Sinceramente, ao ver seu corpo lânguido e frio, quando deitado, tentei de alguma forma aquecê-lo, mas suas mãos estavam ocupadas em pegar o último cigarro para fazê-lo virar fumaça... Haviam umas garrafas na pia, outras no quarto, e roupas espalhadas pelo chão.
Os olhos se desencontraram, dando-se um desarranjo, como se algo fosse prenunciado. Uma voz rompia a noite com gritos trovejosos, como se não se importassem com a noite que fazia ou de lá, quem a perto se dormia. Houve dedos, houve lágrimas, e palavras que quero acreditar que foram ditas por conta de um torpor de álcool, e por motivos que não fazem sentido algum. E no calor do palavrão, mandou embora; e foi. Na corrida pra casa, viu o Sol nascer, e no trajeto, olhou para o azul que corria o Céu moldurado pelos prédios acinzentados, e tão triste, deixou uma lágrima teimosa cair.
Ainda sem reconhecer a casa, deitou-se e deixou o corpo apenas fazer todos os processos de descanso, fermentação, relaxamento e preparou-se para o dia seguinte. Deitou uma água no filtro, organizou os livros e olhou o Céu.
Estranhamente, o Céu estava ensolarado, como se fôsse lá um domingo para tomar sorvete, ou estender as roupas que se acaminham da máquina de lavar; e riscando o Céu com os olhos, riu. Sabe se lá de um amanhã maior e melhor, mas ainda com tanta dôr no canto do peito, jorrou lá um riso, como se fôsse o único a dar de ofertório para agradecer a vida, a casa, os amigos, as coisas, as casas, as ladeiras, as memórias, e ela.
Se arrumou e saiu, não porque queria algo, mas para lavar a alma - a velha missa, os amigos do claustro, as cervejas baratas nos botecos, e a música que ainda impera nos ouvidos... e ai de mim por pensar nisso mais que uma vez. Parou, olhou para seu reflexo no espelho e viu um homem que rudemente conhece e ama, mas que ainda admira por ser quem é, e como se pudesse, na ausência de quem o acolhesse, tomou a si nos braços e o fez descansar.
E deixou guardado as palavras, não por nada, mas por saber que o alcool quando faz a bôca abrir, faz também um coração sangrar.
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domingo, 10 de novembro de 2024
I Don't Owe You Anything.
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