segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Sunday Morning.

Estávamos bebendo eu e meu irmão ontem. Na sexta ou sétima garrafa, sei lá.
Rindo e conversando da vida.
Curando as feridas um do outro.
Acabamos de comemorar a morte de um desafeto nosso.
Eu o tangi. Feri de faca como há muito não o fazia, e desaguei naquele momento enquanto o punhal maldito descia entre a pele e jorrobatava sangue marrom, de raiva toda a minha agressividade e cólera soterrados por anos de cristianismo e bons pensamentos eu desapeguei para apenas ali fazer a justiça que não esperei do Céu, e tampouco a dos homens.
Quando, já em ponta de morte o desafeto ganiu, meu irmão puxou o gatilho com os olhos em riste e bradando de raiva. Os capangas dele deram um jeito no corpo, parece. E isso o ensinaria a não mexer mais com um casal que desce a rua para se divertir e tampouco balear a esposa grávida, roubar o dinheiro de alguém e quase aleijar alguém que não tem a ver.
Ríamos, brincavamos, como se aquilo fosse quotidiano em nossas vidas - e talvez, num passado distante o fora. O meu irmão, assim como eu e a gama de nossos amigos, vem de uma raíz nordestina, aonde ainda mantemos a situação a se resolver no brilho da faca - não que isso explique, mas denuncia muito a nossa conta.
Não tinhamos pais, e nossa formação era das brigas de rua, das missas, e das idas em estádios e tomar cerveja num bar que vendia escondido para nós. Eu, na verdade, me enveredei pelos caminhos de Padre Deus e me inseri no contexto apostólico e diplômatè. Meu irmão, pegou em armas verdadeiras e se sujou com hasseldamas, mas de contrapartida ergueu capelários, doou dinheiro, cuidava das crianças e viúvas e os que em dolosa aflição estavam, foi mecenas da providência divina. Eu, vivi. Ele, também.
Na mesa, cerceados por cervejas e pizzas, nós falávamos de Alvares de Azevedo, da existência de Deus, do princípio da minha - por supuesta - cura, dos heróis de nossa juventude, e de nossos demônios taciturnos, que arrodeiam nossa cama, daqueles que nos abrem os olhos quando queremos fechar.
Ele, em respeito a mim, não há de guiar e pretorar os passos da amada a quem um dia lhe pedi para que sentinelasse para que eu não me sujasse. Eu, em respeito a ele, pedi uma última alegria.
Tangemos aquele que nos fizera mal, e deixando-o na tendinha, seguimos como fazíamos na época em que éramos deuses: nos lavamos, olhamos um pro outro, nos abraçamos, e fomos descarregar o acontecido em cervejas para esquecer. Pusemo-nos um no lugar do outro: Fui assediado enquão acompanhado pela amada e doente, ele, ferido e pobre, com sua esposa ferida e sem o fruto no ventre dela. Isso nos impulsionou ao último ato transgressor - mas ainda lemos Agostinho, rimos e sabemos falar da somatória do medo, somos os mesmos, apesar de evoluídos(?).
O bar estava pra fechar, embrulhou a pizza e me deu os pedaços para jantar, me levou até em casa e me abraçou, e foi depois ver sua mulher e cuidar dela. E assim seguimos a noite de um domingo.

E apesar de tudo, somos humanos. Relicáriamente humanos. E eu acordei.

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