quarta-feira, 18 de maio de 2016

Outubro.

Eu me lembro que antes de mim, não havia nada neste lugar. Eu me lembro que antes da tristeza havia a alegria, havia os sonhos, havia tudo aquilo que não havia percebido de imediato. Eu existia, antigamente. Eu era real, e tudo ao meu redor que bem antes de mim já estava, só ambientava mais a surrealidade de ser real.
Quando trafego na rua, e ando, quem esbarra em mim me leva, me carrega, e quem me pede informação, formalmente me conduz a palavra me dando um ar de vida que por segundos, revela meu rosto ante a multidão tão cinza, tão pálida, tão comum. Tão minha.
Eu perdi o sorriso que nunca tive porque não me considerava justo de sorrir displicentemente para toda e qualquer coisa - e até hoje acho isso. Mesmo que eu me apaixone pelo mundo, ou pelas pessoas que nele o habitam, e mesmo que eu tenha em mim o segredo da paz, não vou sorrir. A minha felicidade cabe apenas a mim, a quem eu amo e a quem eu estimo, aos meus amigos e a felicidade de uma eternidade. Eu espero encontrar minha felicidade, me encontrar, encontrar as pessoas que tanto marcam pra sair e nunca saem, os amigos que não se conversam, a certeza indubitável da única coisa que a vida pode nos dar: O descanso. Até lá quero ser feliz. Eu tenho esse direito.
Quando a dor passar e as lágrimas secarem, eu estarei lá, sorrindo para mim, dentro de mim; E quando esta felicidade reinar em mim, eu estarei guardado (mais ainda) na paz de Deus. E esta sociedade toda que procura o mesmo que eu, espero que uma hora tenha tudo o que se procura, porque do balcão do bar que estiver, eu estarei ali (in)visívelmente torcendo por cada um de nós - filhos do degredo, para sermos alguém.
Para nós mesmos, e para alguém de fora, porque a felicidade minha além de se basear em ver o outro bem, e ser alguém na vida/sociedade/mundo por mérito próprio, se baseia em cuidar do outro além de mim, o que algumas vezes faço com maestria, outrasvezes com um completo desastre, e me faz cada vez cinza. Tento, com o que está ao meu alcance, fazer um mundo melhor, mas, quando não consigo, tento novamente, e almejo mais uma vez no dia seguinte fazer parte do Clube dos Salvadores do Dia Anônimos. Lugar aonde gente que não tem nada, nem quer nada recebe sua felicidade vinda diretamente de Deus, das forças da natureza, das pessoas de bem que lhe ajudam, e pelo sorriso da criança (Cecília) a mais bonita, inspiração dos sonhos e literaturas mais que maravilhosas. Eu creio na alegria sem maldade, sem vilência. E é por ela que eu luto, e é por ela que eu brigo, pelo legado que um dia eu posso deixar para minha semente, pelo exemplo e pelo potencial do ser que irei orientar. Por Outubro.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Bodas.

Eu sou o Capitão de minha alma, e acima de mim está apenas o Rei das Águas Fundas, e Ele me dirá se minha nau cai, vira, se rompe ou supera a ida em terras distantes. Não importa o que te digas, eu ainda serei o Capitão, e isso me basta na leiga ignorância da vida, para esta sociedade, para estas pessoas, para todo o resto do mundo, me basta esta patente.
Filho meu, Hoje é Dia de El Rey, e em algum lugar do mundo, alguém não irá se importar com isso, e em algum lugar do mundo, alguém continuará pescando seus peixes na velha tarrafa esverdeada, para sustento de sua família e livramento da fome - Milagre Contemporâneo dos Peixes; Filho meu, Hoje é Dia de El Rey, e ao menos pra alta sociedade que interpele e convive diariamente co'o ele, isto não nos significa nada. É só mais uma patente.
Minhas fardas, pensamentos, bordões, japona, anéis, corrente e vestes - tudo isso se mistifica e me diferencia ao andar ante a multidão ávida por nada, entre cada encosta, atracação e partida, a cada estivador que carrega e retira o que trago e levo, e a cada imediato e marinheiro que um dia ousou estar comigo. Chá Mate. A Matança do Porco, assado e deglutido por pessoas que sorvem da carne, vinho como se fosse a última coisa de suas vidas, eles não tem se queixado nem se cabido em nãoz e vivem uma espiral ilusória, e meu coração - chora.
Aqueles olhos negros eu nunca esqueci, enquanto minha viola morde o teu retrato, assim como nunca esqueci a dor que me causaram, minhas chagas e perder de vista quem um dia me mostrou suas riquezas naturais em troco de nada, apenas pelo bel prazer de ser feliz. Hoje eu carrego trinta quilos a mais de tristeza, Deus Vos Salve, Rainha. Obrigado por tudo, e pela vida cheia de aventuras. O mar atrai mas é denso, fundo, gélido e trás em si um mistério de uma vida toda, de uma eternidade que não cabe a mim questionar, mas me permite desmistificar a cada nó que deslizo sobre sua turva água. Coração americano, acordei de um sonho estranho...
Em cada passo que dei pelas ruas do porto, muito do que vi, nada me interessou, nem tal a verdade absoluta, que hibridamente se encontra na terra desconhecida que eu encontrei ou nas jóias dos reis de terras vizinhas. A relatividade do meu panorama geral apenas mostra mais ainda meu descontentamento; Não por adquirir bens, ou extrair recursos, ou navegar sem rumo e perdão, mas pelo simples fato de ter tomado tanto rumo, e hoje estar em plena deriva, esperando algo que nem sei o quê, alvoroço em meu coração.