quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Poor Places.

 Estive pensando em você, e me deu uma saudade da vontade - cousa tão nossa que capaz de tu saber o que é; porque de alguma forma, eu sou você.
N'outro dia, no vagão do metrô tive a impressão de ver você; mas cabelo não era escuro, e tampouco fazia aquele olhar cínico por cima do óculos. E ali percebi que eu queria lhe ver essa noite. Para conversar, dizer do muito que trago no peito, e daquilo que minha alma anda desaguando de formas erradas e momentos incertos; ando a errar em muitas coisas buscando motivos certos no que é efêmero, e esquecendo do que tanto conversamos.
E devo dizer que vi outros lugares, flertei com novos mundos, amei outros amores; mas inexorável fui me atando a mim. Me permaneço aonde me encontraste, e aqui até hoje firmarei meus pés. Estou no mesmo lugar aonde me deixaste. 
(Lembro de meu pai, que no caixão, puseram um cachecol e duas madeiras em seu pescoço. E lembro do cachecol acinzentado que havia na volta de seu pescoço). Talvez tenha sido ali que me dei conta que minha côr favorita foi cinza, e onde me despedi dos excessos para aprender mais no silêncio e na calmaria - do hedonismo disse não, e da desregra abandonei - me isolei e reconstruí aquilo que só a mim é digno de orgulho - mas sei que de você arranco um riso bobo.
Hoje, a caminho de casa, o Sol se pôs alaranjando, ferindo uma têz royal no Céu. Risquei os dedos no ar em riste, como se de alguma forma esse carinho nos interligasse, e pensei novamente em você (espero que não se importa, mas até imaginei sua presença) e nos sons que ficaram suspensos; nos cachimbos que não fumamos, nas conversas de varar madrugada no alpendre, e em tanta coisa que de alguma forma você sabe, você sente, você - em qualquer forma que esteja - entenda.
Sinto, então, que ficou muito para caber, e por ora me contento que seja esse vazio - espaço estreito de um navio - que diga tudo de maneira mambembe, ridícula, debochada, e inerente; assim como no silêncio pus os dedos ao Céu para te encontrar, meu pensamento viaja com perguntas, dilemas e desabafos, e no divã de seu silêncio, desaguamos um no outro uma saudade não fictícia, mas de um futuro, um porém, a virgula consumatória do universo que nos ousa em separar no longo fôlego de curta vida que teimo em gastar. O Sol já se pôs, e a noite repousa em nossas mentes.
Eu não vou lá para fora.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A Night Of Love.

Ao entrar no carro, as palavras caem como mísseis em minha mão. 
Mas, as evito. Olho a paisagem noturna apenas para passar o tempo, e esperar a virada da estação.
Algo ocorre dentro de mim, algo morre, a ser mais exato; e no fundo sei muito bem o que é, assim como você; mas cansei de fazer movimentos ou bandeiras acerca disso, apenas me mantenho em silêncio eliminando o parco fulgor que ainda provém de mim. Talvez amadurecer seja sempre isso, a eterna morte do ser.
Vale mais o seu sorriso que a minha lágrima, crianças dançam descalças a avenida, e alguns homens bebem nas mesas postas na calçadas; um cachorro tenta alcançar o que está no prato sendo petiscado. O semáforo abre. Garôa.
A música - Cecília de minha vida, musa primeira a qual devo amôr e respeito primeiro, única impassível de ida ou volta - me atraca ao pôrto de entender.
Mas o peito, este, não.
Apenas deixe ir, garôto - ela me sussurra.
Essa noite poderia ser uma nôite de amôr, mas não é; então boa noite e se cuide.
E com isso, começo a remoçar e remoer todos os sentimentos vívidos e translúcidos em mim, trazendo a tona tudo o que meu peito releva e a condição transpassa. Não sou ruim, e sei bem que não sou. Talvez eu nunca soubesse ao longo de minha vida o quão bôm sou, e que esta culpa franciscana me arrasta ao sopé do chão. Tento em vão buscar palavras que apenas em minha cabeça ecoam, e somente a mim fariam sentido.
Sentindo aonde me encontro, e aonde gostaria de estar, me pego mentalmente falando contigo de tudo aquilo que minha cabeça pesa e meu peito dói, mas que a bôca insiste em calar. E por um breve sentido da vida ser intríseca, nossa telepatia não funciona. Conversamos com o olhar muito bem, mas as vezes você perde o que o opaco de minhas íris esmeraldinas têm teimado tanto a lhe dizer e eu mesmo me censuro em verdade.
Então boa noite, e se cuide.
A água quente do banho não se compara a seu abraço, e a cama tão macia não me esmaece quanto ao seu eleio; e no alto da noite, não há duas cervejas; e a fumaça de um cachimbo não se equivale ao nosso defumado; olho os livros, os odeio. Quero rasgá-los tôdos - mas o anjo-de-guarda segura me veladamente, e as imagens não se quebram, apenas meu peito deságua por essas linhas por você não ver.
Dizia meu pae, que quem é fiel aos seus princípios, é fiel a si mesmo. Penso em quantas vezes me compensou ser fiel aos meus, e quantas vezes me foi perfídio e vão os princípios dos outros, e mais além - quntas vezes não foe por mim. Aquela lágrima virou um desgôsto - engôdo preso na bôca que nem o tabaco desamarra e tampouco a cerveja ajuda a descer pro ventre - e minha mente vagueia pelos recôncavos que me estreito em raiva se lhe contasse. Nessa noite se encontra o amôr, e eu, só, apenas observo o que se passa. As ruas passam depressa, as luzes viram feixe, e o vento não acarinha meus cabelos, apenas jorra um ar gélido como quem refrigerasse algo em mim. Talvez fôsse melhor achar alguém quem se importa. Talvez fôsse útil fechar os olhos. Boa noite e se cuide.
Deita-se a cidade, e os olhos ficam enegreados. Amanhã acordo, mas eu sei que amanhã tudo mudou; e se você não percebeu, é que para você não faz a mínima diferença. Boa noite e se cuide.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Padaria.

Se sinto falta de algo, é de teu pouco tamanho, e de teu cabelo escuro, que por horas me enforcava, e por horas me incensava e me deixava dormir como um rei. Do cheiro in natura de sua pele, e da naftalina que emanava que você nunca sente porque nunca entenderia...
E de verdade, se calo o estreito que comprime meu peito, não de mal é; pois, apenas ainda me excluo como sempre me excluo de todo o tudo, pois sei que não pertenço, e qual a receber o prêmio de consolação, aguardo ansiosamente. E digo isso não por maldade - pois a palavra não dita, mulher, é lâmina que tange, e não me extenso em explicar, porque estou cansado; e a cada cansaço meu, estará vós o dôbro - mas entendo a condição e ainda sim a aceito. 
E de ti? Silêncio.
O vago silêncio monstruoso do Leviatã que ronda até hoje na beira da minha cama, ou onde quer lá que eu durmo, com sua bocarra satânica a me espreitar; e eu, anti-argonauta, Caronte por natureza navego não por ter mêdo, mas por necessidade tênue que me extingue, e se me foge a dita palavra, peço que gentilmente olhe minhas atitudes, pois ali provavelmente resida mais do que qualquer peixe que saia de minha bôca. E minha bôca, em qualquer situação resulta em chamar seu nôme, tanto como mulher, como mãe, para que me escondendo embaixo da sua saia, eu possa me refugiar do mundo em suas coxas e suas mãos. E que na fumaça dos tabacos e incensos, eu cada vez me esconda e morra dentro de você, para que antes que eu diga ou profira mentalmente a sentença, seja você a juíza que ostentando em punha a vista espada, execute. Não por ser me submissa, mas ó mulher, pelo fato de ser minha, pelo fato de segurar-me em teus braços, e natimorto, desfalecendo, e perdendo as ribeiras de minha carne, você possa, enfim, ver a luta até aqui e suturar minhas feridas, e lutar por mim como ostensóriamente* eu tendro a lutar por vós.
Eu devoto minha vida ao seu legado, mas você não vê.
Por mais que saiba de meu desejo de ir embora, permita então que antes que eu vá que o seguro entre nós seja o trato feito e bem calculado - dito isso, ao menos encanta-se em mim mais uma vez e decanta essa alegria e salva-me deste mundo quaresmal de dôr aonde Superman e suas ideias tão loucas parecem tão necessárias. E digo vos, não por necessidade, mas por um apêlo, aonde meu coração tão pequeno estreita em suas mãos, e o esmaga sem perceber ao ignorar ou descasear situações tão pequenas a vós, mas tão grandes e significativas para mim.
Estende, logo, seus braços e me esconde, e assim como nus, deitados n'quela cama, no pôr-do-Sol, com a luz se pondo e doirando seu côrpo, e os ônibus fazendo uma sinfonia de buzinas e freios, me guarda no seu sacrário e ouve o que não consigo dizer, aquilo que me faltam tôdas as palavras, mas apenas meu gesto diz tão tenaz, e você, única sibila dotada de mim, sabe dizer em precisa forma e textura, e dando-me a chancela, guarda-me.
...porque mesmo longe, e você nunca percebendo, mulher, volto para você. Pois é tudo por você.

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* = Referência a Santa Clara de Assis; o Barra-Vento do Senhor.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

If I Can Dream.

 É notável o quão triste nos tornamos ao longo do caminho, e nossas lágrimas, assim misturadas com a poeira, a barba, fundem-se no espaço tempo: torna-se então o tudo e o nada; e deste âmago - agridoce veneno amêndoado que destoa de nossas entranhas - por ora tiramos a esperança.
...mas, esperança de quê? A ser franco, também não sei.
Meu côrpo, tão místicamente fundido a sujeira da estrada e ao mau-trato da bagagem, nada anseia do que o descanso, e além do descanso, o desejo. Nada me apetece o palato, tange a bôca, brilha os olhos, e exulta minh'alma do que pôder têr, enfim, o atracar do pôrto - e meu côrpo, agora saveiro, desgastado e cansado da viagem, parar.
Dos momentos tristes, de chegadas e partidas, dos idos, das acinzentadas coisas, dos talvezes, e dos esquecimentos, revelias em que fui pôsto e dos sopé-de-morte, eu escrevia, como o faço agora, mas antes do escriba, havia o que via, e era quem mirava. Eu era um mirante antes do tempo da pena e letra. E por vezes olhar me salvou da destruição, antes que eu aprendesse a escrever.
E das passagens, paragens, pradarias, ruetas, bosques, brônquios, e pontas-de-praias, guardo lindas vistas, das quaes sei de onde são e para cada lugar as pertence. Mas eu, transeunte transitório, levei em meu peito um pouco de tudo, e espichei um tiquinho de mim em todas estas quadras pintadas por Deus, e nelas, permaneço. 
Da mágoa, retorço, faço fundição e olho o universo como antes, e finalmente, cansado, me ponho a não pelejar, mas apenas levantar e seguir, deixando o silêncio como crônica ou testamento que faço agora denunciando o descaso, ocaso, e despeito, mas principalmente, o quão fascínora são as pessoas que habitam nesse mundo.
Quando me falta a atenção, o abraço, a mão estendida, o beijo, e quem me ouve; dedico-me piamente a encontrar dentro de mim a vista daquelas pedras na praia, ou aquele cheiro de mato molhado depois da chuva na chácara, tanto como as fôlhas que caiam na floresta anseiando por um nôvo renascer. Quando me falta algo, transmuto, elevo, torno a ser, e esqueço do que dói e me ponho em outro local, outra estrada, outro som, outro minuto - e desde lá, meus tempos tão pequenos, onde nem me era explícito a dimensão e profundidade de ser, eu sempre me refugiei nas paragens e cercanias, para que assim eu pudesse ser. E antes de ser escriba, eu era espectador. Eu via. E no que via, por poucas vezes me fundia ao quadro. E pela janela do quarto, pela janela do carro, pela janela do claustro, pela janela do carmo, pela janela do alto, eu via. E via muito. Longe. Longe de tudo isso, e por vezes (ainda pequeno e inocente) rezava para Deus que queria ser um pássaro para sair dali fugindo rápido e ligeiro, como que brincando no ar, e deslizando entre vôos e giros, estar livre e ganhar, enfim, a paisagem que me libertava a vista e a alma retorcida. 
E ali, e agora aqui, me mantenho. Cada vez mais longe de você.