terça-feira, 4 de abril de 2017

Jet.

Minhas mãos, doce mãe, estão sempre aprendendo - atualmente bem mais - a se entrelaçar, a se conhecer, a se rezar e se agradecer. Principalmente, agradecer. Mãos que não procuram mais outras mãos, mãe. Mãos que se lavam, que levam, que jogam o cão pro alto, mãos que tocam deliciosamente o Baden Powell no violão, mãos que apeiam no disco, e mãos que sempre se unem - no riso, na alegria, na fé, e na dor.
Mãe, eu não sou melhor que ninguém, e nem quero, nem necessito. Não me cabe, e não me aceito ser como muitos dos meus amigos, meus primos, meu pai, ou qualquer outro ponto de referência, com tôdos os meus (muitos) erros e (raros) acertos, eu sou meu, infelizmente não sou mais a criança tão bonita, tão sábia, tão compreensiva, tão sua. Infelizmente, eu cresci, vivi, e deixei o mundo me corromper, e provei da maldade, da vaidade, da luxúria e dos tortos caminhos. Neste tempo que caí em horas ruins, e na hora da solidão, Deus não me abandonou, assim como hoje percebo que nem você, e nem minha avó em hora alguma me deixaram.
Mãe, não sonho mais com a mulher-tão-linda, e nem mais penso num amanhã, porque não me assusto mais com o que ele pode me trazer. Sei que graças ao corpo-a-corpo que tive com a vida, e com o que aprendi com você, aprendi a ser forte, a ter comigo, e me guardar - e acredite, minha senhora, por mais que me mostre receptivo, poucos são meus, e eu poucamente fui para alguns. (Re)Aprendi a andar sozinho, e entender os tempos idos, a fase da espera, o milagre da vida: Nove meses, e nasce o milagre mais lindo de Deus, uma vida. Eu, neste momento, estou esperando a minha vida nova, mãe, uma vida que seja maior que tudo isso, que foge da nossa compreensão, da nossa minúscula imensidão.
Mãe, seu filho é incrível. Seu filho não usa maldades, seu filho está reaprendendo tôdos os dias a entender a vida, e pensa, e pensa, e pensa. seu filho está reaprendendo a confiar (mais ainda) em Deus, e está tôdos os dias lutando contra uma sombra que lhe acompanha, tôdos os dias ele ouve o sôm, ele tem amigos tão incríveis, a "minha gente" como ele mesmo diz, ele criou bom senso e tem do bôm conselho, pode parecer que não, mas ele te ouve. Ele ainda te ama, ele ainda aprecia algumas coisas suas, mas entra sempre em conflito com você porque ele é ele. Ele é vivo, minha senhora, safo, e lindo. Lindo pra caralho - tôdo mundo ama a barba dele. O cabelo dele quando o tempo revoa, fica mais lindo ainda, e ele se veste como um lorde inglês, como um suedehead bretão, e ele sempre ajuda quem está do lado dele como pode, do jeito que pode - ele é um dos últimos bons de coração, mulher, porque você o criou pra ser bondade, e não o avesso.
Mãe, seu filho tem defeitos como tôda pessôa tem, mas isso não o faz o pior de tôdos, muito pelo contrário, isso o faz normal, como qualquer outra pessôa no mundo, mais um que acorda cedo, e trabalha, ri, toma sua cerveja, dança, curte, e tenta se alinhar, por mais que não consiga, ele dá o seu melhor.
Ao longo da vida, seu filho descobriu os véus que lhe vendavam, e viu de tudo um pouco da vida, entendeu muita coisa, e ainda tenta entender outras, seu filho - doce mãe, é um dos maiores seres compreensivos na face dessa terra bôa e fértil, e ele te compreende, e espera isso de você. Ele apenas, e somente tenta retomar uma relação estremecida com sua mãe - listo, ele não precisa de gente que taque na cara coisas erradas, remoce o que já foi dito, desdito, redigito e ruminado. Ele não precisa de gente que imponha, ele só precisa de gente, respirar desse ar; O ar, que entra, invade e sai do pulmão não significa muita coisa, é apenas um sinal de vida da carne, e é essa mesma carne que quer continuar vivendo, sendo, tendo um porquê. Carne que se tem em espírito, mas espírito que se desprende da ser da carne para ser maior que tudo isso, para viver tudo mais que isso, ter bem mais que isso - a vida é um sopro.

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