Ela acorda, revira na cama com as mantas apregoadas ao côrpo, o cheiro de dormida e o Sol quarando seu côrpo. Alguém abriu a janela antes que ela despertasse: Está na hora. É mais um dia aonde tudo que não poderia, pode, e o que pode, há de ser mais ainda.
Ela levanta, toma banho, o velho novo cheiro de dormida dá lugar ao cheiro de sabonete, e a avenca que depois perfuma o restante. Escolhe qualquer roupa, e sai para o primeiro ponto. Senta-se, lê, predica, e vê, labora - os sorrisos denunciam as ações, e mesmo que ela não queira, corações grandes machucam grandemente. Não, não quebre um oldre de barro, menina. Não o jogue fora. Sorrisos carregados de olhares vagam pela cátedra onde o púrpuro rosa reina. A voz que acalma e atiça, é a que peçonha; Um bocadiho não faz mal, mas mais mal faz do que mal pouco. Ninguém sabe, ninguém vê - a Deus tudo vê. Por quanto tempo rondaras a essas noites vazias? Até onde a estrada vai dar para você (não) ser do jeito que é?
Ele deitado, tenta-se levantar, lê, olha, ora. Respostas demoradas, descompassadas, anos inteiros jogados no lixo dos dias. Ossos que doem. Imagens que fitam, testemunhas do que se passam na carne e alma, no pescoço um voto, no coração uma certeza, na cabeça um falso brilhante. Uma música gira na cabeça, e os olhos turvam. Do outro lado da cidade, a segunda parte da libra pesa de uma forma inacreditável, aqui, apenas se levanta para acender uma vela. Eia a candeia.
De um lado a oração, do outro a ação.
O silêncio que permeia é o veneno dos pensamentos, e o silêncio que permeia é a ausência. Pode estar fazendo como não está, o cheiro da avenca está se disseminando no ar, no riso, no cheiro, no beijo, no caxangá, e a falta do ar o corrompe, eles falam de amôr e Tarrasca Guidón, Marian.
É tudo o som das guitarradas no ar, ela brinca de amôr enquanto o escapamento solta fumaça no ar, e enquanto a garôa cai, há um beijo sem um casal, e um abraço incompleto - nada é (tão) real. A ausência da resposta evidência algo na mente, e mesmo que não se entenda, lá no fundo se sabe, a respiração afundada embaixo da água quente. E que evangelho é esse que a própria igreja não leva aos que necessitam, e que Deus sabe da verdade, e que beijos são esse que matam a cada íngua boca-a-boca, e que dôr é essa que não dói em mal algum? E que pôvo é esse que por carregar o dinheiro acha que a tudo pode, a tudo faz, e tão impune faz? Que síndrome de Oséias é essa ao povo, e que chaga é essa que nunca fecha, só aumenta e corrói? Que me faz isso que me corrói? Que me corrói.
Eles falam de um amôr impossível, e pregam uma realidade falsa, e rezam sem rezar, dizendo que estão certos, mas quando deitam a cabeça no travesseiro sabem que não estão, nunca estiveram, e mesmo quando estimarem saber algo sobre o que "pregam" nunca saberão, a avenca some do alvo corpo, já com cheiro de alguém, e um sorriso vazio no corpo esmaecido de outro cheiro - agora marinho, e nada é real, ELES FALAM DE AMÔR QUE MORREU, e das coisas do Céu, mulher. Descem pelo Rossio em canções lindas que só cortam um coração pesoroso. Isso de dizer em exaltação já cansou, e ele olha pela janela imaginando como era ser marrom. Ela olha pela janela, e pensa se amanhã de manhã será o mesmo ou outra coisa nova, uma nova atração, um novo a descobrir, e as estrêlas somem sem dizer se é a chua que arma, ou se no brumeio da tarde cai o Céu.
Você pode me dizer, Abba, se as coisas que predico são tão reais quanto as vejo, ou se tudo aquilo que finca em minha mente deveria morrer comigo, e eu deveria adentrar nessa caravana aonde não me reconheço, nem me pertenço, mas vejo cada vez mais que tenta me englobar - eu não vou deixar de ser meu, mas peço a Deus que a ávida multidão não me veja com essas armas de malícia. Que essa multidão, ao me tocar, não me macule como eu não tirarei deles o direito de se pertencerem. Que eu passe invisível e intocável a tudo o que não for Luz próximo de mim.
...E que eu só leve alegria a todos os corações, Amén.
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