quarta-feira, 22 de março de 2017

XXVII (3-7)

Eles se denominam tão maiores, tão melhores, mas são tão pequenos junto a Deus. Eu oro por vocês, multidão que não quer se enxergar no espelho, vocês medem a sujeira alheia mas não reconhecem a própria, vocês tão livres, tão gente aberta, tão de bem, tão seus, tão autorais, mas não entendem nem um terço do plano do Autor original. Eu sou redator das cartas de anjos, irmãos, santos, mendigos, professores, mestres, e biscoitos, vou redigir um segredo para vocês: Escrevo como escriba, porque como homem, eles não me respeitam. Me faço jornalista dos versos mais pobres, carentes de atenção e de olhos ávidos dessa ávida multidão, e peço a Deus, fôrça para desenvolver cada vez mais linhas, para cada palavra sonar na cabeça de quem sente, e neste fragmento de suma, deixo ao vento que diga as coisas mais incertas, pelas mãos minhas, tão feridas, tão sôfregas, tão minhas, tão de Deus. O dôm não é meu, a carne é emprestada, sou o mensageiro, não quem promulga, aceita e diz da mensagem.
A maldade do mundo tem nos feito frios, insensatos, maldosos e corruptos, roubando nossa própria felicidade e desejando o sangue - privando o riso aberto num dia de Sol pelo riso forçado ao querer impressionar pela qualidade de dentes brancos que se tem na boca. Cala tua boca, e deita-te na tua cama. Pensa nos teus atos, pensa na tua vida, e dorme, dorme o sono que Deus te vela, que neste sono te encontre a paz, que neste sono te encontra a felicidade que te cabe, e não a que te mede no alheio, e que sua verdade seja água.
Amanhã há de ser bem melhor.
Quando se lava as mãos antes de comer do alimento, de carinhar quem se ama, ou antes lavar o rosto, você se purifica, mas, porque não lavamos mais a alma? Por quê nós não aceitamos a simples idéia de renovarmos nossos laços e sermos quem precisamos e prometemos ser a nós mesmos, e na frente da assembléia da massa, há tempos tão idos, tão longíquos que nem mesmo as mãos do tempo ousam tocar, mantendo a lembrança num relicário de vidro e madeira aonde se vê, mas não se toca, nem se encosta, tampouco se sente. Lembranças, daqui desta clausura, serão minha pedra angular no futuro, e me ensinarão mais ainda a não temer a morte, nem as pessôas, nem de ser quem eu sou, preciso ser, ou qual bandeira levantar; Muito pelo contrário: Eu não sou meu juíz, mas, sou meu próprio carrasco.
Divino Espírito Santo, terça parte de Um Deus Tríuno, esteja comigo, e me faça entender como Vocês ao mesmo tempo são Um, e como tôda a alegria que perdi, encontrei na Vossa Presença. Ajude, a cada pessôa perdida como eu a se encontrar, e a quem está perdido no Vale de Lágrimas, a se encontrar, a se perdoar, limpar-se desse lôdo e seguir viagem carreira adiante nesta sinuosa estrada, e ter da concha-forma-mão para tomar no assude, comer do pão que lhe ofertarem na estrada, e sentir a fresca da manhã lhe tomando a cintura, num abraço sincero; Aprende que a vida tem bem mais no menos, e se perdoa de nunca ter vivido isso antes, e que quando você aproveitava as coisas pequenas da vida, você não aproveitava genuinamente - como eu tardiamente aprendi a apreciar, e aprecio agora: Amigos, hoje, na minha cama, encostada ante a janela de quase um século, vejo a garôa cair, e uma gôta está pendendo na ponta de uma folha de uma árvore que está para cair, e não cair, e me sinto agora como esta gôta, me encontro num cai-não-cai impossível de ser descrito, mas só sabe quem sente, vive ou viveu isto. Nem sei mais que horas são, mas se eu puder, mensuro três-quartos de hora perdida esperando essa gôta cair, mas intactamente ela repousa. Será esse o orvalho que minha avó tanto fala?

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