem pecados de levas. Mas, mesmo sabendo de tudo, o Triúno morreu por mim, pelo leitor(a), por cada um de nós deste vale de lágrimas, e apenas nos cabe o respeito, a admiração, a fé, a devoção. Nos cabe o amar em irmãos-em-Cristo, e nos perdoar, para vivermos melhor, e quando o barco virar, não ter medo de morrer.Eles se denominam tão maiores, tão melhores, mas são tão pequenos junto a Deus. Eu oro por vocês, multidão que não quer se enxergar no espelho, vocês medem a sujeira alheia mas não reconhecem a própria, vocês tão livres, tão gente aberta, tão de bem, tão seus, tão autorais, mas não entendem nem um terço do plano do Autor original. Eu sou redator das cartas de anjos, irmãos, santos, mendigos, professores, mestres, e biscoitos, vou redigir um segredo para vocês: Escrevo como escriba, porque como homem, eles não me respeitam. Me faço jornalista dos versos mais pobres, carentes de atenção e de olhos ávidos dessa ávida multidão, e peço a Deus, fôrça para desenvolver cada vez mais linhas, para cada palavra sonar na cabeça de quem sente, e neste fragmento de suma, deixo ao vento que diga as coisas mais incertas, pelas mãos minhas, tão feridas, tão sôfregas, tão minhas, tão de Deus. O dôm não é meu, a carne é emprestada, sou o mensageiro, não quem promulga, aceita e diz da mensagem.
A maldade do mundo tem nos feito frios, insensatos, maldosos e corruptos, roubando nossa própria felicidade e desejando o sangue - privando o riso aberto num dia de Sol pelo riso forçado ao querer impressionar pela qualidade de dentes brancos que se tem na boca. Cala tua boca, e deita-te na tua cama. Pensa nos teus atos, pensa na tua vida, e dorme, dorme o sono que Deus te vela, que neste sono te encontre a paz, que neste sono te encontra a felicidade que te cabe, e não a que te mede no alheio, e que sua verdade seja água.
Amanhã há de ser bem melhor.
Quando se lava as mãos antes de comer do alimento, de carinhar quem se ama, ou antes lavar o rosto, você se purifica, mas, porque não lavamos mais a alma? Por quê nós não aceitamos a simples idéia de renovarmos nossos laços e sermos quem precisamos e prometemos ser a nós mesmos, e na frente da assembléia da massa, há tempos tão idos, tão longíquos que nem mesmo as mãos do tempo ousam tocar, mantendo a lembrança num relicário de vidro e madeira aonde se vê, mas não se toca, nem se encosta, tampouco se sente. Lembranças, daqui desta clausura, serão minha pedra angular no futuro, e me ensinarão mais ainda a não temer a morte, nem as pessôas, nem de ser quem eu sou, preciso ser, ou qual bandeira levantar; Muito pelo contrário: Eu não sou meu juíz, mas, sou meu próprio carrasco.
Divino Espírito Santo, terça parte de Um Deus Tríuno, esteja comigo, e me faça entender como Vocês ao mesmo tempo são Um, e como tôda a alegria que perdi, encontrei na Vossa Presença. Ajude, a cada pessôa perdida como eu a se encontrar, e a quem está perdido no Vale de Lágrimas, a se encontrar, a se perdoar, limpar-se desse lôdo e seguir viagem carreira adiante nesta sinuosa estrada, e ter da concha-forma-mão para tomar no assude, comer do pão que lhe ofertarem na estrada, e sentir a fresca da manhã lhe tomando a cintura, num abraço sincero; Aprende que a vida tem bem mais no menos, e se perdoa de nunca ter vivido isso antes, e que quando você aproveitava as coisas pequenas da vida, você não aproveitava genuinamente - como eu tardiamente aprendi a apreciar, e aprecio agora: Amigos, hoje, na minha cama, encostada ante a janela de quase um século, vejo a garôa cair, e uma gôta está pendendo na ponta de uma folha de uma árvore que está para cair, e não cair, e me sinto agora como esta gôta, me encontro num cai-não-cai impossível de ser descrito, mas só sabe quem sente, vive ou viveu isto. Nem sei mais que horas são, mas se eu puder, mensuro três-quartos de hora perdida esperando essa gôta cair, mas intactamente ela repousa. Será esse o orvalho que minha avó tanto fala? Será que tôdos esses pensamentos são necessários a ponto de não me deixar dormir, e desejar que eu estivesse no colo da que amei por último, e que nos beijos, ventre, seios, sorriso e abraço dela, eu pudesse me valer de algo? Será que a madrugada é mais sádica dos que os seres humanos que vejo trafegar na rua? Será que tudo isso é realmente tão necessário? Será que ela ainda ao menos pensa em mim? Será que eu devo abandonar essa caravana e mais uma vez - inutilmente - mostrar e dizer o que eu sinto, e contar - mil por mil - das flôres do jardim? Será que foi só uma estrêla de fuligem rápida e fulgurante, que finalmente me pôs no lugar que nunca deveria ter saído? Ah, noite, reina em mim, e de uma vez por tôdas, deixa seu pensamento reinar sobre mim.Ah, madrugada, vem reinar em mim, e me faça criança para nos braços da Consolação eu ser ninado e dormir no colo da mulher mais que amada e dormir bem; Guarda-me na barra do teu sari para o feo não me ver, e não me sentir, e quando me sentir pronto, me pega pelos braços e me carrega pra teu lar, me leva pela mão porque eu não sou mais meu, sou mais teu do que qualquer outra coisa, Consolação. Sou teu e de mais ninguém.
Escreve, escriba, escreve. A noite é longa, e ninguém pode te salvar de ti mesmo. Observa a gota que ainda está na ponta da folha, e que não cai - miraculosamente está suspensa entre o ar e a folha, e Deus a mantém, Deus a quer ali, Deus permite tudo o que acontece. Deus é amor, mas é justo, e a quem se porta com decência, honrado é pela mão d'Ele, e quem desvirtua o caminho, perdido está, mas pode ser achado se pedir uma candeia para nas mãos, dar luz para guiar aos pés; E Deus, depois de me dar um archote, me deu azeite, candeia e linheiro, faço minha candeia agora para guiar meus pés, e me manter longe do caminho que trilhei, para agora me ser tôdo inteiro, tôdo água. Nesta madrugada, escrevo ainda para que quando sair daqui, eu promulgue o que sinto, e quando chegar ao derradeiro dia do meu quarto-de-século, eu não me esqueça de tudo isso que estou a viver aqui nesta cama, nesta clausura, neste sentir.
Deus, faça sua morada em mim e abra meus olhos, pois eu não rasguei o Véu, apenas o levantei, e se fôr dos Teus planos, me deixa abrir os olhos para Te ver, pois só irei abrir, se Você permitir, pois, mesmo eu na minha ousadia de levantar o Véu, sei que não deveria. Mas, pela mesma sabedoria que Me deste, me questiono, se com os Véus, eu via vultos, preciso fechar meus olhos quando levantar os véus para eiar os olhos, pois, a olho nu, a vívida poderia queimar minha íris, e apenas na Sua presença, já me sou abençoado, logo, se eu puder Te ver, sortudo me sou. Senhor, abre meus olhos para Te ver.
Não posso, não quero, não devo. Abnego tudo isso apenas pelo fato de ter a paz que tanto procuro, paz que não existe em murais, cervejas, futebol, beijos, ou em conversas de fim-de-feira. Eu quero apenas pelo que minha alma anseia, que fracionado, é a figura completa da paz, mas, dividido, mostra-se como pequenas coisas geraes que nos fazem ao longo dos dias.
Te julgo o mal, e peço que saia de mim, fica em mim enquanto pode, maldade, para que me seja peso-de-prumo para entender o que se passa comigo, com os meus, com os da rua, e os que virão. Como tudo que existe é criação e oriundo de Deus, você há de ficar, mal, pois faz parte desta sociedade, e já está contaminado nos genes, sentidos e agir das pessôas. Mas em mim, não há de habitar, mesmo que interfira na minha vida, mesmo que interfira no meu ser, mesmo que machuque minha carne, mesmo que me faça mais besta, eu prefiro crer, eu prefiro ter em mim tôda a bondade que houver, e voltar a ser a mesma pessôa boa de antes - mesmo que me prive, que passe por constrangimento, e precise dar a cara para ser batida a tôdo o solo do chão, faço isso a partir de hoje voluntáriamente, porque sei que isso é o que deveria sempre ser feito: Acreditar mais, dar mais fôrça a vazão dos sentimentos, e deixar desaguar o amôr, a beleza da vida e o viver de forma ímpar, de forma magna, e quero acreditar e fazerem os meus ao redor acreditarem que todas as cartas vão chegar, que os sinos hão de tinar, e que tudo, magistralmente seja belo, lindo, humilde de coração e forte, forte como a fôrça que nos motiva. Meu Deus, que o gôl, aquele beijo da mulher amada, aquele solo de guitarra, o Sol que desponta na praia durante o bate-volta, a cerveja gelada, o abraço ganhado na hora da solidão, permite, Meu Deus que tudo isso seja digno aos meus, sem exceção, distinção, classe ou horda; Permite que cada um dos meus amigos, irmãos, profetas, professores, senhores, Seos, Donas, escribas, mamães, pessôas, pirañas, picles, biscoitos, raios-de-Sol sejam eternamente e extremamente felizes, como eu fui, sou, e irei ser ainda mais, Deus Meu. Somos reis, somos profetas.Na calada da noite, me calo, mas a alma fervilha uma série de prelativas para perturbar as carnes, e a mente ardilha mil caminhos para me inconformar com o atual estado das coisas, e me fazer provar do doce, do amargo, do que não se nomeia por respeito as palavras; Eu estou aqui a escrever coisas que não compreendo nessa suma para ver se alguém me ouve ou me sente perto quando eu não estiver no mundo. Não sou santo, e Deus me sabe disso - mas, saio desse mundo para adentrar e nunca mais sair de um mundo aonde realmente sou alheio, escolhido, aceito e bem-amado pelas distoantes dessa vida carnal.
Tôdas as coisas passam - menos os sentimentos.
A camisa dada, o sorriso ofertado, os lábios que se morderam, um longo abraço, o sorvete dando a alegria de um sábado, a música que invade o ouvido e toca a alma, tôdas essas situações tem embutidos algo que a carne, e a mente não produz, mas a alma transmite, a alma sente, a alma incandeia, e faz maior que tôdos nós; Ah, pessôas, se guardem no amor de Deus porque foi Êle quem valeu na hora da solidão e da morte, foi tão somente Êle que soube de tudo desde o começo, e lá longe, alguém que sobe no vapor de carvoar se entrega aos braços de Deus Rei nosso pai, e pensa que tudo poderia ser melhor se pudesse recomeçar a vida em outro plano, outra situação, outra vida. Eu, aqui, deitado nessa cama quente na noite úmida, penso igual, e por isso faço meus planos tão iguais ao mesmo homem que desceu da Quinta da Bahea pra tentar a sorte e vencer no sul. Meu coração é tão igual ao teu, nunca te vendo. Meu coração é igual o da tua esposa que cuidou de sete filhos, sem depender de outro homem, e que lavou muita roupa e hoje tem as mãos deformadas, as mãos calejadas, e tôdos os dias reza por cada um de nós, sem pedir nada em troca, ou até mesmo sem exigir um espólio. Rainha Maior que tudo, simplesmente é.
A fé de uma pessôa, além de hereditária, pode ser ponto de referência, pois, logo quando nos é dado um motivo para termos, utilizar, manter, ou dobrar nossa fé, nós nos espelhamos na fé de alguém, e na majora, usamos a fé de nossos antepassados para entendermos o conceito de Divindade, e o conceito de como ser grato, e como a fôrça regente do mundo provém de Alguém maior que tudo que pôssamos imaginar, aprendi fitando os olhos fechados e os dedos de minha vó trincando um rosário, que a única coisa que realmente temos ao nosso lado é Deus, e afora ele, tudo e toda qualquer coisa é passageira, e passível de perca ou abandono; E quando nos deixa, nos deixa de modo abrupto, mesmo tendo nos preparado - como tôdo santo dia na homília dos dias nossos pais nos dizem que uma hora não estarão lá a vida tôda; Mesmo tendo a preparação, quando o dia vier, ninguém estará realmente preparado.
Vou delineando meus dedos sobre o papel, sobre essa cama, sobre o travesseiro, e velhas recordações vem me tentar e me fazer lembrar do passado, e dos sonhos que naufragaram antes de se caber e meter em terra; A dôr tenta invadir meu coração, mas, dessa vez não posso deixar que ela me ganhe, não sem ter da luta, do sentimento, e mostrar que estou aqui para lutar pelo aquilo que considero justo, certo, sincero, pelo meu, que não é mais meu, e agora cabe (mais do que antes) ao Jesus Nazareno, e ao meu padrinho (porta estreita, porta estreita...)
A luz do poste invade o meu quarto e deixa um facho de luz forte e fino cruzar por tôda a diagonal, e eu, ainda a escrever sobre isso, continuo a exortar a bondade de Deus por estar aqui, mesmo com o sono começando a bater, e me fazer criança quando tem medo de dormir por conta do monstro que habita no ármario. Lembranças me vem a tona de corpos que se deitaram ao meu, bocas que beijei, amôres que amei desenfreadamente, e do último amôr que não pude amar, não pude contemplar em seu êxtase, e da dôr que ele me causou. Nuvens ainda me turvam a vista, e me deixam ainda triste, e me fazem lembrar de quem hoje me esquece entre brumas, e me lembram como uma escrita pode ser um divisor de águas e como a tristeza se fez como minha mãe, amiga, mulher e filha. Hoje, afogo minha filha, separo de minha mulher, rompo de minha amiga e sepulto minha mãe, essas ilusões, visões, turvações, o que for... Tôdas elas me dão a certeza que nada disso é pra mim, e que estou no caminho certo, mesmo com dúvidas, mesmo com medo, mesmo aprendendo justamente agora a sorrir e a enfrentar o universo.Mantém-me acordado, e não me deixa dormir agora, deixe eu olhar mais um pouco a chuva cair, e me motivar a estar vivendo o que vivo, e sentir o que sinto. Pega minha atenção e a cultive, cative, cada vez mais, e saiba que só você pode fazer isso, Deus - só para você devo largar tudo, e prestar a obediência, e o ato da fé absoluta e inexorável.
Desce-me até a mina d'água, e lava-me dos meus pecados, e deixa a carne ser carne, afogue a minha carne, para sair, sobressair, intervir, e vencer. Deixe-me, ao menos uma vez na vida, ser certo, estar certo, e viver certo. Deixe eu ser leve, calmo, puro e cristalino como a água que lava a alma, e que cinge a carne da alheia, deixe me saciar a sede de muitos os que procuram, para que eu os dê o que realmente procuram, deixe eu ser palavra, razonete, segredo, mistério, consolador, ouvinte, amigo e interlocutor. Deixe, com sua permissão Meu Deus que eu seja aquilo que êles mais tem falta, deixe eu ser meu, e que na minha concepção, a concepção não esteja certa ou errrada, mas que esteja sempre em paz e bem. Que em mim não exista um procedimento ou maneira, seleção ou recrutamento, mas que exista, de alguma forma o acolhimento para que eu possa ouvir e dar acolhimento a todos que andam cansados, e assim como o Samaritano, cuidar de quem mais precisa.
Eu quero ir aonde tenham problemas, desafios, coisas a se superar e integrar, quero ser a solução, não para ser quem ganha espólio, mas para fazer merecer o que espero ter lá na frente, e honrar quem me salvou.Você acredita no dia de amanhã, e nas coisas que podem acontecer no amanhã? Você acredita em tôdas as coisas que podem melhorar, ou que sentir as coisas estão melhorando ao longo de um dia vivido? Você acredita num amanhã melhor, aonde a chuva para de castigar, e apenas chove sobre a fôlha, no brumeio que vai te amar e te cercar de coisas boas, e acredita em tudo aquilo que mataram dentro de você pode se regenerar e ser maior e melhor que antes? Você crê que as chagas podem ser curadas e cicatrizadas, mas elas ainda estarão lá, elas ainda aparecerão, mas elas nunca mais irão doer, só nos farão ser partes de um tôdo completo chamado vida. Você acredita? Eu acredito.
Eu acredito em mim, nos olhos, raios, sorrisos, ventos, torrentes, e na cerveja gelada que fica no centro existindo alguém só para a beber, só a sorver, só a coexistir. Eu acredito nas pessoas, acredito em cada uma delas, e me desapego daquelas a quem me desfizeram e me resigno de ódio, piedade ou dôr - quanto a mágoa, ainda está a ser trabalhado; Estamos fazendo nosso melhor. A noite não pena em passar, e por isso me mantenho em apenas pensar, sentir, texturizar e refletir sobre tudo - e nada. Eu apenas creio que tudo isso é desnecessário, e eu espero que na medida do que já exagerei, esse desnível minimalista seja uma nivelação das contas desse rosário enorme e desvelado que me encontro há 25 anos rezando, e a 25 anos não consigo o entender, mas apenas o faço por obrigação, por dever, pela esperança, pela fé.
Concórdia, olha por mim daí, me mantenha na fé, e me deixe que na fé me encontre o caminho de volta pra casa. Concórdia, seja aquela a quem eu esperei a minha vida tôda, me deixe te ter, para que ao momento que eu te ter como minha, não abra mais meus olhos, e tudo que eu tenho - tudo o que vêes é teu, teu e de teu Filho. Você me mantém sobre teu sari, e daqui vou fazendo meu melhor, aprendendo a ser maior e melhor que tudo isso, mas me faça menor que tudo, menor que eles, e tire de mim tudo o que eu tenho; Para quando eu me encontrar só, dentro de mim, meus olhos se fechem em um véu, que apenas Você possa tirar, apenas você pode me fitar, cingir e tinar.
Desce-me até o Rossio, e que lá as pessôas que me viram, não me vejam, e as que já me viram um dia desses, não me reconheçam, desce pelas ruas e procura meu rastro, mesmo sabendo que eu não vou deixar. Estou deixando esse mundo, essa minha vida, para minha eternidade, para ser o que nunca pude ser antes, viver, sentir e entender o que nunca compreendi. Desce da tua plataforma e patamar e ouve: Eu não sou mais o mesmo.

domingo, 26 de março de 2017

XXVII (7-7)

Você acredita no dia de amanhã, e nas coisas que podem acontecer no amanhã? Você acredita em tôdas as coisas que podem melhorar, ou que sentir as coisas estão melhorando ao longo de um dia vivido? Você acredita num amanhã melhor, aonde a chuva para de castigar, e apenas chove sobre a fôlha, no brumeio que vai te amar e te cercar de coisas boas, e acredita em tudo aquilo que mataram dentro de você pode se regenerar e ser maior e melhor que antes? Você crê que as chagas podem ser curadas e cicatrizadas, mas elas ainda estarão lá, elas ainda aparecerão, mas elas nunca mais irão doer, só nos farão ser partes de um tôdo completo chamado vida. Você acredita? Eu acredito.
Eu acredito em mim, nos olhos, raios, sorrisos, ventos, torrentes, e na cerveja gelada que fica no centro existindo alguém só para a beber, só a sorver, só a coexistir. Eu acredito nas pessoas, acredito em cada uma delas, e me desapego daquelas a quem me desfizeram e me resigno de ódio, piedade ou dôr - quanto a mágoa, ainda está a ser trabalhado; Estamos fazendo nosso melhor. A noite não pena em passar, e por isso me mantenho em apenas pensar, sentir, texturizar e refletir sobre tudo - e nada.
Eu apenas creio que tudo isso é desnecessário, e eu espero que na medida do que já exagerei, esse desnível minimalista seja uma nivelação das contas desse rosário enorme e desvelado que me encontro há 25 anos rezando, e a 25 anos não consigo o entender, mas apenas o faço por obrigação, por dever, pela esperança, pela fé.
Concórdia, olha por mim daí, me mantenha na fé, e me deixe que na fé me encontre o caminho de volta pra casa. Concórdia, seja aquela a quem eu esperei a minha vida tôda, me deixe te ter, para que ao momento que eu te ter como minha, não abra mais meus olhos, e tudo que eu tenho - tudo o que vêes é teu, teu e de teu Filho. Você me mantém sobre teu sari, e daqui vou fazendo meu melhor, aprendendo a ser maior e melhor que tudo isso, mas me faça menor que tudo, menor que eles, e tire de mim tudo o que eu tenho; Para quando eu me encontrar só, dentro de mim, meus olhos se fechem em um véu, que apenas Você possa tirar, apenas você pode me fitar, cingir e tinar.
Desce-me até o Rossio, e que lá as pessôas que me viram, não me vejam, e as que já me viram um dia desses, não me reconheçam, desce pelas ruas e procura meu rastro, mesmo sabendo que eu não vou deixar. Estou deixando esse mundo, essa minha vida, para minha eternidade, para ser o que nunca pude ser antes, viver, sentir e entender o que nunca compreendi. Desce da tua plataforma e patamar e ouve: Eu não sou mais o mesmo.

XXVII (6-7)

Mantém-me acordado, e não me deixa dormir agora, deixe eu olhar mais um pouco a chuva cair, e me motivar a estar vivendo o que vivo, e sentir o que sinto. Pega minha atenção e a cultive, cative, cada vez mais, e saiba que só você pode fazer isso, Deus - só para você devo largar tudo, e prestar a obediência, e o ato da fé absoluta e inexorável.
Desce-me até a mina d'água, e lava-me dos meus pecados, e deixa a carne ser carne, afogue a minha carne, para sair, sobressair, intervir, e vencer. Deixe-me, ao menos uma vez na vida, ser certo, estar certo, e viver certo. Deixe eu ser leve, calmo, puro e cristalino como a água que lava a alma, e que cinge a carne da alheia, deixe me saciar a sede de muitos os que procuram, para que eu os dê o que realmente procuram, deixe eu ser palavra, razonete, segredo, mistério, consolador, ouvinte, amigo e interlocutor. Deixe, com sua permissão Meu Deus que eu seja aquilo que êles mais tem falta, deixe eu ser meu, e que na minha concepção, a concepção não esteja certa ou errrada, mas que esteja sempre em paz e bem. Que em mim não exista um procedimento ou maneira, seleção ou recrutamento, mas que exista, de alguma forma o acolhimento para que eu possa ouvir e dar acolhimento a todos que andam cansados, e assim como o Samaritano, cuidar de quem mais precisa.
Eu quero ir aonde tenham problemas, desafios, coisas a se superar e integrar, quero ser a solução, não para ser quem ganha espólio, mas para fazer merecer o que espero ter lá na frente, e honrar quem me salvou.

sexta-feira, 24 de março de 2017

XXVII (5-7)

Na calada da noite, me calo, mas a alma fervilha uma série de prelativas para perturbar as carnes, e a mente ardilha mil caminhos para me inconformar com o atual estado das coisas, e me fazer provar do doce, do amargo, do que não se nomeia por respeito as palavras; Eu estou aqui a escrever coisas que não compreendo nessa suma para ver se alguém me ouve ou me sente perto quando eu não estiver no mundo. Não sou santo, e Deus me sabe disso - mas, saio desse mundo para adentrar e nunca mais sair de um mundo aonde realmente sou alheio, escolhido, aceito e bem-amado pelas distoantes dessa vida carnal.
Tôdas as coisas passam - menos os sentimentos.
A camisa dada, o sorriso ofertado, os lábios que se morderam, um longo abraço, o sorvete dando a alegria de um sábado, a música que invade o ouvido e toca a alma, tôdas essas situações tem embutidos algo que a carne, e a mente não produz, mas a alma transmite, a alma sente, a alma incandeia, e faz maior que tôdos nós; Ah, pessôas, se guardem no amor de Deus porque foi Êle quem valeu na hora da solidão e da morte, foi tão somente Êle que soube de tudo desde o começo, e lá longe, alguém que sobe no vapor de carvoar se entrega aos braços de Deus Rei nosso pai, e pensa que tudo poderia ser melhor se pudesse recomeçar a vida em outro plano, outra situação, outra vida. Eu, aqui, deitado nessa cama quente na noite úmida, penso igual, e por isso faço meus planos tão iguais ao mesmo homem que desceu da Quinta da Bahea pra tentar a sorte e vencer no sul. Meu coração é tão igual ao teu, nunca te vendo. Meu coração é igual o da tua esposa que cuidou de sete filhos, sem depender de outro homem, e que lavou muita roupa e hoje tem as mãos deformadas, as mãos calejadas, e tôdos os dias reza por cada um de nós, sem pedir nada em troca, ou até mesmo sem exigir um espólio. Rainha Maior que tudo, simplesmente é.
A fé de uma pessôa, além de hereditária, pode ser ponto de referência, pois, logo quando nos é dado um motivo para termos, utilizar, manter, ou dobrar nossa fé, nós nos espelhamos na fé de alguém, e na majora, usamos a fé de nossos antepassados para entendermos o conceito de Divindade, e o conceito de como ser grato, e como a fôrça regente do mundo provém de Alguém maior que tudo que pôssamos imaginar, aprendi fitando os olhos fechados e os dedos de minha vó trincando um rosário, que a única coisa que realmente temos ao nosso lado é Deus, e afora ele, tudo e toda qualquer coisa é passageira, e passível de perca ou abandono; E quando nos deixa, nos deixa de modo abrupto, mesmo tendo nos preparado - como tôdo santo dia na homília dos dias nossos pais nos dizem que uma hora não estarão lá a vida tôda; Mesmo tendo a preparação, quando o dia vier, ninguém estará realmente preparado.
Vou delineando meus dedos sobre o papel, sobre essa cama, sobre o travesseiro, e velhas recordações vem me tentar e me fazer lembrar do passado, e dos sonhos que naufragaram antes de se caber e meter em terra; A dôr tenta invadir meu coração, mas, dessa vez não posso deixar que ela me ganhe, não sem ter da luta, do sentimento, e mostrar que estou aqui para lutar pelo aquilo que considero justo, certo, sincero, pelo meu, que não é mais meu, e agora cabe (mais do que antes) ao Jesus Nazareno, e ao meu padrinho (porta estreita, porta estreita...)
A luz do poste invade o meu quarto e deixa um facho de luz forte e fino cruzar por tôda a diagonal, e eu, ainda a escrever sobre isso, continuo a exortar a bondade de Deus por estar aqui, mesmo com o sono começando a bater, e me fazer criança quando tem medo de dormir por conta do monstro que habita no ármario. Lembranças me vem a tona de corpos que se deitaram ao meu, bocas que beijei, amôres que amei desenfreadamente, e do último amôr que não pude amar, não pude contemplar em seu êxtase, e da dôr que ele me causou. Nuvens ainda me turvam a vista, e me deixam ainda triste, e me fazem lembrar de quem hoje me esquece entre brumas, e me lembram como uma escrita pode ser um divisor de águas e como a tristeza se fez como minha mãe, amiga, mulher e filha. Hoje, afogo minha filha, separo de minha mulher, rompo de minha amiga e sepulto minha mãe, essas ilusões, visões, turvações, o que for... Tôdas elas me dão a certeza que nada disso é pra mim, e que estou no caminho certo, mesmo com dúvidas, mesmo com medo, mesmo aprendendo justamente agora a sorrir e a enfrentar o universo.

quinta-feira, 23 de março de 2017

XXVII (4-7)

Ah, madrugada, vem reinar em mim, e me faça criança para nos braços da Consolação eu ser ninado e dormir no colo da mulher mais que amada e dormir bem; Guarda-me na barra do teu sari para o feo não me ver, e não me sentir, e quando me sentir pronto, me pega pelos braços e me carrega pra teu lar, me leva pela mão porque eu não sou mais meu, sou mais teu do que qualquer outra coisa, Consolação. Sou teu e de mais ninguém.
Escreve, escriba, escreve. A noite é longa, e ninguém pode te salvar de ti mesmo. Observa a gota que ainda está na ponta da folha, e que não cai - miraculosamente está suspensa entre o ar e a folha, e Deus a mantém, Deus a quer ali, Deus permite tudo o que acontece. Deus é amor, mas é justo, e a quem se porta com decência, honrado é pela mão d'Ele, e quem desvirtua o caminho, perdido está, mas pode ser achado se pedir uma candeia para nas mãos, dar luz para guiar aos pés; E Deus, depois de me dar um archote, me deu azeite, candeia e linheiro, faço minha candeia agora para guiar meus pés, e me manter longe do caminho que trilhei, para agora me ser tôdo inteiro, tôdo água. Nesta madrugada, escrevo ainda para que quando sair daqui, eu promulgue o que sinto, e quando chegar ao derradeiro dia do meu quarto-de-século, eu não me esqueça de tudo isso que estou a viver aqui nesta cama, nesta clausura, neste sentir.
Deus, faça sua morada em mim e abra meus olhos, pois eu não rasguei o Véu, apenas o levantei, e se fôr dos Teus planos, me deixa abrir os olhos para Te ver, pois só irei abrir, se Você permitir, pois, mesmo eu na minha ousadia de levantar o Véu, sei que não deveria. Mas, pela mesma sabedoria que Me deste, me questiono, se com os Véus, eu via vultos, preciso fechar meus olhos quando levantar os véus para eiar os olhos, pois, a olho nu, a vívida poderia queimar minha íris, e apenas na Sua presença, já me sou abençoado, logo, se eu puder Te ver, sortudo me sou. Senhor, abre meus olhos para Te ver.
Não posso, não quero, não devo.
Te julgo o mal, e peço que saia de mim, fica em mim enquanto pode, maldade, para que me seja peso-de-prumo para entender o que se passa comigo, com os meus, com os da rua, e os que virão. Como tudo que existe é criação e oriundo de Deus, você há de ficar, mal, pois faz parte desta sociedade, e já está contaminado nos genes, sentidos e agir das pessôas. Mas em mim, não há de habitar, mesmo que interfira na minha vida, mesmo que interfira no meu ser, mesmo que machuque minha carne, mesmo que me faça mais besta, eu prefiro crer, eu prefiro ter em mim tôda a bondade que houver, e voltar a ser a mesma pessôa boa de antes - mesmo que me prive, que passe por constrangimento, e precise dar a cara para ser batida a tôdo o solo do chão, faço isso a partir de hoje voluntáriamente, porque sei que isso é o que deveria sempre ser feito: Acreditar mais, dar mais fôrça a vazão dos sentimentos, e deixar desaguar o amôr, a beleza da vida e o viver de forma ímpar, de forma magna, e quero acreditar e fazerem os meus ao redor acreditarem que todas as cartas vão chegar, que os sinos hão de tinar, e que tudo, magistralmente seja belo, lindo, humilde de coração e forte, forte como a fôrça que nos motiva. Meu Deus, que o gôl, aquele beijo da mulher amada, aquele solo de guitarra, o Sol que desponta na praia durante o bate-volta, a cerveja gelada, o abraço ganhado na hora da solidão, permite, Meu Deus que tudo isso seja digno aos meus, sem exceção, distinção, classe ou horda; Permite que cada um dos meus amigos, irmãos, profetas, professores, senhores, Seos, Donas, escribas, mamães, pessôas, pirañas, picles, biscoitos, raios-de-Sol sejam eternamente e extremamente felizes, como eu fui, sou, e irei ser ainda mais, Deus Meu. Somos reis, somos profetas.

quarta-feira, 22 de março de 2017

XXVII (3-7)

Eles se denominam tão maiores, tão melhores, mas são tão pequenos junto a Deus. Eu oro por vocês, multidão que não quer se enxergar no espelho, vocês medem a sujeira alheia mas não reconhecem a própria, vocês tão livres, tão gente aberta, tão de bem, tão seus, tão autorais, mas não entendem nem um terço do plano do Autor original. Eu sou redator das cartas de anjos, irmãos, santos, mendigos, professores, mestres, e biscoitos, vou redigir um segredo para vocês: Escrevo como escriba, porque como homem, eles não me respeitam. Me faço jornalista dos versos mais pobres, carentes de atenção e de olhos ávidos dessa ávida multidão, e peço a Deus, fôrça para desenvolver cada vez mais linhas, para cada palavra sonar na cabeça de quem sente, e neste fragmento de suma, deixo ao vento que diga as coisas mais incertas, pelas mãos minhas, tão feridas, tão sôfregas, tão minhas, tão de Deus. O dôm não é meu, a carne é emprestada, sou o mensageiro, não quem promulga, aceita e diz da mensagem.
A maldade do mundo tem nos feito frios, insensatos, maldosos e corruptos, roubando nossa própria felicidade e desejando o sangue - privando o riso aberto num dia de Sol pelo riso forçado ao querer impressionar pela qualidade de dentes brancos que se tem na boca. Cala tua boca, e deita-te na tua cama. Pensa nos teus atos, pensa na tua vida, e dorme, dorme o sono que Deus te vela, que neste sono te encontre a paz, que neste sono te encontra a felicidade que te cabe, e não a que te mede no alheio, e que sua verdade seja água.
Amanhã há de ser bem melhor.
Quando se lava as mãos antes de comer do alimento, de carinhar quem se ama, ou antes lavar o rosto, você se purifica, mas, porque não lavamos mais a alma? Por quê nós não aceitamos a simples idéia de renovarmos nossos laços e sermos quem precisamos e prometemos ser a nós mesmos, e na frente da assembléia da massa, há tempos tão idos, tão longíquos que nem mesmo as mãos do tempo ousam tocar, mantendo a lembrança num relicário de vidro e madeira aonde se vê, mas não se toca, nem se encosta, tampouco se sente. Lembranças, daqui desta clausura, serão minha pedra angular no futuro, e me ensinarão mais ainda a não temer a morte, nem as pessôas, nem de ser quem eu sou, preciso ser, ou qual bandeira levantar; Muito pelo contrário: Eu não sou meu juíz, mas, sou meu próprio carrasco.
Divino Espírito Santo, terça parte de Um Deus Tríuno, esteja comigo, e me faça entender como Vocês ao mesmo tempo são Um, e como tôda a alegria que perdi, encontrei na Vossa Presença. Ajude, a cada pessôa perdida como eu a se encontrar, e a quem está perdido no Vale de Lágrimas, a se encontrar, a se perdoar, limpar-se desse lôdo e seguir viagem carreira adiante nesta sinuosa estrada, e ter da concha-forma-mão para tomar no assude, comer do pão que lhe ofertarem na estrada, e sentir a fresca da manhã lhe tomando a cintura, num abraço sincero; Aprende que a vida tem bem mais no menos, e se perdoa de nunca ter vivido isso antes, e que quando você aproveitava as coisas pequenas da vida, você não aproveitava genuinamente - como eu tardiamente aprendi a apreciar, e aprecio agora: Amigos, hoje, na minha cama, encostada ante a janela de quase um século, vejo a garôa cair, e uma gôta está pendendo na ponta de uma folha de uma árvore que está para cair, e não cair, e me sinto agora como esta gôta, me encontro num cai-não-cai impossível de ser descrito, mas só sabe quem sente, vive ou viveu isto. Nem sei mais que horas são, mas se eu puder, mensuro três-quartos de hora perdida esperando essa gôta cair, mas intactamente ela repousa. Será esse o orvalho que minha avó tanto fala?

terça-feira, 21 de março de 2017

XXVII (2-7)

Eia! EIA!
Deocleciano, minha fé se reside em ti. Tão só em somente em cada um dos meus - idos, estados, futuros. Deocleciano é Patriarcha de tôda essa gente humilde, feliz, o Pai da Rainha Original. O pioneiro do degredo que dobrava ferro e pregava madeira, apeiava no cavalo e descia a correntina até a Quinta da Bahea para ir ver o Nosso Senhor do Bonfim. Deocleciano é o difusor do Ofício, que se reside em cada um de nós, em cada um de cada seu, que ainda sim reza sem parar, porque Nossa Senhora está de joelhos. Deocleciano é o pendão imaculado de fôrça, de fé, de perseverança. É quem nos trouxe até aqui, dando sustâncea na farinha de Dona Antônia, dando fôrça de lá do lado de lá, e aqui, nós fazemos nossa parte, nos mantendo, nos cuidando, nos tendo.
Para cada raio de Sol, há uma prece, Seo Deocleciano, eu sei disso hoje mais que nunca - um prefixo dedicado a uma prelação, e a cada brumeio, um agradecimento; E mesmo que nós na nossa humanidade carnal raramente consigamos ver o que está a acontecer, existe e sempre existirão pequenos milagres: Os dois reais achados no bolso da calça, ir sentado no metrô, o café de graça dado no serviço, e a cabeça que ora pende pra alegria, e ora luta para se permanecer em alegria. Para cada gôta de chuva, existe uma benção, e por isso ando sem guarda-chuva e deixo me molhar, para me sentir vivo, para cada grão d'água molhar meus cabelos e cingir minha face, e se misturando com meu olhar, talvez aia de vingar uma lágrima de alegria. Talvez.
Quando nós, na nossa leiga ignorância, vamos nos desenvolvendo e descobrindo com o tempo tudo o que estava a nossa frente, nós rasgamos mais um véu que nos cegava, com isso, temos a vida verdadeira em nosso olhar, nossa mente, nosso coração. Pois, ao rasgar o véu cegante da ignorância, nós nos abrimos para o inonimável, e para uma alegria que não se têm fim - é como se ouvíssemos Baden Powell a tocar na nossa sala. É o Divino, é o Espírito Santo no Sacrário abaixo da imagem de Jesus Crucificado. Um Jesus tão pobre, tão amorenado-de-vela, tão frágil, tão ferido, tão môrto, tão por mim, por você, por nós... Faz-me um favôr, desce até a dobra da rua, aonde havia um rio, ali se deve fazer o bem, e novamente, e novamente, e novamente, até se cansar. Sobe o elevado, e cruza a avenida, ali também se pode fazer a vida renascer, ali pode-se dar o bem com bem, e fazer a bondade aflorar. Em tôdo lugar há uma chance de ser bom, mas, bom de verdade, bom de alma. Em tôdo lugar vejo uma chance de honrar Deocleciano, Antônia e Márcia.
Quão cansados estão essas pessôas que se degladeiam e se machucam pelo prazer de se sentir bem, de ver lágrimas e dôr brotarem de outrém - dessas pessôas, devemo-nos cada vez mais nos aproximar, e nos fazer casa e caserna delas, devemos dar amor, carinho e morada. O ser humano não é mal, êle apenas se perdeu no labirinto da ganância, do medo, e de não conseguir ver atrás do Véu de Deus, e nisso se achou maior ou no mesmo patamar que o Dulcíssimo. Não existe dôr, nem maldade, isso é invenção do feo.
Aonde nos cabe, estamos, e a cada porta estreita, nos devemos encolher mais, e deixar que os maus sejam maus, mesmo não sendo, e que os bons se elevem até o Divino, e desçam até a terra batida pelos homens que não entendem da lição que foi deixada no evangelho. Eu ainda estou na minha estrada, estou no meu rumo, tenho meu dia bom, e agora, tenho minha fé. Há um Cristo crucificado, tão mirrado, tão machucado, tão por mim... Por quê não poderia eu estar no lugar dele? Por quê sofrer tanto por mim? Pantocrator deveria muito bem saber que gente do degredo igual a mim tem pecados de levas. Mas, mesmo sabendo de tudo, o Triúno morreu por mim, pelo leitor(a), por cada um de nós deste vale de lágrimas, e apenas nos cabe o respeito, a admiração, a fé, a devoção. Nos cabe o amar em irmãos-em-Cristo, e nos perdoar, para vivermos melhor, e quando o barco virar, não ter medo de morrer.

segunda-feira, 20 de março de 2017

XXVII (1-7)

Calado, ao meu peito permaneço em meditação; Saio dos extramuros de portas pesadas e férreas para novamente me meter nas construções de homens, com assuntos de homens e pensamentos vilipendiosos. Eu sou um homem, faço parte dessa máquina mercantil, meu sentir pede socorro, pois a cada dia, a cada segundo, a cada hora, hordas de anjos, senhores-de-lei, músicas, escritos, amigos, pessôas-das-geraes me lembram e me fazem afirmar que não sou daqui. E quando tento diariamente me tanger os olhos com o ferro quente da realidade, Deus novamente me brinda com um Céu, uma garôa, um frio, uma cerveja, uma bôa conversa, ou apenas uma fôrça que nunca foi nem nunca será minha, como teimosia de criança, para seguir em frente, que minha recompensa está a vir. Minha recompensa, leitor, é a morte. Nada mais, nem além disso. Na morte encontro a paz, na morte encontro Seo Fábio, na morte encontro Jesus Cristo, Nosso Senhor. Na morte encontro tôdas as respostas que sei que aqui de forma alguma terei, por isso cada vez mais quando me enrolam em espirais de ilusão, bobeira de fim-de-feira, me deixo atrair, pra me ver se naufrago logo; E assim encontrar minha paz, e em contra-partida dar a paz a quem está ao meu lado. Esse côrpo é meu empréstimo para pagar outra dívida, assim como essa vida é para saudar e mostrar que até aqui no degredo, tem gente boa, feliz, altiva e inteira (que, obviamente, não sou eu). Não pense, leitor(a) que com isso tenho tendências suicídas, ou depressão, muito pelo contrário. Filho de enforcado não repete erro, e além disso, me fiz, me vi, e estive sozinho por tantas vezes, que me acostumei com a solidão, e quantas vezes mais lutei por ter gente ao meu lado, para ver se a vida não valia com alguém do lado (amigos, namoradas, esposa, consorte...), mais descobri que as pessôas andam mais solitárias, egoístas, e vivendo umas espécie de queda-de-braço: Não te assumem o que sentem, mas, se o faz primeiro, vira réu delas, e mais além; Te corre risco de sangrar, e quem sangra primeiro não é errado, mas é quem é mais cristão, amou o outro como a si, tomou o outro pra si, como se entregou ao outro: As verdadeiras mãos que são sujas de sangue estão ocultas - tem do mêdo, da má alheia, e não sabem como agir quando encontram um carneiro em seu holocausto, apenas se tremem e se refugiam em seu infinito particular. O sangue inocente nas mãos, no fim das contas, são também de mãos mais inocentes ainda, por não se deixar ir adiante, ou se deixar viver, ter; Dizem-se tanto, e pouco se são, e muito se enchem do vazio, e na hora da vera, é tudo tão tardio, é tão triste, e as pessôas que se eiam, no final das contas são as que mais vazias estão. Elas dizem se comungar com o amôr, mas, o amôr do qual eu comungo não tem fim, prazo de validade, ou como-se-porta. Ele é o Amôr, tão só, somente, é. A vida é mais simples - algumas pessôas que a complicam. Se agregaram em mim o amôr sem fim de uma vida renunciada, a contra-fôrça, e a fé de Dona Antônia; Elas me fizeram dar o passo descompassado e viver o que vivo, sentir o que sinto, temer o que temo, e almejar o que não consigo nem imaginar possuir; Faço do vento, veículo aonde jogo estas palavras, pensamentos e sentimentos, e que cheguem aos ouvidos, olhos, bocas e corpo, pois meus não são meus, agora - mais do que antes - se pertencem a geral: Concórdia, Cecília, Bep, são da geral, são amarras que me desatei, e aquela camisa do Corinthians nem uso mais, e até mesmo o velho anel do Santo Guerreiro, penso em deixar em desuso para cada vez mais aderir essa vida. Minha vida. Sua vida. A vida, em si. Quando se vive para Alguém Maior, se esquece de si, das horas, dos dias, se esquece até mesmo de tudo que um dia possa ter ocasionado dôr. E por mais que algumas ainda façam o músculo repuxar, tudo isso passa, tudo isso acaba, tudo isso é deixado de lado, para dar lugar ao que realmente importou, importa e há de importar cada vez mais na vida daqui por diante.

domingo, 19 de março de 2017

Remembering.

Se manter firme numa crença, não importa qual, é apenas uma das mais híbridas maneiras de ter e ser esperançoso; É uma espécie de retaguarda e âncora que nos mantém firmes e impedidos de ficar a deriva, não se perder num vago oceano.
Hão de vir dias de Sol como dias de torrente, e se houver tempos de solidão, a vida assim ainda seguirá, sem pedir licença e se moldando a cada barra-vento que se impuser. Não tem jeito, não. Seguimos, cada um de nós com um engôdo na garganta, e uma fraquejada vontade de tentar dizer tudo o que nos cabe, mas nada dizemos, a tudo ouvimos e sentimos, e continuamos a nos degladiar e nos machucar nêste vale de lágrimas; Quando turva a noite e o dia nasce, somos novamente forçados a tomar pílulas de esperança, e um tônico de fé, lavar a cara na água benta do chuveiro e cair no mundo. E se houver tempos, serão tempos difíceis. Mas passam, como tudo passa. Como tudo há de eiar. Como tudo tem de ser.
Abandonar tôda uma vida requer um esfôrço, daqueles bem herculéos, que chegam a doer o corpo; Mas, crendo ainda na imutável fé, tudo cresce, renova, tudo passa. E quando passar, nada disso importará, nada mesmo; Talvez fique o resquício do passado, mas, ainda sim, quando tudo for passado, suprimido, ruminado e engolido, tôda situação passa, e segue adiante.
Nos muros de pó-de-ostra, exercito o mais difícil dos meus segredos, e deixo as ondas me acertarem, e aceitar o rumo das coisas, por mais nebuloso que tudo esteja, quando me meti na clausura aonde o Cristo me fitou, ali aprendi mais sobre tudo, menos sobre o que mais precisava nêste justo-momento. Pouco dormi, pouco soube, muito senti, muito refleti, a chuva de madrugada molhou cada palavra, imagem, textura e sôm. E mesmo ainda com medo do que o futuro reserva, estou pronto, e do medo, tomo alegria; Medo e dúvida elevam a fé.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Plug Me In.

Eu vou te guardar no meu coração, e de Janeiro a Janeiro vou lembrar da felicidade nas tuas mãos, na tua boca, nos teus braços, e quando amanhã eu abrir a porta secular e estudar os mistérios da regra, eu ainda sim vou lembrar de você e de tantas coisas que nem mais cabem ou me competem a dizer, mas que ouso delinear quando vejo suas nuvens no Céu ou quando ouço tudo aquilo que me arremete a você. É inexplicável, inesquecível e esquisito. É tudo o que fugiu da compreensão, mas ao mesmo tempo era muito medido, muito certo, muito perfeito, muito ótimo, muito nosso.
Tá ficando frio, e eu adoro isso. Adoro o corte dos casacos, e adoro a garôa que molha o cabelo, o licor de um-gole-só, a minha vida pesudo-Bretã que tanto combina com isso. Tá ficando frio, e eu estarei entre os muros de pó-de-ostra, tá frio e mais frio ainda ficou a cidade quando dormiu.
A batida de um pandeiro, as flôres de um jardim, as pessoas na rua, a menina que me esperou na frente do meu serviço e logo me encheu de beijos, tôdas elas florescem e transmutam na canção, tudo isso se faz ávido e presente, mesmo no útero do tempo, tudo isso está bem vivo, tudo isso está aqui, são pedaços que quando inteiriços, se remetem a mulher que é você.
Por favor, entre. A festa é sua, toma uma cerveja, senta e relaxa, deixa eu por um disco que você possa gostar, e esquece o mundo lá fora, ao menos hoje, ao menos agora. Por favor, fique mais um pouco, olhe ao redor, não há maldade, nem nada, apenas o tempo, a sorte, um rumo norte tão incerto quanto tudo... Tão incerto quanto fomos. Tão incerto quando a incerteza de que viver e ser vivo é diferente.
Na verdade, ainda não consegui matar sua essência em mim, tampouco apagar sua supernova do meu Céu, mais ainda de como não sentir saudade da sua risada, dos gritos e da vossa espontânea. Na verdade, tôdos esses textos, essa música, tudo isso são memoriais que crio para você, para cada vez que eu me recordar, me refugiar aqui. Dentro de você que habita dentro de mim.

...Melhor parar, a escrita já ficou estranha.

terça-feira, 14 de março de 2017

Still Water (Peace)

Eia, vento. Venteia e eparreia, aperreia e me leva para onde tiver que me levar, pois eu quero estar aonde tem caxangá, mais; No interém do cai-não-cai, deixo pendurado nas hastes do vento tudo aquilo que poderia me caber, e deixo meus sonhos para outra pessôa os almejar, assim como a mim mesmo me desejo sorte, e fôrça para este novo caminho; A mim cabe a bulada, e não a régua, cabe o que se encontra na pedra, e não na ornada, cabe o que se faz vivo, e não o que impera sobre os vivos. Eu - por pouco tempo - ainda sou o sôm.
Mantenha me preparando para a maior ventura que o vento possa me trazer, porque daqui dos muros de pó-de-ostra, me guardarei de você(s), e resguardarei aquele sentimento que um dia incandiei. Meu amanhã é mais certo do que a hora do zênite, e isso me deixa a pensar em toda essa água, em tôdo esse sentimento, nessa vida que corre entre nossos dedos, nas coisas que me fizeram chegar até aqui, só que dessa vez em definitivo. Aqui é de onde sou, e me pertenço.
E como essas gentes lidam com as derrocadas, com as marcas da surra que a vida nos deu, com as ilusões que nós mesmos alimentamos, com os medos, com a falta, com a saudade, e com o vazio? Como vocês se dão ao direito de botar a culpa no alheio e não verem o sangue nas vossas mãos? Vós todos sujam-se e são da lama, e nessa lama hão de ficar durante tôdo o tempo possível, porque quem guarda vocês é Deus, mas justificar vossos lamúrios, e tentar gente da lama, sendo que vocês não se limpam, é totalmente incoveniente e impuro. Pérolas aos porcos.
Faz frio, enubla-se, e eu aqui estou. Vejo um jardim, crianças brincando esperando pelo pão-de-leite e café, vejo suas mães pegando doações num vicentinário, e Êle me fita com seus olhos, mas nada diz. De seu altar, me diz algo que ainda não entendo, ainda não compreendo, que não me compete. Me dão de um chá, e me tomam pela mão, atravessamos do Rossio, e encontro aonde deveria estar há tempos, encontro aonde meu coração se acalma, aonde eu não fui antes em nome da última ficha. Maré revolta fica água mansa, turvalina, agora me vai, me faz. Aqui eu estou, Senhor, aqui eu vou, aqui eu sou.
Deixo, como público, essa maré de gentes que enclausura e definha esses sentimentos: Não faz. Luta, corre, vive, diz. Amanhã pode ser tarde, amanhã pode nem existir; Te diz tudo o que pensa, se sangra, mostra ao outro que tem valor, não espera hora certa e tempo perfeito existir. Tempo perfeito é quando você sabe o que sente, e precisa exclamar ao mundo e a quem te estima tudo, todos os detalhes, do vestido de âncora até o brilho imáculo do sorriso.
Mantenham a fé. Se não puderem, mantenham a esperança, ou o amor. Mantenham o carinho, e saiam dessa frieza, se sangrem, se mostrem, não brinquem de ser frios.
Guardem-se, e amem-se, mantenham-se preparados para a justa, e durante ela, não esmaeça ou definhe; Tudo há de se estabilizar, de uma forma ou outra.

domingo, 12 de março de 2017

Still Water (Love)

Não deixa eu passar o tempo, se eu passar o tempo, eu me passo, mas você passa junto, e se você passar, eu fico passado, e só vou poder lembrar do passado. Passou. É só mais uma chaga pra coleção, é só mais uma música que não ouvirei durante um tempo, é só o vento lá fora.
Lembra daquele dia, lá fora, aonde tudo se cabia num compacto de simples coisas, e lembra do quanto eu gostava de você, do quanto a minha mão se abriu para poder pegar na tua, e lembra do nosso beijo, lembra; Lembra?
Lembra de como eu não tentei te surpreender, e como você se sentiu mal quando aquela maré-de-gente invadiu o bar da esquina, e você lembra de como estava linda naquele parque? Eu ainda tenho aquela foto guardada em algum lugar, eu até revelei ela; Lembra do quanto conversamos, e o quanto seu sôrriso foi a razão do meu? Lembra do tempo bôm, tempo ruim? Você lembra de tudo aquilo ainda?
Hoje resta apenas o segmento da fatídica estrada, e além disso, restam os olhos que não mais procuram, que não olham pras nuvens no Céu, que tampouco fitam o Martinelli, que se tangem num horizonte de cima do viaduto, e que maneia a cabeça com o sôm da marcação, resta apenas o primeiro desejo desde o começo. Resta tudo aquilo que ficou suspenso no ar, que ficou pra depois, ficam as mazelas de um muito que não compete mais a mim, e cuja porta, tôda vez que encosto na mão para fechar, mais quero deixar intacta, pra ver se você volta, se você ainda sente minha presença.
Encosto a cabeça acachaçada no travesseiro, a radiola produz a trilha sonora de fim-de-feira. A música mais aleatória me lembra você, e a frase mais desconexa é a que tem mais sentido pra mim, e no sonho imagino seu sorriso, seu cabelo, seu corpo pesando contra o meu, e tantas cousas que apenas em sonho, se concretizaram.
Em algum lugar do tempo, e espaço, nós estamos unidos, e essa tem sido minha única consolação, saber que em algum lugar do tempo, em algum recanto do espaço, numa linha de tempo, aquela menina tão linda e viva, é a menina daquele menino de íris-esmeraldina.
Aqui cai o último véu, a punch-line, e o sorriso fica terno. Aqui eu vou, mas ainda pensando em você. Me encontro agora entre os muros de pó-de-ostra, e aqui pretendo ficar. Ser um alguém, talvez - ou talvez não ser mais um alguém, quem sabe? Aqui me cabe entre os outros, e aonde as imagens parecem nos perseguir com os olhos, aonde os afrescos nos tetos conhecem os pecados de cada um, e aonde meu coração será só da Concórdia.
Aqui eu estou, aqui eu sou, aqui eu vou.

A água parada é turva.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Hear Me Lord.

Ouve-me, Senhor. Ouve a mim e a tôdos do degredo, ouve cada alma que se eia e sobrepuja para novamente cair, e quando se bate sobre essa terra cã e bruta, se mescla a lama, e nela somos, e ficamos. Estamos. Senhor, todos nós do degredo nos reconhecemos e nos sabemos de nós mesmos e dos nossos; Não nos faz necessário tantas chagas, e tanta dôr, mas assim seguimos de forma mística e perseverante pela Sua Graça, pelo Seu mistério velado.
Ouve-me Senhor, e perdoa tantas vezes que duvidei, briguei, insisti, reneguei, me dei o benefício da dúvida e chorei, pois muitas vezes - como agora - sei que aqui neste espaço físico estou só, mas, mais adiante estaremos mais próximos, e talvez, chegando lá Você possa me perdoar da minha juvenília, e eu consiga entender mais sobre Você.
Perdoe-me Senhor, por todas as vezes que achei que a estrada tinha algum rumo ou motivo, e que mesmo sabendo do erro, insisti. E errei. E paguei o preço. A água do lado direito me levou e a do lado esquerdo me afoga; E o cheiro de jasmin diminui em meu senso, a turvação começa - não há mais dôr alguma, cordeiro não é santo, Cordeiro é. Estou me tornando o que não quero, mas o que eu preciso, e estou (ainda) sentindo em mim tôdos os sentidos de tôdos os caminhos, deixando para mim apenas o mesmo velho plano de sempre, mas, agora ao menos me sinto pronto: A última já se foi, a porta se fecha, o trem passa, e novamente sou réu, juiz, magistro e bedéu. Eu sou meu, mas adiante não me pertencerei, e aquilo que chamo meu deixo repartido aos meus - e quem me teve pode me ter, mas não me terá por completo.
Muros brancos seculares de pó de ostra: Estou pronto. Vou até vocês com a plena certeza que não é o que eu quero, mas o que eu preciso. E com isso fecho a porta de minha estrada, e ponho pedras nela, e sepulto e arremeto o sepulcro ao chão, pois a cada segundo que eu me lembrar, eu não esqueço. E quanto mais eu esquecer das nuvens do Céu, melhor estará. Mas não se esquece o inevitável.
Ouve-me Senhor, não tirando minha cruz de minhas costas, mas apenas me mostrando aonde está minha Gólgota, e aonde fô-la, irei. Não tenho mais medo, arrependimento, tristeza, nada. Não tenho nada além de minha alma, e além dela, a vontade de deixar ela descansar num bôm lugar de gente viva, bona e sincera - quero estar aonde o Senhor possa estar, aonde não possa haver dôr ou maledicência, tampouco ruindade ou miséria, quero apenas estar aonde eu realmente precise e mereça estar; Já me cansei de ser desnecessário e ser totalmente ignóbil para quem me rodeia. Eu não acrescento, nem somo. Apenas subtraio.
Ouve-me Senhor, e guarda nos teus rebentos os meus, e os põe num lugar bom, assim como pôs os jazidos, que amo e devoto; Os guarde bem, e em paz. Nina o sôno de quem eu amei primeiro, e guarda meu coração num pote de maionese dijunto daquele baú que está há muito afundado naquele velho mar férreo, e não deixem que vejam ou me sintam, deixe que tudo passe como deve ser, pôe Sua tutela sobre tudo isso, sobre tôdos nós; E que quando o sorriso bater no vestido dela, reflita a clareana da alma dela, e sorrindo ela corte os Céus com sua intensidade.
Ouve-me, Senhor.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Behind That Locked Door.

Não se renda.
Não caia com medo, caia pela glória - mas se lembre que em tudo há uma glória incutida, até nas cousas pequenas e nas cousas ruins, tudo tem seu motivo, mesmo que nem todas as cervejas e licores possam nos dizer o motivo ou ativar o raciocínio.
Não se entregue.
Não deixe que te tomem, e não faça mais a velha alegria como meta afã de realidade, família de comercial de manteiga não compete aqui. Quero o que me cabe, o que preciso, e há muito expectei. Quero aquilo que não me cabe, que não tenho, que foge de minha vida, habilidade, hábito, e vida. Quero ser outra pessôa para pôder ter o que quero. Eu quero o que eu não sei mais. Eu quero saber. Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Quero ir, quero um pouco, espera.
Não se permita.
Quando a alma é livre, cada vez mais a liberdade tem garras que lhe arranham, porque a liberdade também é uma prisão e também tem um fim. A liberdade também morre, e uma hora tudo morre, e enquanto essa morte minha não vem, vou seguindo com o velho pendão e esses ideais Quixotescos, e essa dor que não ameniza, não passa, mas no contraponto me faz tão vivo, tão jovem, tão excluso, tão meu. Eu preciso urgentemente encontrar um amigo.
Não se demore.
Perca tudo ao seu redor, e reconstrua. Tenha uma vida cigana, tenha um sentimento nômade, mas não se demore, porque se não te cabe, e tudo foi em vão, quão d'acabar o enlutamento por aquilo que morre nos pés da Concórdia mais bela, apeia e segue. Até mesmo a maior de tôdas tem seu fim. A alegria de hoje é saber que há um fim, aonde ninguém está certo, nem errado, nem nada. Apenas se está preparado para o fim, e quando se chega, a gente olha ao redor, e segue pro desconhecido, e a porta que se fecha não se abre mais, assim como tudo aquilo que se escreveu na areia e as ondas da reia apagaram. As ondas vão apagar tudo. As ondas vão nos levar embora.
Não se desespere.
Eu não tenho tempo para acusações, meu tempo decai entre essas palavras que ninguém lê, por isso, digo e rogo para a Divindade que tôdo amôr se'a eterno: Que as cartas cheguem, que o sorriso desabroche quando ouvir a voz, que os "télegramas de vem-me-ver" sejam entregues, que os beijos sejam fulgurosos, que se baste, e exceda, transborde de um no, para, e com o outro. Que exista um motivo para que você creia que ainda exista tudo isso, andar na chuva abraçado com a mulher mais linda do mundo, que a vida prossiga como prossigo com meus passos rumo ao segredo escondido nas palavras. Você não lê, mas entende e acha lindo. Toque ao contrário.
Não se intimide.
Deita teu corpo, e sinta cada pedaço de suas carnes vibrar. Eu não estou mais aqui. Quando você me quiser numa conversa, toma meu nome e decalque, eu não estou - saí pra almoçar. Quando teu corpo precisar de um abraço, toma dos teus, eu estou numa viajem de negócios. Quando te precisar da música, indica-te pelo dial do rádio, eu fui comprar um maço de cigarros. Quando te precisar de quem te faça bem, olha tantas estrêlas que tua vida tem, eu peguei um aeroplano para Cnitos. Não me chore, nem me sinta. Segue.
Não se surpreenda.
Quando tôdas as bandeiras tremularem, vai ser tarde, e quando o sorriso desembocar numa risada, serei lembrança e recordado. Põe teu copo, bate e toma num último folguedo em minha honra, só para dizer que lembra de um hábito meu, e quando riscar o Céu com seus dedos, a essência do ar nos fará juntos, depois de um tempo. E quando aquêle sôm rolar, bata com a mão na coxa, maneie a cabeça, feche os olhos e sorria, porque eu estarei ali. Serei a extensão de tudo aquilo que você nunca quis e nem pediu - resto de feira que apodrece em tua feira.
Não se esquece.
Há de tudo um proveito, cabe a você entender tudo, ou apenas esquecer, ou criar um caso por coisa que não tem motivo.

terça-feira, 7 de março de 2017

Learning How To Love You.

Todos os dias, há de se ver o Sol tanger o horizonte sobre as brumas, formando o cinzado trastejado com tons laranjas, desmitificando o uso de côres distintas, ministrando que até a altura do firmamento nada é impossível.
Mas, nada é realmente impossível?
Faltam 20 dias pra um dos dias mais significantes do ano pra mim, e atualmente perdeu sua importância, sua veemência, porque não me sinto hábil, sequer preparado para fazer coisa alguma, nem preparar a semana de folguedos que há tanto havia pensado. Sinto que no panorama geral da minha vida, não há motivo, vontade ou necessidade de algum festejo para marcar esse um quarto de século sobre a terra, pois são vinte e cinco anos batendo o queixo contra esse asfalto quente e levando nas costas cousas geraes, que não cabem dizer.
Sinto, que talvez tôdos nós que chegamos até essa fase da vida, tenha essa forma de pensar, ou de agir, mas eu só posso falar por mim, e não pelos outros, e menos ainda pelos meus. E nisso me cabe.
As pessôas místicas, de alguma horda, dizem que é preciso se amar, se conhecer, ter prazer em sua própria companhia; Mas como se tem a ousadia de dizer isso a quem viveu a vida inteira sozinho? O degredo é lugar santo, mas também cria ovelhas ruins, e se você eiar a candeia mais alto ainda, verá que além da linguagem pobre, nada resta, além das pessôas que estão a sós aprendendo a se amar, mas esquecem de amar quem as amam, e de amar o próximo a ti mesmo - quando se ama a vera quem se quer bem, reflexa em você. É tudo Luz, é tudo água cristalina que jorra da mina, você pode não entender esse escrito, mas sabe do que eu estou falando.
Deitado, sozinho, com a cara no chão, percebo que a vida é isso, e entendo cada segundo daquilo, e percebo cada vez mais das coisas que sinto (e não gostaria de ter sentido, provas de amar e gostar que deixei dispersas no ar e não valeram nada, a domação de mêdo e de ego, humildade, coragem e fôrça, para abrir e deixar desaguar tudo aquilo que estava guardado pra mais tarde. Mais tarde não, eu posso morrer...
Meus olhos cingiram pela última vez, assim como minha vida tangeu a última linha, como meu peito remoçou a última palavra dita pela última vez balbuciada. O primeiro amôr é o último, disseram; Será?
O cão deitou na capa do disco, e tampou a cara do favorito, e talvez seja isso o que eu queira dizer: Não tem nada não, nunca teve nem vai ter, porque se ninguém se importa com o alheio, só com o dito "auto-amôr, auto-conhecimento", então não existe jornada através do amôr, e sim apenas incógnitas.

Fôrça, até de onde não se têm.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Echoes.

Pai, ouve seu filho aqui no degredo. Ouve e dá um sinal. Busca, manda buscar, chama, dá um grito. Me leva dessa lama, meu velho, me ponha nos seus braços e me faça criança de novo, com o Quasar exalando, com sua corrente dourada, e com sua camisa toda estampada.
Pai, viver é difícil e cada dia parece mais difícil, e a porta estreita cada vez me sujeita a curvar o tronco. Como é difícil ser eu mesmo ante ao mundo como está hoje, e mais ainda, como é difícil perder o que nunca se teve, como é doloroso ver ir embora quem nunca chegou. Pai, eu quero ir embora, eu não sou daqui, definitivamente nunca serei.
Encontro-me com lágrimas, e a garrafa vazia, aquele disco está a rodar, idem ao meu pensamento. Meu velho, como é torturante ser você mesmo e vencer cada dia com o dobro do peso nas costas, com o resto do mundo exigindo mais do que possa ser dado; Continuo seguindo, sem motivação, e cada vez me sentindo pequeno e vazio nesse mundo tão cheio de gentes, tão vivas, bronzeadas, atléticas, e eu tão magro, tão esguio, cinzado, e feo. O que nos difere, o que me fere, o que se segue, prossegue de jeito que me entristece, porém o jogo segue, e o floreio não floresce.
E nem há.
Cada vez que vejo o Céu, nuvens me lembram o que quero esquecer, e quanto mais me deixo esquecer, mais recordo. Pai, quanto de vida se precisa ter para não viver, e sim ter vivido e ser vívido? Como se deita a medíocridade, e como pode se sentir coisas que nem se cabe na mão, mas a alma abordoa?