segunda-feira, 6 de março de 2017

Echoes.

Pai, ouve seu filho aqui no degredo. Ouve e dá um sinal. Busca, manda buscar, chama, dá um grito. Me leva dessa lama, meu velho, me ponha nos seus braços e me faça criança de novo, com o Quasar exalando, com sua corrente dourada, e com sua camisa toda estampada.
Pai, viver é difícil e cada dia parece mais difícil, e a porta estreita cada vez me sujeita a curvar o tronco. Como é difícil ser eu mesmo ante ao mundo como está hoje, e mais ainda, como é difícil perder o que nunca se teve, como é doloroso ver ir embora quem nunca chegou. Pai, eu quero ir embora, eu não sou daqui, definitivamente nunca serei.
Encontro-me com lágrimas, e a garrafa vazia, aquele disco está a rodar, idem ao meu pensamento. Meu velho, como é torturante ser você mesmo e vencer cada dia com o dobro do peso nas costas, com o resto do mundo exigindo mais do que possa ser dado; Continuo seguindo, sem motivação, e cada vez me sentindo pequeno e vazio nesse mundo tão cheio de gentes, tão vivas, bronzeadas, atléticas, e eu tão magro, tão esguio, cinzado, e feo. O que nos difere, o que me fere, o que se segue, prossegue de jeito que me entristece, porém o jogo segue, e o floreio não floresce.
E nem há.
Cada vez que vejo o Céu, nuvens me lembram o que quero esquecer, e quanto mais me deixo esquecer, mais recordo. Pai, quanto de vida se precisa ter para não viver, e sim ter vivido e ser vívido? Como se deita a medíocridade, e como pode se sentir coisas que nem se cabe na mão, mas a alma abordoa?

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