sexta-feira, 4 de março de 2022

Alô, Meu Deus

 Abba;

Se possível, me guarda esta noite nos teus átrios, e silencia minha voz por um instante. Dilacera e corta meus dedos - de lepra, tato ou corte; para que a função não seja mais ofertada. E o gosto de fel que tange a boca, se possível, elimina. Silencia minha cabeça, meus pensares, e ao abrir meu punho, dá-me a mão.
Deita-me na campa, e sentindo o cheiro da chuva fresca, anima-me a me pertencer; pois eu bem sei: eu tenho, eles não. Eu luto, eles não, Eu entrego, eles guardam.
Eu sou.
Dizem, Abba, tanta coisa que magoa as vezes. Te sabes, que eu e tu, no nosso jardim secreto, que nunca quis cousa artificial, difícil, ou que custasse mais do que a vida; de vera, eu só queria a felicidade: A casa, a mulher, os filhos, o carro, árvore e churrasqueira. Queria ter casa no campo, de vera - mas me bastaria ter o que me cabe nesta proporção. Queria ver o Sol nascer mais vezes, olhar a rua e rezar para cada irmão meu que passa por mim, e principalmente não me deixar abater por cousas tão tolas, tão pequenas - mas que tem tanto significado para mim.
Abba, me sinto só.
De fato, me consisto em solidão de carne, pois sei que de alguma forma Sua presença está aqui, em mim e por mim, mas não desmerecendo Tua presença, me sinto falta de gente igual a mim. Gente que ama, aceita, e me faz sentir importante de alguma forma. Sinto falta de sentir aquele momento que alterna entre o riso e a compreensão, e de vera, Abba, por hora me sinto cada vez mais só, e parece mais uma vez com a noite da solidão; aquela mesma noite aonde sentia os taciturnos medos de criança e sentia a travessia do ido.
Eu, estando no mar de gentes, quando me refugio, me guardo em Vós, mas quando eu, estando a sentir o que bem agora sinto em meu peito, tento me refugiar em Tua alçada, porém me parece que até Vós me repeles - sei bem de meu passado, e das lutas que travei para sepultar o homem velho, e no segredo que nos cabe, no nosso jardim secreto, sabes de meu coração, e daquilo que mais me dói (a dita adaga no peito pelos santos, poetas, profetas...), por isso, peço que não Se afaste de mim, nem tão pouco esconda Tua face de mim. E me lembra sempre do que aquele passarinho, empoleirado na janela do claustro, cantou indecorosamente, raivosamente, abençoadamente, e proféticamente; deixa, que meu grito vença, pois das bandeiras que fiz, levei a honra, e da devoção que carrego, emano fé.
Pois te peço, assim como tom de deboche e desafio o endurecimento da víscera, e do riso bobo, do carinho e da tez. Peço que me perca de mim como o profeta no deserto, até que o pastor venha.
Se eles são, seremos mais. Se eles cantam, a gente arregaça. Se eles dançam, a gente bota pra ferver. Se eles são autossuficientes, somos carentes porque somos humanos. Se eles são doutos, somos burros para que eles tenham a quem ensinar. Se eles não tem tempo, somos os que criam tempo no tempo para ser servil.
Lembra, Abba, da porta estreita.
Lembra, Abba, que o deboche no fim das contas foi só uma arma pra esconder as chagas.

Um comentário:

Bárbara Rodrigues disse...

Incrível, após tantos anos visitar esse blog, e ver que a escrita ainda vive por aqui.
Um grande abraço da sua amiga Oxumzera, Barbarela;
Ou Bárbara.
Parabéns carinha, você nasceu para isso.
Nunca pare de escrever, suas mensagens são necessárias para as pessoas, ou tão somente, grandemente para sua alma, e para DEUS.