sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Ilha Deserta.

Esquece, descansa a cabeça e deixa isso tudo pra depois, pra outro dia, pra outra hora, ou até mesmo outro plano. Descansa, cara. Por mais que doa, tem coisas que nem vale a pena dizer, nem serem ouvidas, nem nada. Deita a cabeça e não pense, não fale, não nada; Deixa ao menos uma vez as coisas tomarem conta naturalmente do seu próprio rumo, e se contente com tudo: Ao menos você está vivo, e tudo vai bem, tudo tão legal, o sôm ainda é intenso e o cheiro de Jasmin vez ou outra aparece. Não renegue mais a casa, pois é onde te cabe, e não te deixa morrer tua parte boa, pois você não é culpado. Deita a cabeça e acalma a torrente.
Abre a janela de casa, com a caneca quente, e olha o dia lindo: Um painel panorâmico que Deus te deu, com as cores que te gosta, o vento que bagunça seu cabelo, a bruma tão expessa e macia, e uma mística premissa de que ali há aquela pessoa lhe esperando para ganhar um abraço. Olha da janela, a serração, os trabalhadores, os caminhões, cães viralatas e tantos outros universos dentro do teu, da tua janela, do teu café. Tua cara sem barba, seu coração vazado, seu algodão já amarrotado, quem não te deixa ver o mar?
Foge, irmão. Pega teus livros, discos, segredos e alegrias e co'e. Vai pra velha Ilha Deserta, onde ninguém no mundo te sabe, te tira, ou te invade. Co'e, irmão, rema o mais forte que der, e se precisar elimine a bagagem ao longo do caminho, só não se perca, nem se venda, nem sangre, e isso vale pra ti, e pro que fizer pros teus. (Não) tenha medo - Lembra-te daquela noite, do sorriso, a mão que tocou a reia e fez suas costas travarem, da música, a água que brincava molhando os pés, da tristeza que foi embora, do que se consumiu sozinho, o mal já foi, já passou.
Ilha, cá te vai. Aqui te reina, aqui te cabe. Nada além. Toma do teu violão, e canta o que te cabe, o que te convém; Come do teu, e ouve a tua própria eternidade, seja infinitamente oceânico, seja descabidamente heróico na arte de ser resistente ante as ondas de quebra-coral, e não se intimide co'a a solidão, mãe, amiga, e agora filha. Medo não, você não precisa. Depois de tanto tempo se censurando, medo de quê, pra quê? Sangra, deixa cair, levanta e segue. E amén.
Lembra dos conselhos, do que já se foi, e do que poderia vir, e nunca mais veio, nunca mais ficou, nunca mais esteve. Lembra com saudade dos amigos, dos heróis, e chora. Desagua nesse teu caingá dos olhos toda a força que teve para se segurar e se manter firme como sempre, como a vida toda. Dê a si mesmo nessa Ilha Deserta a chance de estar em paz com seus demônios, com você mesmo, meu velho, foram quantas por quantas vezes a luta contra o mar revoltoso, e o mar vira, viração, e o saveiro se canteia, e vence as ondas em prumo. Você lembra?
Volte pra Ilha, meu bom amigo. Esquece.

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