sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Escritos e Quaresma.

 Neste têmpo quaresmal, têm-se por costume (a quem pratica algum exercício quaresmal ou professa a fé cristã), de retrair-se e tornar-se mais alheio as situações, mas não a si. Período este em que a fé orbita não no dito sadismo católico em venerar a bárbarie fêita contra um Deus-Homem (Filho). De fato, não cabe aqui esta apologética, não por enquanto. Cabe sim, em tom de resumo, lembrar que tôda aquela dôr que por vêzes tentou-se mensurar em pinturas, esculturas, e afrescos fôi por uma questão de amôr, cariño, entrega, sacrifício. Um Deus que de tanto amôr pula na frênte da bala para nos salvar do tiro - this is an analogy, btw.

MAS, se para você isso ‘inda não faz sentido, outrora lhe explico. Este não é o intuito do escrevinhamento de hôje. O que quero lhe perguntar é: você já pensou na morte?

E quando eu lhe pergunto isso, quero lhe provocar em maneira espiritual, deixando a partir de agora até sempre que nunca há de ser meu intuito evangelizar, ou lhe trazer para o meu lado. Apenas quero lhe fazer exercitar a mente - eu prometo.

Ter a noção de finitude de uma vida, e ainda sim contando com o fator de incerteza do fim, nos causa um frio na barriga, ou até mesmo desperta um mecanismo mental de defêsa que beira a loucura que nos pede e demanda que vivamos de excesso em excesso, ‘té que não se haja mais o excessivo e excedente - cousa que por si só já adianta o processo de finitude. Mas, ao invés disso, por qual motivo não se apegar em uma religião, ou até mesmo estudar veramente uma filosofia de vida para que lhe seja leve? O peso não deve esmagar, mas sim tornar-se costume, pois se acostumando com o fim, não se é pego de surprêsa, tampouco sente-se que nada fez de útil durante a caminhada terrestre - os traços úteis, tornar-se-ão esquadros para as pessôas ao redor, ou aquelas que nem saberemos um dia que se inspiraram em nós; parece mentira, mas acontece e com mais frequência do que imaginamos.

Nos dias de solidão, meditar. Nos dias com companhia, conversar. Nas noites de insônia, relembrar, e na pressa do dia, esquecer - há quanto têmpo temos devotado em nossa vida cousa tão certeira e importante que é lembrar nosso fim, e nossas percepções sobre isso? Meditar sobre a morte, é aprender que a parte fundamental e intransferível, que não há de ser burlada, acontecerá; e ao suceder, devemos estar prontos: ou de consciência tranquila sabendo que nunca se foi um cuzão, ou que estamos em paz e ainda em paz iremos até o Criador.

Num acidente de carro, engasgado com o rango, reagindo a um assalto, sendo empurrado pela massa até a linha do trem… de alguma forma, sendo ela bôa ou má, heróica ou trágica, certa ou errônea, acontecerá. Deve-se então, que nossas atitudes perdurem após nossa ida; preferencialmente as bôas ou (re)conciliatórias - preferível aquele que pede por paz e misericórdia, do que aquele que se esvai em desavença com os outros e com si mesmo.

Eu, tento achar a minh’alegria pessoal diariamente, para assim poder fazer parte de uma alegria coletiva e abrangente no futuro. Seria mentiroso se lhe dissesse que consigo isso - até vos assumo até que fracasso muitas vezes, mais do que gostaria - mas ao aproveitar cada oportunidade do dia (com prudência) para ter uma bôa vida, e com o máximo de coisas em ordem. Colocar a cabeça no travesseiro e dormir de acordo com nossas atitudes, também é uma forma de zelar pela vida - a daqui e da futura. Ao menos assim, de alguma forma consigo me preparar para o fim, e sabendo que os traços que deixei para trás foram poucos, mas com esfôrço de que seriam sinceros e humanos - ajudar os que se podem, amar os que carecem, volver aos que perecem, ir contra o que oprime, e nunca por mim. O Amôr que conheci, é um amor que me leva as lágrimas - um Amôr que se consome e esgota, de copo, cruz e pedra fria - e se ele, como eterna Fênix de meus dias, nasce e morre tôdo dia em meu pêito, ele pede que eu O siga da maneira que der (mas com esmero), para que um dia, na festa do lugar, reveja eu os amigos idos, a Véa, Tio Fungo, Toninho da Rampa, Fabião, e tantos outros que hoje, com Êle sejam um. Espero que eu tenha provocado qualquer coisa em você, se sim, êste têxto cumpriu sua função.

Pois para mim (e espero que para você também), a Êle precede, permanece e excede tôda a Glória do sêm-fim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A Vida Me Assusta(?)

 Após lêr o têxto da Poesia Viva e Morta, a sua pergunta me fez meditar muito; e ao conseguir por as partes nos pontos e depois por completo, me lembrei porque fiz de minha casa um eremitério, e minha jaqueta a minha concha: o mêdo.

Assim como na música do Sá & Guarabyra (Por que que eu me guardo do mundo assim escondido? É coisa que só pode explicar quem vive o que eu vivo), o texto de Doña Jordana me tangeu num nível preocupante: Me alembrou de que eu ainda estou vivo, e afora as preocupações quotidianas eu ainda hesito, e ao olhar o estreito vão que separa a causa do efeito, lembrei dos mêdos desde quando era garôto e o porque da vida me assustar.

A vida me assusta quando olho para os lados e percebo que tenho poucos amigos, e desses poucos são raros os quais compartilhos os mesmos gostos e mesmas sentenças - motivo que até expliquei n’outro texto ido. O futuro me assusta não envelhecer ou pôr mêdo da morte, mas por anseio em perceber que me encontro em estreito caminho da solidão, pois daquilo aonde os caminhos não se cruzam e bôcas não conversam; a escrita posta em letra alivia - momentaneamente.

Ademais, o Sol tão quente que cozinha os miolos; cerveja choca; gente que não sabe ser educada; domingo as nove da noite; fumaça de pastel recém-frito; churrasco bem passado; meu time quando perde; e emprestar um livro e não devolver - tudo, tudo, tudo isso, invariavelmente me causa um medo não por estar envelhecendo ou ser (mais) introvertido (que já sou), apenas por sentir o rumo das situações, e ver a vida como se desdobra e não pôder mudar as atitudes, têmpos, e questões que nos tangem enquanto pessoas. A incapacidade de mudar diante do que acontece ao meu ecossistema.

Se por alguma vez me tendro a não dizer nada, peço perdão - talvez eu não me sinta afã para falar alguma pois meu cérebro fervilha. E se ele trabalha, a bôca se cala e o peito gême de forma inexorável; abrindo-se no vão da alma um corte que tange e não sangra, fere mas não mata. Agoniza. Quando escrevo por maneiras e metodologias, discorro de mim em letras cursivas e retilíneas, e lembro muitas coisas - principalmente das quais gostaria de esconder no recôncavo mais denso de minh'alma. Escrevo mais um tanto, e lembro de um passado da vida, as questões que esbarram no presente, e o anseio do futuro. Eu estou apenas processando fatos, como um microcomputador; e por isso, me pego a transpor para o papel o que minha bôca nunca diria, talvez apenas para os amigos mais amigos de tôdos os amigos, mas não cousa alguma que se diz a Pai e Mãe - cousa que até esses dias até pensei em dizer para minha mãe: não critique a distância que você causou; mas me lembrei que quase nunca ela me ouve, e tampouco entende o que eu gostaria de dizer com isso - passaria eu apenas a dizer tudo do peito, e ela arguiria com um vazio que lhe é tradicional. E por isso, a isolação se fêz presente e danosa. E com isso, entendo mais de mim.

Percebo então, que quando escrevo, tenho tôda a coragem que a vida tentou me roubar em suas atitudes. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Lontra Franciscana Introvertida.

 Nos diz o Apóstolo São Paulo na parte que ninguém lembra da Primeira Carta aos Coríntios, Capítulo XIII: Quando era menino, falava como menino, pensava como menino, e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei as cousas de menino para trás. Amadurecer, no ponto em que proponho, é saber perder, e saber ganhar. Olhar para trás, e saber que acabou e tudo é uma memória a ser tratada como lhe aprovém.

Nêste ano, eu me prometi aumentar as amizades, e reforçar alguns laços que se tangiam em pouco ou nada. No último ano, senti-me imensamente vazio e sozinho, d'onde muitas vezes corri os dedos entre fôlhas de livros, ou solfejando qualquer acorde aberto no bandolim. Quando eu, introspectivo por natureza, percebo que me restam poucos amigos - e posso sobrecarregá-los com meus devaneios e imensa lista de derrotas - e que as memórias não tratadas se tornam meus demônios noturnos, me apercebo que a meta da qual me prometi faz bastante justiça e me trata com afã, pois assim, posso enfim sair da concha pra ver a vida.
Mas a nível de justiça: apenas quero as amizades que agregam e fazem-nos sentir importantes, pessoas úteis ou necessárias - das que nos ensinam e deixam-nos ensinar um pouco do que há em nossa babagem. Nada daquele papo loucura, chiclete e sôm do Roberto Carlos de um milhão de amigos. Deus me defenda.
Sou, por natureza, tímido, acanhado, restrito, débil, e pensante; digo-lhe pois: tudo o que fiz por mim, foi totalmente só, sem mãe ou pai que apoiasse, mulher que torcesse e abracasse, amigos que festejassem, ou reconhecimento - e não digo isso para que soe como quem necessitasse de algo assim, mas quando olho para esses mesmos demônios noturnos e vejo o quanto me doei e estive lá pelos outros, não deixo de refletir. Certa feita, quando comecei a aprender outros idiomas, uma dama me perguntou qual seria o motivo. Apenas para aprender, eu disse. Dias depois terminamos pois ela achava que eu queria rodar o mundo num mochilão, mesmo sabendo que tenho medo de altura e sempre desmaio quando ando de avião.
Talvez, sair da concha, bater o pé e fazer um pouco dos meus gostos não seja de todo ruim. Talvez seja uma remissão de tanto tempo a fazer pelos outros, ou a crise da meia idade, ou até mesmo mêdo da morte, sei lá... apenas sinto que não tenho mais tanto tempo para tudo que quero, então desejo o mínimo que ainda cabe e resta.
Ah! E se você que me leu até aqui essa pequena garrafa boiante no oceano do subistéqui, entende, pensa ou acha prudente; me mande uma mensagem - sair da concha é fácil, mas ajuda com incentivos.