Quero andar um pouco.
Me divertir, sentir vivo talvez. Quero ver o começo da semana a noite. Os semblantes cansados nos comboios públicos, as dôces mulheres que tirando seus saltos de horário comercial, agora se desprendem de ancas em chinelos de dedo, as môças que se saindo da academia, parecem uma tartaruga-ninja com o casco de alça pôsto nas costas... Os fortes homens de alma frágil dependurados nos balcões do bar, tomando uma cerveja ou uma pinga com limão para aguentar o tranco, ou dormir sem jantar...
Tem um irmão-de-rua que passa, cativo e alheio ao universo. Seu saco de coisas encosta nos transeuntes, e atenciosamente, pede perdão a cada um. O passêio público parece algo tão largo e estreito; na quadra seguinte se reúnem os jovens para poder entrar em uma faculdade, e alguns adolescentes se encontram e sentindo o mal da imortalidade bebem, dançam, cantam e brincam com o amanhã; como se de forma bela isso fosse imortalizado em sua aura.
Uma estrela brilha demasiadamente, mais que a Lua - já não mais cheia. E ai dos olhos que as vêem, pois se o alteia para vêr, pode correr risco de perder a carteira, celular, e ganhar hematomas furtivos. Um vento suave como que de verão entrecorta os corpos cansados, que já mais do que nunca anseiam por sexta-feira. Tem um olho no alto da torre. Mão aberta, cajado pôsto em defêsa, e rôsto de fronte inquisidora. Olhos que olham, tangem, secam... aliviaram.
Ah, musa, deverias deixar eu me ocupando pelo brilho dos olhos foscos que vejo, do colorido cinza que têm nos prédios e marquises, das tôrres, bares, perfumes e cheiros fétidos; dos aviões que transpassam o ar sem ter nem com quê ou porquê, e nas rotas mais calmas, se tive sorte, ouvi uma árvore farfalhando ou alguém pedindo um dinheiro para pagar um corote.
E eu, tão pequeno diante da magna essência desse lugar, sou ao mesmo tempo dono de um universo tão complexo e confuso dentro do meu sorte. Os faróis são de estrada, faróis de milha como diria meu pai, e os semáforos hoje, logo hoje decidiram trabalhar. As bancas de jornaleiros começam a bater seu cartão e fechar. Um garoto de talvez 14 anos compra um cigarro solto. O vejo. É cabeludo, como fui. Sua mão parece frágil ao acender o isqueiro para fumar. Na primeira tragada ele engasga. Desvio o olhar para não intimidá-lo, e lembro-me de quem já fui - parcela de mim que não eliminei e ainda rola no meu recôncavo, alcunha de nome Ox; velho conhecido desse blog...
Ao sair do espaço, mantenho-me perto de alguma certeza, algo que ainda tente me mantenha firme. Faz muito tempo que não sinto meus pés tão pesados e meus olhos tão fracos. E ver essa cidade, mesmo que do lado de fora, por um pouco espaço de tempo, me acalma. Me dá a sobrevida que preciso, e afasta de mim aquilo que nem as paredes confesso; apesar de já dito. Me esqueço da sorte, da solidão, da contraforça e da raiva, e guardo em mim a sorte ou benção de ter sido filho do furacão - dos amigos mortos, heróis tardios, mártires irreconhecíveis, gloriosos desconhecidos e do pae tardio.
Dobro a rua de casa num arremate preciso para não ver mais estudantes arrogantes de direito, desço-a, tal qual os ônibus desordenados, e me mantenho apenas por existir ou por fôrça de pesar os pés contra o chão. Abro a porta, e vejo o saguão, tímido e de tapete suntuoso. E ninguém me espera, toma pela mão ou segue meu ser; como me disse o cantor: Quem me levará sou eu.
Se hoje saio para ver esse coração maquinado trabalhar, é porque o meu já não bate, tampouco palpita, e só a ouvir a sinfonia que essa cidade proporciona, sinto-me de alguma forma, imortal. E nenhum outro que não seja filho da Piratininga pode entender.
Ao meu chão, entrego meu corpo primeiro. Ao porto, não.
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