quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Memorial de Tio Fungo.

 Hoje - exatamente as 22:15h - far-se-ão cinco annos da partida de Tio Fungo.
Tio Fungo não era ninguém, e por essa sorte tão magna, ele conseguiu ser tudo em uma omnipresença tão lancinante, que rasgava os soberbos, amansava os coléricos, guardava os amostrados, e alegrava os tristes. Tio Fungo, tio meu por parte paterna, era talvez o parente mais próximo (salvo meu avô) que me assemelhava e remetia meu pai: tinha fala mansa, mas sabia atrovejar a voz quando necessário; campesino, não saía de seu quintal da casa/chácara em Guayanazes, e quase sempre me convidava para tomar garapa de cana em seu engenho. Não tinha o olho esquerdo, após salvar a esposa de um incêndio, que me lhe custou esta quista visão - que há de se convir, era ainda mui atenta.
Tio Fungo, atento aos sinaes do têmpo, soube se atualizar e conversava sobre temas modernos sem ter medo de suas raízes tão conservadores. Era forte, mas manso. Suas mãos calejadas pelo manêjo de instrumentos pesados em seu quintal demonstrava isso; aos fins de semana, sempre se ajeitava para vender limão e especiarias na fêira. E era feliz, com o básico que veramente lhe pertencia e lhe guardava de todo o pensamento vão.
Êle também, muitas vezes queria aprender novas cousas, das quaes me orgulho de ter ensinado algumas, e com êle pude também aprender cousas na qual meu pai - livre de julgamento - não pôde fazer por mim. Fazer a barba, quebrar uma garrafa, olhar nos olhos e controlar a raiva, fazer valer sua palavra, e ter a verdade em tudo para não ser para-raio de mentira (sic). Os toques das galinhas, as plantações, colheitas e douração, tudo isso foi oriundo dele... e a ele devo meu tributo.
Era um dos maiores tocadores de viola, e sempre se orgulhava em dizer que já tocou com Tião Carreiro - mesmo que isso carecesse muito de fontes. E sorria, com seus poucos dentes, e ora mascava o fumo de corda que era visível no canto esquerdo da bochecha, ou estava com seu cachimbo caboclinho fazendo uma fumaça enquanto arrancava cachos de banana...  
Foi o primeiro a me ver com corte de cabelo moecano na juventude turbulenta, o último a me consolar na partida de meu pai e um dos primeiros a me apoiar quando entrei - e saí - da vida religiosa. Foi quem rodava peões de madeira comigo e me ensinou a afinar a viola em cebolão em Mi. Meu primeiro porre de pinga queimada foi com ele, e quando pensei no fim, foi quem me ajudou a olhar o começo. 
Em 2019, Tio Fungo no auge de seus 90 anos foi achado (profeticamente, cabe dizer) ido no seu amado quintal, quando seu coração, que de tão grande era, quis se acochar mais um pouco e crescer, deixando assim seu ar rarefeito e cálido. Nos dias seguintes, sua chácara foi vendida, e por não ter filhos, perdeu-se o rincão para seu irmão mais nôvo, que ao passo da modernidade, hôje possui cabêças-de-pôrco de aluguel. E a vida seguiu, mas alguma coisa naquele dia parou e se manteve com Tio...
...e por sua memória, seu legado, e sua vida - tão humilde, simples, pacata e grandiosa, lhe pago este tributo na condição de escriba dos tempos, inclusive os meus do qual tenho tanto amor e afã, Tio Fungo! - άξιος! 

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