1 - Prefácio e Saudação;
Marcvs, escriba para André. Filhinho, que toda sorte recaia sobre você, e ao ler os textos de crônicas de um passado, saiba de um bom tempo que houve. Como gosto de parafrasear Tio Fungo: "Havia um tempo antes do tempo." Cabe a nós abrirmos e fecharmos a porta, o canto, a lágrima, e aceitarmos o fim iminente.
2 - Considerações gerais;
Considera a maldade. A solidão. Os corações endurecidos. O orgulho. De todos esses, moí como bagaço de cana e bebi o sumo. Fiz de dor alegria, fui príncipe, rei, amigo, irmão, consorte, pretor e altivo. Desci até uma mina d'água e lavei os pés e joguei uma concha-forma-mão de água em meu rosto, e pude seguir a estrada. Mas, trago-vos o perguntar: E a estrada? Que forma tem e aonde dá? Quando não sabemos, e não temos mais o ímpeto juvenil da coragem e da sapiência, não queremos mais aventuras, queremos apenas descanso. E isso, filho meu, é o que mais anseio. Aposento a lança e deixo-vos a pena e a lira.
3 - Preparação para a morte;
Não tenho medo. Fui desde cedo posto em pé de igualdade com a morte e coube a minha parte o entendimento, então sei de mim. Choro apenas pelas lágrimas que irão derramar por mim, por latência, de forma retardante e demorada. Vazio estando o ninho, mantenho-me de olhos fixos ao Céu, e pelo Deus que rege o firmamento, pago o preço do fim que irei acometer: O frio, o chão, a dor, a solidão, a fome, o cansaço, a claudicância e o não querer viver mais.
4 - Das crenças;
Creio em Deus, e isso me bastou em trinta anos. Deve me bastar mais uma eternidade. Deve me valer uma eternidade. De fato, o que se consiste senão ter a força de Deus para caminhar, olhar, ver, viver, ter e sentir? Deus me sustentou até aqui, e agora, no ponto mais calamitoso, me sinto só. Sei que por mais que não O veja ou O sinta, Ele ainda está, mas, atordoado em demasia com o silêncio que ricocheteia em minha mente, não consigo dizer e tampouco fazer muito. Minha crença diminui - e analogamente - aumenta em minhas veias, tal qual aquilo que mina minhas forças e esperanças. A morte pode me ter, mas, ao menos uma vez há de ser em minha maneira.
5 - Da tristeza;
Acolhe o triste, e lida com a lamúria dele com paciência e amor. Sê amigo, pois um dia hão de enxugar teu pranto, pois quem é da lira e da pena tem um coração grande, daqueles que chora, ama, vive e sente. Então, vê lá tu e segue em harmonia, pedindo sempre a Deus pelo melhor jeito de consolar o povo que sofre, perece e padece. E todo bem que fizer ao sofredor, é bem que volve a ti por mérito, ordem de Deus, ou da vida.
6 - Das tradições;
Devemos sempre manter costumes e tradições, de tal forma que quando estivermos sempre a ponto de entender, ver, viver e sentir, sintamo-nos também perto de um costume e tradição. Olhemos também para dentro de nós, e dado a alegria da vida, consigamos nos entender, se fazer entender e dar a vida aquilo que não se enumera, que não se sente, não se vê ou tampouco se tange. Que pelos costumes de uma corrente de pessoas, sejamos nós brindados pela alegria de viver, 'inda que tardia. E que pela tradição, façamos e sejamos lembrança.
7 - Do oculto;
Existem segredos, dentro de cada recôncavo e rincão de uma alma que nos tomam de forma imperfeita e imprecisa. Não temos acesso a acessa parte - aqui ficamos. Mas, quando alguém nos der por dieito um acesso ao nosso oculto, ou até mesmo ao nosso Jardim Secreto, aonde compartilhamos o nascer e gerir de nossas esperanças e fomentos, devemos sempre honrar o compromisso do oculto, respeitando-o, e dando seu tempo para que se abra: tal qual a flor, que em loucura de primavera se abre, faz-se faceira e manda a vida subir até vós.
8 - Da raiva;
E nos rincões, da raiva que nos trará, exortaremos ao Bom Deus que a elimine, pois somos de lira e pena, e só usaremos a raiva quando profanarem a nós e os nossos - na condição de pretores, seremos a guarda de quem amamos, e na condição de escribas, usaremos a raiva para exortar o que é desnivelado ante ao universo. E, dentro de nós, usaremos nossa raiva e ódio apenas contra uma pessoa: Nós mesmos. E isso nos elevará em magistério pelo desvelo da vida, cuja perdemos, e logo a Encontramos.
9 - Da morte;
E no silêncio, oculto, de fim-de-feira e fim de bandeira, aonde o frade eterno repousa, estaremos pois, nós. E na morte, após lágrima sincera, e não copiosa, entregaremo-nos, a parte certa e devida da vida que foi vivida: Bem pesado e bem medido, seremos condecorados com o que nos aprouve, e após isso, apenas Deus bastará.
10 - Benção e despedida;
Abençoo-te diante dos Santos, e peço a Padre Deus que te dê boa vida, e bons frutos. Que você seja frutífero, solícito e amigo de todos os momentos que a vida lhe ofertar. Viva, e siga sempre o Sol, pois tudo foi feito pelo Sol. E tudo que você pensar, será.
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