segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Talismã.

Escrever não é dom, é um ofício de quem pena, e entende das coisas que lhe cercam, escrever - nada mais é - do que desabafo e forma abstrata de transformar o jugo em leveza, virar da dor alegria para as massas, tal qual o Pierrot que perde sua Colombina para quem nunca lhe amou. Oremos.
...Então, por quê escrevo?
Escrevo para tirar de mim a lama - proposital e incidental, que por muitas vezes custou a sair, e pela alegria de (re)ler e saber que tudo acabou bem, e que sempre houveram dias piores, mas que dentro da tormenta não conseguíamos ver. Na vera, escrevo por mim, para o bem de minha sanidade, o fato de agradar as pessoas me assusta, pois apenas é de tristeza o que me escrevo (Saravá, São Baden Powell); A tristeza de perder a flôr mais linda do jardim, se sentir um nada, e se pilhar todo segundo com as tretas que lhe impõem, magoam. E a linda velha fuligem da carne vai se corrompendo e desmistificando ao passar dias: Sangue não. Água e vinho (Mad John, mark these words).
Deus vos Salve, dom débil que exime de mim toda a tristeza, e me deixa gélido como a geada; Mais ainda, subjugo o inédito: Deus vos Salve, tristeza, que se maquina em meu peito, e me dá o segredo embutido nas pessoas que trafegam automaticamente no universo que criam: Solidão antecipada, férias vencidas, vontade de cair na estrada e beber aquela cerveja.
Deus vos Salve Concórdia, casa santa de coluna voluntariada de certeza e amor sem fim, carne com gosto de mel e corpo ingreme que pena, pesa e geme contra o meu; Deus vos Salve, Sečanja eterna de um dia não ser mais lembrada. Deus vos Salve flôr-de-Lotus, a quem eu tentei fazer florescer. Deus vos Salve Dona Antônia, Rainha Suprema Assunta ao Céu, mãe do chão duro e ventre seco (ventre seco, secou), és o meu penhor de graça e pendão de glória, pois desde teu ventre seco me fui confiado a Maria, e de Antônia veio Márcia, e de leite de Leoa eu me cresci, e no ventre da Mater me fiz carne, e hoje estou aqui pela permissão da Mater Majora. Deus vos Salve, inquietação, cala tua batida como me calou de ser ninguém - Sjaj Ü Oćima.
Quando eu escrever, sinta cada peso das minhas palavras, e ouça minha alma, pois as mãos se definham em sim e em nãos, e a voz não diz nada, a voz é mineira igual a vós: Dá-se o boi pra não brigar, e dois para não sair do enredo. Quando eu escrever, entenda cada palavra com discernimento, assim como tento entender cada pessoa, seus motivos e razões, assim como o Céu que de cinza se fez azul pra abençoar os cabelos negros da Morena de lobo no braço. Quando eu escrever, leia as sublinhas com a confidencialidade de quem te conta um segredo, pois um texto tem mil significados, e o que eu digo em encripto, te cabe só a vós.
E tudo que você quiser, e tudo que você pensar, será.

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