sexta-feira, 13 de maio de 2022

Feira Moderna.

 Hoje estou em vigília, enquanto velo o sono de meu terceiro pai. 

Seu sono ressona em toda sua casa assim como o som oriundo das ruas, e como parafraseio a banda: "enquanto os gritos dizem, os acordes tocam, estão dançando nas ruas"; e eu, por um leve momento pensei ouvir Yes tocar. 

E as pombas, se aninham em conjuntos nos parapeitos das janelas, e eu as vejo daqui. Elas me fitam esperando um sonoro alguma coisa de mim, e eu, apenas as fito em união, espiando-as num ninho improvisado de concreto e união, enquão a mãe pomba adula seus filhotes embaixo das asas e os pombos maiores cercam os filhotinhos de rato voador.

A noite cai na cidade velha, e agora são poucos carros que tocam a passar nos viadutos e ruas - estradas nuas aonde se pode ver no sossego do crepúsculo o asfalto e dar-lhe um descanso. Eu rezo um terço, e olho a janela, que brilha e incandeia uma cidade que incandeia o meu peito e que me dá a esperança de dias melhores e nunca me decepcionou; fundada pela conversão de São Paulo, a Vila da Piratininga sempre se mostrou em constante progresso, conversão, mudança e acompanhamento. 

E a janela, de meu coração, está com as luzes apagadas e entreaberta para a luz invadir o quarto e matar os ácaros. Luzes acendem, apagam, e transmutam, como lâmpadosas verticais e estrêlas postas em vértice na terra - mas ainda sim a luz não se ousa extinguir, ou se por embaixo de um alqueire.

Vejo os livros da estante - teologias maçantes, pesadas, dignas, edificantes e sérias, vejo as estrelas do Céu, e vejo vivendo a mesma situação em novo cenário, perspectiva e prisma. Fico sentado na cama e vejo a noite envolver tudo e todos, e notando as voltas do ponteiro, meu pensamento se desloca em mil lugares, pessoas, coisas, e temporãs; troco a resposta pelo silêncio, e repouso. 

Abre teus braços, amor, que eu 'inda tenho um pedaço de Deus (eu adoro essa citação d'O Terço!), e guardado em teus braços, olho para dentro de mim e vejo tanta coisa, que silencio no eleio dos teus abraços, aguardando de teus carinhos de teus dedos finos que acariciam minha pele, e de teus olhos que me tangem, e de seu canto que me refrigera. E foram mulher, tantas batalhas, tantas lutas, tantas horas da solidão, e tanto desarranjo, que quando vejo minhas obras, as cousas que edifiquei, os mortos que sepultei e os caminhos que tomei, me sinto forte e magno, de fato até mui sábio. Tristes e difíceis começos sempre terminam em finais gloriosos, como dizia-me a Velha sibila sábia enquanto engomava a calça. 

E foi um difícil começo. Agora, espero - assim como o fim dessa noite - o fim glorioso. 

Pax et in terræ. Amen.

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