terça-feira, 21 de março de 2017

XXVII (2-7)

Eia! EIA!
Deocleciano, minha fé se reside em ti. Tão só em somente em cada um dos meus - idos, estados, futuros. Deocleciano é Patriarcha de tôda essa gente humilde, feliz, o Pai da Rainha Original. O pioneiro do degredo que dobrava ferro e pregava madeira, apeiava no cavalo e descia a correntina até a Quinta da Bahea para ir ver o Nosso Senhor do Bonfim. Deocleciano é o difusor do Ofício, que se reside em cada um de nós, em cada um de cada seu, que ainda sim reza sem parar, porque Nossa Senhora está de joelhos. Deocleciano é o pendão imaculado de fôrça, de fé, de perseverança. É quem nos trouxe até aqui, dando sustâncea na farinha de Dona Antônia, dando fôrça de lá do lado de lá, e aqui, nós fazemos nossa parte, nos mantendo, nos cuidando, nos tendo.
Para cada raio de Sol, há uma prece, Seo Deocleciano, eu sei disso hoje mais que nunca - um prefixo dedicado a uma prelação, e a cada brumeio, um agradecimento; E mesmo que nós na nossa humanidade carnal raramente consigamos ver o que está a acontecer, existe e sempre existirão pequenos milagres: Os dois reais achados no bolso da calça, ir sentado no metrô, o café de graça dado no serviço, e a cabeça que ora pende pra alegria, e ora luta para se permanecer em alegria. Para cada gôta de chuva, existe uma benção, e por isso ando sem guarda-chuva e deixo me molhar, para me sentir vivo, para cada grão d'água molhar meus cabelos e cingir minha face, e se misturando com meu olhar, talvez aia de vingar uma lágrima de alegria. Talvez.
Quando nós, na nossa leiga ignorância, vamos nos desenvolvendo e descobrindo com o tempo tudo o que estava a nossa frente, nós rasgamos mais um véu que nos cegava, com isso, temos a vida verdadeira em nosso olhar, nossa mente, nosso coração. Pois, ao rasgar o véu cegante da ignorância, nós nos abrimos para o inonimável, e para uma alegria que não se têm fim - é como se ouvíssemos Baden Powell a tocar na nossa sala. É o Divino, é o Espírito Santo no Sacrário abaixo da imagem de Jesus Crucificado. Um Jesus tão pobre, tão amorenado-de-vela, tão frágil, tão ferido, tão môrto, tão por mim, por você, por nós... Faz-me um favôr, desce até a dobra da rua, aonde havia um rio, ali se deve fazer o bem, e novamente, e novamente, e novamente, até se cansar. Sobe o elevado, e cruza a avenida, ali também se pode fazer a vida renascer, ali pode-se dar o bem com bem, e fazer a bondade aflorar. Em tôdo lugar há uma chance de ser bom, mas, bom de verdade, bom de alma. Em tôdo lugar vejo uma chance de honrar Deocleciano, Antônia e Márcia.
Quão cansados estão essas pessôas que se degladeiam e se machucam pelo prazer de se sentir bem, de ver lágrimas e dôr brotarem de outrém - dessas pessôas, devemo-nos cada vez mais nos aproximar, e nos fazer casa e caserna delas, devemos dar amor, carinho e morada. O ser humano não é mal, êle apenas se perdeu no labirinto da ganância, do medo, e de não conseguir ver atrás do Véu de Deus, e nisso se achou maior ou no mesmo patamar que o Dulcíssimo. Não existe dôr, nem maldade, isso é invenção do feo.
Aonde nos cabe, estamos, e a cada porta estreita, nos devemos encolher mais, e deixar que os maus sejam maus, mesmo não sendo, e que os bons se elevem até o Divino, e desçam até a terra batida pelos homens que não entendem da lição que foi deixada no evangelho. Eu ainda estou na minha estrada, estou no meu rumo, tenho meu dia bom, e agora, tenho minha fé. Há um Cristo crucificado, tão mirrado, tão machucado, tão por mim... Por quê não poderia eu estar no lugar dele? Por quê sofrer tanto por mim? Pantocrator deveria muito bem saber que gente do degredo igual a mim tem pecados de levas. Mas, mesmo sabendo de tudo, o Triúno morreu por mim, pelo leitor(a), por cada um de nós deste vale de lágrimas, e apenas nos cabe o respeito, a admiração, a fé, a devoção. Nos cabe o amar em irmãos-em-Cristo, e nos perdoar, para vivermos melhor, e quando o barco virar, não ter medo de morrer.

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