Eu não estou onde eu queria, e isso me deixa tão feliz - você nem imagina o quanto. Outro dia joguei tantas roupas fora, tantos bilhetes, cartas, nostalgjias de um tempo ido, um passado que ainda habitou o presente, um perfume que ainda lasciva as narinas deste contra-cronista. Achando escritos meus - crônicas rudimentares dos meus 16, 17 anos - lembrei dos meus sonhos, planos, ideais e ilusões, feitios e fetiches, e de como cresci diante do adverso e do universo, como eu estou tão forte, incrivelmente forte a tudo que veio me sobrepujar. Eu me senti alguém que venceu na vida, e bati palmas para o universo e sua contra-fôrça, pois, não me deu o que quis, mas, o que mais precisei para acalmar a alma. O corpo. A mente, ainda não.
Após lembrar de tanta cousa, me remeti ao meu passado, época tão distante e tão próxima, tirei a camisa, camiseta, e me prostei em frente ao espelho: O balofo gordo cresceu. Hoje tenho um cabelo que me satisfaz, uma barba que bem ou mal está aí, minha barriga diminuiu, mas, ainda sim vejo as marcas de navalha no meu braço que a tatuagem não pode esconder, vejo um braço menor que o outro, as marcas de espinha, a lânguidez de um corpo turvo. Posso ainda estar horrível, mas, ao menos estou melhor do que antes. Um pouco melhor.
Voltei ao quarto, e coloquei aquele velho disco de fazer-pensar, e pensei na ignorância das pessôas, na relatividade da vida e quantas eu perdi em carne (mas não em espírito), quantas me afastei e quantas se afastaram de mim, quantas me sangraram e quantas eu vi outras pessôas sangrarem. Vi a degradação do ser humano, a maldade ser via expressa, e as pessôas que se afastaram simplesmente por não ter peito por se deixar sangrar, ou por sentir um sangue que escorre por elas. Lembrei de tanta gente boa que há no mundo, e lembrei daquele velho músculo que coloquei num baú trancado que joguei no mar férreo. Lembrei da vida que me coube, da vida que me tem, e do corpo-a-corpo que joguei com ela, e hoje não mais, nem nunca mais, hoje eu estou jogando fora cada sentimento, cada pedaço, cada razão, cada viver, cada ter. Estou deixando tudo isso pra nunca.
Achei uma foto: Ela olha sorrindo pra êle, e êle olha para o horizonte, com aquela cara de piranha sem dente. Achei uma medalha, com sete linhas de umbanda. Achei um texto de um amigo, um desenho de uma amiga, um ingresso de um show, a palheta de um dos meus heróis, um pedaço de pano da roupa de uma colombina, um voto, achei o projeto Baden Powell, dentes, achei letras e textos, um devocionário de São Paulo, e um terço. Achei uma carteirinha de universidade, achei um bilhete de um amado, outra foto: Um homem, com seu filho no colo, rindo, uma farra. Outra foto: Uma Rainha, segura seu neto mais novo no colo, com as mãos fechadas pois estava com a mão molhada de lavar a louça, achei aquela última garrafa de Original que tomei naquele apartamento; Guardanapo de Pizza Hut com a irmã no Tatuapé, patuá, Salve a Rainha com a letra dele. Achei coisas que me lembraram da vida antes da vida.
Percebi, após achar tantas coisas minhas, tantas coisas compartilhadas com as histórias da minha gente, que a vida continua, e que eu nunca quis, mas, Deus me levantou mil vezes das mil vezes que caí. Que Deus me segurou quando eu ia cair, e que por intermédio d'Êle, tive amigos (alguns eternos, outros veraneios) que me ajudaram, tiveram comigo e foram por mim. Tive amores eternos de quatro meses e histórias mal resolvidas. Tive prazer em trabalhos, e trabalhos em coisas prazerosas, e apesar ainda dos meus trejeitos, formas e manias, continuei a jogar fora coisas, peças, pessôas, tudo aquilo aonde eu não me cabia mais, ou me fazia mal; Pior: Que desacreditava de mim, que não me aceitasse nas minhas deficiências, ou que quisesse/quiser me podar de alguma forma - aprendi que quando gostamos de uma pessôa, a aceitamos e estamos com ela, independente de seus jeitos ou tato, a aceitação, afinal. Hoje de manhã, após essa limpeza, vi que minha vida neste terral está no fim, e começo a rumar para um lugar diferente, aonde (talvez) um desafio maior me espera. Algo maior que eu nunca vi, vivi, ou senti. Algo que em parte anseio, em parte quero desistir, algo que em parte peço para não ter, mas sei que preciso. Coisa que só posso explicar aos ouvidos que querem realmente ouvir e entender o que se passa na minha massa cinzenta.
Percebi, que as memórias sempre hão de existir, e as cicatrizes de algumas também. Mas apesar de todas as recordações - boas ou ruins - a vida continua, e este é o milagre maior da vida. Tôdas as coisas passarem, e pela vida afora eu vou jogando fora as coisas que eu guardei por guardar, apenas para manter em mim tudo aquilo que só me deu bonança, e que me fez o que ser o que sou hoje.
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